Uma turma de pouco mais de duas dezenas de calouros por ano, selecionada a dedo dentro de uma única universidade em Pequim, ajuda a explicar por que a China alcançou os Estados Unidos na corrida da inteligência artificial em uma fração do tempo e do dinheiro que Washington imaginava necessário. A chamada Turma Yao, programa de elite fundado em 2005 na Universidade Tsinghua pelo cientista da computação Andrew Chi-Chih Yao, único chinês a vencer o Prêmio Turing, formou os fundadores ou pesquisadores por trás de boa parte das startups chinesas de IA generativa hoje avaliadas em dezenas de bilhões de dólares.1
Uma reportagem do The Wall Street Journal publicada em 20 de agosto reconstituiu a trajetória de dois nomes centrais dessa geração: Tang Jie, professor de Tsinghua e cofundador da Z.AI, e seu ex-aluno Yang Zhilin, fundador da Moonshot AI. Os dois se conheceram como professor e pupilo mais de uma década atrás e hoje comandam empresas que os pioneiros da IA americana passaram a observar com apreensão.1 O caso interessa ao caderno Educação de O Tecido não pela disputa geopolítica entre Pequim e Washington, mas pelo que revela sobre desenho de formação de elite e sobre o que o Brasil, às voltas com seu próprio déficit de profissionais de IA, pode aprender ou rejeitar desse modelo.
Uma pipeline, não um golpe de sorte
A reportagem do WSJ situa a ascensão de Tang e Yang dentro de um ecossistema mais amplo. Segundo o jornal, pesquisadores formados em Tsinghua e em um punhado de outras instituições compõem hoje uma espécie de Vale do Silício informal nos polos tecnológicos chineses, beneficiado por uma cultura de publicação científica aberta e pela preferência local por tecnologias de código aberto.1 Levantamento da consultoria Interesting Engineering, apoiado no Artificial Intelligence Index Report de Stanford, estima que ao menos 60% dos fundadores das cem maiores empresas chinesas de modelos de linguagem têm algum vínculo com Tsinghua, seja como egressos, professores ou colaboradores.2
O núcleo dessa engrenagem é justamente a Turma Yao. Criada como um currículo experimental de ciência da computação inteiramente em inglês, com poucas dezenas de vagas por ano e professores recrutados internacionalmente, o programa nasceu da decisão pessoal de Andrew Yao de deixar uma cátedra em Princeton, nos Estados Unidos, para lecionar em Pequim. Segundo registros da própria Tsinghua, o objetivo declarado por Yao era formar "os melhores profissionais de computação do mundo", não apenas programadores.3 Até 2024, o programa havia formado 663 egressos em dezessete turmas, um contingente diminuto para o impacto que produziu na indústria.4
Foi nesse ambiente que Yang Zhilin, hoje à frente da Moonshot AI, desenvolveu algoritmos de aprendizado de máquina ao lado de Tang antes de seguir para um doutorado na Carnegie Mellon University, nos Estados Unidos, e retornar à China para fundar sua própria empresa.1 O padrão se repete em outros fundadores do setor: formação de elite dentro do país, passagem por centros de pesquisa americanos e volta para empreender em solo chinês, um fluxo de circulação de conhecimento que analistas chamam de "cérebros de ida e volta".
O gargalo brasileiro começa antes da faculdade
A comparação com o Brasil expõe uma distância que não é apenas de investimento, mas de desenho educacional. O país enfrentava em 2025 um déficit estimado em 530 mil profissionais de tecnologia da informação, número que pressiona diretamente a formação de especialistas em IA, segundo levantamento do portal Mercado Hoje com base em dados setoriais.5 Especialistas ouvidos pela reportagem do portal Terra apontam que o problema não nasce no ensino superior, mas muito antes: falhas no ensino básico, evasão escolar e defasagem de professores especializados formam um funil que já chega estreito às universidades.6
Ainda assim, o país tem tentado reagir. Universidades federais como a do Amazonas e a do Maranhão criaram nos últimos meses bacharelados específicos em Inteligência Artificial, citando explicitamente a lacuna nacional de profissionais qualificados como justificativa para os novos cursos.78 A resposta federal mais ampla veio em agosto deste ano, quando o governo lançou a versão consolidada do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), com eixo específico de formação e capacitação de talentos.9
O eixo educacional do PBIA prevê a criação de cinco mil vagas em cursos de graduação e disciplinas eletivas sobre IA em três anos, com financiamento via Fies, além de laboratórios interdisciplinares para capacitar professores da educação básica no uso pedagógico da tecnologia.10 O plano também prevê qualificar ao menos 115 mil servidores públicos até o fim de 2026.11 São números relevantes para a escala brasileira, mas que dialogam com uma realidade estrutural bem diferente da chinesa: o PBIA destina cerca de R$ 1,15 bilhão ao eixo de formação de talentos dentro de um pacote total de R$ 23 bilhões em quatro anos,12 uma fração do que Pequim canaliza para universidades e fundos estatais de pesquisa em IA.
Escala versus profundidade
A diferença entre os dois modelos não está apenas no volume de recursos. Tsinghua aposta em concentração extrema: poucas dezenas de alunos por ano, currículo internacional, imersão em pesquisa de ponta desde a graduação e mentoria direta de cientistas premiados. O Brasil, por ora, caminha na direção oposta, tentando ampliar o acesso de forma mais horizontal, com cursos de graduação em dezenas de instituições públicas e programas de requalificação para o mercado de trabalho.13 Nenhum dos dois caminhos é intrinsecamente superior, mas eles respondem a objetivos distintos: um busca formar os pesquisadores capazes de construir modelos de fronteira, o outro busca qualificar mão de obra capaz de aplicar tecnologias já existentes a problemas nacionais.
Contraponto
Nem todo especialista brasileiro acredita que replicar programas de elite ao estilo Turma Yao seja a prioridade certa. Análises do setor argumentam que o Brasil não dispõe de capital nem de infraestrutura computacional para competir na fronteira de modelos fundacionais e que a estratégia mais racional seria formar profissionais capazes de aplicar ferramentas de IA já existentes a soluções de negócio, em vez de concentrar recursos escassos em poucos doutores de altíssima performance.14 Sob essa ótica, elitizar a formação em moldes chineses correria o risco de aprofundar desigualdades regionais em vez de ampliar a base de talento nacional, um ponto reforçado por especialistas que defendem políticas de inclusão para reduzir disparidades entre regiões no acesso à qualificação em IA.15
O que fica para a política educacional brasileira
O caso chinês não é transferível em bloco, mas oferece três lições que dialogam diretamente com o desenho do PBIA. A primeira é que investimento em formação de elite e investimento em capilaridade não são mutuamente excludentes: a China manteve a Turma Yao como programa de nicho enquanto expandia paralelamente a oferta geral de ensino em ciência da computação nas últimas duas décadas. A segunda é que a circulação internacional de pesquisadores, como no caso de Yang Zhilin entre Tsinghua e a Carnegie Mellon, funcionou como acelerador de conhecimento, um mecanismo que políticas brasileiras de intercâmbio e cooperação acadêmica ainda exploram de forma tímida. A terceira, talvez a mais incômoda para o debate nacional, é que o déficit de talento em IA no Brasil é primeiro um problema de educação básica, não de pós-graduação, como já apontavam especialistas consultados antes mesmo do lançamento do PBIA.6
Para o caderno Educação, o desafio brasileiro não é replicar Tsinghua, mas decidir, com recursos limitados, onde concentrar a aposta: em poucos centros de excelência capazes de competir em pesquisa de fronteira, ou em uma base ampla de qualificação técnica distribuída pelo território. O PBIA sinaliza que o governo tenta fazer as duas coisas ao mesmo tempo, com investimento ainda modesto perto da escala do problema.
Perguntas frequentes
O que é a Turma Yao, da Universidade Tsinghua?
É um programa de graduação de elite em ciência da computação criado em 2005 pelo cientista Andrew Chi-Chih Yao, vencedor do Prêmio Turing. Com poucas dezenas de vagas por ano e currículo internacional, formou fundadores de empresas chinesas de IA como Moonshot AI e teve egressos ligados à Z.AI.
Por que a China conseguiu avançar tão rápido em inteligência artificial?
Reportagem do Wall Street Journal atribui o avanço a uma combinação de décadas de investimento em formação de talento em universidades como Tsinghua, apoio estatal a startups, cultura de código aberto e técnicas de eficiência computacional desenvolvidas por empresas como DeepSeek diante de restrições de acesso a chips avançados dos Estados Unidos.
Qual é o déficit de profissionais de IA no Brasil?
Estimativas do setor apontavam em 2025 um déficit de cerca de 530 mil profissionais de tecnologia da informação no país, número que afeta diretamente a formação de especialistas em inteligência artificial, segundo dados setoriais.
O que o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial prevê para a educação?
O PBIA reserva um eixo específico de formação e capacitação em IA, com cerca de R$ 1,15 bilhão em investimentos, incluindo cinco mil novas vagas de graduação financiadas pelo Fies em três anos e laboratórios para capacitar professores da educação básica no uso pedagógico da tecnologia.