Caderno Tecnologia · Semicondutores · Geopolítica da IA

Quem procura o endereço mais estratégico da economia da inteligência artificial costuma olhar para o Vale do Silício, para Taiwan ou para os centros de dados que se multiplicam pelo mundo. O Financial Times propôs outro destino: Veldhoven, município holandês sem grandes atrativos, onde fica a sede da ASML, hoje a empresa mais valiosa da Europa. Em entrevista publicada nesta segunda-feira (28) pelo editor Patrick Jenkins, o presidente-executivo da companhia, o físico francês Christophe Fouquet, explicou como uma empresa de 42 anos, pouco conhecida fora do setor, tornou-se a única fornecedora das máquinas sem as quais os chips mais avançados do planeta simplesmente não existiriam[1].

A tese central de Fouquet, segundo o relato do FT, é menos heroica do que se esperaria de um monopolista. O sucesso da ASML, diz ele, veio de uma cooperação intensa com clientes e fornecedores, um modelo que o jornal britânico descreve como o retrato da empresa colaborativa europeia, em contraste com o estilo agressivo de muitas companhias americanas[1]. Por trás da modéstia, porém, está uma posição de mercado sem paralelo na indústria global, e é ela que transformou uma fabricante de equipamentos em peça de política externa.

Uma máquina que só uma empresa sabe fazer

A ASML fabrica sistemas de litografia, os equipamentos que projetam com luz os padrões microscópicos dos circuitos sobre discos de silício. Nas gerações mais antigas, que usam luz ultravioleta profunda (DUV), ela divide o mercado com as japonesas Nikon e Canon. Na geração mais avançada, a de ultravioleta extremo (EUV), não há concorrente: a empresa detém monopólio total dessas máquinas, indispensáveis para produzir os chips usados em aplicações complexas de IA[1].

Fouquet contou ao FT como o mercado financeiro descobriu essa dependência em etapas. Primeiro, investidores entusiasmados com a Nvidia perceberam que os chips da empresa são fabricados pela taiwanesa TSMC. Depois, ao perguntarem como a TSMC produz esses chips, chegaram ao equipamento EUV e à constatação que dá título à entrevista: "só existe uma empresa fazendo essas máquinas", nas palavras do executivo[1]. A descoberta ajuda a explicar a valorização de 88% das ações em doze meses e o valor de mercado de €591 bilhões citados na reportagem[1].

O monopólio não nasceu de uma patente isolada, mas da orquestração de uma cadeia com milhares de fornecedores especializados. A ópticas de precisão vêm da alemã Zeiss, e o laser que gera a luz EUV depende de tecnologia da também alemã Trumpf e da Cymer, subsidiária americana da ASML. Em maio, em entrevista ao TechCrunch republicada pelo Yahoo Finance, a empresa foi descrita como uma organização de cerca de 44 mil pessoas que investe €4,5 bilhões por ano no avanço da tecnologia[2]. É essa soma de engenharia acumulada, integração de fornecedores e décadas de aprendizado conjunto com fabricantes de chips que torna a posição da ASML tão difícil de replicar.

O gargalo da inteligência artificial não está no software nem nos modelos, mas numa cadeia industrial que cabe, em grande parte, num único fornecedor europeu.

Os números de um gargalo

Os resultados de 2026 confirmam a leitura de Fouquet. No segundo trimestre, a ASML registrou vendas líquidas de €9,3 bilhões, margem bruta de 54% e lucro líquido de €2,9 bilhões, e elevou a projeção para o ano, que agora vai de €43 bilhões a €45 bilhões, conforme o comunicado oficial da empresa[3]. Em abril, a previsão anual ainda estava entre €36 bilhões e €40 bilhões[4].

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Vendas líquidas trimestrais da ASML em 2026 (em bilhões de euros). O terceiro trimestre corresponde à faixa projetada pela empresa em julho. Fonte: comunicados de resultados da ASML.

Mais revelador do que o faturamento é a visibilidade da demanda. Na teleconferência de julho, Fouquet afirmou que a ASML está perto de ter todos os pedidos de que precisa para 2027, mesmo planejando ampliar em cerca de 30% a capacidade de produção de máquinas EUV em relação a 2026, segundo resumo da chamada com investidores[5]. Para uma indústria historicamente cíclica, trata-se de uma carteira incomum.

Geopolítica em Veldhoven

O monopólio tem um custo: ele transforma cada venda da ASML numa decisão de Estado. As máquinas EUV nunca foram autorizadas para exportação à China, e o governo holandês já restringe versões mais avançadas dos equipamentos DUV. Agora, um projeto em tramitação no Congresso dos Estados Unidos, o MATCH Act, pretende ir além: estender o veto a todas as máquinas DUV de imersão e obrigar aliados como Holanda e Japão a adotar controles equivalentes, sob pena de Washington aplicar restrições diretas a equipamentos estrangeiros que contenham tecnologia americana, conforme reportagem da Bloomberg reproduzida pelo Taipei Times[6].

O projeto também poderia impedir a ASML de fazer manutenção nas máquinas já instaladas na China. O NL Times relatou em agosto que a proposta tem apoio de republicanos e democratas e que o lobby holandês em Washington tem poucas chances de derrubá-la[7]. O governo da Holanda critica o caráter extraterritorial da medida, que interfere na política comercial de um país soberano[6].

Questionado pelo FT sobre o tema, Fouquet evitou dirigir recados ao presidente Donald Trump. Disse que sua mensagem vale para todos os que tomam esse tipo de decisão e que cabe ao governo holandês decidir o que exporta para a China, recado que, segundo ele, se estende à União Europeia[1]. A China ainda responde por cerca de 20% das vendas líquidas totais da ASML, segundo o diretor financeiro Roger Dassen[5], embora a fatia do país nas vendas de sistemas novos tenha caído para 14% no segundo trimestre, de acordo com dados da Bloomberg citados pelo BigGo Finance[8].

A China aprende sob pressão

O argumento mais sofisticado de Fouquet sobre os controles de exportação é também o mais incômodo para Washington. Na entrevista, ele sustentou que o bloqueio produz nos países atingidos uma urgência que acelera o desenvolvimento de tecnologia própria e pode, com o tempo, criar concorrentes fortes[1]. Não se trata de hipótese abstrata. Em dezembro de 2025, a Reuters revelou que pesquisadores em Shenzhen haviam montado um protótipo de máquina EUV, e desde então analistas tentam separar avanço real de propaganda.

A revista The Diplomat observou em julho que as fontes de luz chinesas operam na faixa de 100 a 150 watts, abaixo dos 250 watts que a ASML atingiu em 2017 para produzir 125 wafers por hora e muito distantes do patamar atual da empresa holandesa[9]. Uma projeção publicada pelo AI Futures Project, baseada na própria trajetória da ASML, situa em torno de 2035 o uso comercial em larga escala de máquinas DUV chinesas capazes de produzir chips de 7 nanômetros, com o EUV se aproximando de 2040[10]. O intervalo é longo, mas não é infinito, e é exatamente essa janela que Fouquet parece ter em mente quando alerta para o efeito colateral das restrições.

E o Brasil nessa cadeia?

O Brasil não disputa a fronteira da litografia, e nenhuma política industrial em curso pretende fazê-lo. Mas a entrevista de Fouquet ajuda a dimensionar o que significa depender de cadeias concentradas. O país instituiu, pela Lei nº 14.968 de 2024, o Programa Brasil Semicondutores (Brasil Semicon), que moderniza o antigo PADIS e busca desenvolver o ecossistema nacional, das atividades industriais ao design de circuitos integrados, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços[12]. A legislação prevê incentivos da ordem de R$ 7 bilhões por ano para a cadeia[13].

A aposta brasileira mira nichos que os gigantes asiáticos não priorizam: chips de potência, sensores, encapsulamento e teste. O Ceitec, estatal de Porto Alegre que chegou a ser incluída no programa de desestatização em 2021, recebeu aporte de R$ 220 milhões do FNDCT, distribuído entre 2024 e 2026, para produzir semicondutores de carbeto de silício, usados em veículos elétricos e inversores solares, segundo o Canal Solar[14]. O valor é uma fração ínfima dos €4,5 bilhões que a ASML investe anualmente em pesquisa, o que dá escala à distância.

O tema também entrou na campanha eleitoral. A coordenadora econômica da campanha do senador Flávio Bolsonaro, Daniella Marques, citou o Ceitec como uma das primeiras estatais a serem descontinuadas num eventual governo, argumentando que a empresa não tem sentido econômico, segundo reportagem da Veja repercutida pelo portal Forças Terrestres[15]. Defensores do programa respondem que semicondutores se tornaram insumo estratégico para defesa, energia e indústria. O debate brasileiro, em escala muito menor, repete a pergunta que atravessa a entrevista do FT: quanto um país está disposto a pagar para não depender inteiramente de fornecedores externos numa tecnologia crítica?

A pergunta da bolha

O FT não deixou de lado a questão que ronda todo o setor: se a demanda por IA, e com ela a procura por máquinas EUV, é uma bolha prestes a estourar[1]. A resposta mais objetiva, até aqui, vem da carteira da própria ASML, com pedidos praticamente fechados para 2027 e parte relevante de 2028[5]. Isso não elimina o risco. Encomendas de equipamentos refletem decisões tomadas hoje com base em expectativas de consumo futuro, e ciclos de semicondutores já puniram fornecedores que confundiram euforia com demanda estrutural.

O que a entrevista deixa claro é outra coisa. Seja qual for o destino da onda atual de investimentos em IA, o poder de decidir quem pode fabricar os chips mais avançados está concentrado num punhado de empresas e governos. Para países como o Brasil, a lição prática é menos sobre competir com Veldhoven e mais sobre escolher, com clareza, em quais elos dessa cadeia vale a pena estar.

Perguntas frequentes

O que a ASML faz?

A ASML é uma empresa holandesa, sediada em Veldhoven, que fabrica sistemas de litografia: máquinas que projetam com luz os padrões dos circuitos sobre wafers de silício. Seus clientes incluem TSMC, Samsung e Intel.

Por que a ASML é considerada um monopólio?

É a única empresa do mundo que fabrica máquinas de litografia por ultravioleta extremo (EUV), indispensáveis para produzir os chips mais avançados usados em inteligência artificial. Nas gerações DUV, mais antigas, ela concorre com Nikon e Canon.

Por que a China não pode comprar máquinas EUV?

O governo da Holanda, sob pressão dos Estados Unidos, nunca autorizou a exportação de máquinas EUV para a China e também restringe modelos DUV avançados. O objetivo declarado é limitar a capacidade chinesa de produzir chips de ponta.

O que é o MATCH Act?

É um projeto de lei nos Estados Unidos que pretende ampliar o veto a equipamentos DUV de imersão, restringir a manutenção de máquinas já instaladas na China e obrigar aliados como Holanda e Japão a adotar controles equivalentes. O governo holandês se opõe ao texto.

A China consegue fabricar sua própria máquina EUV?

Há um protótipo chinês revelado em dezembro de 2025, mas analistas apontam que suas fontes de luz ainda têm potência muito inferior à da ASML. Projeções independentes indicam produção comercial em larga escala apenas na próxima década.

Qual é a posição do Brasil em semicondutores?

O Brasil atua em nichos como encapsulamento, teste, design e chips de potência. O Programa Brasil Semicon, criado pela Lei nº 14.968/2024, prevê incentivos de cerca de R$ 7 bilhões por ano, e a estatal Ceitec desenvolve chips de carbeto de silício.

Nota editorial: este texto é uma análise original de O Tecido, produzida a partir da entrevista "ASML chief: 'There is only one company making those machines'", de Patrick Jenkins, publicada pelo Financial Times em 28 de setembro de 2026. Trechos e informações atribuídos ao FT pertencem ao jornal britânico e são aqui citados de forma resumida, com os devidos créditos. O conteúdo foi complementado por fontes independentes listadas nas referências.