A União Europeia passou anos discutindo como responder ao avanço das importações chinesas sem abrir mão de sua imagem de defensora do livre comércio. Na segunda-feira, 5 de outubro, os dois maiores governos do bloco decidiram que o debate havia chegado ao fim. Em carta à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, o presidente francês Emmanuel Macron e o chanceler alemão Friedrich Merz pediram um instrumento capaz de restringir, em questão de dias, o acesso de um parceiro comercial ao mercado único europeu, segundo o The Wall Street Journal.1
O documento não cita a China. Nem precisa. A proposta chega dias antes da viagem do comissário de Comércio, Maroš Šefčovič, a Pequim, marcada para 8 e 9 de outubro, e uma semana antes da cúpula de líderes de 15 e 16 de outubro, de acordo com o Borderlex.5 O calendário diz mais que o texto: Paris e Berlim querem que Šefčovič se sente à mesa com uma ameaça crível no bolso.
O que Paris e Berlim propõem
O núcleo da proposta é uma mudança de procedimento. Segundo a Euronews, o novo instrumento seria acionado quando um país terceiro tentasse impedir, por meios políticos ou econômicos, a restauração de condições equilibradas de concorrência, gerando distorções graves e sistemáticas. As decisões passariam pela comitologia, o rito em que representantes dos Estados-membros examinam atos da Comissão, e a medida valeria a menos que uma maioria qualificada se opusesse.2
Na prática, o ônus se inverte. Hoje, quem quer agir precisa reunir votos. Pela proposta, quem quer impedir a ação é que precisa reuni-los. A carta, citada pelo South China Morning Post, fala em ativação por "maioria qualificada reversa" e em medidas que podem chegar ao corte imediato do mercado interno.3
O escopo também é mais largo que o das ferramentas atuais. De acordo com documentos obtidos pelo SCMP, o mecanismo poderia responder a pressão política e econômica e até a manipulação cambial, aplicando-se a um único produto ou a um setor inteiro. Os instrumentos de defesa comercial em uso tratam essencialmente de dumping e subsídios.4 A comparação explícita, feita por autoridades alemãs ouvidas pelo WSJ, é com a Seção 301 da lei comercial americana, que dá a Washington ampla margem para impor tarifas a parceiros.1
A carta traz ainda um segundo pedido: um instrumento de diversificação, baseado na concentração de importações provenientes de um mesmo país, empresa ou nacionalidade de controle. A Comissão abriu consulta pública sobre essa ferramenta em 29 de setembro, com prazo até 27 de outubro. Um relatório de 2026 do próprio Executivo europeu identificou 204 produtos para os quais a UE depende fortemente de um único fornecedor, mais da metade deles chineses, informa o Borderlex.5 Autoridades alemãs sugeriram ao WSJ que isso poderia significar um teto para a fatia de certos produtos comprados de um só país.1
Por que a Alemanha mudou de posição
A novidade política não está na França, que há anos defende uma postura comercial mais dura. Está em Berlim. A Alemanha, tradicionalmente avessa a qualquer interferência no livre comércio e com exportadores muito expostos ao mercado chinês, resistiu durante meses. Segundo o WSJ, foram os cortes maciços de empregos anunciados por grandes grupos industriais, como a Volkswagen, que mudaram o cálculo do governo alemão.1
A mudança não surgiu do nada. Em dezembro de 2025, ao voltar de Pequim, Macron já havia advertido que a UE poderia adotar tarifas se a China não corrigisse o desequilíbrio, e acusou a política americana de agravar a situação europeia ao desviar mercadorias chinesas para o continente, como relatou a Fortune.8 O argumento do desvio de comércio, como se verá adiante, é o mesmo que deveria preocupar o Brasil agora.
Para Sander Tordoir, economista-chefe do Centre for European Reform, a convergência entre Paris e Berlim representa um divisor de águas, segundo o SCMP.4
Da "bazuca" que nunca disparou à maioria reversa
A UE já tem uma arma contra coerção econômica. O Instrumento Anticoerção (Regulamento 2023/2675), apelidado de "bazuca comercial", nasceu em boa parte da reação às restrições comerciais que a China impôs à Lituânia depois que Vilnius autorizou a abertura de uma representação de Taiwan, conforme o histórico registrado na Wikipedia.9 O instrumento nunca foi usado. Para acioná-lo, como lembra o WSJ, é preciso o apoio de mais da metade dos países do bloco, representando ao menos 65% da população europeia, um patamar que parte das autoridades considera alto demais.1
Paris e Berlim deixam os detalhes para a Comissão. Uma das opções mencionadas ao WSJ seria simplesmente reformar o Instrumento Anticoerção para que a Comissão possa acioná-lo, salvo bloqueio dos Estados-membros.1 Uma autoridade alemã descreveu a ferramenta ao jornal como uma arma de segundo ataque, reservada a respostas contra medidas coercitivas como tarifas súbitas ou proibições de exportação, cuja função principal seria dissuadir e levar Pequim à negociação.1
Os números do desequilíbrio
O déficit comercial da UE com a China chegou a 360 bilhões de euros em 2025, algo acima de US$ 1 bilhão por dia, segundo o WSJ.1 Denis Redonnet, responsável pela aplicação das regras comerciais na Comissão, apontou ao jornal aumentos anormais e persistentes de importações em maquinário, têxteis, metais básicos e químicos, com a China como principal origem.1
O dado que complica a resposta europeia é a dependência inversa. As restrições chinesas à exportação de terras raras em 2025 provocaram interrupções em cadeias de suprimento e, segundo autoridades europeias citadas pelo WSJ, obrigaram fábricas ocidentais a reduzir produção.1 A Europa depende da China justamente para os insumos de que precisa para rearmar sua indústria de defesa. Por isso o instrumento vem acompanhado de uma ferramenta de diversificação: punir sem ter alternativa de suprimento seria um tiro no próprio pé.
No setor industrial, o tom é de urgência contida. Oliver Richtberg, chefe de comércio exterior da VDMA, a associação dos fabricantes alemães de máquinas, apoiou ao WSJ a ideia de um instrumento mais ágil, com uma ressalva: "Não queremos uma guerra comercial".1
O que isso significa para o Brasil
A proposta europeia é uma discussão entre Bruxelas e Pequim, mas suas consequências não ficam restritas aos dois lados. Há pelo menos três canais pelos quais ela chega ao Brasil.
1. Desvio de comércio
Se a Europa fechar a porta a parte da produção excedente chinesa, essa produção vai procurar outros destinos. O Brasil já é um deles. As importações brasileiras de origem chinesa bateram recorde de US$ 70,9 bilhões em 2025, alta de 11,5% sobre 2024, e a China respondeu por 25,3% de tudo o que o país comprou do exterior, segundo levantamento do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) com dados do MDIC.10 As importações totais do país também foram recorde, de US$ 280,4 bilhões, de acordo com a Secex/MDIC.11
O aço mostra como o mecanismo funciona. As importações brasileiras de laminados cresceram 20,5% em 2025, para 5,7 milhões de toneladas, das quais 63,7% vieram da China, segundo o Instituto Aço Brasil.12 A resposta brasileira veio produto a produto. Em janeiro de 2026, o Gecex aplicou direito antidumping definitivo ao aço pré-pintado da China e da Índia e elevou para 25% a tarifa de nove códigos siderúrgicos por 12 meses, segundo reportagem publicada pelo Terra.13 Em fevereiro, vieram medidas para laminados a frio e revestidos. A lista do DECOM de 2026 inclui ainda agulhas hipodérmicas e etanolaminas chinesas, entre outros produtos.14
A diferença de modelo é evidente. O Brasil opera com investigações caso a caso, que levam meses e cobrem um código de produto por vez. A Europa discute um instrumento sistêmico, aplicável a setores inteiros em dias. Se Bruxelas avançar e Brasília continuar no ritmo atual, o mercado brasileiro tende a se tornar relativamente mais permeável a volumes que deixarem de entrar na Europa. A dinâmica também funciona no sentido oposto: analistas do Morgan Stanley observaram, segundo o InfoMoney, que a penetração de importados no aço brasileiro já vinha caindo em parte porque volumes chineses foram redirecionados a outros mercados.15 O excedente circula. A questão é para onde.
2. O acordo Mercosul-UE em um novo contexto
O acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, assinado em 17 de janeiro de 2026 segundo o Poder360,17 está em aplicação provisória desde 1º de maio, conforme confirmou o governo brasileiro à Band.16 Um instrumento de diversificação que penalize concentração de importações em um único país cria, em tese, espaço para fornecedores com acesso preferencial ao mercado europeu. O Mercosul passa a ser candidato natural.
Mas há uma ressalva importante. O instrumento proposto é, nas palavras da carta, neutro em relação a países. Autoridades alemãs disseram ao WSJ que ele poderia ser usado até contra os Estados Unidos.1 O gatilho, no entanto, é a coerção ou a distorção sistêmica de mercado, o que coloca o Brasil longe da linha de tiro. A exposição brasileira está menos no risco de ser alvo e mais na qualidade das regras de origem: produtos chineses triangulados via terceiros países são exatamente o tipo de fluxo que Bruxelas quer vigiar.
3. Minerais críticos
O ponto de maior interesse estratégico é o das terras raras. Segundo estimativas do Serviço Geológico dos Estados Unidos citadas pelo BP Money, o Brasil tem cerca de 21 milhões de toneladas de reservas, a segunda maior do mundo.18 Uma Europa que procura reduzir a dependência chinesa sem ter alternativas de suprimento é, em princípio, compradora interessada. O obstáculo continua sendo o mesmo de sempre: reserva no subsolo não é capacidade de refino, e é no processamento que a China mantém sua vantagem.
Os riscos de uma arma que precisa funcionar como ameaça
A Câmara de Comércio da China junto à UE disse ao WSJ estar preocupada com um instrumento inspirado na Seção 301, que, segundo a entidade, aumentaria a incerteza e minaria a confiança mútua.1 Noah Barkin, do Rhodium Group, também ouvido pelo jornal, previu que Pequim deve retaliar se a UE avançar com novos processos e ferramentas.1
Há ainda o problema da credibilidade. Críticos citados pelo Borderlex temem que a proposta resulte em mais um instrumento que nunca será usado, como o próprio mecanismo anticoerção.5 Uma dissuasão funciona apenas se o adversário acredita no disparo. E a dependência europeia de insumos chineses, inclusive para a indústria de defesa, reduz a margem de manobra de Bruxelas exatamente no momento em que ela quer parecer disposta a agir.
Por fim, transferir poder de decisão comercial para a Comissão, retirando dos governos a necessidade de aprovar cada medida, é uma escolha política com implicações institucionais próprias, que países menores e mais dependentes do comércio com a China podem contestar na cúpula.
O que observar nas próximas semanas
Três datas definem o ritmo. A primeira é a visita de Šefčovič a Pequim em 8 e 9 de outubro, que autoridades europeias tratam como teste da disposição chinesa de levar a sério as preocupações do bloco.1 A segunda é a cúpula de 15 e 16 de outubro, na qual, com as duas maiores economias alinhadas, um pedido formal para que a Comissão desenhe medidas mais duras parece provável.1 A terceira é o fim da consulta sobre o instrumento de diversificação, em 27 de outubro.5
Para o Brasil, o indicador a acompanhar não está em Bruxelas, mas nos dados mensais da Secex. Se a Europa endurecer e os volumes chineses de aço, químicos e máquinas para o Brasil voltarem a acelerar, a discussão sobre a velocidade e o alcance da defesa comercial brasileira deixa de ser setorial e passa a ser de política econômica.