Caderno Educação 06 AGO 2026 · Leitura de 6 min

Uma criança brasileira de cinco anos pergunta, em média, dezenas de vezes por dia por que o céu é azul, por que a formiga carrega folhas maiores que o próprio corpo, por que é preciso dormir. Dez anos depois, na sala de aula do ensino médio, essa mesma criança já aprendeu que perguntar demais pode significar atraso na matéria, e que a resposta certa vale mais do que a pergunta interessante. Entre a infância exploradora e a adolescência que se cala, algo se perde — e a escola, que deveria ser a maior aliada da curiosidade, muitas vezes se torna sua sepultura silenciosa.

A colunista espanhola Pilar Jericó tratou desse fenômeno em texto recente publicado no jornal El País, no qual defende a chamada "intenção curiosa": a escolha deliberada de se aproximar do desconhecido pela exploração, e não apenas pelo medo. Segundo a autora, em artigo publicado no El País, crescer costuma significar trocar perguntas por certezas, até tratarmos a incerteza como algo a ser eliminado o quanto antes — quando, na verdade, ela é matéria-prima do aprendizado.

O raciocínio de Jericó se apoia no trabalho do psicólogo americano Todd Kashdan, professor da George Mason University, que passou mais de duas décadas estudando o tema. Em pesquisa publicada em 2018 na revista científica Journal of Research in Personality, Kashdan e colegas identificaram cinco dimensões distintas da curiosidade humana: a exploração alegre, a sensibilidade à carência de conhecimento, a tolerância ao estresse da incerteza, a curiosidade social e a busca por novas experiências. A conclusão central do estudo é que não existe um único tipo de pessoa curiosa — e, por extensão, não deveria existir um único modo de estimular a curiosidade em sala de aula.

O que diz a legislação brasileira

No Brasil, o tema não é apenas filosófico: está no texto normativo que orienta todas as escolas do país. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), homologada em 2017, elenca "exercitar a curiosidade intelectual" como uma das dez competências gerais da Educação Básica, ao lado da investigação, da análise crítica e da criatividade. Na Educação Infantil, a própria organização curricular por Campos de Experiência reserva à criança o direito de explorar, questionar e se surpreender com o cotidiano — um desenho pedagógico que reconhece, décadas depois, o que os estudos de Kashdan viriam confirmar: a curiosidade não é um traço fixo, mas uma habilidade que pode ser cultivada ou atrofiada conforme o ambiente.

O problema é que, entre o texto da lei e a prática das salas de aula, existe uma distância considerável — e os números da evasão escolar brasileira ajudam a medi-la.

"Perguntar 'o que posso aprender com isso?' em vez de 'e se tudo der errado?' é o pequeno movimento interior que muda nossa relação com o que não controlamos."

De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Educação, divulgada pelo IBGE, cerca de 8,7 milhões de jovens brasileiros entre 14 e 29 anos não concluíram o ensino médio em 2024, seja por abandono, seja por nunca terem frequentado a etapa. O abandono se intensifica justamente na adolescência: 16,5% dos jovens de 16 anos, 19,9% dos de 17 e 20,7% dos de 18 anos já haviam deixado a escola. Pesquisas sobre os motivos da evasão, como a que reúne dados do Itaú Social, mostram que a necessidade de trabalhar (41,7%) supera a "falta de interesse" declarada (23,5%) como razão principal — mas especialistas do Observatório de Educação do Instituto Unibanco apontam que o desengajamento raramente é a causa isolada de uma saída repentina: é, na maioria dos casos, um processo lento, que começa muito antes do aluno deixar de frequentar a escola, com a perda progressiva de sentido naquilo que se ensina.

A curiosidade como antídoto pedagógico

É aqui que a distinção proposta por Kashdan ganha relevância prática para o professor brasileiro. A "sensibilidade à carência" — aquele desconforto de sentir que falta uma peça para entender algo — pode ser exatamente o que motiva um aluno a insistir em um problema de matemática, desde que a escola valorize a pergunta tanto quanto a resposta certa. Já a "tolerância ao estresse", segundo o modelo do pesquisador, é a capacidade de sustentar uma dúvida em aberto sem correr para a primeira solução pronta — uma habilidade cada vez mais rara em um ambiente de respostas instantâneas, e que exige do professor tempo e paciência pedagógica para ser desenvolvida.

A jornalista e doutoranda em Psicologia Teresa Viejo, autora do livro Una niña que todo lo quería saber (HarperCollins, 2022), reforça essa leitura ao afirmar, na reportagem do El País, que a curiosidade pode ser medida e que seu desenvolvimento provoca mudanças observáveis, primeiro no comportamento e depois na forma de pensar — ou o inverso, mas sempre com transformação. Para a educação brasileira, isso sugere um caminho concreto: currículos e metodologias que tratem a pergunta do aluno como ponto de partida, não como interrupção da aula planejada.

Contraponto

Nem todos os educadores concordam que o problema da evasão e do desengajamento escolar brasileiro seja, no fundo, uma questão de estímulo à curiosidade. Estudos como o de Reynaldo Fernandes, com dados do IBGE e do MEC, apontam que fatores estruturais e socioeconômicos — renda familiar, trabalho infantil e juvenil, gravidez precoce, distorção idade-série — pesam mais do que a metodologia pedagógica na decisão de abandonar os estudos. Para essa linha de análise, colocar o foco exclusivamente na "curiosidade individual" do aluno pode obscurecer desigualdades estruturais que exigem resposta de política pública, como o programa Pé-de-Meia e a estratégia de Busca Ativa Escolar, e não apenas mudança de postura em sala de aula.

Uma pergunta por vez

Pilar Jericó termina seu artigo com seis perguntas voltadas à intenção curiosa adulta. Adaptadas ao contexto escolar brasileiro, elas podem servir tanto a professores quanto a famílias que acompanham a trajetória educacional de crianças e adolescentes:

  • Exploração alegre: quando foi a última vez que a turma aprendeu algo sem que isso valesse nota?
  • Sensibilidade à carência: que pergunta os alunos deixaram sem resposta por falta de tempo — e como retomá-la?
  • Tolerância ao estresse: a escola dá espaço para o aluno permanecer com uma dúvida em aberto, sem pressa de resolvê-la?
  • Curiosidade social: os estudantes têm oportunidade de ouvir realidades diferentes da própria, sem julgamento prévio?
  • Busca por novas experiências: que projeto, saída de campo ou desafio novo a escola poderia propor este semestre?
  • Presença: o que mudaria se olhássemos o conteúdo mais repetido do currículo como se fosse a primeira vez?

Recuperar a curiosidade na escola não é tarefa apenas de currículo ou de política pública isoladamente — é também uma escolha diária, repetida em cada sala de aula, sobre o que fazer com a pergunta de um aluno: silenciá-la em nome do cronograma, ou tratá-la como o motor mais confiável do aprendizado que a BNCC promete, mas que só a prática cotidiana pode cumprir.

Este artigo foi inspirado pela reportagem "¿Y si en lugar de tener miedo, sentimos curiosidad?", de Pilar Jericó, publicada no jornal El País em 05/08/2026. O conteúdo foi ampliado com reportagem e fontes independentes sobre o contexto educacional brasileiro.

Em números

8,7 mi jovens de 14 a 29 anos não concluíram o ensino médio no Brasil em 2024 (IBGE/Pnad Educação)
20,7% dos jovens de 18 anos já haviam abandonado a escola sem concluir a etapa
19% de distorção idade-série no ensino médio urbano em 2024 (Inep/QEdu)
5 dimensões da curiosidade identificadas por Todd Kashdan (2018)

Linha do tempo

  • 2009Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Infantil reconhecem o direito de a criança explorar e questionar.
  • 2017BNCC é homologada e inclui a curiosidade intelectual entre as dez competências gerais da Educação Básica.
  • 2018Todd Kashdan publica a Escala de Curiosidade em Cinco Dimensões, mapeando diferentes perfis de curiosidade.
  • 2025Pnad Educação registra 8,7 milhões de jovens fora do ensino médio no Brasil.
  • 2026Debate sobre "intenção curiosa" ganha espaço na imprensa internacional como resposta ao excesso de certezas.

Glossário

Curiosidade epistêmica
Desejo de reduzir uma lacuna de conhecimento percebida, motor da busca ativa por informação.
Distorção idade-série
Situação em que o estudante está dois anos ou mais atrasado em relação à série esperada para sua idade.
BNCC
Base Nacional Comum Curricular, documento que define as aprendizagens essenciais da Educação Básica no Brasil.
Busca Ativa Escolar
Estratégia de identificação e reintegração de crianças e adolescentes fora da escola, adotada com apoio do Unicef.

Referências

  1. Pilar Jericó, "¿Y si en lugar de tener miedo, sentimos curiosidad?", El País, 05/08/2026. Acessar reportagem
  2. Teresa Viejo, Una niña que todo lo quería saber, HarperCollins, 2022. Ver livro
  3. Kashdan, T.B. et al., "The five-dimensional curiosity scale", Journal of Research in Personality, 2018. Acessar estudo
  4. IBGE, Pnad Educação 2024 — abandono e evasão escolar. Acessar dados
  5. Observatório de Educação, Instituto Unibanco, "Guia sobre abandono e evasão escolar". Acessar guia
  6. Ministério da Educação, Base Nacional Comum Curricular (BNCC), 2017. Acessar documento