Uma criança brasileira de cinco anos pergunta, em média, dezenas de vezes por dia por que o céu é azul, por que a formiga carrega folhas maiores que o próprio corpo, por que é preciso dormir. Dez anos depois, na sala de aula do ensino médio, essa mesma criança já aprendeu que perguntar demais pode significar atraso na matéria, e que a resposta certa vale mais do que a pergunta interessante. Entre a infância exploradora e a adolescência que se cala, algo se perde — e a escola, que deveria ser a maior aliada da curiosidade, muitas vezes se torna sua sepultura silenciosa.
A colunista espanhola Pilar Jericó tratou desse fenômeno em texto recente publicado no jornal El País, no qual defende a chamada "intenção curiosa": a escolha deliberada de se aproximar do desconhecido pela exploração, e não apenas pelo medo. Segundo a autora, em artigo publicado no El País, crescer costuma significar trocar perguntas por certezas, até tratarmos a incerteza como algo a ser eliminado o quanto antes — quando, na verdade, ela é matéria-prima do aprendizado.
O raciocínio de Jericó se apoia no trabalho do psicólogo americano Todd Kashdan, professor da George Mason University, que passou mais de duas décadas estudando o tema. Em pesquisa publicada em 2018 na revista científica Journal of Research in Personality, Kashdan e colegas identificaram cinco dimensões distintas da curiosidade humana: a exploração alegre, a sensibilidade à carência de conhecimento, a tolerância ao estresse da incerteza, a curiosidade social e a busca por novas experiências. A conclusão central do estudo é que não existe um único tipo de pessoa curiosa — e, por extensão, não deveria existir um único modo de estimular a curiosidade em sala de aula.
O que diz a legislação brasileira
No Brasil, o tema não é apenas filosófico: está no texto normativo que orienta todas as escolas do país. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), homologada em 2017, elenca "exercitar a curiosidade intelectual" como uma das dez competências gerais da Educação Básica, ao lado da investigação, da análise crítica e da criatividade. Na Educação Infantil, a própria organização curricular por Campos de Experiência reserva à criança o direito de explorar, questionar e se surpreender com o cotidiano — um desenho pedagógico que reconhece, décadas depois, o que os estudos de Kashdan viriam confirmar: a curiosidade não é um traço fixo, mas uma habilidade que pode ser cultivada ou atrofiada conforme o ambiente.
O problema é que, entre o texto da lei e a prática das salas de aula, existe uma distância considerável — e os números da evasão escolar brasileira ajudam a medi-la.
De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Educação, divulgada pelo IBGE, cerca de 8,7 milhões de jovens brasileiros entre 14 e 29 anos não concluíram o ensino médio em 2024, seja por abandono, seja por nunca terem frequentado a etapa. O abandono se intensifica justamente na adolescência: 16,5% dos jovens de 16 anos, 19,9% dos de 17 e 20,7% dos de 18 anos já haviam deixado a escola. Pesquisas sobre os motivos da evasão, como a que reúne dados do Itaú Social, mostram que a necessidade de trabalhar (41,7%) supera a "falta de interesse" declarada (23,5%) como razão principal — mas especialistas do Observatório de Educação do Instituto Unibanco apontam que o desengajamento raramente é a causa isolada de uma saída repentina: é, na maioria dos casos, um processo lento, que começa muito antes do aluno deixar de frequentar a escola, com a perda progressiva de sentido naquilo que se ensina.
A curiosidade como antídoto pedagógico
É aqui que a distinção proposta por Kashdan ganha relevância prática para o professor brasileiro. A "sensibilidade à carência" — aquele desconforto de sentir que falta uma peça para entender algo — pode ser exatamente o que motiva um aluno a insistir em um problema de matemática, desde que a escola valorize a pergunta tanto quanto a resposta certa. Já a "tolerância ao estresse", segundo o modelo do pesquisador, é a capacidade de sustentar uma dúvida em aberto sem correr para a primeira solução pronta — uma habilidade cada vez mais rara em um ambiente de respostas instantâneas, e que exige do professor tempo e paciência pedagógica para ser desenvolvida.
A jornalista e doutoranda em Psicologia Teresa Viejo, autora do livro Una niña que todo lo quería saber (HarperCollins, 2022), reforça essa leitura ao afirmar, na reportagem do El País, que a curiosidade pode ser medida e que seu desenvolvimento provoca mudanças observáveis, primeiro no comportamento e depois na forma de pensar — ou o inverso, mas sempre com transformação. Para a educação brasileira, isso sugere um caminho concreto: currículos e metodologias que tratem a pergunta do aluno como ponto de partida, não como interrupção da aula planejada.
Contraponto
Nem todos os educadores concordam que o problema da evasão e do desengajamento escolar brasileiro seja, no fundo, uma questão de estímulo à curiosidade. Estudos como o de Reynaldo Fernandes, com dados do IBGE e do MEC, apontam que fatores estruturais e socioeconômicos — renda familiar, trabalho infantil e juvenil, gravidez precoce, distorção idade-série — pesam mais do que a metodologia pedagógica na decisão de abandonar os estudos. Para essa linha de análise, colocar o foco exclusivamente na "curiosidade individual" do aluno pode obscurecer desigualdades estruturais que exigem resposta de política pública, como o programa Pé-de-Meia e a estratégia de Busca Ativa Escolar, e não apenas mudança de postura em sala de aula.
Uma pergunta por vez
Pilar Jericó termina seu artigo com seis perguntas voltadas à intenção curiosa adulta. Adaptadas ao contexto escolar brasileiro, elas podem servir tanto a professores quanto a famílias que acompanham a trajetória educacional de crianças e adolescentes:
- Exploração alegre: quando foi a última vez que a turma aprendeu algo sem que isso valesse nota?
- Sensibilidade à carência: que pergunta os alunos deixaram sem resposta por falta de tempo — e como retomá-la?
- Tolerância ao estresse: a escola dá espaço para o aluno permanecer com uma dúvida em aberto, sem pressa de resolvê-la?
- Curiosidade social: os estudantes têm oportunidade de ouvir realidades diferentes da própria, sem julgamento prévio?
- Busca por novas experiências: que projeto, saída de campo ou desafio novo a escola poderia propor este semestre?
- Presença: o que mudaria se olhássemos o conteúdo mais repetido do currículo como se fosse a primeira vez?
Recuperar a curiosidade na escola não é tarefa apenas de currículo ou de política pública isoladamente — é também uma escolha diária, repetida em cada sala de aula, sobre o que fazer com a pergunta de um aluno: silenciá-la em nome do cronograma, ou tratá-la como o motor mais confiável do aprendizado que a BNCC promete, mas que só a prática cotidiana pode cumprir.