Nunca houve tanto texto à nossa volta e, ao mesmo tempo, tão pouca disposição para lê-lo por mais de um minuto e meio. Placas, notificações, legendas, mensagens: a escrita está em toda parte, mas a leitura longa, aquela que exige atenção contínua por dezenas de páginas, perde espaço no cotidiano. É esse paradoxo que o colunista britânico James Marriott, do The Times de Londres, procura descrever com a expressão “cultura pós-letrada”, tema central de seu livro The New Dark Ages e de sua conversa com a escritora Mary Harrington no podcast Interesting Times, do The New York Times[1].
Marriott faz questão de uma distinção logo no início: para ele, pós-letrado não significa analfabeto[1]. As pessoas continuam sabendo ler. O que muda é o meio dominante pelo qual uma sociedade interpreta a política e a realidade, que deixa de ser o texto e passa a ser a imagem, sobretudo a imagem em movimento. A tese tem implicações diretas para a educação, e no Brasil ela encontra um terreno que já era frágil antes da chegada do vídeo vertical.
O que os dados mostram sobre o declínio da leitura
A evidência mais robusta vem dos Estados Unidos. Um estudo da University College London e da Universidade da Flórida, publicado na revista iScience em agosto de 2025, analisou respostas de mais de 236 mil americanos ao American Time Use Survey entre 2003 e 2023. A proporção de pessoas que liam por prazer em um dia comum caiu de 28% em 2004 para 16% em 2023, um recuo superior a 40%, segundo o comunicado da UCL[2]. O dado é o mesmo citado por Marriott no podcast[1], e a definição de leitura usada é ampla: inclui livros digitais e audiolivros.
Há um detalhe no estudo que costuma ficar de fora das manchetes. Entre quem continua lendo, o tempo dedicado à leitura aumentou levemente, o que os autores interpretam como sinal de polarização: alguns leem mais, enquanto muitos abandonaram o hábito. As quedas foram mais acentuadas entre pessoas de menor renda e escolaridade, como resumiu a Universidade da Flórida[2].
No plano internacional, a segunda rodada da Pesquisa de Habilidades de Adultos da OCDE (PIAAC), divulgada em dezembro de 2024, avaliou cerca de 160 mil pessoas de 16 a 65 anos em 31 países. O diagnóstico foi de declínio ou estagnação do letramento na maior parte deles: apenas Finlândia e Dinamarca registraram melhora significativa, e a proficiência dos 10% com pior desempenho caiu na maioria dos países, de acordo com o relatório da OCDE[3]. O Brasil não participou dessa rodada, o que torna as pesquisas nacionais ainda mais relevantes.
O retrato brasileiro
No Brasil, a sexta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, registrou em 2024 um marco negativo: pela primeira vez desde o início da série, em 2007, os não leitores passaram a ser maioria, com 53% da população, como noticiou o blog da Companhia das Letras[4]. A pesquisa considera leitor quem leu ao menos parte de um livro, de qualquer gênero e formato, nos três meses anteriores à entrevista. O país perdeu cerca de 6,7 milhões de leitores em relação a 2019, segundo o SBT News[4].
Dois números da mesma pesquisa conversam diretamente com o argumento de Marriott. O primeiro: a falta de paciência e de foco como justificativa para não ler subiu de 18% em 2007 para 40% em 2024, conforme levantamento do Monitor Mercantil[4]. O segundo: 78% dos entrevistados dizem usar a internet no tempo livre, e 71% preferem o WhatsApp[4]. A disputa pelo tempo livre, que nos Estados Unidos começou com a televisão e se intensificou com o smartphone, aparece aqui de forma explícita.
O “muro das 400 palavras” e a sala de aula
Um dos trechos mais citados da entrevista trata de uma expressão que circula em meios educacionais anglófonos: o “muro das 400 palavras”. Segundo Marriott, esse seria o limite a partir do qual muitos estudantes começam a se dispersar, algo equivalente a cerca de 90 segundos de leitura[1]. Ele relata também que professores universitários vêm abandonando romances longos de suas bibliografias porque os alunos não conseguem concluí-los[1]. São observações de natureza anedótica, e o próprio autor admite o risco de soar como lamento geracional, mas elas ajudam a nomear o que muitos docentes descrevem na prática.
No Brasil, os dados sobre crianças e adolescentes indicam o mesmo ambiente de atenção fragmentada. A pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, do Cetic.br/NIC.br, mostra que 92% da população de 9 a 17 anos está conectada, o equivalente a mais de 24,5 milhões de jovens, segundo o Teletime[6]. Assistir a vídeos de influenciadores é a atividade mais frequente: 46% o fazem mais de uma vez por dia, e 68% dos adolescentes de 13 a 17 anos já usam inteligência artificial generativa para pesquisas escolares, de acordo com o Mobile Time[6].
Este último dado se liga a uma preocupação que Marriott expõe no fim da conversa: a de que a IA generativa permita concluir uma graduação sem escrever um ensaio, esvaziando por dentro as próprias instituições que deveriam preservar a cultura do texto[1]. Se a escrita longa deixa de ser exercitada, a leitura longa perde uma de suas principais razões de ser na escola.
Da página de volta à voz: a teoria por trás da tese
O argumento de Marriott se apoia em uma tradição de teóricos da comunicação. O jesuíta americano Walter Ong, em Oralidade e cultura escrita, sustentou que formas de pensamento como a lógica formal, a história documental e a filosofia sistemática não surgem espontaneamente da mente humana, mas da interação com a página[8]. Marshall McLuhan e Neil Postman, autor de Amusing Ourselves to Death, observaram a passagem de uma cultura impressa para uma cultura televisiva[9].
Ong cunhou a ideia de “oralidade secundária” para descrever sociedades que, embora alfabetizadas, voltam a se comunicar predominantemente por voz e imagem por meio de tecnologias eletrônicas. Marriott leva a ideia adiante: em uma cultura dominada pelo vídeo, a comunicação se torna mais emocional e mais personalizada, mais próxima do contato face a face das sociedades orais do que da frieza da página impressa[1]. Para ele, essa “dessaturação emocional” do texto impresso foi útil à democracia, porque favorecia argumentos baseados em evidência e não em carisma.
Daí deriva a parte mais política da tese. Na cultura oral, o que não é memorável se perde, e por isso os poemas épicos estão cheios de personagens grandiosos e marcantes. Marriott sugere que a política contemporânea redescobriu essa lógica e passou a premiar líderes com forte presença visual e capacidade de gerar imagens icônicas nas redes. Ele observa que o fenômeno foi explorado primeiro pela direita, mas afirma que não é partidário e que tende a se espalhar por todo o espectro político[1].
O caso brasileiro: a etapa que ficou incompleta
A narrativa de Marriott pressupõe uma “era de ouro” da leitura de massa, que no Reino Unido e nos Estados Unidos se consolidou entre o fim do século XIX e o início do século XX. O Brasil não viveu esse ciclo da mesma forma. Antonio Candido, no ensaio “Literatura e subdesenvolvimento”, já apontava que os meios de comunicação de massa alcançavam a população brasileira antes que a cultura letrada tivesse se consolidado[10]. O rádio, a televisão aberta e, depois, o WhatsApp chegaram a públicos que nunca tiveram acesso pleno ao livro.
O Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) ilustra essa trajetória. A proporção de analfabetos funcionais entre brasileiros de 15 a 64 anos caiu de 39% em 2001 para 29% em 2024, um avanço real na base. Mas o índice está parado desde 2018, e entre jovens de 15 a 29 anos subiu de 14% para 16%, segundo o comunicado do Unicef[5]. O nível proficiente, que corresponde à capacidade de compreender e avaliar textos complexos, ficou em apenas 10%[5].
Em outras palavras, o Brasil enfrenta dois problemas sobrepostos. O primeiro é antigo: uma parcela grande da população nunca chegou a dominar a leitura de textos médios e longos. O segundo é novo: mesmo quem domina essa habilidade a exercita cada vez menos. A hipótese de Marriott sobre uma sociedade dividida entre uma minoria leitora e uma maioria orientada pela imagem[1] descreve, no caso brasileiro, menos uma ruptura e mais o aprofundamento de uma desigualdade que já existia. A própria Retratos da Leitura mostra que, quanto maior a renda, maior a proporção de leitores[4].
A infraestrutura também pesa. Na pesquisa de 2024, 46% dos entrevistados afirmaram não haver biblioteca perto de casa, contra 20% em 2007, ainda que o país conte com mais de 3,4 mil bibliotecas públicas[4]. A percepção de ausência, mesmo quando o equipamento existe, é um indicador de que a leitura deixou de fazer parte do mapa mental de boa parte da população.
Pânico moral ou diagnóstico preciso?
A história das “crises de leitura”. Cada nova tecnologia de comunicação foi recebida com alarme. Platão, no Fedro, atribui a Sócrates a crítica de que a escrita enfraqueceria a memória. Os romances do século XVIII foram acusados de corromper jovens leitores. O próprio Marriott reconhece que seu argumento pode soar como lamento geracional[1].
Correlação não é causa. Os autores do estudo publicado na iScience não investigaram as causas da queda. Apontam como fatores possíveis não apenas a mídia digital, mas também a redução do tempo livre, a insegurança econômica e o acesso desigual a livros[2]. Atribuir o fenômeno apenas ao TikTok simplifica um quadro multicausal.
Os dados também têm limites. A OCDE e alguns países participantes alertaram que parte das variações da PIAAC pode refletir dificuldades de coleta no pós-pandemia e menor taxa de resposta[3]. No Brasil, o Inaf mostra melhora de longo prazo na base, e fenômenos como o BookTok e o crescimento dos audiolivros indicam que o vídeo também pode levar jovens ao livro.
A Idade Média não foi só escuridão. Na própria entrevista, Mary Harrington contesta a leitura de Marriott sobre o período medieval, lembrando que a cultura escrita da época se sustentava em práticas sofisticadas de memorização[1]. A metáfora das “novas idades das trevas” pode obscurecer mais do que esclarece.
O que está ao alcance da escola
O Brasil já tomou uma medida estrutural na relação entre telas e escola. A Lei nº 15.100/2025, sancionada em janeiro de 2025, restringe o uso de celulares e outros aparelhos eletrônicos portáteis na educação básica, inclusive em recreios e intervalos, com exceções para uso pedagógico, acessibilidade e saúde, como detalhou a Agência Senado[7]. A restrição remove um concorrente direto da atenção, mas não cria, por si só, o hábito de leitura. O tempo liberado precisa ser ocupado por práticas que a tela não oferece.
A partir dos dados disponíveis, três frentes se destacam. A primeira é tratar a leitura prolongada como habilidade treinável, com tempo dedicado em sala, progressão de extensão dos textos e acompanhamento, em vez de supor que ela será praticada em casa. A segunda é reconectar leitura e escrita longa, já que a IA generativa reduz o incentivo para ler quando o produto final pode ser gerado automaticamente; avaliações escritas em sala e discussões orais sobre obras lidas são respostas possíveis. A terceira, sugerida indiretamente por Harrington, é revalorizar a memória: recitação, leitura em voz alta e retenção de trechos foram, por séculos, parte da formação letrada, e podem funcionar como ponte entre a cultura oral do vídeo e a cultura do texto[1].
Nenhuma dessas frentes reverte uma revolução de comunicação, e o próprio Marriott duvida que revoluções desse tipo possam ser desfeitas[1]. O que a escola pode fazer é impedir que a leitura longa se torne uma competência restrita a quem cresceu cercado de livros. Em um país com a desigualdade educacional brasileira, essa é menos uma questão de nostalgia e mais uma questão de cidadania.
Perguntas frequentes
O que é uma cultura pós-letrada?
É uma sociedade em que as pessoas continuam alfabetizadas, mas o texto longo deixa de ser o principal meio de informação e reflexão, substituído pela imagem e pelo vídeo. O conceito é defendido pelo jornalista James Marriott no livro The New Dark Ages e se apoia na ideia de “oralidade secundária” de Walter Ong.
A leitura está realmente caindo no Brasil?
Sim. Segundo a 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (Instituto Pró-Livro, 2024), 53% dos brasileiros são não leitores, a primeira vez em que esse grupo supera o de leitores. A proporção de leitores caiu de 55% em 2007 para 47% em 2024.
Qual a diferença entre analfabetismo funcional e pós-letramento?
O analfabetismo funcional, medido no Brasil pelo Inaf, descreve pessoas que não conseguem compreender textos simples ou realizar operações básicas de leitura; atinge 29% da população de 15 a 64 anos. O pós-letramento descreve pessoas que sabem ler, mas leem cada vez menos textos longos. No Brasil, os dois fenômenos coexistem.
O vídeo curto é o único responsável pela queda da leitura?
Não há evidência de causalidade única. Pesquisadores apontam também a redução do tempo livre, a insegurança econômica e o acesso desigual a livros e bibliotecas. O declínio da leitura começou com a televisão, nas décadas de 1950 a 1970, e se acelerou com o smartphone.
O que a Lei 15.100/2025 muda para a leitura nas escolas?
A lei restringe o uso de celulares na educação básica, inclusive no recreio, com exceções pedagógicas e de acessibilidade. Ela reduz a concorrência pela atenção dos estudantes, mas o efeito sobre a leitura depende de como as escolas ocupam o tempo liberado.