Saúde · Nutrição e Políticas Públicas

Nos últimos dois anos, uma nova classe de medicamentos mudou a forma como o mundo fala sobre obesidade. Semaglutida e tirzepatida, vendidas sob nomes como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, ajudaram milhões de pessoas a perder peso e transformaram um problema historicamente tratado como falha de força de vontade em algo reconhecido como doença crônica. A mudança de discurso parece positiva, mas um editorial recente da revista Science chama atenção para um efeito colateral pouco discutido: o surgimento de um modelo de negócio em que a indústria farmacêutica lucra tratando uma condição que a indústria alimentícia, em boa medida, ajuda a criar1.

Os autores do editorial, o pesquisador de políticas de saúde Luc Hagenaars, da Universidade de Amsterdã, e a especialista em saúde pública Laura Schmidt, resumem o problema em uma frase incômoda: os fármacos podem virar um "remendo" individual para um problema coletivo, moldado por decisões de mercado, publicidade e disponibilidade de comida industrializada barata1. Enquanto isso, os chamados ultraprocessados, produtos formulados industrialmente para maximizar palatabilidade e prazo de validade, continuam ganhando espaço nos carrinhos de compra ao redor do mundo.

O Brasil também entrou nessa conta

O cenário descrito para Estados Unidos e Europa tem um paralelo direto na realidade brasileira. Segundo a pesquisa Vigitel, do Ministério da Saúde, a prevalência de obesidade entre adultos nas capitais brasileiras saltou de 11,8% em 2006 para 25,7% em 2024, mais que dobrando em menos de duas décadas. No mesmo período, o excesso de peso avançou de 42,6% para 62,6% da população adulta, e o salto foi ainda mais acentuado entre jovens de 18 a 24 anos, que passaram de 29,9% com excesso de peso em 2019 para 41,3% em 20242.

É exatamente nesse cenário que o mercado de canetas emagrecedoras cresce no país. Levantamentos do Itaú BBA estimam que o segmento de medicamentos à base de GLP-1 já movimenta cerca de R$ 10 bilhões por ano no Brasil, sem contar o mercado informal, e pode saltar para algo próximo de US$ 9 bilhões até 2030, um crescimento anual composto estimado em 40%3. Em escala global, as projeções apontam para um mercado que pode superar US$ 160 bilhões na mesma data3.

"O problema é que os fármacos podem terminar virando um remendo sanitário individual para uma doença complexa, com uma importante dimensão social." Luc Hagenaars, pesquisador de políticas de saúde, Universidade de Amsterdã, em entrevista ao El País

Dois mercados, uma mesma população

A lógica descrita pelo editorial da Science é direta. De um lado, grandes conglomerados de alimentos seguem produzindo itens ultraprocessados, baratos, práticos e desenhados para estimular o apetite além da necessidade fisiológica. De outro, esses mesmos grupos econômicos, e a indústria farmacêutica, criam produtos complementares para o público que engordou e agora busca emagrecer: shakes substitutivos de refeição, barras proteicas funcionais e, cada vez mais, o próprio medicamento injetável. É um ciclo que se retroalimenta comercialmente, mesmo que não seja esse o objetivo declarado de nenhuma das partes.

Revisões publicadas na revista The Lancet já haviam alertado que os ultraprocessados estão colonizando dietas tradicionais em todo o mundo e corroendo indicadores de saúde pública, pedindo que governos priorizem a alimentação e a saúde coletiva acima do lucro corporativo4. No Brasil, o próprio Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, já recomendava desde 2014 evitar esse tipo de produto, mas o consumo segue relevante, especialmente entre jovens e famílias de menor renda, grupos também mais expostos ao custo dos novos medicamentos.

Contraponto

Nem todos os especialistas veem o cenário como puramente negativo. Para pesquisadores da área médica, os agonistas de GLP-1 representam um avanço real para pacientes com dificuldade histórica de perder peso por métodos convencionais, incluindo quem já desenvolveu comorbidades como diabetes tipo 2 e hipertensão. A crítica de parte da comunidade científica não é ao medicamento em si, mas ao risco de ele se tornar a única resposta oferecida, sem que se combata o ambiente que favorece o ganho de peso em primeiro lugar.

O papel da cultura alimentar

Uma pesquisadora ouvida pelo El País, a socióloga Cecilia Díaz Méndez, da Universidade de Oviedo, argumenta que culturas alimentares tradicionais funcionam como uma barreira natural contra a homogeneização promovida pela indústria. Ela cita hábitos como cozinhar em companhia, valorizar a procedência dos alimentos e preservar receitas de família como formas de resistência que vão além da composição nutricional do prato1.

No Brasil, esse debate ganha contornos próprios. O país tem uma tradição culinária regional forte, mas também enfrenta décadas de urbanização acelerada, jornadas de trabalho longas e publicidade agressiva de alimentos industrializados, fatores que a literatura em saúde pública já associa ao avanço do sobrepeso nas últimas duas décadas2. A pergunta que fica, tanto para especialistas brasileiros quanto europeus, é se o futuro da alimentação será resolvido no fogão e na feira, ou cada vez mais na farmácia.

O que as políticas públicas ainda não resolveram

Para pesquisadores citados no editorial da Science, parte do problema está na forma como o debate médico sobre obesidade tem sido conduzido. Eles questionam, por exemplo, a proposta de ampliar categorias diagnósticas como a chamada "pré-obesidade clínica", sugerindo que isso pode funcionar mais como estratégia de expansão de mercado para os fabricantes de medicamentos do que como avanço médico independente, ainda mais considerando o volume de financiamento da indústria farmacêutica a estudos na área1.

Enquanto esse debate avança lentamente em fóruns científicos internacionais, a rotina de quem convive com sobrepeso ou obesidade no Brasil segue dependendo, na prática, de dois fatores: acesso a alimentos de qualidade a preços acessíveis e, para quem pode pagar, acesso aos novos tratamentos farmacológicos. A distância entre esses dois mundos é, hoje, uma das faces mais visíveis da desigualdade em saúde no país.

Este artigo foi inspirado na reportagem "El negocio perfecto de la 'era Ozempic': fármacos para adelgazar, ultraprocesados para engordar", publicada originalmente pelo jornal espanhol El País, assinada por Enrique Alpañés. Leia a reportagem original: elpais.com.

Perguntas frequentes

O que é a "era Ozempic"?

É o termo usado por pesquisadores para descrever o momento cultural atual, em que medicamentos à base de semaglutida e tirzepatida, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, passam a moldar a forma como a sociedade entende e trata a obesidade, muitas vezes deslocando o foco das causas alimentares e sociais do problema.

Os medicamentos GLP-1 resolvem o problema da obesidade sozinhos?

Especialistas em saúde pública argumentam que não. Os fármacos são eficazes para reduzir peso em nível individual, mas não alteram o ambiente alimentar que favorece o consumo excessivo de ultraprocessados, considerado por muitos pesquisadores a raiz estrutural do problema.

Qual é a situação da obesidade no Brasil atualmente?

Segundo o Vigitel, do Ministério da Saúde, a obesidade entre adultos das capitais brasileiras passou de 11,8% em 2006 para 25,7% em 2024, e o excesso de peso já atinge 62,6% da população adulta nesses locais.

Qual o tamanho do mercado de canetas emagrecedoras no Brasil?

Estimativas do Itaú BBA apontam um mercado atual de cerca de R$ 10 bilhões por ano no Brasil, com projeção de crescimento acelerado até 2030, acompanhando uma tendência global que deve movimentar mais de US$ 160 bilhões no mesmo período.

O que são alimentos ultraprocessados?

São produtos formulados industrialmente a partir de ingredientes refinados e aditivos, com pouca ou nenhuma presença de alimentos in natura. São desenhados para durar mais tempo nas prateleiras e estimular o consumo além da saciedade natural.