Enquanto o mundo pode ser desfeito, ele também pode ser consertado. Essa é a premissa silenciosa por trás de séculos de política ambiental: erramos, aprendemos, corrigimos. O filósofo espanhol Daniel Innerarity argumenta, em ensaio publicado nesta semana no jornal El País, que essa premissa está deixando de valer. Segundo ele, várias das crises que vivemos hoje (climática, migratória, financeira) não obedecem mais à lógica do erro corrigível, mas à de limiares que, uma vez ultrapassados, não têm volta1. Para o Brasil, guardião da maior floresta tropical do planeta, essa não é uma discussão de gabinete.
O fim do ensaio e erro
Innerarity recorre à física para ilustrar o argumento: enquanto a visão mecanicista dos séculos XVI e XVII imaginava um mundo reversível, regido por um primeiro princípio da termodinâmica em que nada se perde, a realidade que enfrentamos hoje parece governada pelo segundo princípio, o da entropia, no qual parte da energia dissipada não retorna ao estado original1. Aplicado aos sistemas naturais, o raciocínio é direto. Certos danos ambientais deixam de ser corrigíveis a partir de um determinado ponto, o chamado ponto de inflexão, e a partir dali resta apenas a antecipação, não mais o reparo.
Essa não é mais uma hipótese filosófica isolada. Em setembro de 2025, o Planetary Boundaries Science Lab do Instituto de Pesquisa de Impacto Climático de Potsdam (PIK), na Alemanha, publicou a mais recente atualização do conceito de limites planetários, criado originalmente pelo cientista sueco Johan Rockström em 2009. O relatório concluiu que sete dos nove limites biofísicos considerados seguros para a vida na Terra já foram ultrapassados, incluindo, pela primeira vez, o da acidificação dos oceanos2. "Estamos colocando em risco a estabilidade dos sistemas de suporte da Terra", afirmou Rockström na ocasião, ao mesmo tempo em que reforçou que o fracasso "não é inevitável", mas uma escolha2.
A Amazônia e o limiar que se aproxima
Nenhum território expõe esse dilema com mais clareza do que a Amazônia. Um estudo publicado na revista Nature em 2026, liderado pelo pesquisador Nico Wunderling, do PIK, recalculou as condições necessárias para que o bioma atinja seu ponto de não retorno e chegou a uma conclusão mais grave do que estimativas anteriores. Caso o desmatamento atinja entre 22% e 28% da floresta, combinado a um aumento de temperatura entre 1,5°C e 1,9°C, a Amazônia pode alcançar um limiar sem volta já na década de 2040, degradando ou convertendo em savana até dois terços de sua extensão3. Atualmente, cerca de 17% da Pan-Amazônia já foi desmatada, e a comunidade científica considera cada vez mais provável que o planeta ultrapasse os 1,5°C de aquecimento em relação aos níveis pré-industriais3.
O desmatamento age como um multiplicador de risco: ele resseca a atmosfera e enfraquece a capacidade da própria floresta de produzir chuva, um mecanismo que os cientistas chamam de reciclagem de umidade. "Mesmo um aquecimento adicional moderado poderia desencadear impactos em cascata em grandes áreas da floresta", afirmou Wunderling ao anunciar os resultados4. O fenômeno tem efeitos que ultrapassam os limites do bioma: a umidade transportada pelos chamados rios voadores sustenta parte da agricultura, da geração de energia e do abastecimento de água em boa parte do território brasileiro5.
O paradoxo brasileiro do fogo
Há, no entanto, um contraponto que merece registro. Em março deste ano, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima anunciou uma queda de 39% nas áreas queimadas no Brasil em 2025 em relação à média da última década, resultado atribuído à Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo, sancionada em 2024, e à atuação coordenada de brigadas federais e estaduais6. É um dado que soa dissonante em um ensaio sobre irreversibilidade, mas que na verdade confirma o argumento de Innerarity por outro ângulo: as ações de prevenção e gestão do fogo funcionam justamente porque atuam antes do limiar, não depois dele.
O problema é de escala. Um relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) projeta um aumento global de incêndios extremos de 30% até 2050 e de 50% até o fim do século, impulsionado pela combinação entre mudança climática e mudança no uso da terra7. Governos conseguem, com investimento e coordenação, reduzir incêndios em um ano específico. O que nenhum governo isolado consegue fazer é alterar sozinho a trajetória planetária de aquecimento que torna cada nova temporada de fogo mais perigosa que a anterior.
"A conservação deixou de ter sentido e a restauração talvez comece a ser impossível. Provavelmente já não nos resta outra coisa senão a antecipação." Daniel Innerarity, filósofo, em "La era de la irreversibilidad", El País
Migração e finanças: o mesmo padrão gasoso
Innerarity estende o diagnóstico a outros campos. Para ele, a migração deixou de ser apenas uma questão de controle de fronteiras e passou a depender de condições globais e de diferenciais de oportunidade entre regiões, algo mais próximo de um movimento atmosférico do que de um fluxo administrável1. O mesmo valeria para os mercados financeiros, cujas trocas voláteis se afastam tanto da economia real quanto da ideia de fluxos previsíveis. É uma leitura que dialoga com o conceito de "mundo gasoso", cunhado pelo próprio autor como alternativa à metáfora da modernidade líquida de Zygmunt Bauman.
Contraponto
Nem todos os cientistas tratam os pontos de inflexão como certezas fechadas. O próprio estudo de Wunderling e equipe reconhece que o risco de savanização da Amazônia tem alto grau de confiança em nível local, mas apenas baixa confiança quando analisado em escala continental, o que deixa margem de incerteza sobre prazos e extensão exata do fenômeno8.
Pesquisadores ligados à governança ambiental também argumentam que o vocabulário da irreversibilidade, se usado de forma alarmista, pode paralisar em vez de mobilizar. A queda nas áreas queimadas no Brasil em 2025 é citada por gestores públicos como prova de que políticas bem desenhadas ainda produzem resultado mensurável dentro da janela de tempo disponível, mesmo em um cenário de fundo mais adverso6.
O que resta fazer
Se a reversão total já não é garantida em todos os casos, a antecipação ganha um peso que antes era secundário. Isso muda o papel de instrumentos como áreas protegidas, sistemas de monitoramento por satélite e planos de contingência contra incêndios: eles deixam de ser apenas mecanismos de reparo e passam a ser a última linha de defesa antes do limiar. O ensaio de Innerarity não propõe resignação, mas um deslocamento de prioridade, do conserto depois do fato para a prevenção antes dele. Para um país que administra simultaneamente a maior floresta tropical do mundo e uma das políticas de combate a incêndios mais recentes da sua história, essa é uma lição que já deixou de ser apenas filosófica.