Profissões · Mercado de Trabalho
02:14

Passa da meia-noite em Atlanta quando Tim Millard senta em frente ao notebook, ajusta a iluminação da sala e encara uma tela vazia que, em instantes, vai lhe fazer perguntas sobre como ele cultivaria relações com jornalistas locais. Não há ninguém do outro lado da câmera. Millard tem trinta segundos para pensar em cada resposta e dois minutos para gravá-la. Ele havia recebido o convite para a vaga de relações com a mídia depois de seis meses de busca por emprego, e o horário da entrevista, deixado em aberto pela empresa, acabou preenchido pela pergunta que ronda cada vez mais candidatos ao redor do mundo: por que não agora, se ninguém do outro lado vai notar a hora?

A cena, registrada pela revista americana Wired em reportagem publicada em agosto de 2026, ilustra um fenômeno que cresce silenciosamente dentro dos processos seletivos: a entrevista por inteligência artificial, disponível 24 horas por dia, está deslocando parte da seleção de emprego para o período da madrugada[1]. Segundo a reportagem, a Ribbon, empresa de tecnologia de voz para recrutamento citada na matéria, registra que 24% das entrevistas conduzidas por sua IA em mais de 500 empresas clientes acontecem entre 22h e 2h no horário local, número que sobe para 35% entre companhias do setor industrial[1]. Na plataforma de recrutamento Greenhouse, também citada pela Wired, de 15% a 20% dos candidatos entrevistados por agente de voz automatizado hoje escolhem agendar a conversa à noite[1].

O padrão não é exclusividade americana. Um levantamento da Greenhouse com quase 1.200 candidatos nos Estados Unidos, replicado pela Fast Company Brasil em maio deste ano, mostra que 63% dos candidatos já foram entrevistados por IA em algum momento do processo seletivo, um salto de 13 pontos percentuais em apenas seis meses[2]. A mesma pesquisa aponta que a experiência está longe de ser bem recebida: 38% dos candidatos disseram já ter abandonado uma seleção só porque envolvia uma entrevista automatizada, e outros 12% afirmaram que fariam o mesmo se fossem convocados para uma[2].

"É uma péssima época para ser candidato. Seu currículo cai num buraco negro e você compete com milhares de pessoas usando IA para escrever o próprio currículo."

— Ophir Samson, chefe da divisão de voz por IA da Greenhouse, em entrevista à Wired[1]

O Brasil e a lógica da disponibilidade permanente

No mercado brasileiro, a lógica descrita pela Wired encontra um terreno particular. A taxa de informalidade do país foi de 37,2% da população ocupada no trimestre encerrado em abril de 2026, o equivalente a 38,1 milhões de trabalhadores sem carteira assinada ou vínculo formal, segundo o IBGE[3]. Para essa parcela expressiva da força de trabalho, que frequentemente concilia mais de uma ocupação ou trabalha por jornadas variáveis, a possibilidade de uma entrevista às 23h ou às 2h da manhã não é apenas conveniência: pode ser a única janela viável entre um turno e outro. A taxa de desocupação nacional, de 5,8% no mesmo período, e a expansão de processos seletivos automatizados caminham lado a lado com essa realidade de trabalho fragmentado[3].

Empresas brasileiras de tecnologia de recrutamento já operam nessa direção. A CartaCapital descreveu em maio a atuação de HR Techs nacionais, como a Selecty, que automatizam convocação, agendamento e triagem inicial diretamente pelo WhatsApp, sem intervenção humana em nenhuma dessas etapas[4]. Segundo a reportagem, o tempo médio entre a abertura de uma vaga e o aceite de um candidato no Brasil é de 39 dias, um dos mais altos do mundo, o que tem levado equipes de RH a transferir tarefas repetitivas para softwares e concentrar o trabalho humano na etapa de decisão[4]. Até o fim de 2025, 54% das organizações brasileiras já utilizavam ou planejavam adotar alguma tecnologia de automação para RH, segundo dado da Associação Brasileira de RH citado na mesma matéria[4].

Do lado dos candidatos, a preparação também migrou para ferramentas de IA. Plataformas como Yoodli, além de assistentes generalistas como ChatGPT, Gemini e Claude, vêm sendo usadas por brasileiros para simular entrevistas antes da conversa real, segundo levantamento da CNN Brasil[5]. A startup nacional Sólides lançou, em abril, um simulador de entrevistas por IA voltado a candidatos, movida por um dado de seu próprio "panorama de empregabilidade": 81% dos candidatos brasileiros sentem que precisam de treinamento adicional para os processos seletivos atuais, e 45% reconhecem dificuldade específica no desempenho durante entrevistas[6].

Contraponto: nem toda entrevista automatizada é hostil ao candidato

Defensores da tecnologia argumentam que a alternativa à entrevista por IA não é necessariamente um recrutador humano atencioso, mas o silêncio. Ophir Samson, da Greenhouse, descreve a ferramenta como um complemento ao currículo, capaz de identificar candidatos qualificados que seriam descartados apenas pelo volume de inscrições, e não como substituta do contato humano[1]. Um experimento da própria Fast Company Brasil com a plataforma de voz Anna, do PSG, relatou resultados de 12% a mais em contratações e 17% de aumento na retenção após 30 dias em processos conduzidos por IA, com 78% dos candidatos que tiveram a opção preferindo a entrevista automatizada à humana[7]. Para trabalhadores com jornadas rígidas, turnos noturnos ou múltiplos vínculos, sobretudo diaristas, motoristas de aplicativo e empregados do setor de manufatura, a flexibilidade de horário pode representar, de fato, mais oportunidades de participar de um processo seletivo, e não menos.

O vazio regulatório por trás da tela

A expansão dessas ferramentas no Brasil segue mais rápida do que a legislação capaz de regulá-las. O Projeto de Lei nº 2.338/2023, que institui o marco legal da inteligência artificial no país e já foi aprovado pelo Senado, estabelece diretrizes gerais de avaliação de impacto para sistemas de alto risco, mas ainda não trata especificamente do uso de IA em processos seletivos de emprego, segundo análise da revista Exame[8]. Já em 2021, uma cartilha do Ministério Público do Trabalho alertava que algoritmos treinados com dados históricos enviesados podem excluir automaticamente candidaturas associadas a gênero, raça ou outras características, mesmo sem intenção explícita de discriminar[8]. Especialistas ouvidos por veículos jurídicos têm reforçado que a Lei Geral de Proteção de Dados, embora aplicável, não foi concebida para tratar das nuances específicas da subordinação algorítmica dentro da relação de trabalho[9].

Essa lacuna regulatória se soma a uma preocupação recorrente entre candidatos, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos: a falta de transparência sobre como a gravação de uma entrevista será usada, quais critérios pesam na pontuação atribuída pela IA e se um ser humano de fato revisará o material antes de uma decisão. Segundo a reportagem da Wired, embora o roteiro de avaliação varie de vaga para vaga, a prática mais comum é a IA analisar a gravação, atribuir uma pontuação de aderência ao cargo e repassar tanto o vídeo quanto o resultado ao recrutador, mas grande parte dessas gravações, na prática, nunca chega a ser assistida por uma pessoa[1].

Entre o alívio da flexibilidade e o cansaço da espera

Para Millard, personagem central da reportagem da Wired, a novidade do horário livre não trouxe alívio. Meses depois da entrevista automatizada, ele recebeu um e-mail padrão de recusa e, um ano após perder o emprego anterior, seguia em busca de recolocação, uma experiência que o levou a escrever um espetáculo autobiográfico sobre o processo, apresentado em maio no Atlanta Fringe Festival[1]. A frase que fecha a reportagem original resume o desconforto de uma geração de candidatos que enfrenta triagens automatizadas em múltiplas etapas: a sensação de gritar por uma oportunidade e não ter certeza se alguém, humano ou máquina, está de fato ouvindo.

No Brasil, essa tensão ganha contornos próprios. Em um mercado de trabalho marcado por alta informalidade, múltiplos vínculos e jornadas que fogem do expediente comercial, a entrevista às 2h da manhã pode representar tanto uma porta de acesso a quem não teria outra chance de participar do processo quanto mais uma camada de automação num sistema de contratação já percebido como impessoal. A discussão que se abre para o caderno de Profissões de O Tecido não é se a IA vai continuar entrevistando candidatos, isso já é realidade, mas sob quais regras, com que transparência e a favor de quem essa flexibilidade de horário está sendo desenhada.

Nota de atribuição editorial: Este artigo foi inspirado na reportagem "The Rise of the 1 am Job Interview", publicada pela revista americana Wired em agosto de 2026, assinada pela equipe da publicação. O conteúdo original não foi traduzido nem reproduzido integralmente; passagens específicas foram citadas com atribuição direta, e a reportagem foi complementada com apuração independente de fontes brasileiras e internacionais listadas na seção de referências. Reportagem original disponível em: wired.com/story/the-rise-of-the-1-am-job-interview.

Perguntas frequentes

O que é uma entrevista de emprego por IA?

É uma etapa do processo seletivo em que um sistema automatizado, por vídeo ou voz, faz perguntas pré-definidas ao candidato, grava as respostas e atribui uma pontuação de aderência à vaga, sem a presença de um recrutador humano naquele momento.

Por que essas entrevistas estão acontecendo cada vez mais de madrugada?

Como não há um entrevistador humano do outro lado, plataformas de IA ficam disponíveis 24 horas por dia. Isso permite que candidatos com jornadas rígidas, turnos noturnos ou múltiplos vínculos agendem a conversa no horário que conseguem, inclusive de madrugada.

A entrevista por IA é obrigatória para o candidato?

Depende do processo seletivo de cada empresa. Levantamentos recentes mostram que uma parcela relevante de candidatos opta por abandonar a seleção quando é convocada para uma entrevista automatizada em vez de recusar formalmente a etapa.

Existe legislação brasileira específica sobre IA em processos seletivos?

Ainda não. O Projeto de Lei nº 2.338/2023, que cria o marco legal da inteligência artificial no Brasil, estabelece regras gerais para sistemas de alto risco, mas não trata especificamente do uso de IA em recrutamento até o momento.

Neste artigo

  1. A entrevista de Tim Millard
  2. O Brasil e a disponibilidade permanente
  3. Contraponto: flexibilidade como acesso
  4. O vazio regulatório
  5. Flexibilidade x impessoalidade
  6. Perguntas frequentes

Em números

24%–35% das entrevistas por IA da Ribbon ocorrem entre 22h e 2h, conforme setor da empresa cliente[1]
63% dos candidatos americanos já foram entrevistados por IA em algum processo seletivo[2]
37,2% taxa de informalidade no Brasil, trimestre encerrado em abril de 2026 (IBGE)[3]
39 dias tempo médio entre abertura de vaga e aceite do candidato no Brasil[4]

Linha do tempo

Jul. 2021 MPT publica cartilha sobre riscos de discriminação algorítmica em seleção[8]
2023 PL 2.338/2023, marco legal da IA, é apresentado no Congresso
Out. 2025 Experimento com IA "Anna" mostra alta aceitação entre candidatos testados[7]
Jan. 2026 Tim Millard participa de entrevista noturna por vídeo com IA nos EUA[1]
Abr. 2026 Sólides lança simulador de entrevistas por IA para candidatos brasileiros[6]
Mai. 2026 Greenhouse registra 63% de candidatos já entrevistados por IA nos EUA[2]
Ago. 2026 Wired publica reportagem sobre a alta de entrevistas por IA à noite[1]

Glossário

Entrevista assíncrona
Modelo em que o candidato grava respostas em vídeo ou voz sem interação em tempo real com um entrevistador.
Discriminação algorítmica
Viés reproduzido por um sistema automatizado que, sem intenção explícita, exclui candidatos com base em características como gênero, raça ou origem.
Informalidade
Categoria que reúne trabalhadores sem carteira assinada, autônomos sem CNPJ e trabalho familiar auxiliar, segundo metodologia do IBGE.
Marco legal da IA
Nome dado ao Projeto de Lei nº 2.338/2023, que busca criar regras gerais para o desenvolvimento e uso de sistemas de inteligência artificial no Brasil.

Referências

  1. WIRED. The Rise of the 1 am Job Interview. Agosto de 2026. Disponível em: wired.com/story/the-rise-of-the-1-am-job-interview
  2. FAST COMPANY BRASIL. Entrevista de emprego com IA é uma tendência? Entenda o cenário. Maio de 2026. Disponível em: fastcompanybrasil.com
  3. IBGE. PNAD Contínua: taxa de desocupação é de 5,8% e taxa de subutilização é de 13,8% no trimestre encerrado em abril. Maio de 2026. Disponível em: agenciadenoticias.ibge.gov.br
  4. CARTACAPITAL. Entrevistas de emprego agendadas por robôs dão fôlego ao trabalho de recrutamento. Maio de 2026. Disponível em: cartacapital.com.br
  5. CNN BRASIL. 6 ferramentas de IA para simular uma entrevista de emprego. Fevereiro de 2026. Disponível em: cnnbrasil.com.br
  6. CORREIO BRAZILIENSE / EM. Sólides lança IA que simula entrevista de emprego e prepara candidatos. Abril de 2026. Disponível em: em.com.br
  7. FAST COMPANY BRASIL. Minha entrevista de emprego foi feita por IA. E foi melhor do que eu pensava. Outubro de 2025. Disponível em: fastcompanybrasil.com
  8. EXAME. Os principais desafios legais no uso de IA no recrutamento. Maio de 2025. Disponível em: exame.com
  9. GASPARIN, Mirian. IA pode provocar demissões injustificadas por algoritmos e gerar nova onda de judicialização. Maio de 2025. Disponível em: miriangasparin.com.br