O Brasil escolhe seu presidente neste domingo, 4 de outubro, com uma contradição no centro do debate. O país nunca registrou tão poucas mortes violentas desde que a série nacional começou, em 2012, e, ao mesmo tempo, a violência se consolidou como a principal preocupação do eleitor. Na rodada de agosto da Quaest, 33% apontavam a violência como o maior problema do país, contra 15% que citavam a economia. Na pesquisa seguinte, a primeira após o início oficial da campanha, o índice ficou em 31%, ainda quase o dobro do segundo colocado.12
Ao voltar à Penha, na zona norte do Rio, quase um ano depois da operação policial mais letal da história do país, a reportagem do El País encontrou o cenário que resume o impasse: as esquinas continuam sob controle de homens armados, exatamente como antes.1 A pergunta que a eleição coloca, portanto, não é se o Brasil deve enfrentar o crime organizado. É o que, de fato, conta como enfrentá-lo.
O paradoxo dos números
O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), contabilizou 40.775 mortes violentas intencionais em 2025, taxa de 19,1 por 100 mil habitantes. É a primeira vez que o indicador fica abaixo de 20, com queda de 8,2% sobre 2024 e de 31% em relação a 2012.3
A mesma edição registra o movimento inverso na ação do próprio Estado. As polícias mataram 6.602 pessoas em 2025, recorde da série, alta de 5,4% sobre as 6.237 vítimas de 2024. São 18 mortes por dia, o equivalente a uma em cada seis mortes violentas intencionais do país. Entre os mortos, 99,3% são homens e 82% são pessoas negras. Dados do Sinesp referentes ao primeiro semestre de 2026 indicam que a curva continua subindo.3
O Rio de Janeiro aparece entre as sete unidades da federação em que as mortes violentas cresceram em 2025, e o Anuário atribui parte dessa alta justamente ao aumento da letalidade policial.3
Variação 2025 x 2024
Menos homicídios, mais mortes pela polícia
Fonte: 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública (FBSP, 2026). Elaboração: O Tecido.
Como o medo cresce quando os homicídios caem? A socióloga Carolina Grillo, da Universidade Federal Fluminense, ouvida pelo El País, oferece uma chave: quando o crime se organiza, os homicídios tendem a diminuir.1 Menos mortes, nesse caso, não significam menos crime, e sim crime mais estável. Segundo a reportagem, PCC e Comando Vermelho se espalharam por quase todo o território nacional na última década, dezenas de grupos locais copiaram o modelo e o negócio se diversificou: extorsão sobre luz, gás, transporte e terrenos, à maneira das milícias fluminenses, além de golpes e roubos de celular. O jornal cita levantamento do Datafolha segundo o qual quatro em cada dez brasileiros dizem conviver com facções ou milícias no próprio bairro.1
O medo, portanto, não é irracional. Ele mede algo que a taxa de homicídio não alcança: a presença cotidiana de um poder armado que regula serviços, cobra taxas e decide quem circula.
Um ano depois da Operação Contenção
Em 28 de outubro de 2025, cerca de 2.500 policiais civis e militares entraram nos complexos da Penha e do Alemão para cumprir mandados contra lideranças do Comando Vermelho. Para o FBSP, a ação resultou em 122 mortes em dois dias, número que supera os 111 presos mortos no Massacre do Carandiru, em 1992.3 O El País contabiliza 117 civis e cinco agentes entre os mortos.1
O episódio segue sob escrutínio institucional. O Ministério Público do Rio fez perícia independente nos corpos e conduz, pelo Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (Gaesp), uma investigação autônoma sobre as mortes, com rodadas de escuta de familiares na própria Penha em março e abril de 2026, no âmbito da ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas.4 Um dado expõe o tamanho do debate sobre controle: apenas 183 dos 2.500 policiais mobilizados usavam câmeras corporais.4
A opinião pública leu o episódio de outra forma. Segundo pesquisa Datafolha citada pelo El País, 57% dos moradores da região metropolitana do Rio consideraram a operação um sucesso.1 A reportagem acompanha Rakhel Rios, mãe de um jovem de 19 anos morto na ação, que admite ter pensado da mesma forma até perder o filho e que hoje está entre as poucas famílias que acionaram o Estado, por entender que a operação extrapolou a legalidade.1
A operação também virou ativo eleitoral. Felipe Curi, chefe da Polícia Civil que comandou a incursão, disputa uma vaga de deputado com o número 122, o mesmo da contagem de mortos, com apoio de Flávio Bolsonaro, informa o jornal espanhol.1
"Aqui morrem 100 [traficantes] e entram 200."
Homem armado na Penha, em depoimento ao El País
Duas receitas na urna
Os dois candidatos com chance real de vitória partem de diagnósticos opostos.
Flávio Bolsonaro: endurecimento penal
O senador fluminense, candidato do PL, propõe classificar PCC, Comando Vermelho e milícias como "narcoterroristas", reduzir a maioridade penal para 16 anos, instituir castração química para estupradores e pedófilos e construir presídios de segurança máxima inspirados no modelo de El Salvador, reunidos num complexo batizado de Treva. Logo após a Operação Contenção, defendeu publicamente o uso do "máximo de força".1
Lula: reorganização institucional
O presidente aposta na PEC 18/2025, a PEC da Segurança Pública, que constitucionaliza o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), amplia as atribuições da Polícia Federal contra facções e milícias com atuação interestadual ou internacional e dá base jurídica à recriação do Ministério da Segurança Pública. Somam-se a isso a asfixia financeira das facções, a retomada do controle de armas flexibilizado no governo anterior e a adoção de câmeras corporais.15
A PEC já passou pela Câmara. Em 2 de setembro, a CCJ do Senado aprovou o texto em votação simbólica, mas um destaque apresentado por Carlos Portinho (PL-RJ) adiou a ida ao plenário.5 Em paralelo, o Congresso transformou o PL 5.582/2025 no Marco Legal do Combate ao Crime Organizado, sem a equiparação de facções a organizações terroristas, rejeitada durante a tramitação.6
Para Grillo, as duas agendas trazem pouca novidade e repetem fórmulas que não funcionaram nas últimas décadas.1 O pesquisador Bruno Paes Manso faz alerta semelhante: o risco, segundo ele, é converter a sensação de urgência e vulnerabilidade em licença para reproduzir políticas que já falharam.7
O fator Washington
Em 28 de maio, o Departamento de Estado dos Estados Unidos designou PCC e Comando Vermelho como Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGT) e anunciou sua inclusão na lista de Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO). A medida foi oficializada no Federal Register em 5 de junho, com autorização para bloqueio de bens das facções nos EUA.8 O governo brasileiro trabalhou para evitar o enquadramento, entre outros motivos por temer que ele servisse de justificativa para uma eventual ação militar em território nacional.8 Segundo o El País, o anúncio veio dias depois de um encontro de Flávio Bolsonaro com Donald Trump e Marco Rubio.1
A designação muda a natureza da discussão. O que era disputa de política criminal interna passa a envolver soberania, sanções financeiras e cooperação internacional. Especialistas em segurança lembram que facções agem movidas por interesse econômico, sem motivação ideológica, o que as distingue de grupos terroristas no sentido clássico.8
O que a urna não resolve
Há um limite estrutural ao que o próximo presidente pode fazer. A Constituição atribui aos governadores o comando das polícias civis e militares, e a própria PEC da Segurança preserva essa prerrogativa.5 Os eleitores que escolhem o presidente no domingo escolhem também os governadores, e é no nível estadual que se decide, na prática, como operações como a da Penha são planejadas, monitoradas e investigadas.
Na Penha, a líder local da Central Única das Favelas (Cufa), Sandra Vieira, disse ao El País que os políticos só aparecem a cada quatro anos, sem trazer investimento, educação ou cultura. Rakhel Rios não vai votar e chama o confronto entre os candidatos de "guerra falsa".1
A frase não é um diagnóstico técnico, mas captura o dado que nenhum dos programas enfrenta de frente: um ano depois de 122 mortes, o controle armado do território permanece onde estava. Medir sucesso pela contagem de corpos ou pela aprovação em pesquisa diz pouco sobre a pergunta que importa a quem mora ali, que é saber quem manda na esquina no dia seguinte. É por esse critério, mais do que pelo tom dos discursos, que o vencedor de domingo deverá ser cobrado.
Perguntas frequentes
Por que a segurança pública é o principal tema da eleição de 2026?
A violência lidera as preocupações do eleitorado nas pesquisas Quaest de 2026, citada por 33% em agosto e 31% no início de setembro, cerca do dobro da economia. A Operação Contenção e a expansão nacional de PCC e Comando Vermelho colocaram o tema no centro da campanha.
A violência no Brasil aumentou ou diminuiu?
Depende do indicador. As mortes violentas intencionais caíram para 19,1 por 100 mil habitantes em 2025, a menor taxa desde 2012. Já as mortes por intervenção policial bateram recorde, com 6.602 vítimas, e a presença de facções e milícias nos bairros se ampliou.
O que foi a Operação Contenção?
Operação policial realizada em 28 de outubro de 2025 nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio, contra lideranças do Comando Vermelho. Mobilizou cerca de 2.500 policiais e terminou com 122 mortos, segundo o FBSP. O Ministério Público do Rio conduz investigação autônoma sobre as mortes.
Quais são as propostas de Lula e Flávio Bolsonaro para a segurança?
Flávio Bolsonaro propõe tratar facções como narcoterroristas, reduzir a maioridade penal para 16 anos e construir presídios no modelo de El Salvador. Lula defende a PEC da Segurança Pública, um Ministério da Segurança Pública, asfixia financeira das facções, controle de armas e câmeras corporais.
O que muda com a designação de PCC e CV como terroristas pelos EUA?
Desde junho de 2026, os EUA podem bloquear bens e restringir operações financeiras das facções sob jurisdição americana. O governo brasileiro tentou evitar a medida por temer sanções e o uso do enquadramento para justificar ações militares.
O que é a PEC da Segurança Pública?
A PEC 18/2025 constitucionaliza o SUSP, amplia o papel da Polícia Federal contra facções interestaduais e mantém o comando das polícias com os governadores. Aprovada na Câmara, passou pela CCJ do Senado em 2 de setembro de 2026; um destaque adiou a votação em plenário.