Ministros da Fazenda e presidentes de bancos centrais chegaram a Bangkok para as reuniões anuais do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, realizadas de 12 a 18 de outubro, com uma agenda dominada pela guerra no Oriente Médio, pelo preço da energia e pelo endividamento público. É a primeira vez em três anos que o encontro acontece fora de Washington4. O dado central da semana, no entanto, contraria o tom sombrio do evento: segundo o novo World Economic Outlook, o FMI elevou sua projeção de crescimento mundial para 2026 de 3% para 3,1% e manteve 3,4% para 20272.
A economia global, em resumo, atravessou um ano de guerra regional prolongada, choque de petróleo e tensão comercial entre Estados Unidos e China sem entrar em crise aberta. A pergunta que move este texto é se essa resistência é estrutural ou apenas temporária. A resposta mais honesta, a partir dos números disponíveis, é que ela foi comprada com recursos que estão se esgotando.
Por que o choque do petróleo não derrubou o crescimento
Em coluna publicada nesta quinta-feira no The Guardian, o colunista Larry Elliott observa que choques de petróleo dessa magnitude costumavam produzir efeitos rápidos e profundos sobre a atividade, o que desta vez não ocorreu. Ele aponta três amortecedores: o investimento massivo em inteligência artificial, sobretudo nos Estados Unidos; o uso dos estoques de petróleo para compensar a perda de oferta do Oriente Médio; e a estratégia chinesa de exportar bens baratos, que segura os preços de importação no resto do mundo1.
Os dados de outras fontes confirmam o diagnóstico e mostram seus limites. A Agência de Informação de Energia dos EUA (EIA) estima que os estoques globais de petróleo recuaram cerca de 400 milhões de barris neste ano, e elevou sua projeção para o preço médio do Brent em 2026 de US$ 87 para US$ 918. O amortecedor, portanto, tem fundo. E o FMI reconhece que o crescimento ficou mais desigual: países que se beneficiam do investimento em IA avançam melhor que importadores de energia e economias de renda baixa2. Pela leitura do Fundo, as economias avançadas tiveram a projeção para 2026 elevada para 2,1%, enquanto os emergentes e em desenvolvimento foram revisados para baixo, a 3,7%3.
Os sinais de esgotamento
O conflito já não está restrito ao Irã. Em setembro, ataques à infraestrutura energética da Arábia Saudita suspenderam embarques no porto de Yanbu e levaram o Brent a fechar em US$ 108,757. Dias depois, o barril recuou para perto de US$ 104, com a expectativa de que os sauditas recuperassem metade da capacidade do oleoduto Leste-Oeste; analistas lembraram que seria a primeira vez desde 1973 que o país poderia ficar de fato fora do mercado7.
Na véspera das reuniões, a diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, resumiu o quadro com uma frase curta: "o inverno está chegando"4. Em seu discurso de abertura, em Singapura, descreveu uma economia puxada em duas direções: um choque negativo de oferta vindo do Oriente Médio e um choque positivo de demanda vindo da inteligência artificial, que também alimenta a inflação6.
O terceiro vetor é fiscal. O Fundo projeta que a dívida pública global, já no nível mais alto desde a Segunda Guerra, ultrapasse 100% do PIB antes de 2030. Os países em desenvolvimento enfrentam neste ano cerca de US$ 400 bilhões em pagamentos a credores externos, e os juros já consomem, em média, mais de 10% de suas receitas4. Elliott acrescenta um efeito menos discutido: a corrida americana por investimento em IA encarece o crédito e drena capital de setores que não estão ligados à tecnologia1. Para economias emergentes que dependem de financiamento externo, isso significa competir por recursos mais caros num momento em que precisam rolar dívidas.
O Brasil no mapa do FMI
Para o Brasil, a edição de outubro, intitulada "Resiliência sob pressão, escolhas urgentes", trouxe revisão para baixo. A projeção de crescimento para 2026 passou de 2,4% para 2,2%, e a de 2027, de 2,2% para 1,9%, depois de uma expansão de 2,3% em 2025. O Fundo atribui a desaceleração aos juros ainda restritivos, à retirada de estímulos fiscais e à incerteza externa, segundo reportagem da Folha de Pernambuco3. A estimativa ainda fica acima da do próprio governo: o Boletim Macrofiscal da Secretaria de Política Econômica, de setembro, reduziu a previsão de 2,3% para 2,0%11.
O pano de fundo monetário explica boa parte disso. O Copom iniciou em março um ciclo de cortes de 0,25 ponto e, em agosto, levou a Selic a 14% ao ano, ainda em terreno fortemente restritivo. Na mesma reunião, o comitê projetou IPCA de 5,1% para 2026, acima do teto de 4,5% da meta, e classificou os riscos inflacionários como assimétricos para cima9. Em termos práticos, o choque do petróleo chega ao país pela inflação e é respondido com juros, o que pesa sobre crédito, consumo e investimento.
Há, porém, uma ambivalência que distingue o Brasil de importadores líquidos de energia. O próprio relatório do FMI cita o país entre os que ampliaram a produção de petróleo para compensar a perda de oferta do Oriente Médio11. Preços altos favorecem a balança comercial e a arrecadação ligada ao setor, mas pressionam combustíveis, frete e insumos agrícolas importados, como os fertilizantes. O saldo depende da duração do conflito: quanto mais longo, maior o peso do lado inflacionário.
No campo fiscal, o alerta é antigo e se agravou. No Monitor Fiscal de abril, o FMI projetou dívida bruta brasileira de 96,5% do PIB ao fim de 2026 e passou a prever que o indicador atinja 100% do PIB em 2027, recomendando reforçar o arcabouço fiscal com âncoras de médio prazo10. Com juros reais elevados e um ano eleitoral em curso, o país se encaixa no grupo que Georgieva tem em mente quando cobra planos críveis de consolidação.
A crise da cooperação internacional
O ponto mais provocador da coluna de Elliott não está nos números, e sim na arquitetura. Ele argumenta que a Organização Mundial do Comércio perdeu relevância na nova era de protecionismo e que FMI e Banco Mundial evitam confrontar o comportamento errático de Washington. Mais do que isso, sustenta que o problema é anterior ao governo Trump: a ordem liberal administrada por essas instituições já funcionava mal antes dele1.
Elliott se apoia em um artigo do ex-funcionário da ONU Richard Kozul-Wright, com publicação prevista para novembro. A tese, em síntese, é que as instituições criadas em Bretton Woods, em 1944, se afastaram dos princípios do New Deal que as inspiraram, como intervenção estatal, política industrial ativa, busca do pleno emprego e apoio ao desenvolvimento dos países pobres. No lugar disso, teriam promovido mobilidade irrestrita de capital e redução do espaço de política econômica dos governos, contribuindo para desigualdade e endividamento1.
O colunista ilustra o argumento com a condicionalidade dos programas do Fundo, que concentram aumentos de impostos e cortes de gastos nos primeiros anos, e com o critério de sucesso adotado: não precisar de um novo programa em três anos, o que não equivale a melhora do padrão de vida1. A crítica encontra eco fora do jornal britânico. Iolanda Fresnillo, da rede europeia Eurodad, disse à Reuters que países já cortam despesas porque o serviço da dívida subiu e por causa das exigências do FMI4.
O argumento do FMI e de quem defende ajuste
A leitura do Fundo é que crescimento mais alto deixou de ser suficiente para resolver os problemas fiscais. Georgieva cobra das economias avançadas mais endividadas planos de consolidação de médio prazo, em alguns casos com medidas imediatas, inclusive para aliviar a pressão sobre a política monetária6. Nessa visão, ajuste fiscal e cooperação não se opõem: a própria Georgieva afirmou que países cooperam por interesse próprio, e não por caridade5.
Também há limites práticos para a agenda de mais espaço fiscal. Elliott reconhece que a capacidade dos Estados de agir é menor do que admitem e que uma nova onda de austeridade teria custo político alto1. Para países como o Brasil, com dívida próxima de 100% do PIB e juros reais elevados, ampliar investimento público sem âncora crível tende a ser cobrado pelo mercado na forma de juros ainda maiores. O debate real está menos em escolher entre ajuste e investimento e mais em como financiar o segundo sem perder o primeiro.
O que observar nos próximos meses
Três variáveis devem definir se a resistência de 2026 se sustenta. A primeira é o petróleo: com estoques em queda, a margem para absorver nova interrupção na oferta saudita é menor do que no início da guerra. A segunda é o custo do dinheiro: a disputa por capital entre o investimento em IA e a rolagem das dívidas públicas pode manter os juros globais altos por mais tempo. A terceira, para o Brasil, é a combinação entre inflação acima do teto, reunião do Copom de 3 e 4 de novembro e a credibilidade da política fiscal num ano eleitoral.
Elliott conclui que a paz no Oriente Médio derrubaria o petróleo, mas que, sem ela, o mundo deve enfrentar um inverno longo1. O próprio FMI adverte que um conflito prolongado manteria energia e alimentos caros, com menos crescimento e mais inflação2. A resiliência deste ano é real, mas foi construída sobre estoques, crédito e importações baratas, três recursos que não se renovam no mesmo ritmo em que são consumidos.
Perguntas frequentes
Qual é a previsão do FMI para o crescimento mundial em 2026?
No World Economic Outlook de outubro de 2026, divulgado durante as reuniões anuais em Bangkok, o FMI projetou crescimento global de 3,1% em 2026, acima dos 3% estimados em julho, e manteve 3,4% para 2027.
Quanto o FMI prevê que o Brasil cresça em 2026?
O FMI projeta crescimento de 2,2% para o PIB brasileiro em 2026, abaixo dos 2,4% previstos em julho, e de 1,9% em 2027. O Fundo cita juros restritivos, retirada de estímulos fiscais e incerteza global.
Por que a economia global resistiu ao choque do petróleo de 2026?
Segundo análise de Larry Elliott no The Guardian, três fatores amorteceram o choque: o investimento em inteligência artificial, o uso de estoques de petróleo e as exportações chinesas de baixo custo, que contiveram os preços de importação.
O que Kristalina Georgieva quis dizer com "o inverno está chegando"?
A diretora-gerente do FMI alertou que preços altos de energia, dívida pública recorde e riscos ligados ao boom de IA ameaçam um crescimento ainda frágil, e cobrou planos fiscais críveis das economias mais endividadas.
Como a guerra no Oriente Médio afeta o Brasil?
O efeito é duplo. Como produtor de petróleo, o Brasil ganha com exportações mais valorizadas. Ao mesmo tempo, combustíveis, frete e fertilizantes mais caros pressionam a inflação, que segue acima do teto da meta e mantém a Selic em patamar elevado.