Depois de décadas em que a confiança no dólar era tratada quase como lei física da economia global, os sinais de desgaste começam a se acumular. Investidores exigem prêmios maiores para financiar a dívida americana, bancos centrais recompõem suas reservas com ouro e alguns governos, incluindo o brasileiro, retiram parte de suas fichas da mesa dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos.1
O pano de fundo é conhecido: uma dívida pública americana que já ultrapassa US$ 40 trilhões, equivalente a cerca de 123% do PIB do país, e um governo que, sob Donald Trump, tem usado sanções financeiras com mais frequência como instrumento de política externa.5 Nesta semana, o rendimento dos títulos de 10 anos do Tesouro americano superou a marca de 5%, o nível mais alto desde 2007, refletindo a exigência de retornos maiores por parte de quem financia essa dívida.1
Em depoimento ao Congresso na terça-feira, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, tentou conter o desconforto. Disse que os leilões de títulos seguem funcionando normalmente e que o dólar continua líder disparado nas transações globais, afirmando que a moeda americana "não teme a competição".1 É verdade que quase 90% das transações cambiais no mundo ainda passam pelo dólar, e que capital privado continua migrando para ações e para a infraestrutura de inteligência artificial nos Estados Unidos.1
Mas a fotografia de longo prazo conta outra história. A participação do dólar nas reservas mantidas por bancos centrais ao redor do mundo caiu de 64% em 2015 para 56% no fim de 2025, segundo dados compilados a partir do Fundo Monetário Internacional.1 Em paralelo, o ouro assumiu um papel cada vez mais central: em 2025, pela primeira vez, as reservas internacionais globais em ouro superaram as reservas oficiais em títulos do Tesouro americano, e o preço do metal ultrapassou os US$ 5.000 por onça troy.1
Participação do dólar nas reservas internacionais declaradas ao FMI, em % do total. Fonte: FMI (COFER), citado em análise do NYT.1
O componente geopolítico é decisivo nessa reorganização. Ao transformar o dólar em arma de política externa por meio de sanções contra países como Irã e Rússia, Washington deu a outros governos um motivo concreto para reduzir sua dependência do sistema financeiro americano.1 Em agosto, Bessent anunciou a chamada Operação Economic Outcast, voltada a asfixiar a economia iraniana e ameaçando sanções secundárias contra qualquer país que mantenha laços econômicos com Teerã, medida que o próprio secretário reconheceu poder "explodir o sistema financeiro global" caso seja aplicada em sua totalidade.1
"A história de se afastar do dólar é uma das mais antigas que existem. A diferença agora é que a tecnologia torna esse movimento mais barato e mais fácil do que antes."
É o que resume Josh Lipsky, do Atlantic Council, citado no levantamento original que embasa esta análise.1 A tecnologia à qual ele se refere aparece sobretudo em plataformas de moeda digital de banco central. O projeto mBridge, liderado pela China em parceria com Hong Kong, Tailândia, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, já processou algo próximo de US$ 69 bilhões em liquidações transfronteiriças e caminha para uma fase de comercialização, oferecendo tarifas bem abaixo das cobradas pelo sistema Swift.3 Rússia e Índia, por sua vez, discutem um mecanismo próprio para liquidar comércio bilateral com moedas digitais de banco central, reduzindo a exposição a instituições financeiras ocidentais.1
Some-se a isso um gesto simbólico, mas relevante: bancos centrais europeus retomaram a repatriação de ouro mantido em cofres nos Estados Unidos. O banco central da Holanda transferiu parte expressiva de suas 95 toneladas de reservas em ouro que estavam em solo americano, e o Banco da França já havia retirado 129 toneladas do Federal Reserve de Nova York em março, ambos citando instabilidade geopolítica crescente.1
O Brasil também recalcula a rota
O movimento de diversificação não é exclusividade de potências rivais dos Estados Unidos. O Banco Central do Brasil, sob a presidência de Gabriel Galípolo, vendeu cerca de US$ 61 bilhões em títulos do Tesouro americano entre outubro de 2024 e outubro de 2025, dentro de uma janela em que China e Índia também reduziram suas posições, em US$ 71,4 bilhões e US$ 50,7 bilhões respectivamente.2
Na outra ponta, a autoridade monetária brasileira retomou compras de ouro depois de um hiato de quatro anos: entre setembro e novembro de 2025 foram 42,8 toneladas adquiridas, um salto de 33% nas reservas do metal em relação ao ano anterior.4 Estudos do Observatório de Política Externa e da Inserção Internacional do Brasil apontam que a estratégia combina ouro com moedas como o renminbi, o dólar canadense, o dólar australiano e o won sul-coreano, buscando reduzir riscos sem romper com o dólar como referência central do sistema.4
Levantamentos do Ipea e análises de mercado locais reforçam que o cenário externo, marcado por juros americanos elevados e incerteza fiscal, tem efeito direto sobre o câmbio e o custo de capital no Brasil, ainda que o fluxo cambial no país tenha permanecido positivo neste ano.6 Mesmo assim, pesquisadores da área são cautelosos quanto ao ritmo dessa mudança: descrevem o processo de desdolarização brasileiro como "gradual e incipiente", não como uma ruptura.4
Contraponto
Nem todos leem esses sinais como o início de uma virada estrutural. Analistas de mercado ouvidos em painéis recentes ponderam que, apesar da diversificação em curso, ninguém no horizonte de dez anos vislumbra uma moeda capaz de substituir o dólar em escala comparável, e que parte do capital que sai de títulos longos pode simplesmente buscar ouro ou francos suíços, sem abandonar o sistema financeiro americano como um todo.5 O próprio Bessent argumenta que quem aposta contra a economia americana subestima sua força estrutural, e defende que a liderança do dólar não teme a concorrência.1 Trata-se, portanto, de uma diversificação de risco, não de um divórcio.
O que parece consensual, inclusive entre vozes mais céticas quanto à desdolarização, é que o custo de se apoiar apenas nos Estados Unidos como porto seguro está mudando. Empresas europeias já hesitam em depender de infraestrutura tecnológica americana sensível, como a de inteligência artificial, temendo que ela possa ser usada como instrumento de pressão em disputas comerciais, como já ocorreu em conflitos com China e Rússia.1 A pergunta que resta, tanto em Brasília quanto em outras capitais, não é mais se a hegemonia do dólar é eterna, mas o quanto de margem de manobra vale a pena construir enquanto ela ainda dura.
Perguntas frequentes
Por que os investidores estão exigindo juros mais altos para comprar títulos americanos?
Porque a dívida pública dos Estados Unidos, hoje acima de US$ 40 trilhões, e o uso mais frequente de sanções financeiras aumentam a percepção de risco. Isso elevou o rendimento dos títulos de 10 anos para acima de 5%, o maior patamar desde 2007.
O ouro está substituindo o dólar como reserva de valor?
Não substitui, mas ganha espaço. Em 2025, pela primeira vez, as reservas internacionais globais em ouro superaram as reservas oficiais em títulos do Tesouro americano, com o preço do metal passando de US$ 5.000 por onça.
O que o Brasil fez em relação às suas reservas internacionais?
O Banco Central do Brasil, sob Gabriel Galípolo, vendeu cerca de US$ 61 bilhões em títulos do Tesouro americano entre outubro de 2024 e outubro de 2025 e comprou 42,8 toneladas de ouro entre setembro e novembro de 2025, um aumento de 33% nas reservas em metal.
Existe uma alternativa real ao dólar hoje?
Ainda não em escala equivalente. O dólar segue presente em quase 90% das transações cambiais globais. O que existe são iniciativas paralelas, como o mBridge chinês e acordos bilaterais entre Rússia e Índia, que reduzem a dependência do sistema americano em nichos específicos, sem substituí-lo.