Tecnologia · Economia da IA

Um estudo recente do Cetic.br mostra que a adoção de inteligência artificial nas empresas brasileiras saltou de 13% para 17% entre 2024 e 2025, com as grandes companhias já passando de 38% para 50% de penetração1. É um salto real, mas ele convive com uma pergunta que o mercado global ainda não respondeu de forma satisfatória: o que exatamente sustenta os retornos bilionários que os investidores esperam desse ciclo? O economista Joseph Stiglitz, prêmio Nobel e um dos críticos mais persistentes das assimetrias de mercado, dedicou um ensaio recente no Financial Times a essa lacuna, argumentando que o entusiasmo com a IA carece de um roteiro econômico claro para a transição que promete2.

O otimismo sem mapa

Segundo Stiglitz, os defensores da IA prometem uma era de abundância material, na qual ganhos de produtividade quase ilimitados aliviariam restrições econômicas estruturais2. O problema, argumenta ele, é que essa narrativa raramente vem acompanhada de um plano de transição comparável ao que aconteceu em revoluções tecnológicas anteriores. Na passagem do trabalho rural para o industrial, trabalhadores deslocados eventualmente encontraram emprego nas fábricas, ainda que à custa de longos períodos de desemprego e perda de renda2. Já a promessa atual de que sobrarão vagas para artistas, baristas qualificados ou serviços voltados à nova elite tecnológica não responde a uma questão central: haverá emprego suficiente, bem remunerado e satisfatório para a maioria dos trabalhadores de amanhã2?

O pano de fundo dessa incerteza inclui até avaliações internas do próprio setor. Um pesquisador de segurança da Anthropic chegou a declarar publicamente uma probabilidade superior a 10% de que sistemas avançados de IA possam causar dano catastrófico à humanidade dentro de uma década, o que ilustra o quanto o ritmo de avanço da tecnologia ainda é incerto até para quem a constrói2.

Três condições para os lucros prometidos

Para que os investidores obtenham os retornos que hoje precificam, Stiglitz aponta três condições que precisam se sustentar simultaneamente: baixa concorrência entre provedores de IA, ritmo acelerado de lançamento de novas capacidades e uma macroeconomia bem administrada durante a transição2. Ele avalia que a terceira condição é a mais frágil. A IA representa uma perturbação de grande escala sobre emprego e renda, e os instrumentos macroeconômicos tradicionais não se saíram bem em crises anteriores, como o estouro da bolha das pontocom em 2000 e a crise imobiliária de 2007 a 20082. Se o consumo enfraquecer por causa de desemprego ou desigualdade crescente, os lucros das próprias empresas de IA ficam comprometidos, já que dependem, em última instância, da demanda das famílias.

Como uma economia sem empregos poderia ser considerada uma economia boa? Paráfrase do argumento de Joseph Stiglitz, Financial Times

Concentração de mercado: o fator que decide quem ganha

A segunda variável, concorrência, é tratada por Stiglitz como determinante para saber se os benefícios da IA chegarão aos consumidores ou ficarão concentrados em poucas gigantes de tecnologia e seus acionistas. Ele lembra que a teoria econômica convencional prevê que a concorrência tende a zerar margens de lucro ao longo do tempo, mas que empresas como Google e Meta mantiveram lucros elevados por anos justamente por acumularem vantagens de dados difíceis de replicar, muitas vezes reforçadas por práticas anticompetitivas de detecção difícil2.

O ângulo é relevante para o Brasil. O Cade tem ampliado seu escrutínio sobre operações digitais envolvendo inteligência artificial, tendo determinado a notificação formal de negócios como a parceria entre Microsoft e Inflection AI, mesmo sem faturamento relevante do alvo no país, além de abrir procedimentos sobre movimentos do Google com a Windsurf e a Hume AI3. O entendimento da autarquia é que, quando uma transação transfere talento, propriedade intelectual e conhecimento técnico sem gerar receita expressiva localmente, o valor competitivo em jogo está nos ativos, não no balanço contábil3.

Contraponto

Nem todo o mercado financeiro compartilha o diagnóstico de bolha. Defensores do ciclo atual de investimento argumentam que a demanda por capacidade computacional de IA segue superando amplamente a oferta disponível, o que justificaria, ao menos por ora, o volume recorde de gastos em infraestrutura. A Moody's estimou que os grandes provedores de nuvem devem investir cerca de US$ 700 bilhões em infraestrutura só em 2026, seis vezes o volume registrado em 2022, e atribuiu esse salto à escassez de capacidade diante da demanda, não a excesso especulativo4.

Também há quem veja a regulação com desconfiança simétrica à de Stiglitz, mas em sentido oposto: para parte do setor de tecnologia, regras mais rígidas travariam justamente a inovação que poderia gerar os empregos e ganhos de produtividade que a crítica cobra. Stiglitz rebate esse argumento chamando-o de equivocado, e defende que a ausência de responsabilização é que tem permitido danos evitáveis, citando o acordo de US$ 17 bilhões fechado pela Meta para encerrar processos sobre danos a jovens nos Estados Unidos como evidência de que os riscos das plataformas digitais já eram conhecidos antes da IA generativa2.

O vácuo regulatório e o caso do "fair use"

O segundo pilar da agenda que Stiglitz propõe é a regulação. Ele observa que, por mais de três décadas, parte do setor de tecnologia defendeu isenção de responsabilidade legal, amparada nos Estados Unidos pela Seção 230 da Lei de Decência nas Comunicações de 1996, que blindou plataformas digitais de obrigações que sempre recaíram sobre veículos de mídia tradicionais2. Para ele, o sistema jurídico atual não foi desenhado para lidar com IA, e cita como exemplo o critério de "uso justo" que empresas de IA invocam para treinar modelos com livros protegidos por direitos autorais, um entendimento que prevaleceu em ação coletiva movida por autores contra a Anthropic e que resultou em acordo de US$ 1,5 bilhão, equivalente a cerca de US$ 3 mil por autor cuja obra foi usada em cópia pirata2.

No Brasil, o quadro regulatório segue em construção. O PL 2338/2023, aprovado por unanimidade no Senado em dezembro de 2024, aguarda parecer final na Câmara dos Deputados e prevê classificação de sistemas de IA por risco, direitos como o de não discriminação algorítmica e multas de até R$ 50 milhões por infração5. A tramitação foi ainda mais complicada por um vício de iniciativa identificado pelo Poder Executivo, que enviou em dezembro de 2025 um projeto complementar para formalizar o papel da Autoridade Nacional de Proteção de Dados como coordenadora do futuro sistema nacional de governança de IA5. Enquanto o marco específico não avança, o país segue regulando a IA por meio de normas setoriais e da LGPD.

O ângulo brasileiro: adoção acelerada, empregos em disputa

Os números de adoção corporativa brasileira reforçam por que o debate de Stiglitz não é apenas um exercício acadêmico distante. Além do crescimento medido pelo Cetic.br, relatórios de mercado apontam aumento expressivo na demanda por profissionais com conhecimento em IA no país, ao mesmo tempo em que o setor de tecnologia já registra cortes de vagas associados à automação de tarefas administrativas e de suporte6. É exatamente o dilema descrito no ensaio: ganhos de produtividade concentrados em poucas funções especializadas, enquanto ocupações sem diferencial claro em relação ao software perdem espaço.

Análises do setor financeiro brasileiro, como as publicadas pela FGV IBRE, têm adotado a mesma lente usada por Stiglitz, tratando o impacto da IA em termos de tarefas deslocadas, tarefas recriadas e tarefas com produtividade ampliada, em vez de tratar o problema como simples substituição de empregos inteiros7. A distinção importa para o desenho de políticas públicas: um debate focado só em número de vagas eliminadas tende a ignorar a recomposição de funções que já está em curso dentro das empresas.

O que fica da euforia, se a bolha estourar

Stiglitz encerra seu argumento com uma ressalva pouco otimista, mas também pouco alarmista. Se a concorrência corroer os lucros esperados pelos investidores e a bolha de IA estourar, a sociedade pode descobrir que investiu além da conta em data centers, com perdas financeiras relevantes para quem apostou alto2. Ainda assim, ele pondera que, com uso pleno das ferramentas macroeconômicas disponíveis, é possível administrar essa transição, e que o legado de capacidade instalada, os data centers e a geração de energia associada a eles, continuaria disponível para usos futuros2. A leitura de fundo é que o problema não está na tecnologia em si, mas nas escolhas institucionais que decidirão quem colhe seus ganhos e quem arca com seus custos.

Este artigo usa como ponto de partida e crédito principal o ensaio de Joseph Stiglitz publicado pelo Financial Times em sua série The Weekend Essay. Trechos não são traduzidos nem reproduzidos integralmente; leia o texto original em ft.com.

Perguntas frequentes

Por que Joseph Stiglitz questiona o otimismo em torno da IA?

Porque, segundo ele, os defensores da tecnologia prometem ganhos de produtividade e novos empregos sem apresentar um plano de transição econômica comparável ao de revoluções tecnológicas anteriores, deixando em aberto se haverá vagas suficientes, bem pagas e satisfatórias para a maioria dos trabalhadores.

Quais são as três condições que sustentariam os lucros esperados da IA?

Baixa concorrência entre provedores, ritmo acelerado de lançamento de novas capacidades e uma macroeconomia bem administrada durante a transição. Para Stiglitz, a terceira é a mais frágil, já que crises anteriores mostraram limites nos instrumentos macroeconômicos disponíveis.

Como o Cade tem tratado negócios de inteligência artificial envolvendo big techs?

O órgão tem exigido notificação formal mesmo em operações sem faturamento relevante do alvo no Brasil, entendendo que a transferência de talento, propriedade intelectual e conhecimento técnico já configura valor competitivo relevante, como no caso da parceria entre Microsoft e Inflection AI.

Em que ponto está a regulação de IA no Brasil?

O PL 2338/2023 foi aprovado pelo Senado em dezembro de 2024 e aguarda parecer final na Câmara dos Deputados, com previsão de classificação de risco, direitos para pessoas afetadas por sistemas de IA e multas de até R$ 50 milhões. Um vício de iniciativa identificado pelo Executivo ainda adiciona complexidade à tramitação.

O que aconteceria se a chamada bolha da IA estourasse?

Segundo Stiglitz, a sociedade poderia descobrir que investiu além da conta em data centers, gerando perdas financeiras relevantes. Ainda assim, com uso pleno de ferramentas macroeconômicas, a transição seria administrável, e a infraestrutura de dados e energia construída permaneceria disponível para usos futuros.