Tecnologia

Uma foto de gato encontrado, um vídeo de urso polar sendo resgatado por marinheiros, um bezerro separado da mãe em um pátio imaculado demais para ser real. Cenas assim sempre mobilizaram audiências nas redes sociais por despertarem compaixão quase instantânea. O problema é que hoje boa parte desse conteúdo simplesmente não existe fora dos servidores de um gerador de imagens. Reportagem da revista americana Wired mostra como a proliferação de vídeos e fotos de animais criados por inteligência artificial está corroendo um dos gêneros mais confiáveis e lucrativos da internet, a ponto de transformar publicações genuínas de ONGs e tutores em alvo de suspeita.

O golpe chegou também ao Brasil

O caso relatado pela Wired envolve Mibbby Butler, moradora da região de Los Angeles que recebeu a foto de seu gato desaparecido, Brooklyn, supostamente encontrado por um estranho. A imagem parecia idêntica ao cartaz de "procura-se" que ela havia distribuído, com o mesmo fundo de cozinha, mas um rótulo de embalagem aparecia com o texto embaralhado, sinal clássico de geração por IA. Butler não pagou o resgate pedido e, quatro meses depois, o gato segue desaparecido.

O padrão não é exclusividade americana. Reportagens publicadas nos últimos meses mostram que tutores em Belo Horizonte também passaram a receber fotos falsas de cães e gatos supostamente encontrados, geradas por IA para justificar cobranças de Pix[2]. Administradoras de páginas dedicadas a animais perdidos na cidade relatam receber prints de conversas nas quais golpistas usam imagens sintéticas do próprio animal, extraídas dos anúncios publicados pelas famílias, para simular provas de que o bicho está em segurança e sob custódia temporária[2]. Casos semelhantes, com pedidos de dinheiro para combustível, veterinário ou hospedagem do animal, também foram documentados em outras cidades do país ao longo de 2026[3].

"A gente agora está vendo que confiar nos nossos olhos está se tornando um problema." Raphael Chaia, advogado, sobre golpes com IA envolvendo pets desaparecidos[3]

Quando a compaixão vira alvo de desconfiança

O efeito colateral mais delicado, segundo a Wired, atinge quem produz conteúdo real. A organização não governamental We Animals, que publica o trabalho de 175 fotojornalistas documentando maus-tratos a animais em fazendas, circos e laboratórios, começou a ser acusada de usar IA justamente porque suas imagens são chocantes demais para parecerem espontâneas, mesmo proibindo terminantemente o uso da tecnologia entre seus colaboradores. Para reconstruir a confiança do público, a entidade afirma que passará a divulgar bastidores da apuração e a adotar tecnologia de proveniência digital, que registra o histórico de edição de cada arquivo dentro do próprio material.

O filósofo e ativista Oscar Horta, citado na reportagem original, resume o incômodo maior: como o conteúdo sintético é muito mais barato de produzir, ele tende a afogar o material genuíno nos feeds e nos resultados de busca, prejudicando a arrecadação de causas de bem-estar animal justamente quando eventos climáticos extremos tornam esse tipo de resgate mais frequente e mais necessário.

O que diz a regulação, no Brasil e fora dele

Parte da resposta ao problema está migrando do campo técnico para o jurídico. Na União Europeia, entrou em vigor em 2 de agosto de 2026 a obrigatoriedade de rotulagem de conteúdo gerado por inteligência artificial, prevista no AI Act, que passa a exigir marcação técnica embutida em imagens e vídeos sintéticos produzidos pelos principais geradores[5]. No Brasil, o Projeto de Lei 2.338/2023, aprovado pelo Senado e hoje em tramitação na Câmara dos Deputados, segue linha semelhante, com dispositivos voltados à transparência e à rotulagem de conteúdos sintéticos, embora o desenho final da fiscalização, incluindo o papel da Autoridade Nacional de Proteção de Dados, ainda esteja em disputa[4][5].

Fora do campo eleitoral, onde o Tribunal Superior Eleitoral já exige identificação de material sintético na propaganda de 2026, a legislação brasileira sobre deepfakes de animais e golpes patrimoniais ainda depende, na prática, do Código Penal e do Marco Civil da Internet, o que deixa vítimas como as de Belo Horizonte dependentes de orientação informal, como a recomendação de nunca antecipar pagamento e sempre exigir provas adicionais de posse do animal antes de qualquer transferência[2].

Contraponto

Nem todos veem a rotulagem obrigatória como solução definitiva. Especialistas em governança de dados apontam que marcas d'água e metadados de proveniência podem ser removidos ou burlados por ferramentas de edição, criando uma falsa sensação de segurança para quem consome o conteúdo. Há também quem argumente que regras rígidas demais podem onerar desproporcionalmente pequenas ONGs e páginas voluntárias de resgate, que não têm estrutura jurídica para comprovar a autenticidade de cada imagem publicada, enquanto grandes plataformas seguem lucrando com a circulação do material, verdadeiro ou não.

Como reduzir o risco de cair em um golpe

Recursos de verificação já embutidos em assistentes de IA, como os disponíveis no ChatGPT, no Gemini e no Meta AI, conseguem identificar se uma imagem foi gerada pela própria ferramenta, mas o uso ainda depende de o usuário lembrar de checar cada foto recebida, algo pouco realista em um momento de aflição emocional. Até que a verificação seja incorporada por padrão em aplicativos de mensagem e navegadores, especialistas brasileiros recomendam desconfiar de fotos que cheguem por contato espontâneo pouco depois da publicação de um anúncio, observar inconsistências em textos de rótulos e placas ao fundo da imagem, jamais fazer qualquer pagamento antecipado e formalizar denúncia às autoridades, inclusive pelo número 181, sempre que houver tentativa de extorsão[6].

Esta reportagem foi baseada, em parte, na matéria "AI Slop Is Ruining Cute Animals on the Internet", publicada pela revista Wired em agosto de 2026. Fonte original: wired.com/story/ai-slop-is-ruining-the-internets-cute-animal-economy.

Perguntas frequentes

O que é "AI slop" no contexto de vídeos de animais?

É o termo usado para descrever a enxurrada de imagens e vídeos de baixa qualidade editorial, gerados em massa por inteligência artificial, que imitam cenas comoventes de animais para captar engajamento, cliques e receita de anúncios nas redes sociais.

Como funciona o golpe do pet supostamente encontrado?

Golpistas monitoram anúncios de animais desaparecidos, usam a própria foto divulgada pelo tutor para gerar, com IA, uma nova imagem do bicho em um cenário de "resgate" e depois pedem pagamento antecipado para devolvê-lo, sem nunca ter o animal em mãos.

Existe lei no Brasil que obrigue a identificação de conteúdo feito por IA?

De forma geral, ainda não. A obrigação hoje vale apenas para propaganda eleitoral, conforme regras do TSE para 2026. O Projeto de Lei 2.338/2023, que trata de rotulagem mais ampla de conteúdo sintético, ainda tramita na Câmara dos Deputados.

Como posso verificar se uma imagem de animal foi gerada por IA?

Vale observar detalhes como textos embaralhados em rótulos e placas ao fundo, texturas de pelo ou água pouco naturais e proporções corporais estranhas. Ferramentas como ChatGPT, Gemini e Meta AI também conseguem indicar se geraram determinada imagem, embora o processo ainda exija verificação manual do usuário.

O que fazer se eu for vítima de um golpe assim?

Não realizar nenhum pagamento antecipado, exigir provas concretas de que o animal está com quem entrou em contato, preservar prints da conversa e registrar denúncia junto às autoridades, inclusive pelo número 181, dedicado a denúncias de direitos humanos e crimes correlatos no Brasil.