A democracia que não entrega: o paradoxo brasileiro dentro da crise latino-americana
O Brasil subiu no ranking mundial de democracia liberal e bateu recorde histórico de desenvolvimento humano — mas a confiança nas instituições segue em queda e a polarização afetiva já é vista por sete em cada dez brasileiros como uma ameaça ao regime. Os números mostram por que eleição e legitimidade deixaram de ser sinônimos.
Há uma frase que resume o desconforto de boa parte da ciência política latino-americana neste momento: a região aprendeu a fazer eleições, mas ainda não aprendeu a fazer com que as eleições resolvam problemas. O Brasil ilustra esse paradoxo com uma nitidez incomum. Em março deste ano, o Instituto V-Dem, da Universidade de Gotemburgo, publicou seu Relatório da Democracia 2026 e colocou o país, pela primeira vez em mais de meio século de comparações internacionais, à frente dos Estados Unidos no índice de democracia liberal — o Brasil subiu para a 28ª posição entre 179 países avaliados, enquanto os americanos caíram para o 51º lugar1. Semanas depois, em maio, o PNUD confirmou que o Brasil atingiu pela primeira vez em sua série histórica o patamar de muito alto desenvolvimento humano, com IDHM de 0,805 em 20242.
São dois recordes que, lidos isoladamente, contariam uma história de amadurecimento institucional. Lidos junto com os dados de confiança pública, contam outra: a de um país que aprimora seus indicadores agregados exatamente no momento em que a população se sente menos representada por eles. É esse descompasso — entre desempenho técnico e legitimidade percebida — que dois dirigentes do PNUD, Michelle Muschett e Fernando Carrillo, chamaram recentemente de erosão da "sustentabilidade democrática" da América Latina e do Caribe, em artigo publicado no jornal espanhol El País3. O diagnóstico regional que eles descrevem — desconfiança institucional crescente, polarização, insegurança e desigualdade persistente avançando lado a lado com a consolidação eleitoral — encontra no caso brasileiro um dos exemplos mais completos, e também um dos mais estudados, de como esses dois processos podem divergir dentro de uma mesma democracia.
O que mudou — e o que não mudou
O Relatório de Democracia e Desenvolvimento 2026 do PNUD para a América Latina e o Caribe, lançado em maio, é taxativo ao afirmar que a região continua sendo a mais democrática do mundo em desenvolvimento, mas que menos da metade da população se diz satisfeita com o funcionamento da democracia, e mais de 70% acreditam que os governos atuam em benefício de poucos, não da maioria4. O relatório também registra que a violência política e os protestos sociais na região, medidos a partir de dados do ACLED, cresceram de forma consistente nos últimos anos — um sintoma, segundo o documento, de que a insatisfação deixou de ser apenas de opinião e passou a se expressar nas ruas4.
No Brasil, esse quadro tem uma tradução quase didática. Pesquisas do Latinobarômetro, analisadas por cientistas políticos brasileiros ao longo da última década, mostram um padrão que os pesquisadores chamam de "paradoxo eastoniano": a adesão da população brasileira à democracia como regime é relativamente estável e até cresceu desde que a série histórica começou a ser medida, em 1995 — mas a confiança em instituições centrais da democracia representativa, como partidos políticos, Congresso Nacional e Judiciário, caiu de forma praticamente ininterrupta no mesmo período5. Em outras palavras: o brasileiro não deixou de acreditar na democracia em tese, mas cada vez confia menos nas instituições concretas que deveriam fazê-la funcionar.
Apoia-se o regime democrático mais por norma do que por convicção, abrindo espaço para soluções personalistas — atalho frequente em democracias jovens quando o desalento se espalha.Análise sobre governabilidade brasileira, Fórum CNN, fevereiro de 2026
Um levantamento da Ipsos-Ipec citado em análise do Fórum CNN no início deste ano dá contorno numérico a esse desalento: 58% dos brasileiros dizem que a polarização política enfraquece a democracia, 57% enxergam mais malefícios do que benefícios nela e 72% afirmam se sentir incomodados com o fenômeno. No mesmo levantamento, a democracia é a opção preferida por apenas uma maioria relativa (45%) e a satisfação com seu funcionamento fica em 29%6. É esse tipo de dissonância — apoio abstrato alto, satisfação concreta baixa — que o PNUD identifica como o principal risco à sustentabilidade democrática em toda a região, e que no Brasil ganha contornos particulares às vésperas da eleição presidencial de outubro de 2026.
Um desenvolvimento desigual por dentro do recorde
O recorde de desenvolvimento humano anunciado pelo PNUD em maio merece o mesmo cuidado analítico. O avanço do IDHM brasileiro entre 2012 e 2024 foi puxado sobretudo pela educação, incluindo o efeito de programas de transferência de renda como o Bolsa Família sobre a frequência escolar, segundo a economista Betina Barbosa, coordenadora da Unidade de Desenvolvimento Humano do PNUD no Brasil2. Mas o próprio órgão reconhece que o índice esconde disparidades profundas: quando calculado separadamente por raça, o IDH da população branca chega a 0,851, ante 0,774 entre a população negra — uma diferença que se amplia ainda mais quando ajustada pela renda do trabalho2. Já o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal Ajustado à Desigualdade (IDHMAD), criado pelo PNUD Brasil em parceria com o IBGE e a Fundação João Pinheiro, mostra que a perda de desenvolvimento humano causada pela desigualdade interna do país chega a 22,5%7 — praticamente um quarto do que o país já conquistou é anulado pela forma como esse progresso se distribui entre brasileiros.
Esse é exatamente o mecanismo que Muschett e Carrillo descrevem em escala regional: o Índice de Desenvolvimento Humano da América Latina e do Caribe cai 21% quando ajustado pela desigualdade, tornando a região a mais desigual do mundo mesmo depois de décadas de avanço social3,4. E o ritmo desse avanço está desacelerando de forma expressiva — o PNUD calcula que o crescimento anual do IDH regional, que rondava 0,7% durante um quarto de século, caiu para cerca de 0,2% no período mais recente3, um dado que ecoa o relatório global de 2025 do próprio PNUD, segundo o qual o desenvolvimento humano mundial atravessa a desaceleração mais lenta desde 19908.
Brasil e região em números
posição do Brasil no índice de democracia liberal do V-Dem em 2026 — à frente dos EUA (51º) pela primeira vez1
IDHM brasileiro em 2024, recorde histórico e primeiro ano no patamar de "muito alto" desenvolvimento2
perda de desenvolvimento humano no Brasil quando o índice é ajustado pela desigualdade interna7
satisfação dos brasileiros com o funcionamento da democracia, segundo Ipsos-Ipec (2026)6
latino-americanos que acreditam que seus governos atuam para poucos, não para a maioria4
da população da América Latina e Caribe permanece vulnerável, a um só choque de voltar à pobreza3,4
A eleição de outubro como teste de estresse
É nesse cenário que o Brasil caminha para as urnas em outubro. Análises recentes descrevem 2026 como um ano marcado pela permanência de um mapa de forças já conhecido — o terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, sob pressão fiscal e parlamentar, de um lado; um campo de oposição fragmentado, mas territorialmente fortalecido desde 2022, de outro —, mais do que pela emergência de alternativas capazes de romper a polarização entre os dois campos9,10. O representante residente do PNUD no Brasil, Claudio Providas, resumiu o problema em termos que dialogam diretamente com o artigo de Muschett e Carrillo: segundo ele, boa parte das crises políticas e humanitárias da região está ligada a falhas na promoção do desenvolvimento humano, e os jovens latino-americanos que cresceram já sob regimes democráticos — sem a experiência direta das ditaduras que marcaram gerações anteriores — cobram hoje resultados concretos em emprego, educação e qualidade de vida, não apenas o direito formal de votar11.
Esse comentário ecoa recorrentes ondas de protesto que atingiram Chile, Colômbia, Peru, Equador e México nos últimos anos e que os relatórios do PNUD tratam como sintoma da mesma tensão estrutural: democracias que garantem o processo eleitoral, mas que ainda não conseguem garantir a entrega de resultados que sustentem sua legitimidade no dia a dia da população11. A literatura acadêmica brasileira sobre confiança institucional chama esse fenômeno de "efeito reservatório": o apoio específico a instituições concretas — Congresso, partidos, tribunais — vai se esvaziando ao longo do tempo até comprometer o apoio difuso ao próprio sistema democrático, mesmo quando esse apoio abstrato ainda parece alto em pesquisas de opinião5.
Estado, o elo que falta
O ponto em que o diagnóstico do PNUD se torna mais operacional — e mais relevante para o debate público brasileiro — é a ênfase na capacidade do Estado como variável separada tanto da democracia quanto do desenvolvimento. Um estudo ampliado lançado em outubro de 2025 pelo Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, em parceria com o PNUD e o Centro Latino-Americano de Administração para o Desenvolvimento (Clad), argumenta que mesmo depois de décadas de democratização e de reformas administrativas, a desigualdade na capacidade de entrega de serviços públicos continua sendo o principal ponto cego da governança latino-americana12. Segundo a ministra Esther Dweck, o estudo funciona como "um alerta e um guia estratégico" para investir na capacidade do Estado de entregar resultados efetivos, algo que ela descreve como pré-condição para reconstruir a confiança na democracia12,13.
É esse argumento — democracia, Estado e desenvolvimento como engrenagens interdependentes, e não como agendas paralelas — que aparece no centro do artigo de Michelle Muschett, diretora regional do PNUD para a América Latina e o Caribe, e Fernando Carrillo, vice-presidente do Grupo Prisa, publicado nesta sexta-feira no El País3. Os autores descrevem o Estado como "a bisagra que conecta — ou desconecta" a legitimidade democrática dos resultados de desenvolvimento, e defendem que a região precisa de uma renovação que não é refundação: regenerar a representação política, fortalecer a prestação de contas e adaptar as políticas públicas a um cenário de incerteza que, segundo o World Uncertainty Index citado no artigo, mais do que dobrou na América Latina e no Caribe desde 19903.
Democracia, Estado e desenvolvimento são dimensões inseparáveis: a democracia distribui o poder e processa pacificamente os conflitos; o desenvolvimento humano gera agência e legitimidade; e o Estado é a bisagra que conecta — ou desconecta — os dois anteriores.Michelle Muschett e Fernando Carrillo, El País, 3 de julho de 2026
Transposto para o caso brasileiro, esse argumento ajuda a explicar por que um país pode simultaneamente subir no ranking de democracia liberal do V-Dem, bater recorde de desenvolvimento humano e ver a confiança em suas instituições continuar em queda: os três indicadores medem coisas diferentes, e nenhum deles, isoladamente, mede se o Estado brasileiro está entregando resultados que o cidadão comum reconhece no seu cotidiano — segurança, educação de qualidade, mobilidade urbana, previsibilidade econômica. É esse hiato entre indicadores agregados e experiência concreta que os pesquisadores do PNUD, e também a literatura brasileira sobre confiança política, apontam como o verdadeiro campo de disputa das eleições de outubro.
Nenhum desses dados permite prever o resultado da eleição presidencial. Mas ajuda a explicar por que ela deve ser lida menos como um duelo entre dois nomes e mais como um teste sobre se as instituições brasileiras — Congresso, tribunais, governos estaduais, partidos — conseguem, nos próximos anos, reduzir a distância entre o que a democracia promete formalmente e o que ela entrega na prática. Essa é, afinal, a definição mais simples de sustentabilidade democrática: não perder eleições, mas não perder também a razão de fazê-las.