Caderno Política · Análise

Houve um tempo em que zombar do fraco, ofender o doente ou humilhar quem está em desvantagem era algo que os políticos democráticos evitavam em público, mesmo quando o praticavam em privado. O editorial publicado pelo jornal espanhol El País neste domingo, 11 de outubro, parte dessa constatação para sustentar uma tese incômoda: Donald Trump transformou a crueldade em ferramenta política legítima, e o modelo se espalhou1. O texto foi escrito com os olhos voltados para a próxima campanha eleitoral espanhola. Lido no Brasil, a duas semanas do segundo turno presidencial, ele soa como diagnóstico de algo que já está em curso por aqui.

Este artigo examina o argumento central do editorial, as evidências que o sustentam, as objeções que ele merece e o que os dados brasileiros mais recentes revelam sobre o estado do debate público no país.

Do conservadorismo compassivo ao deboche como programa

O El País constrói seu argumento por contraste. No início deste século, lembra o jornal, George W. Bush se apresentava como defensor de um "conservadorismo compassivo", e Barack Obama dizia que o déficit de empatia era um problema mais grave do que o déficit orçamentário1. O editorial admite que essas formulações talvez fossem ingênuas, mas ressalta que expressavam um padrão mínimo de decência esperado de quem ocupa o poder.

A ruptura, segundo o texto, ocorreu em 2015, quando Trump entrou na disputa presidencial chamando imigrantes mexicanos de estupradores, imitando em comício os movimentos de um jornalista com deficiência e desdenhando da trajetória de John McCain, que passou mais de cinco anos como prisioneiro no Vietnã1. O ponto do jornal não é que esses episódios tenham sido isolados, mas que não tiveram custo eleitoral. A ausência de punição funcionou como autorização.

Dali em diante, sempre segundo o editorial, a lista de imitadores cresceu: da exibição de detentos nas prisões de Nayib Bukele, em El Salvador, à classificação de menores imigrantes como "invasores" em Ceuta, na Espanha. O traço comum seria a certeza de que certas regras não escritas podem ser violadas sem consequência1. O jornal menciona ainda uma decisão do Pentágono, nesta semana, de transmitir a execução de um militar condenado à morte, episódio que o texto compara a práticas de organizações terroristas e apresenta como prova de que a brutalidade chegou ao centro do poder americano1.

O problema deixou de ser o déficit de empatia e passou a ser o "excedente de brutalidade".Síntese do editorial do El País, 11/10/2026

A empatia tratada como defeito

O editorial dedica atenção especial a uma ideia que circula com força entre parte da elite tecnológica americana: a de que a empatia seria uma vulnerabilidade civilizacional. Elon Musk chegou a afirmar, em entrevista ao podcast de Joe Rogan em fevereiro de 2025, que a fraqueza fundamental da civilização ocidental é a empatia, conforme reportou a CNN2. A expressão "empatia suicida", que Musk repete com frequência, é atribuída ao professor canadense Gad Saad, autor de um livro dedicado ao tema2.

A formulação mais influente para descrever esse fenômeno, porém, é anterior. Em 2018, o jornalista Adam Serwer publicou na revista The Atlantic o ensaio "The Cruelty Is the Point", no qual argumentava que a crueldade das políticas do governo Trump não era acidental, mas deliberada3. Serwer esclareceu depois que não se referia a posições conservadoras sobre imigração ou costumes, que considera parte normal do debate, e sim à demonização de grupos específicos com o objetivo de negar-lhes direitos ou excluí-los da comunidade política3. A distinção importa, porque separa divergência programática de desumanização.

Por que a humilhação rende votos

O El País aponta três vetores para a disseminação desse estilo: plataformas digitais que premiam o ruído e a polarização, um capitalismo cujos excessos as democracias não conseguem regular e a erosão do pacto social do pós-guerra, que dependia da convergência entre democratas-cristãos e social-democratas1. Os três fatores se reforçam mutuamente.

Há um mecanismo adicional que ajuda a explicar a eficácia eleitoral da crueldade. A humilhação pública de um adversário ou de um grupo funciona como sinal de pertencimento. Quem ri da piada demonstra lealdade ao próprio campo; quem se ofende confirma ser do outro lado. Nesse ambiente, a moderação passa a ser lida como fraqueza ou hipocrisia, e o excesso como autenticidade. O editorial resume essa inversão ao dizer que a moderação virou defeito e o extremismo, virtude1.

Esse cálculo tem um custo que raramente aparece na contabilidade de campanha: quando a desumanização se torna linguagem corrente, a fronteira entre a ofensa verbal e a agressão física fica mais porosa.

O Brasil a duas semanas do segundo turno

O primeiro turno de 4 de outubro levou Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a uma nova disputa em 25 de outubro. Com 99,73% das seções apuradas, Flávio somava 47,09% dos votos válidos e Lula, 45,09%, segundo a apuração divulgada na noite da votação4. Uma diferença dessa ordem tende a radicalizar estratégias, porque cada ponto percentual passa a ser disputado com intensidade máxima.

Os números de violência política do primeiro turno ajudam a medir a temperatura. A quarta edição da pesquisa Violência Política e Eleitoral no Brasil, das organizações Terra de Direitos e Justiça Global, registrou 134 casos nos 50 dias de campanha, um a cada nove horas, conforme reportagem da Agência Brasil5. O total representa alta de 11% em relação aos 121 casos do mesmo período de 2022, de acordo com a Agência Pública6.

O perfil das vítimas reforça a leitura de que a violência tem alvos preferenciais. As mulheres, embora sejam cerca de um terço das candidaturas, responderam por mais da metade dos casos contra candidatos. Pessoas negras somaram 44,8% das vítimas, e 31,3% dos episódios ocorreram em redes sociais ou outros espaços digitais5. Em quase um a cada cinco casos, o autor identificado era um agente público, incluindo parlamentares e integrantes de forças de segurança6.

Violência política no primeiro turno: 2022 x 2026
CASOS REGISTRADOS NA CAMPANHA DO 1º TURNO 2022 121 2026 134 (+11%) BRASILEIROS COM MEDO DE AGRESSÃO POR POSIÇÃO POLÍTICA 2022 68% 2026 59,6%
Fontes: Terra de Direitos e Justiça Global (casos); Fórum Brasileiro de Segurança Pública e Datafolha, maio de 2026 (medo de agressão).

Há um dado que relativiza o quadro. A pesquisa Medo do Crime e Eleições 2026, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Datafolha, mostrou que 59,6% dos brasileiros temiam ser agredidos fisicamente por causa de suas escolhas políticas, índice inferior aos 68% de 2022, como noticiou o Diário de Pernambuco7. O medo recuou, mas segue atingindo seis em cada dez eleitores. A combinação de casos em alta e medo ligeiramente menor sugere que a violência se concentrou em alvos específicos, sobretudo candidatas, em vez de se difundir de forma homogênea.

O que as regras alcançam e o que fica fora delas

O Brasil chegou a esta eleição com um arcabouço normativo mais robusto do que muitas democracias. Em março de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral aprovou a Resolução 23.748, que reforçou a proibição de deepfakes, ampliou a obrigação de rotular conteúdos produzidos com inteligência artificial e estendeu deveres às plataformas digitais, segundo análise do escritório Barbieri Advogados8. A Lei 14.192/2021 tipifica a violência política contra a mulher.

Esses instrumentos, no entanto, alcançam o ilícito, não o indecoroso. A imitação debochada de um adversário, o apelido desumanizante repetido em vídeos curtos ou a piada sobre a desgraça alheia raramente configuram crime. Nesse terreno, a Justiça Eleitoral pouco pode fazer, e é justamente nele que a política da crueldade prospera. O freio, quando existe, vem dos partidos que decidem o que toleram em seus quadros e dos eleitores que decidem o que premiam nas urnas.

Vale registrar que o repertório de rótulos desumanizantes não pertence a um único campo no Brasil. Ele circula nos dois polos da disputa, com intensidades e alvos distintos. Reconhecer isso não dilui o argumento do El País; apenas impede que ele seja convertido em arma de um lado contra o outro, o que reproduziria a lógica que pretende criticar.

Contraponto

O editorial merece ao menos três objeções. A primeira é teórica: o psicólogo Paul Bloom, da Universidade Yale, argumenta no livro Against Empathy (2016) que a empatia é um holofote enviesado, que favorece quem se parece conosco, e propõe no lugar uma compaixão racional. Defender mais empatia na política, portanto, não resolve por si só o problema da desumanização.

A segunda é política: parte dos eleitores que aprovam a linguagem agressiva a interpreta como reação a um moralismo de elites que, por anos, usou o argumento da civilidade para desqualificar demandas populares. Ignorar essa percepção ajuda a explicar por que apelos à decência costumam ter pouco efeito eleitoral.

A terceira é factual: a desqualificação de grupos inteiros de eleitores não é monopólio da direita, como mostrou em 2016 a referência de Hillary Clinton a apoiadores de Trump como "deploráveis". O texto do El País concentra sua crítica na extrema direita, o que é coerente com seu argumento, mas deixa de fora esse lado do fenômeno.

O que fica para o segundo turno

O El País encerra com uma esperança modesta: que seja possível injetar na próxima campanha espanhola alguma dose da empatia de Obama ou da compaixão de Bush1. No Brasil, a pergunta equivalente é mais concreta. Nas duas semanas que restam até 25 de outubro, as campanhas vão disputar eleitores indecisos e os cerca de 21% que se abstiveram no primeiro turno4. A estratégia da humilhação mobiliza convertidos, mas não está claro que convença quem ainda não escolheu.

Se os números de violência política do primeiro turno servem de termômetro, o custo dessa estratégia já está sendo pago, majoritariamente por candidatas, pessoas negras e eleitores comuns que passaram a evitar falar de política. A diferença entre adversário e inimigo é uma das convenções que sustentam a democracia. Ela não está escrita em nenhuma resolução do TSE, e por isso depende de quem a pratica.

Perguntas frequentes
O que é a chamada política da crueldade?

É o uso deliberado da humilhação, do deboche e da desumanização de grupos como estratégia eleitoral. Adam Serwer, da revista The Atlantic, popularizou em 2018 a ideia de que, nesse tipo de política, a crueldade não é efeito colateral, mas o próprio objetivo.

O que diz o editorial do El País de 11 de outubro de 2026?

Que Donald Trump normalizou a burla e a humilhação como arma política, que esse modelo inspirou imitadores na América e na Europa e que o problema atual deixou de ser falta de empatia e passou a ser excesso de brutalidade.

Quantos casos de violência política o Brasil registrou no primeiro turno de 2026?

Foram 134 casos nos 50 dias de campanha, um a cada nove horas, alta de 11% sobre o mesmo período de 2022, segundo Terra de Direitos e Justiça Global.

O que é a tese da empatia suicida?

É a ideia, difundida por Gad Saad e amplificada por Elon Musk, de que a empatia seria uma fraqueza explorada contra as sociedades ocidentais. Críticos apontam que a tese serve para justificar cortes em políticas sociais e hostilidade a imigrantes.

As regras eleitorais brasileiras proíbem discurso cruel na campanha?

Alcançam condutas ilícitas, como desinformação, discurso de ódio, deepfakes e violência política contra a mulher. O deboche que não configura crime fica fora do alcance da Justiça Eleitoral.

Nota de atribuição: este artigo foi inspirado no editorial "La era de la crueldad", publicado pelo jornal El País em 11 de outubro de 2026. As referências ao texto original são paráfrases com crédito; a íntegra está disponível em elpais.com. A análise do contexto brasileiro e os dados complementares são de responsabilidade do O Tecido.