Caderno Ciência · Energia e Mobilidade
A Geely, grupo chinês dono da Volvo e da Lotus, apresentou nesta semana, em Ningbo, um sistema de recarga que leva a bateria de um carro elétrico de 10% a 70% em quatro minutos e meio. Segundo a empresa, a carga de 10% a 97% se completa em 8 minutos e 40 segundos, com um carregador capaz de entregar até 2,2 megawatts de potência, em condições normais de temperatura ambiente.2 O primeiro modelo a usar a tecnologia será o SUV elétrico Galaxy E5, previsto para o mercado chinês ainda este ano, conforme reportou o The Telegraph.1
O número importa menos pelo recorde em si e mais pelo que revela sobre o estágio da tecnologia. A marca anterior pertencia à BYD, que em março lançou a segunda geração da Blade Battery com recarga de 10% a 70% em cinco minutos.3 A diferença agora é de 30 segundos. E o próprio executivo da Geely que apresentou o sistema admitiu que a disputa está chegando ao fim da linha.
O que a Geely anunciou
O pacote apresentado combina três elementos: uma nova geração de bateria de tração com alta taxa de carga, uma infraestrutura de recarga de 2,2 MW e um sistema de gestão apoiado em inteligência artificial. De acordo com a Reuters, a montadora usa simulações em gêmeos digitais na nuvem, combinadas a modelos de aprendizado profundo embarcados no veículo, para monitorar a saúde da bateria, controlar a temperatura e antecipar riscos durante a recarga.2
O contexto comercial explica a pressa. A Reuters registra que as vendas de elétricos na China vinham em queda por 11 meses consecutivos até agosto, e que as fabricantes passaram a disputar consumidores com tecnologia de condução assistida, autonomia e velocidade de recarga, e não apenas com preço.2 O Telegraph acrescenta que a Geely vendeu 1,42 milhão de veículos no primeiro semestre e elevou para 920 mil unidades sua meta de exportação em 2026.1
Por que existe um limite físico
Na apresentação, Zhang Dewang, executivo da Geely, afirmou à Reuters que as velocidades atuais já se aproximam do limite físico e que os ganhos marginais de acelerar ainda mais tendem a ficar cada vez menores.2 A afirmação tem base na eletroquímica das baterias de íons de lítio.
Recarregar uma bateria significa empurrar íons de lítio do catodo para o anodo, normalmente de grafite, onde eles se acomodam entre as camadas do material, num processo chamado intercalação. Quando a corrente é alta demais, os íons chegam mais depressa do que o grafite consegue absorvê-los. O excesso se deposita como lítio metálico na superfície do anodo, fenômeno conhecido como lithium plating. A literatura técnica descreve esse depósito como uma das principais causas de perda de capacidade e de aumento da resistência interna. Em casos extremos, ele forma dendritos, estruturas pontiagudas capazes de perfurar o separador e provocar curto-circuito.10
Um estudo publicado em 2024 no Journal of The Electrochemical Society, com participação do MIT, aponta que recargas em condições extremas elevam rapidamente tensão e temperatura, e que o depósito de lítio favorecido por altas taxas de corrente é um dos fatores centrais na perda do estoque de lítio disponível.9 Em outras palavras, cada minuto economizado na tomada é pago em calor e em desgaste, e o trabalho de engenharia consiste em encontrar o ponto em que esse custo permanece aceitável.
Uma conta simples ajuda a dimensionar o esforço. A indústria mede a velocidade de recarga pela chamada taxa C: 1C equivale a carregar a bateria inteira em uma hora. Levar 60% da capacidade em 4,5 minutos corresponde a uma taxa média próxima de 8C. No trecho completo, de 10% a 97% em 8 minutos e 40 segundos, a média cai para cerca de 6C, o que mostra que a corrente precisa ser reduzida à medida que a bateria enche. Os valores são estimativas deste jornal a partir dos dados divulgados.
| Sistema | 10% a 70% | 10% a 97% | Taxa média estimada (10% a 70%) |
|---|---|---|---|
| Geely (set/2026) | 4 min 30 s | 8 min 40 s | ≈ 8C |
| BYD Blade Battery 2.0 (mar/2026) | 5 min | 9 min | ≈ 7,2C |
A tensão da arquitetura elétrica também entra na equação, porque tensões maiores permitem transferir mais potência com menos corrente e menos aquecimento nos cabos. O Telegraph atribui parte da vantagem da Geely ao sistema de 800 volts.1 Esse fator, porém, não explica sozinho o resultado: o carregador da BYD opera sobre uma base de 1.000 volts, com correntes de até 1.500 amperes.4 A diferença entre as duas empresas parece residir mais na química das células e no controle térmico do que na tensão nominal.
A próxima fronteira da recarga elétrica não está dentro da bateria, e sim no poste, no transformador e na conta de quem paga pela infraestrutura. Análise O Tecido
A disputa com a BYD e a corrida pela infraestrutura
A BYD transformou a recarga ultrarrápida em estratégia de rede. Em março, a empresa informou ter 4.239 estações de "Flash Charging" concluídas na China e anunciou a meta de chegar a 20 mil até o fim de 2026.4 A companhia afirma que sua bateria de segunda geração leva 12 minutos para ir de 20% a 97% mesmo após permanecer 24 horas a 30 graus negativos.3 Segundo o Deutsche Bank, citado pela Reuters, o plano de longo prazo prevê 90 mil estações até 2028.2
Carregadores dessa potência exigem conexões robustas à rede elétrica. Para contornar o problema, a BYD adota um modelo em que baterias estacionárias acumulam energia de forma lenta e a descarregam em alta potência no momento da recarga do veículo.5 A solução reduz o pico de demanda sobre a distribuidora, mas encarece cada estação.
A Geely escolheu outro discurso. Zhang disse à Reuters que o ecossistema de recarga deve se parecer, no futuro, com os postos de combustível tradicionais, com bandeiras diversas e investimento compartilhado entre vários operadores.2 É uma aposta em padronização, que transfere parte do custo da infraestrutura para terceiros.
Contraponto
O que os números não contam
Os tempos anunciados são dados dos próprios fabricantes, medidos em condições favoráveis, e ainda não passaram por verificação independente. A Geely especifica temperatura ambiente normal, sem divulgar desempenho em frio ou calor intenso.
A durabilidade também é uma incógnita. Pesquisas com células de fosfato de ferro-lítio, química usada por BYD e amplamente adotada na China, indicam que protocolos escalonados de recarga rápida podem evitar o depósito de lítio, mas que a degradação depende muito do perfil de uso.11 A BYD diz que sua bateria passou por testes de perfuração após 500 ciclos de recarga ultrarrápida sem fumaça ou chamas,6 mas dados de campo sobre milhares de ciclos reais ainda não existem.
Há ainda uma questão de utilidade. Para a maior parte dos motoristas, que recarrega em casa ou no trabalho, a diferença entre cinco minutos e quatro e meio é irrelevante. O ganho real aparece em viagens longas e frotas comerciais, e depende de haver carregadores de megawatt no caminho.
O Brasil nessa história
A Geely não é uma marca distante do consumidor brasileiro. Desde novembro de 2025, o grupo detém 26,4% da Renault do Brasil, em acordo que prevê produção e venda de veículos de baixa e zero emissão no país.7 A empresa informa ter superado 25 mil unidades vendidas em seu primeiro ano de operação, com 43 concessionárias, e anunciou um ciclo de investimentos de R$ 3,8 bilhões em parceria com a Renault, incluindo a produção nacional do híbrido plug-in EX5 EM-i em São José dos Pinhais (PR).8
O Galaxy E5 que estreia a nova bateria é vendido fora da China com o nome EX5, segundo o Telegraph.1 O EX5 já está no mercado brasileiro, mas com a tecnologia de bateria anterior. A Geely não anunciou prazo para trazer o sistema de 2,2 MW a outros mercados, e a própria lógica da tecnologia depende de carregadores que ainda não existem por aqui.
O retrato da infraestrutura nacional mostra o tamanho do desafio. Levantamento da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) com a plataforma Tupi Mobilidade contabilizou cerca de 25,4 mil pontos públicos e semipúblicos de recarga em maio de 2026, alta de cerca de 21% em relação a fevereiro.12 Desse total, 34% são carregadores rápidos em corrente contínua e 66% são carregadores lentos em corrente alternada. A relação ficou em aproximadamente 20 veículos plug-in por ponto de recarga, o dobro da proporção considerada ideal pela entidade, de 10 para 1.12,13
O mercado cresce mais rápido do que a rede. Dados da ABVE indicam que o Brasil emplacou mais de 90 mil carros 100% elétricos no primeiro semestre de 2026, quase o triplo do mesmo período de 2025.14 Um estudo da C40 Cities com a IFC, apoiado pela associação, estima em cerca de R$ 5 bilhões o investimento necessário até 2035 para que a infraestrutura acompanhe a frota.15
Carregadores de megawatt adicionam outra camada: a rede de distribuição. Uma estação de 2,2 MW demanda, no pico, uma potência comparável à demanda média simultânea de alguns milhares de residências brasileiras, estimativa deste jornal feita a partir do consumo residencial médio registrado pela Empresa de Pesquisa Energética.16 Isso exige conexão em média tensão, subestações dedicadas ou armazenamento local, e coloca distribuidoras e a Aneel no centro de qualquer plano de expansão.
O que observar a partir de agora
Três sinais vão indicar se a recarga ultrarrápida sai da vitrine chinesa. O primeiro é a verificação independente dos tempos anunciados, em temperaturas variadas e ao longo de centenas de ciclos. O segundo é a expansão das redes de megawatt fora da China, que a BYD promete iniciar ainda em 2026.6 O terceiro, mais relevante para o Brasil, é se a parceria entre Renault e Geely incluirá a tecnologia em modelos produzidos no Paraná.
Se a leitura do próprio executivo da Geely estiver correta, a disputa por segundos está perto de se esgotar. A competição tende a migrar para outro terreno: custo por quilowatt-hora, durabilidade das células e capilaridade da rede. Nesse terreno, a vantagem não pertence a quem tem a bateria mais rápida, e sim a quem consegue instalar carregadores onde os motoristas de fato estão.
Perguntas frequentes
Quanto tempo a nova bateria da Geely leva para carregar?
Segundo a Geely, 4 minutos e 30 segundos para ir de 10% a 70%, e 8 minutos e 40 segundos para ir de 10% a 97%, usando um carregador de 2,2 megawatts em temperatura ambiente normal.
Qual a diferença em relação ao sistema da BYD?
A BYD anunciou em março de 2026 recarga de 10% a 70% em 5 minutos e de 10% a 97% em 9 minutos, com carregador de até 1,5 megawatt. A Geely reduziu esses tempos em cerca de 20 a 30 segundos, com potência de pico maior.
Por que a recarga está perto de um limite físico?
Correntes muito altas fazem os íons de lítio chegarem ao anodo mais rápido do que o grafite consegue absorvê-los, formando depósitos de lítio metálico que reduzem a vida útil e podem comprometer a segurança. Cada ganho adicional de velocidade exige mais controle térmico e traz retorno menor.
Recarga ultrarrápida estraga a bateria?
A literatura científica mostra que altas taxas de recarga aceleram a degradação quando não são bem controladas. Fabricantes usam químicas específicas, gestão térmica e protocolos escalonados para mitigar o efeito, mas ainda faltam dados de longo prazo sobre uso real em potência de megawatt.
A tecnologia da Geely chega ao Brasil?
Não há anúncio. A Geely atua no Brasil em parceria com a Renault, com participação de 26,4% na Renault do Brasil e vende o EX5, mas com a bateria anterior. O sistema de 2,2 MW exige carregadores que ainda não existem no país.
Quantos pontos de recarga para carros elétricos o Brasil tem?
Cerca de 25,4 mil pontos públicos e semipúblicos em maio de 2026, segundo a ABVE e a Tupi Mobilidade. Aproximadamente um terço são carregadores rápidos em corrente contínua.
Referências
- HAYNES, Tom. "New electric car battery can charge up in under five minutes". The Telegraph, 23 set. 2026. https://www.telegraph.co.uk/business/2026/09/23/chinese-carmaker-ev-battery-charge-in-under-five-minutes/
- PARK, Ju-min. "Geely turns to 4-minute EV charging, AI in battle with BYD". Reuters, 23 set. 2026.
- BYD. "BYD Unveils 2nd Generation Blade Battery and FLASH Charging Technology". Comunicado, 5 mar. 2026.
- Electrive. "10–97% in nine minutes: BYD presents second generation of Blade Battery", 5 mar. 2026; e EV Infrastructure News, "BYD's 1.5MW Flash EV Charger launched in China", 6 mar. 2026.
- CarNewsChina. "BYD unveils Blade Battery 2.0: 10-70% in 5 mins, 10-97% in 9 mins, and 20,000 flash charging stations in 2026", 5 mar. 2026.
- Inside China Auto. "BYD Unveils 2nd-gen Blade Battery With 9-minute Flash Charging", 5 mar. 2026.
- Renault Group e Geely. "Renault Group and Geely strengthen their cooperation with the completion of a partnership in Brazil". Comunicado, 3 nov. 2025.
- Geely Brasil. "Geely completa primeiro ano de Brasil" e "Renault Geely do Brasil anuncia o início da produção do Geely EX5 EM-i no país". Comunicados, 2026.
- Journal of The Electrochemical Society. "Fast Charging of Lithium-Ion Batteries While Accounting for Degradation and Cell-to-Cell Variability", 2024.
- LIN, X.; KHOSRAVINIA, K. et al. "Lithium Plating Mechanism, Detection, and Mitigation in Lithium-Ion Batteries". Progress in Energy and Combustion Science, 2021.
- Applied Energy. "Effect of fast charging on degradation and safety characteristics of lithium-ion batteries with LiFePO4 cathodes", 2024.
- ABVE e Tupi Mobilidade Elétrica. Levantamento de pontos públicos e semipúblicos de recarga, maio de 2026 (divulgado por CNN Brasil e O Tempo, jun. 2026).
- ABVE. "Recarga pública rápida cresce 167% em 12 meses e já atinge 31% dos 21 mil eletropostos da rede", mar. 2026.
- ABVE. Dados de emplacamentos de veículos elétricos, primeiro semestre de 2026.
- C40 Cities e IFC. Estudo sobre investimentos em infraestrutura de recarga no Brasil até 2035, com apoio da ABVE.
- Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Anuário Estatístico de Energia Elétrica. Cálculo de ordem de grandeza elaborado por O Tecido.
Ewerton Lopes — Curador Editorial · O Tecido