A corrida biotecnológica que a China já está vencendo — e o que ela revela sobre o Brasil
Enquanto Washington debate como conter o avanço chinês na biotecnologia, o Brasil assiste de um lugar diferente: o de quem ainda importa 90% dos insumos farmacêuticos que consome, mas começa a apostar em parcerias diretas com Pequim para tentar furar essa dependência.
Há duas décadas, um laboratório chinês que desenvolvesse um medicamento inovador era notícia rara. Hoje é rotina — e incomoda Washington. Reportagem do Washington Post publicada em junho mostrou que autoridades americanas e executivos de farmacêuticas ocidentais observam com crescente apreensão o avanço da China rumo à liderança biotecnológica global, parte de um plano estatal de longo prazo que já remodela quem descobre, testa e licencia os medicamentos do futuro.1 O que a reportagem documenta como preocupação política em Washington é, na verdade, a ponta visível de uma transformação estrutural que vem sendo construída por Pequim desde meados dos anos 2000 — e que hoje se mede em números difíceis de ignorar.
Em 2015, fármacos desenvolvidos na China representavam cerca de 5% das pesquisas clínicas mundiais para medicamentos inovadores. Em 2025, essa fatia chegou a 30%, enquanto a participação americana recuou de 45% para 33% no mesmo período — uma diferença de apenas três pontos percentuais entre as duas potências.2 A China já responde por 31,1% de todo o novo pipeline farmacêutico global, com 7.141 moléculas em desenvolvimento, ante mais de 50% dos Estados Unidos.2 Em publicações científicas de biotecnologia, a inversão já aconteceu: entre 2015 e 2024, a produção chinesa cresceu 162%, enquanto a americana caiu 31% e a europeia, 19%.2
Velocidade como vantagem competitiva
O que explica essa ascensão não é apenas dinheiro — embora ele também conte. É, sobretudo, velocidade. Entre 2015 e 2018, o tempo médio para aprovar o início de testes em humanos na China caiu de 501 para 87 dias.2 Hospitais terciários chineses recrutam pacientes para ensaios clínicos de cinco a dez vezes mais rápido que centros médicos acadêmicos americanos, e o custo por paciente é menor.2 Uma análise da McKinsey citada por publicações do setor estima que a recrutação em fases avançadas de testes roda de duas a cinco vezes mais rápido que os parâmetros dos Estados Unidos e da União Europeia.3 Para a indústria farmacêutica global, pressionada por um iminente "penhasco de patentes" que pode custar entre US$ 140 bilhões e US$ 200 bilhões em receita anual até 2030, essa rapidez tornou-se irresistível.4
O resultado é um movimento que analistas do setor já apelidaram de "momento DeepSeek" da biotecnologia — uma referência ao choque que o modelo de inteligência artificial chinês provocou no Vale do Silício em 2025: inovação de alto padrão a um custo muito menor que o ocidental.5 Multinacionais como Pfizer, Merck, Novartis, GSK, AstraZeneca e Bristol Myers Squibb assinaram, somente no último trimestre de 2025, mais de US$ 10 bilhões em acordos para licenciar ativos cardiovasculares e oncológicos desenvolvidos por empresas chinesas.6 Em janeiro de 2026, a AstraZeneca pagou US$ 1,2 bilhão à CSPC Pharmaceutical apenas como entrada por um portfólio de medicamentos para emagrecimento, com promessa de mais US$ 13,8 bilhões em pagamentos por metas atingidas.6 Entre 2015 e 2025, o número de acordos de licenciamento saindo da China multiplicou-se por 31 — de 5 para 157 contratos — e o valor desses acordos, por 54, alcançando US$ 135,7 bilhões.6
Nem só de mérito vive a ascensão
Parte dessa vantagem é legítima: parques científicos como o Zhangjiang, em Xangai, e o Zhongguancun, em Pequim, concentram mais de 8.500 empresas de biotecnologia em quatro grandes polos regionais, sustentados por incentivos fiscais agressivos — empresas qualificadas pagam 15% de imposto de renda corporativo, em vez dos 25% padrão, e podem deduzir 200% de gastos com pesquisa e desenvolvimento de sua base tributável.6 Programas de atração de talentos como o Thousand Talents recrutaram mais de 1.400 cientistas para o setor de ciências da vida desde 2008, revertendo parte da fuga de cérebros que marcou décadas anteriores.6
Mas há também práticas que organismos como o Information Technology and Innovation Foundation (ITIF), think tank americano, classificam como "mercantilismo de inovação": cerca de um quinto de todo o gasto chinês em pesquisa e desenvolvimento vem de subsídios estatais diretos, e quase a totalidade das empresas responsáveis por 82% do P&D do país recebeu algum tipo de subsídio governamental.6 Casos de espionagem industrial também pesam na balança — em 2018, uma bioquímica que trabalhava em um laboratório da GlaxoSmithKline na Filadélfia admitiu ter repassado segredos comerciais a uma biotech chinesa financiada em parte pelo governo de Pequim.6
É essa combinação — investimento genuíno em infraestrutura científica somado a práticas que driblam as regras do comércio internacional — que torna o avanço chinês ao mesmo tempo admirável e desconfortável para os formuladores de política americanos, segundo o Washington Post.1
Ainda assim, é preciso relativizar o tamanho da ameaça. Em valor de mercado, a China responde por apenas 4,8% do setor biotecnológico global, contra 35% dos Estados Unidos e 31% da Europa.2 Em investimento privado de P&D farmacêutico, as empresas chinesas aplicaram cerca de US$ 12 bilhões em 2024 — 4% do total mundial —, ante US$ 153 bilhões das companhias americanas.2 A vantagem chinesa está menos na escala de capital e mais na eficiência: para cada US$ 100 mil investidos em pesquisa, uma empresa chinesa consegue empregar 2,3 pesquisadores, contra 1 nos Estados Unidos.2
O outro lado do espelho: o Brasil
Para o leitor brasileiro, essa disputa entre as duas maiores potências biotecnológicas do mundo pode soar distante. Não é. O Brasil entra nessa equação não como competidor, mas como comprador estrutural — e cada vez mais como parceiro direto da China, justamente no momento em que tenta reduzir uma dependência que a pandemia de covid-19 expôs de forma brutal.
Hoje, mais de 90% dos insumos farmacêuticos ativos (IFAs) usados na fabricação de medicamentos e vacinas no Brasil são importados.7 O déficit comercial da saúde — a diferença entre o que o país importa e exporta em medicamentos, vacinas, equipamentos e insumos — saltou de US$ 11 bilhões em 2013 para algo em torno de US$ 20 bilhões atualmente, um crescimento de 80% em uma década, tornando-se o segundo maior déficit da balança comercial brasileira, atrás apenas de eletroeletrônicos.7
É em resposta a esse quadro que o governo federal lançou a Estratégia Nacional para o Desenvolvimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS), com a meta de elevar a produção nacional de itens prioritários para o Sistema Único de Saúde dos atuais 45% para 50% até o fim de 2026, e para 70% até 2033.8 O pacote prevê R$ 42 bilhões em investimentos até 2026, somando recursos do Novo PAC, BNDES, Finep e capital privado, incluindo a construção do Complexo Industrial de Biotecnologia em Saúde da Fiocruz, no Rio de Janeiro — um terreno de 580 mil metros quadrados, equivalente a cerca de 80 campos de futebol, dedicado à produção de vacinas e biofármacos.9
A aposta sino-brasileira
Diante da dificuldade de competir com a velocidade e o custo chinês na ponta da inovação, parte da indústria farmacêutica brasileira optou por um caminho mais pragmático: associar-se diretamente às empresas chinesas em vez de tentar superá-las. Em maio de 2025, a Eurofarma — maior farmacêutica de capital nacional do país — firmou memorando de entendimento com a Sinovac Biotech para criar o Instituto Brasil-China para Inovação em Biotecnologia e Doenças Infecciosas e Degenerativas (iBRID), voltado ao desenvolvimento de vacinas de nova geração, incluindo plataformas de mRNA, anticorpos monoclonais e terapias celulares avançadas.10 O acordo faz parte de um pacote mais amplo de investimentos chineses no Brasil, anunciado junto ao Ministério da Saúde, que soma cerca de R$ 27 bilhões em projetos de cooperação industrial.10
Outras farmacêuticas nacionais seguem caminho semelhante. A Cristália, pioneira em biotecnologia no país com mais de duas décadas de pesquisa em moléculas próprias, fechou parceria com a chinesa Livzon para produzir, sob licença, sua versão da caneta emagrecedora concorrente do Ozempic — um mercado que deve movimentar R$ 15,6 bilhões no Brasil em 2026.11 A própria Cristália já produz 60% dos IFAs que utiliza, bem acima da média nacional de cerca de 10%, mas mesmo assim recorre à tecnologia chinesa para acelerar o lançamento de produtos em áreas terapêuticas de alta demanda.12
Regulação tentando acompanhar o ritmo
Parte da resposta brasileira também passa pela própria Anvisa, que em 2024 publicou nova resolução (RDC nº 945) para modernizar as regras de pesquisa clínica no país, alinhando-as às diretrizes internacionais de boas práticas clínicas e permitindo, por exemplo, que patrocinadores importem produtos de investigação antes mesmo da conclusão da análise do dossiê pela agência — uma medida que busca reduzir o intervalo entre a aprovação regulatória e o início efetivo dos testes.13 Em 2025, quase a totalidade dos ensaios clínicos autorizados no país (93%) contou com algum tipo de cooperação estrangeira, sinal de que o Brasil ainda depende fortemente de capital e tecnologia externos para conduzir pesquisa clínica em escala.14
O contraste com a China é didático. Enquanto Pequim reduziu o tempo de aprovação de testes em humanos para 87 dias, processos regulatórios no Brasil — como em boa parte do Ocidente — ainda seguem prazos medidos em meses. A Anvisa estabelece, por norma, até 45 dias corridos apenas para confirmar se uma petição de ensaio clínico se refere a doença rara, etapa preliminar de um processo regulatório que costuma se estender por bem mais tempo até a aprovação final.14 Não se trata de comparar diretamente os dois sistemas — o brasileiro carrega exigências éticas e de segurança que cumprem função distinta —, mas de reconhecer que a velocidade regulatória se tornou, ela própria, um ativo estratégico nessa nova geografia da inovação farmacêutica.
O que está em jogo
A disputa entre Estados Unidos e China pela liderança biotecnológica é frequentemente narrada como um confronto bilateral, mas seus efeitos se espalham por toda cadeia farmacêutica global — e o Brasil, como um dos maiores mercados consumidores de medicamentos do mundo, sente isso de perto. De um lado, a proximidade crescente com a tecnologia chinesa oferece ao país uma rota mais rápida e barata para reduzir sua dependência histórica de insumos importados. De outro, aprofundar essa relação significa trocar uma dependência por outra, substituindo fornecedores americanos e europeus por chineses, sem necessariamente construir capacidade tecnológica própria.
O dilema não é exclusivamente brasileiro. Reino Unido, União Europeia e os próprios Estados Unidos vêm reformando suas próprias agências regulatórias e aumentando o financiamento público à pesquisa biomédica precisamente para não ficar atrás na corrida que a China abriu.15 Para o Brasil, que carrega o peso adicional de ser historicamente importador de tecnologia em saúde, a pergunta que fica não é se deve se aproximar da China — isso já está em curso —, mas se essa aproximação virá acompanhada de transferência real de conhecimento e capacidade produtiva, ou se apenas trocará um fornecedor distante por outro mais barato.
Este artigo foi inspirado pela reportagem "Washington eyes growing biotech prowess from China", publicada pelo Washington Post em 16 de junho de 2026 (leia o original aqui). O texto acima é fruto de apuração e pesquisa independentes da redação de O Tecido, que ampliou a discussão original com dados de fontes adicionais e contextualização específica para a realidade brasileira, listadas nas referências abaixo.
Referências
- Washington Post Intelligence. "Washington eyes growing biotech prowess from China". 16 jun. 2026. Disponível em: wpintelligence.washingtonpost.com
- Ezell, S.; Ostertag, M.; Barbosu, S. "China's Burgeoning Biopharmaceutical Competitiveness Demands a US Response". Information Technology and Innovation Foundation (ITIF), 29 jun. 2026. Disponível em: itif.org
- Macdonald, G. "China leads global drug R&D with faster trials". BioProcess Insider/Bioxconomy, 26 fev. 2026. Disponível em: bioxconomy.com
- Coalition for a Prosperous America. "The China Dependence Big Pharma Doesn't Want Washington to See". 14 jan. 2026. Disponível em: prosperousamerica.org
- Tech Times. "AI Drug Discovery Reaches Clinical Proof at BIO 2026: China Beat the BIOSECURE Act to Science". 26 jun. 2026. Disponível em: techtimes.com
- Idem nota 2 (ITIF) — dados sobre acordos de licenciamento, subsídios estatais e incentivos fiscais.
- Ministério da Saúde. "Governo Federal lança Estratégia Nacional para o Desenvolvimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde com investimento de R$ 42 bilhões até 2026". 26 set. 2023. Disponível em: gov.br/saude
- Idem nota 7.
- Agência Brasil. "Investimentos reforçam criação de complexo industrial de saúde no país". 20 abr. 2025. Disponível em: agenciabrasil.ebc.com.br
- 2A+ Farma / PróGenéricos. "China investirá mais R$ 27 bi no Brasil. Saiba como Eurofarma e Nortec estão envolvidas" e "Eurofarma anuncia parceria e planeja fundação de instituto". Maio 2025. Disponível em: doisamaisfarma.com.br e progenericos.org.br
- NeoFeed. "Cristália tem fábrica aprovada pela Anvisa para produzir sua versão do Ozempic". Jun. 2026. Disponível em: neofeed.com.br
- Cristália Indústria Farmacêutica. Site institucional — dados sobre produção própria de IFAs e plantas de biotecnologia. Disponível em: cristalia.com.br
- Lefosse Advogados. "Anvisa atualiza regramento sobre ensaios clínicos". Dez. 2024. Disponível em: lefosse.com
- Anvisa. "Relatório Anual de Atividades 2025" (Coordenação de Pesquisa Clínica). Disponível em: gov.br/anvisa
- Clifford Chance. "The rise of the Chinese biotech sector: How global pharmaceutical companies are responding to China's growing innovation pipeline". Mar. 2026. Disponível em: cliffordchance.com
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