Empreendedorismo · Neurotecnologia

Jasaun Knight lembra do momento em que moveu um cursor na tela usando apenas o pensamento. O norte-americano de 35 anos passou a integrar um grupo pequeno, hoje com menos de 200 pessoas no mundo todo, que já recebeu implantes capazes de transformar sinais elétricos do cérebro em comandos digitais.1 A experiência dele, relatada ao Financial Times, é um retrato pontual de um movimento muito maior: o dinheiro que entra em startups de interfaces cérebro-computador (as chamadas BCIs, sigla em inglês) já supera US$ 1 bilhão só em 2026, mais do que a soma captada nos quatro anos anteriores.1

O que está acontecendo com o mercado de implantes cerebrais

A Neuralink, empresa de Elon Musk fundada há uma década, segue como a mais capitalizada do setor, com mais de US$ 1,3 bilhão levantados em sete rodadas.1 Mas o interesse deixou de ser exclusividade do Vale do Silício. Dezenas de concorrentes buscam captação seguindo caminhos técnicos diferentes: eletrodos que penetram o tecido cerebral, dispositivos inseridos em vasos sanguíneos próximos ao cérebro sem necessidade de cirurgia aberta, e sistemas capazes de enviar estímulos de volta ao cérebro, não apenas de ler seus sinais.1

Na China, o setor virou prioridade de política industrial. Pequim classificou interfaces cérebro-computador como área estratégica nacional, com meta de formar de duas a três empresas de padrão mundial até 2030. Só no primeiro semestre de 2026, fundos chineses injetaram cerca de US$ 1 bilhão em 60 investimentos no setor mais amplo de neurotecnologia.1 Enquanto o modelo americano favorece apostas de longo prazo e alto risco, no ecossistema chinês fundadores pressionados por investidores estatais tendem a priorizar produtos que já gerem receita mais cedo.4

Já a Europa reconhece um gargalo: falta capital de crescimento em estágio avançado e o continente ainda não tem um regulador único orientando fabricantes, como ocorre nos Estados Unidos. Por isso, empresas europeias como a alemã CorTec têm buscado parceiros e centros de testes clínicos fora do continente, incluindo universidades americanas.1

A tecnologia já foi validada na academia. O que o setor privado faz agora é transformar essa validação científica em produto com impacto real.

O caso brasileiro: da pandemia a uma healthtech de neurodados

Enquanto o debate global gira em torno de implantes que restauram movimento e fala, uma empreendedora brasileira encontrou uma porta de entrada diferente para o mesmo campo científico: a organização de dados neurológicos. Daniele de Mari fundou a Neurogram em 2021, ainda estudante de Neurociência no Georgia Institute of Technology, depois de uma experiência em um estágio de neurofisiologia interrompido pela pandemia.2

De volta ao Brasil, ela passou a acompanhar exames de eletroencefalograma (EEG) em uma clínica de Londrina. Um episódio específico, um paciente que teve uma crise epiléptica visível a olho nu no traçado do exame, a fez perceber uma lacuna óbvia: por que aquele tipo de leitura ainda dependia inteiramente do olho humano, sem apoio de inteligência artificial?2

A resposta virou empresa. A Neurogram centraliza, padroniza e analisa exames de EEG, reduzindo o tempo médio de emissão de laudos de 23 para 9 minutos mesmo antes da aplicação de algoritmos de IA, segundo a fundadora.5 A startup já captou cerca de R$ 23 milhões em duas rodadas, incluindo uma rodada seed de R$ 17 milhões liderada pela gestora Headline, do empreendedor Romero Rodrigues, cofundador do Buscapé.3 Hoje a plataforma atende dezenas de médicos em clínicas e hospitais brasileiros, com dezenas de outras instituições em lista de espera, e mantém parcerias de validação clínica com centros de referência, entre eles a Mayo Clinic.5

A trajetória também expõe um obstáculo estrutural do empreendedorismo de base científica no Brasil. De Mari relatou ter enfrentado resistência de investidores que julgavam seu perfil incompatível com o de uma líder de empresa científica. O recorte não é anedótico: dados da PitchBook mostram que, em 2020, negócios liderados por mulheres captaram apenas 0,04% do capital de risco investido no país.3

Contraponto

Nem todo entusiasmo em torno de BCIs se traduz em produto maduro. Sistemas não invasivos, aplicados apenas na superfície do couro cabeludo, ainda captam sinais cerebrais enfraquecidos demais para gerar comandos confiáveis, o que limita seu uso a diagnóstico e pesquisa.1 Mesmo próteses robóticas avançadas, depois de mais de uma década de desenvolvimento, ainda ficam distantes da destreza e da sensibilidade de um membro biológico.1

Há também a questão regulatória e ética: aprovar dispositivos implantados no cérebro exige testes clínicos longos e caros, e o ritmo do capital de risco costuma ser mais rápido do que o da ciência regulatória. Para empreendedores, isso significa que o ciclo entre validação técnica e retorno financeiro tende a ser mais longo do que em outras verticais de tecnologia.

O que isso significa para quem empreende no Brasil

O recorte de Empreendedorismo aqui não é a ficção científica dos implantes cerebrais em si, mas o modelo de negócio construído ao redor dela. A Neurogram não compete com a Neuralink na fronteira dos implantes invasivos; ela encontrou um nicho adjacente, a infraestrutura de dados clínicos, com barreira de entrada mais baixa, ciclo de aprovação regulatória menos complexo e demanda imediata de hospitais e clínicas que já existiam antes da onda global de investimento em BCIs.

É um padrão replicável para outras fronteiras científicas que chegam ao Brasil com atraso na cobertura de mídia, mas não necessariamente na oportunidade de negócio: identificar o gargalo operacional dentro de um campo emergente, em vez de tentar competir diretamente com quem já domina a tecnologia central. Some-se a isso o fato de que fundos como a Headline já demonstram apetite para aportar capital relevante em ciência aplicada brasileira, desde que exista tração clínica concreta e não apenas uma tese de futuro distante.

Esta reportagem usa como referência principal a matéria "'I had a superpower': investors pile into mind-reading brain implants", publicada pelo Financial Times em setembro de 2026, complementada por reportagens brasileiras sobre o setor de neurotecnologia. Nenhum trecho do texto original foi reproduzido ou traduzido integralmente. Leia a reportagem completa: ft.com.

Perguntas frequentes

O que é uma interface cérebro-computador (BCI)?

É um sistema que capta sinais elétricos gerados pelo cérebro e os traduz em comandos digitais, permitindo controlar computadores, cursores, próteses ou outros dispositivos apenas com a atividade neural, sem movimento físico.

Por que investidores estão apostando bilhões nesse setor agora?

A tecnologia, estudada em universidades há décadas, chegou a um ponto de maturidade que permite aplicações clínicas concretas, como restaurar comunicação em pacientes com paralisia. Isso atraiu capital de risco tanto nos Estados Unidos quanto na China, que tratou o setor como prioridade de política industrial.

O Brasil tem startups relevantes de neurotecnologia?

Sim. A Neurogram, fundada por Daniele de Mari, é o exemplo mais visível: uma healthtech que organiza e analisa exames de eletroencefalograma com apoio de inteligência artificial, já com mais de R$ 23 milhões captados e parcerias com hospitais brasileiros.

Quais são os principais riscos ou limites dessa tecnologia?

Sistemas não invasivos ainda captam sinais cerebrais fracos demais para comandos precisos, dispositivos implantáveis exigem testes clínicos longos e caros, e o descompasso entre o ritmo do capital de risco e o da aprovação regulatória pode gerar expectativas maiores do que a tecnologia consegue entregar no curto prazo.