Durante boa parte de 2025, o discurso predominante entre grandes empregadores era de contenção. Contratar tornou-se um recurso de último caso, e a inteligência artificial passou a ser tratada como substituta natural de funções inteiras, da triagem de currículos ao atendimento ao cliente. Um levantamento recente do Wall Street Journal mostra que esse cenário começa a mudar: companhias de setores tão distintos quanto ferrovias, tecnologia e defesa nos Estados Unidos voltaram a sinalizar planos de expansão de quadro, ainda que de forma moderada. O caso não é isolado. Dados do mercado de trabalho brasileiro, divulgados nas últimas semanas por IBGE e Brasscom, sugerem um movimento paralelo, com particularidades locais que merecem atenção.
A reviravolta americana
Segundo a reportagem do WSJ, empresas como a consultoria de defesa Booz Allen Hamilton, a ferrovia CSX, a fabricante de ferramentas Snap-on, a Alphabet (controladora do Google) e a ServiceNow relataram a investidores, nos últimos dias, a intenção de ampliar equipes para sustentar metas de crescimento ou aproveitar oportunidades ligadas a tecnologias emergentes. A Booz Allen, que havia reduzido seu quadro em cerca de 7,5% no ano encerrado em junho, em meio a cortes de contratos federais promovidos pela administração Trump, reconheceu estar atrasada no ritmo de contratação e afirmou estar acelerando o processo diante da demanda por profissionais com credenciais de segurança na área de defesa nacional.
A matéria original, assinada pelo repórter Chip Cutter, também traz a avaliação de Sarah Franklin, CEO da plataforma de recursos humanos Lattice, para quem parte das empresas presumiu que agentes de IA substituiriam funções de entrada e hoje reconhece que times humanos continuam sendo necessários para operar ao lado dessas ferramentas, inclusive em vendas. O texto completo, com depoimentos adicionais de executivos da Robert Half e do professor emérito do MIT Paul Osterman, pode ser conferido na fonte original: Wall Street Journal, 26 de julho de 2026.
O pano de fundo estatístico reforça o argumento: segundo dados federais citados na reportagem, os pedidos semanais de auxílio-desemprego nos Estados Unidos atingiram o menor patamar desde 1969. Ainda assim, o próprio texto do WSJ pondera que a mudança de rota não representa uma onda generalizada de contratações, e sim um ajuste pontual em funções específicas, sobretudo de vendas e engenharia.
O que os números brasileiros mostram
No Brasil, o pano de fundo é parecido em tom, embora distinto em estrutura. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do IBGE registrou taxa de desocupação de 5,6% no trimestre móvel encerrado em maio de 2026, patamar estável frente ao trimestre anterior e abaixo do observado no mesmo período de 2025, o que indica um mercado de trabalho aquecido, mas sem sinais claros de aceleração adicional.
No setor de tecnologia especificamente, o relatório "Perspectivas do Mercado de Trabalho do Macrossetor TIC", divulgado pela Brasscom em julho, projeta a criação de 33 mil novos empregos formais (regime CLT) até dezembro de 2026, o que levaria o macrossetor a fechar o ano com 2,15 milhões de trabalhadores formais, alta anual de 1,6%. O estudo aponta ainda que, entre 2023 e 2025, o setor incorporou 111,1 mil profissionais, mas a maior parte dessa expansão não se deu via carteira assinada: 55,6% dos novos vínculos ocorreram por meio de MEI ou informalidade, contra 44,4% de contratações formais.
Affonso Nina, presidente executivo da Brasscom, associa esse descompasso menos à falta de profissionais e mais ao ambiente regulatório e econômico, que dificultaria a formalização de vínculos. Para ele, políticas públicas voltadas à contratação CLT e à requalificação seriam determinantes para transformar o crescimento do setor em oportunidades mais estáveis, avaliação que consta no relatório divulgado pela associação.
Outro dado relevante vem do CAGED: entre as áreas com maior saldo positivo de admissões sobre desligamentos no país, Tecnologia da Informação aparece na segunda posição, atrás apenas de Saúde, com expansão sustentada há mais de três anos consecutivos. A taxa de empregabilidade de profissionais com pós-graduação em áreas como Segurança da Informação e Tecnologia chega a superar 90% em até seis meses após a formação, segundo dados compilados a partir de IBGE e do Fórum Econômico Mundial.
Um gargalo estrutural
Apesar da retomada, o setor brasileiro de tecnologia convive com um desequilíbrio antigo entre oferta e demanda de mão de obra qualificada. Estimativas da Brasscom indicam que o país forma cerca de 53 mil profissionais de tecnologia por ano, enquanto a demanda anual supera 150 mil vagas, um descompasso que projeções da McKinsey, citadas pela Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES), estimam poder ultrapassar um milhão de profissionais até 2030. O gargalo é mais agudo nas vagas de entrada: empresas relatam dificuldade em encontrar candidatos juniores com bases técnicas sólidas em nuvem e infraestrutura, ainda que estágios e programas de trainee estejam sendo ampliados para suprir a lacuna.
Contraponto
Nem todos os indicadores sustentam uma leitura otimista. Um índice da Organização Internacional do Trabalho, publicado em maio de 2025, estima que 25% dos empregos do mundo estão potencialmente expostos à IA generativa, embora apenas entre 5% e 6% corram risco de substituição quase total. Um documento técnico do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar descreve um cenário de "automação excludente", no qual a substituição de funções rotineiras não seria acompanhada de criação equivalente de empregos acessíveis, o que poderia elevar o desemprego brasileiro para uma faixa entre 8% e 10% e a informalidade para até 45%, caso não haja políticas de mitigação.
Relatório do banco de investimentos Goldman Sachs, divulgado em maio de 2026, também alerta que trabalhadores efetivamente substituídos por automação e IA tendem a enfrentar consequências duradouras de renda e patrimônio, não apenas a perda imediata do posto de trabalho. E um estudo do ITS Rio destaca que menos de 30% da população brasileira possui habilidades digitais básicas, o que limita a capacidade de parte da força de trabalho de aproveitar as oportunidades geradas pela própria transformação tecnológica.
Vale notar, ainda, que parte da própria indústria de IA vem moderando o tom. Executivos que alimentaram o temor de desemprego em massa nos últimos anos passaram, a partir de maio de 2026, a qualificar essas previsões como exageradas, embora reconheçam a possibilidade de que perdas de empregos ocorram antes da criação de novas oportunidades ligadas à tecnologia.
O que vem a seguir
O retrato que emerge, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, é menos o de uma ruptura definitiva e mais o de um reequilíbrio ainda em curso. Um levantamento da KPMG com executivos de tecnologia de 27 países, incluindo 150 líderes brasileiros, mostra que 100% das empresas nacionais entrevistadas já implementaram algum grau de automação ou IA, incluindo sistemas agênticos, mas 45% delas ainda operam iniciativas fragmentadas e desconectadas entre si. A mesma pesquisa estima que, em organizações de alto desempenho, cerca de metade da força de trabalho em tecnologia continuará sendo composta por humanos até 2027, sinal de que a substituição integral de equipes segue distante da prática observada no mercado.
Para o leitor brasileiro, a lição prática parece ser dupla. De um lado, o setor de tecnologia segue como um dos poucos com saldo de contratação consistentemente positivo havendo demanda represada tanto para perfis técnicos quanto comerciais. De outro, a forma como essas vagas se materializam, se por CLT, MEI ou contratos PJ, e quem tem acesso a elas, continuará sendo tão relevante quanto o número absoluto de postos criados.