Caderno Economia
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A conta que ninguém provisiona: o preço de envelhecer corrói a herança das famílias brasileiras

Nos Estados Unidos, uma investigação recente mostrou que os custos do envelhecimento estão dissolvendo a maior transferência de riqueza da história. No Brasil, o problema é estruturalmente mais grave: o país envelhece antes de enriquecer e o cuidado de longa duração é majoritariamente informal e não remunerado.

Publicado em 24 de julho de 2026 · Leitura de 9 min

Durante décadas, economistas trataram a longevidade dos baby boomers como prenúncio da maior transferência de patrimônio já registrada na história americana — algo entre 68 e 84 trilhões de dólares deveria passar às gerações seguintes. Uma reportagem publicada pelo Washington Post em 22 de julho de 2026 revisitou essa promessa e encontrou uma realidade mais dura: para a maioria das famílias, o custo de envelhecer consome grande parte do que sobraria para herdar, e para uma fatia crescente da população, ele elimina o patrimônio por completo1.

A investigação, baseada em dados do Health and Retirement Study — pesquisa federal que acompanha milhares de americanos desde 1992 até a morte —, mostrou que a pessoa mediana gastou US$ 19.179 com cuidados na última década de vida, mas que uma em cada 20 gastou mais de US$ 100 mil. Entre os americanos mais pobres, 41% terminaram a vida sem nenhum patrimônio, depois de gastar quase um terço da riqueza acumulada apenas com cuidados de saúde e assistência1. O fenômeno tem nome entre pesquisadores: a promessa da "grande transferência de riqueza" é, na prática, cada vez mais restrita a quem já é rico.

O retrato americano interessa ao Brasil por um motivo incômodo: aqui, as engrenagens que sustentam qualquer rede de proteção ao envelhecimento — poupança previdenciária robusta, seguro de longa permanência disseminado, mercado imobiliário líquido — são ainda mais frágeis, enquanto a transição demográfica avança em ritmo acelerado.

Um país que envelhece rápido, mas ainda pobre

Segundo as Projeções da População do IBGE (revisão 2024, com base no Censo 2022), a proporção de brasileiros com 60 anos ou mais já responde por uma fatia crescente da população e deve continuar subindo pelas próximas décadas, com a idade média do país saltando de 35,5 anos em 2023 para uma projeção de 48,4 anos em 20702. Dados mais recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) mostram que o grupo de 60 anos ou mais já passou de 11,3% da população em 2012 para 16,1% em 2024 — um salto de quase cinco pontos percentuais em pouco mais de uma década3.

A diferença crucial em relação aos Estados Unidos é o timing: lá, o envelhecimento acompanhou décadas de acumulação de riqueza. Aqui, o Brasil chega à velhice em massa antes de ter consolidado os mecanismos financeiros — previdência complementar, seguros de longevidade, mercado de home care regulado — que amorteceriam o impacto. É o que demógrafos chamam de "envelhecer antes de enriquecer".

"Vai ser a galera lá no topo que vai deixar herança. O resto de nós vai gastar nossos ativos com aposentadoria e provavelmente com custos mensais de cuidado." Jessica Forden, pesquisadora do Roosevelt Institute, sobre os EUA — citada na reportagem original do Washington Post1

Quanto custa envelhecer no Brasil

Não existe, no Brasil, um levantamento longitudinal equivalente ao Health and Retirement Study americano — uma lacuna que pesquisadores da Fiocruz e do Ipea já apontaram como um problema de invisibilidade estatística sobre o envelhecimento4. Mas os números disponíveis, reunidos de fontes distintas, desenham um quadro semelhante ao americano em gravidade, ainda que por caminhos diferentes.

O primeiro é o custo da institucionalização. As Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs) — nome técnico adotado pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia em substituição a "asilo" — cobram mensalidades que variam enormemente conforme região e nível de cuidado: de faixas filantrópicas de R$ 500 a R$ 2.200 até unidades premium que ultrapassam R$ 20 mil por mês em capitais como São Paulo5,6. Pelo Censo 2022, apenas 160.784 pessoas viviam em ILPIs no país — 0,5% da população acima de 60 anos —, concentradas majoritariamente nas regiões Sul e Sudeste6. O número baixo não indica falta de necessidade: indica falta de acesso. A maior parte das famílias brasileiras simplesmente não tem como pagar por uma vaga, e recorre a alternativas informais.

O segundo custo é o plano de saúde. O Estatuto do Idoso (Lei 10.741/2003) proíbe reajustes por faixa etária depois dos 60 anos — entendimento reforçado pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento do Tema 381, em outubro de 20257 —, mas isso não impede que a mensalidade da última faixa etária já chegue pesada: planos básicos para quem tem entre 60 e 64 anos partem de cerca de R$ 950 mensais, e coberturas mais completas podem superar R$ 4 mil por mês8. Para famílias que dependem majoritariamente da aposentadoria, esse valor pode consumir de 30% a 50% da renda do titular, segundo estimativas de consultorias do setor8 — e ainda assim cobre apenas assistência médica, não cuidados de longa duração, higiene ou moradia assistida.

O cuidado invisível: quem paga com o próprio tempo

O terceiro custo — e talvez o mais subestimado — não aparece em boleto nenhum. Estima-se que cerca de 11,5 milhões de brasileiros cuidem de um familiar idoso ou com deficiência sem receber remuneração, segundo levantamento do Ipea de 2023 retomado por estudos posteriores; a maioria são mulheres com 50 anos ou mais que reduziram jornada de trabalho ou deixaram o emprego para assumir o cuidado em casa9. Uma nota técnica do Comitê de Saúde da Pessoa Idosa da Fiocruz estima que, do total de cuidadores familiares no país, apenas cerca de 1 milhão são remunerados ou contratados formalmente4.

Pesquisa qualitativa conduzida pelo Cebrap com cuidadoras familiares de idosos, publicada pelo Sesc São Paulo, descreve o padrão financeiro recorrente: mulheres que dependiam da própria renda passam a viver de aposentadoria do familiar cuidado, ajuda simbólica de outros parentes e cortes no próprio consumo — do salão de beleza a pequenos cuidados pessoais10. É o espelho brasileiro do que a reportagem do Washington Post descreveu nos EUA: filhos adultos que deixam de acumular patrimônio próprio para sustentar os pais, só que aqui, sem alternativa de mercado, o custo é pago majoritariamente em tempo de trabalho não remunerado, e não em dinheiro do próprio bolso.

Uma resposta institucional recente tenta reconhecer esse trabalho: a Lei 14.867/2024 instituiu a Política Nacional de Cuidados, e uma primeira regulamentação do programa "Cuidar de Quem Cuida" previu um auxílio financeiro de R$ 300 mensais a cuidadores informais cadastrados, voltado prioritariamente a famílias que já recebem o Benefício de Prestação Continuada (BPC)11. Uma proposta em tramitação na Câmara dos Deputados discute ampliar esse auxílio, alinhando seu valor ao do Bolsa Família12. O valor, no entanto, está longe de compensar a perda de renda de quem abandona um emprego formal para cuidar em tempo integral — e o próprio BPC, de um salário mínimo (R$ 1.621 em 2026), só é acessível a idosos com renda familiar per capita inferior a R$ 405,25, deixando de fora a ampla faixa de famílias de classe média que não se qualificam para assistência, mas também não têm reserva para arcar com os custos sozinhas13.

Controvérsia em debate

A favor de ampliar o financiamento público do cuidado: defensores da Política Nacional de Cuidados e de propostas de seguro social para longevidade argumentam que o Estado brasileiro socializou o risco de doença (SUS) e de aposentadoria (INSS), mas deixou de fora o risco de dependência funcional na velhice — o que empurra famílias inteiras, sobretudo mulheres, para a pobreza ou para a saída do mercado de trabalho. Nessa visão, um fundo público ou um seguro obrigatório de longa duração, nos moldes do que já existe em países como Alemanha e Japão, distribuiria esse custo de forma mais justa.

A favor da cautela fiscal e da centralidade da família: outra corrente argumenta que o Brasil já enfrenta déficit previdenciário estrutural e que a criação de um novo benefício universal de longa duração seria fiscalmente insustentável em um país com carga tributária elevada e crescimento econômico modesto. Defende-se, em vez disso, o fortalecimento de deduções fiscais para famílias cuidadoras, expansão de linhas de crédito para adaptação domiciliar e estímulo a seguros privados de longevidade, preservando o papel da família como primeira rede de proteção — consistente com o próprio texto do Estatuto do Idoso, que atribui à família o dever primário de acolhimento.

O que falta e o que já existe

Uma diferença importante em relação aos Estados Unidos merece registro para evitar leituras equivocadas: o Brasil não tem um mecanismo equivalente à recuperação patrimonial pós-morte do Medicaid americano — a regra federal, vigente desde 1993, que permite a estados americanos reaverem de herdeiros parte do valor gasto com cuidados de longa duração de beneficiários de baixa renda, frequentemente por meio da venda do imóvel do falecido1. No sistema brasileiro, o SUS oferece atenção básica e média/alta complexidade em saúde sem cobrança e sem recuperação de bens, e o BPC não gera dívida a ser cobrada dos herdeiros. A lacuna brasileira não está, portanto, na cobrança retroativa — está na ausência de uma rede intermediária de cuidado de longa duração financiada publicamente, que faça a ponte entre "internação hospitalar gratuita pelo SUS" e "ILPI privada cara", deixando exatamente esse meio de campo — cuidado domiciliar continuado, centros-dia, fisioterapia e apoio ao cuidador — na conta das famílias.

Para as famílias brasileiras de classe média que hoje planejam a própria aposentadoria, a lição que emerge tanto do caso americano quanto do brasileiro é semelhante à que a reportagem do Washington Post extraiu de suas fontes: os modelos tradicionais de planejamento financeiro — que tratam a expectativa de vida como uma média a ser alcançada, e não como um intervalo de incerteza a ser coberto — subestimam sistematicamente o risco de precisar de cuidado intensivo por muitos anos. Pesquisa do Boston College's Center for Retirement Research, citada pela reportagem original, estima que quase 1 em cada 5 pessoas vai precisar de cuidado de alta intensidade por mais de três anos1 — um horizonte para o qual pouquíssimas famílias, brasileiras ou americanas, guardam recursos específicos.

Nota de atribuição editorial: Este artigo foi inspirado pela reportagem "As the cost of aging soars, families' wealth is evaporating", de Federica Cocco e Shannon Najmabadi, publicada pelo Washington Post em 22 de julho de 2026 e disponível em: washingtonpost.com/business/2026/07/22/elder-care-costs-are-rising-depriving-families-their-inheritance. Os dados e depoimentos sobre o caso americano citados aqui provêm dessa reportagem; a análise do contexto brasileiro é reportagem original de O Tecido, com apuração e fontes próprias listadas nas referências.