Caderno EconomiaInteligência artificial · Investimento2 de outubro de 2026
Este texto foi motivado pela coluna de Greg Ip publicada no The Wall Street Journal em 2 de outubro de 2026, "Will America Spend 9% of Its GDP on AI? The Industry Is Counting on It". Os trechos atribuídos ao WSJ são paráfrases com crédito. A análise, o contexto brasileiro e as demais fontes são de responsabilidade de O Tecido.

Nove por cento do PIB. Esse é o tamanho aproximado do faturamento que empresas e consumidores americanos precisariam destinar, a cada ano, aos serviços de inteligência artificial para que a montanha de dinheiro hoje enterrada em data centers faça sentido econômico. A cifra, destacada pelo colunista Greg Ip no The Wall Street Journal, coloca a IA no mesmo patamar de gasto que os americanos dedicam à alimentação e em torno do dobro do que o país paga por toda a energia que consome.1

O número não é profecia de entusiasta nem alarme de cético. Ele é uma consequência aritmética. Está implícito nos cheques que as grandes empresas de tecnologia e seus financiadores estão assinando agora, e é justamente por isso que merece atenção de quem acompanha economia, inclusive no Brasil.

De onde vem a conta dos 9%

O cálculo é do professor de finanças Stijn Van Nieuwerburgh, da Columbia Business School, em estudo apresentado na conferência Brookings Papers on Economic Activity, em setembro.2 O método é direto: partir dos planos efetivamente anunciados de construção de data centers e do custo médio de cada instalação, descontar uma parcela de projetos que devem ser cancelados e perguntar quanto de receita seria necessário para remunerar o capital.

As premissas, segundo o resumo do WSJ, são relativamente conservadoras para o padrão do setor: cada dólar de receita gera 50 centavos de fluxo de caixa, e os investidores exigem retorno de 10% ao ano sobre o capital investido, sem considerar alavancagem. O resultado é uma receita de cerca de US$ 3,5 trilhões em 2032, equivalente a 8,8% de um PIB americano que cresceria 4% ao ano em termos nominais.1 Uma reportagem do Crypto Briefing sobre o mesmo estudo calcula que alcançar esse patamar exigiria do setor um crescimento composto de receita da ordem de 80% ao ano até 2032.3

O maior ciclo de investimento da história americana

O lado do gasto é ainda mais impressionante. De acordo com a cobertura da agência Cailian Press e do portal Sina Finance sobre o estudo, os investimentos americanos em data centers, energia, redes e chips entre 2025 e 2032 podem somar cerca de US$ 10,3 trilhões, uma média próxima de 3,6% do PIB por ano.4 Para efeito de comparação, a construção ferroviária entre 1870 e 1890 consumiu em média cerca de 2,2% do PIB anual; o sistema de rodovias interestaduais, entre 1956 e 1973, pouco mais de 1,1%; a febre da fibra óptica no fim dos anos 1990, em torno de 1,1%.4

Média anual de investimento, em % do PIB IA e data centers (2025 a 2032) Ferrovias (1870 a 1890) Rodovias interestaduais (1956 a 1973) Telecom e fibra (1996 a 2003) 3,63% 2,24% 1,13% 1,10%
Fonte: estimativas de Stijn Van Nieuwerburgh (Brookings Papers on Economic Activity, 2026), conforme cobertura da Cailian Press e do Sina Finance. O valor da IA é projeção; os demais são históricos. Elaboração: O Tecido.

O próprio autor admite que essas comparações dependem de definição. Em entrevista repercutida pelo International Business Times, Van Nieuwerburgh cita uma média em torno de 2,8% do PIB durante o ciclo, também acima do pico ferroviário, e chega a afirmar que, sem os data centers, os EUA provavelmente já estariam em recessão.5 Seja qual for o recorte, a conclusão se mantém: nunca a economia americana dependeu tanto da expansão de um único setor.

O calcanhar de aquiles: o preço da computação

A premissa mais frágil da conta não está no tamanho do investimento, mas no preço. Para chegar aos US$ 3,5 trilhões, o modelo supõe que as empresas de IA continuarão cobrando em 2032 o que cobram hoje. Ao WSJ, Van Nieuwerburgh observou que os preços atuais refletem escassez de capacidade, e que manter esse patamar depois de quadruplicar a oferta e enfrentar concorrência seria uma aposta ousada.1

A história recente oferece um alerta concreto. Entre 1997 e 2001, o preço da banda em fibra óptica entre Londres e Nova York caiu 96%, à medida que mais cabos eram lançados e a tecnologia multiplicava a capacidade de cada fio. O colapso de preços apressou a falência de várias operadoras de longa distância.1 A infraestrutura sobreviveu e virou a base da internet moderna; quem a financiou, nem sempre.

Na IA, a velocidade de queda é ainda maior. Dados da Epoch AI citados pelo WSJ indicam que o preço efetivo para um dado nível de capacidade dos modelos recua cerca de 47% por trimestre desde 2023, ritmo seis vezes mais rápido que o barateamento do poder computacional em si.1

Os data centers estão sendo construídos sobre a premissa de que a computação continuará cara. A história das tecnologias de rede sugere que ela fica barata justamente quando sobra capacidade.

O contra-argumento dos otimistas é o Paradoxo de Jevons, batizado em homenagem ao economista britânico William Stanley Jevons, que notou no século XIX que motores a vapor mais eficientes aumentavam, em vez de reduzir, o consumo de carvão. Aplicado à IA, o raciocínio é que modelos mais baratos e mais capazes destravam tantos usos novos que o volume compensa a queda do preço unitário. Uma análise da The Economist, republicada pelo Der Standard, aponta exatamente essa tensão: o consumo de tokens, medida de uso dos modelos, parece crescer mais rápido que a receita, e talvez um terço ou mais do investimento não alcance retorno satisfatório.6

A lição do computador pessoal

Greg Ip recorre a um paralelo útil. Entre os anos 1960 e o início dos 2000, a densidade dos chips dobrava a cada dois anos e o preço real dos computadores caía cerca de 15% ao ano. No começo, a demanda mais que compensou: entre 1974 e 1984, o investimento empresarial em computadores triplicou, chegando a 0,8% do PIB. Depois, mesmo com máquinas cada vez melhores e mais baratas, o gasto estabilizou.1

A explicação é a lei dos rendimentos decrescentes. As primeiras planilhas eletrônicas, como VisiCalc e Lotus 1-2-3, transformaram a gestão das empresas de um modo que versões posteriores, muito mais potentes, não conseguiram repetir. Cada dólar adicional passou a comprar menos produtividade extra. A dúvida central sobre a IA não é se ela vai encontrar esse teto, mas onde ele está.

Produtividade não é o mesmo que faturamento

Os ganhos existem e são mensuráveis. O WSJ cita um levantamento dos doutorandos de Harvard Fiona Chen e James Stratton com dados da plataforma Jellyfish, usada por empresas para monitorar equipes de engenharia. Assistentes de IA elevaram em 12% as linhas de código e em 5% os pull requests; agentes autônomos, em 30% e 23%, respectivamente. O efeito sobre projetos efetivamente concluídos, porém, foi pequeno e sem significância estatística, porque os desenvolvedores passaram a gastar muito mais tempo revisando e corrigindo o que a máquina produziu.1

É uma distinção que importa para o investidor. A IA pode elevar a produtividade e o crescimento da economia como um todo sem que esse ganho se converta em receita proporcional para quem vende o serviço. Parte do valor fica com o usuário, parte se dilui em retrabalho, parte é capturada pela concorrência via preços menores.

O risco que fica fora do balanço

O que transforma uma possível frustração de receita em risco sistêmico é o financiamento. Van Nieuwerburgh descreve o caso do data center Hyperion, da Meta, na Louisiana: um projeto de cerca de 2 gigawatts e US$ 30 bilhões em ativos, no qual a Meta vendeu 80% da participação à gestora Blue Owl e a sociedade resultante levantou US$ 27 bilhões em dívida, levando o endividamento do projeto a perto de 90% dos ativos.4 Estruturas desse tipo, por meio de sociedades de propósito específico, mantêm a dívida fora do balanço da controladora e com pouca transparência pública.5

Excesso de capacidade bancado por lucros acumulados gera prejuízo para acionistas. Excesso de capacidade bancado por dívida pode gerar inadimplência, contágio e crise de crédito. Essa é a diferença que preocupa o autor do estudo, e que o mercado de derivativos de crédito já começou a precificar em empresas do segmento de nuvem especializada em IA.5

Contraponto

O argumento de que a conta fecha

Os defensores do ciclo lembram que as projeções vêm sendo superadas com folga. Um painel de especialistas consultado por equipe do Federal Reserve de Chicago, liderada por Ezra Karger, projetou receita combinada de US$ 300 bilhões para OpenAI e Anthropic em 2030. Segundo o WSJ, as duas empresas já operam a um ritmo anualizado próximo de US$ 180 bilhões, crescendo a taxas de dois dígitos por trimestre.1

No cenário mais ambicioso, a IA se tornaria um terceiro fator de produção, ao lado do capital e do trabalho. Nesse caso, 9% do PIB pareceria pouco diante dos cerca de 51% que hoje remuneram o trabalho nos EUA. O próprio cenário, contudo, traz consequências pesadas: queda de emprego e pressão para que governos tributem a IA para repor a arrecadação perdida com salários.1

E o Brasil nessa conta?

O Brasil não está na linha de frente do faturamento com IA, mas acaba de se posicionar no lado da infraestrutura. Em setembro de 2026, foi sancionado o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter, o Redata, que reduz tributos federais sobre equipamentos e exige contrapartidas em pesquisa e desenvolvimento e em uso de energia e água, segundo a Times Brasil, licenciada da CNBC.7 O regime havia nascido de medida provisória assinada em setembro de 2025, que previa renúncia de R$ 5,2 bilhões em 2026, e ficou em suspenso depois que a MP perdeu validade em fevereiro.8

As projeções do setor variam bastante. A Brasscom, entidade das empresas de tecnologia, estima cerca de US$ 80 bilhões em investimentos até 2030 e uma capacidade que passaria de 1.340 MW para 2.529 MW no período, abaixo do teto de US$ 100 bilhões que chegou a ser cogitado antes dos atrasos na tramitação.9 Mais ambicioso, o CEO da Scala Data Centers, Marcos Peigo, afirmou ao Brazil Journal que, se o país se tornar exportador de capacidade para Estados Unidos e Europa, os investimentos podem se aproximar de US$ 1 trilhão em dez anos, condicionados ainda à aprovação de incentivos estaduais pelo Confaz.10

É aqui que o debate americano deixa de ser distante. A tese do Brasil como exportador de computação se apoia na saturação do mercado dos EUA e nos preços atuais da capacidade. Se a dinâmica descrita por Van Nieuwerburgh se confirmar, com oferta quadruplicada e preços em queda, a rentabilidade de projetos instalados aqui também será afetada, porque eles disputariam o mesmo mercado global. Há ainda o fator energia: o diretor-geral do ONS já alertou que data centers podem chegar a consumir parcela relevante da eletricidade do país, o que transfere parte do risco para o sistema elétrico e para o consumidor.7

Do lado da demanda doméstica, a adoção avança. A Pintec Semestral do IBGE mostra que a fatia de empresas industriais com 100 ou mais pessoas ocupadas que usam IA saltou de 16,9% em 2022 para 41,9% em 2024, com uso concentrado em administração e comercialização.11 Adoção ampla, porém, não é sinônimo de gasto elevado. A pergunta que vale para os EUA vale também aqui: quanto dessas empresas estará disposta a pagar quando a ferramenta virar commodity?

O que observar nos próximos trimestres

  • Preço por unidade de computação. Se o custo de acesso aos modelos continuar caindo no ritmo atual, a receita precisa crescer em volume muito acima disso para manter a conta de pé.
  • Relação entre capex e fluxo de caixa das big techs. Investimento superando a geração de caixa operacional indica dependência crescente de dívida.
  • Spreads de crédito de empresas de nuvem especializada. São o termômetro mais sensível de estresse financeiro no ciclo.
  • Regulamentação estadual do Redata e planejamento do ONS. Definem se os projetos brasileiros saem do papel e a que custo para o sistema elétrico.
  • Dados de produtividade com resultado final. Medidas de entrega concluída, e não apenas de volume produzido, dirão se a IA está gerando valor que alguém paga.

Perguntas frequentes

O que significa dizer que a IA precisaria de 9% do PIB americano?

Segundo o cálculo de Stijn Van Nieuwerburgh, da Columbia Business School, a receita com serviços de IA nos EUA teria de chegar a cerca de US$ 3,5 trilhões em 2032, ou 8,8% do PIB projetado, para que os data centers em construção gerem retorno de 10% sobre o capital investido.

Quanto os Estados Unidos devem investir em infraestrutura de IA até 2032?

O estudo estima cerca de US$ 10,3 trilhões entre 2025 e 2032 em data centers, energia, redes e chips, média aproximada de 3,6% do PIB por ano, acima do pico das ferrovias no século XIX.

Por que a queda de preços é um risco para quem investe em IA?

A conta pressupõe preços de computação sustentados pela escassez atual. Com capacidade multiplicada e mais competição, os preços tendem a cair, como aconteceu com a fibra óptica entre 1997 e 2001, quando a banda transatlântica ficou 96% mais barata e operadoras quebraram.

O que é o Paradoxo de Jevons e como se aplica à IA?

É a observação de que ganhos de eficiência que barateiam um recurso podem aumentar seu consumo total. Os otimistas argumentam que a IA mais barata e mais capaz vai gerar demanda suficiente para compensar a queda de preço.

Como o Brasil se insere na corrida dos data centers de IA?

O país sancionou em setembro de 2026 o Redata, regime tributário especial para data centers. A Brasscom projeta cerca de US$ 80 bilhões em investimentos até 2030, e parte do setor defende transformar o Brasil em exportador de capacidade computacional, o que o expõe aos mesmos riscos de preço do mercado global.

A IA já está aumentando a produtividade das empresas?

Há ganhos mensuráveis em tarefas específicas, como produção de código, mas estudos recentes mostram que eles nem sempre se convertem em mais projetos concluídos ou em receita proporcional para as empresas de IA.

Ewerton Lopes — Curador Editorial | O Tecido, Caderno Economia