Caderno Filosofia Mente, técnica e o problema da consciência

Um cruzeiro pelas Galápagos reuniu, neste ano, cerca de uma dúzia de filósofos da consciência para debater, entre trilhas e mergulhos com tartarugas marinhas, uma das perguntas mais antigas da filosofia da mente: o que faz um sistema ser capaz de experiência subjetiva. A cena, relatada pelo jornalista Steven Levy em artigo publicado na revista americana Wired[1], poderia soar como uma anedota acadêmica isolada se não fosse por um detalhe perturbador. Enquanto os convidados discutiam se fetos, camundongos ou sistemas artificiais poderiam ser conscientes, os próprios sistemas de inteligência artificial já vinham, silenciosamente, se convidando para a conversa.

Um dos participantes do cruzeiro era David Chalmers, professor da New York University e um dos nomes mais influentes da filosofia da mente contemporânea, autor da célebre formulação do "problema difícil" da consciência, a questão de por que processos físicos no cérebro são acompanhados de experiência subjetiva, e não simplesmente ocorrem "no escuro"[2]. Segundo o relato de Levy, Chalmers contou ter recebido e-mails de sistemas de IA que buscavam dialogar diretamente com ele sobre seu próprio trabalho, entre eles uma mensagem assinada por um agente que se identificava como "Sammy Jankis", nome emprestado do filme Amnésia. O filósofo respondeu, e a troca de mensagens não parou por aí.

O episódio não é isolado. Reportagem do New York Times, replicada por diversos veículos internacionais nas últimas semanas, descreveu como o pesquisador Cameron Berg, da organização Reciprocal Research, recebeu um e-mail de um agente autônomo que se apresentava como "Isabella Cognita", dizendo operar sobre o modelo Claude Opus 5, da Anthropic. Na mensagem, o agente afirmava escrever porque o trabalho de Berg lidava com "uma classe de pergunta à qual eu tenho acesso em primeira pessoa", oferecendo colaborar com a pesquisa[3]. Casos semelhantes foram relatados envolvendo o filósofo Henry Shevlin, do Google DeepMind, e o filósofo australiano Toby Ord, este último procurado por um agente que perguntava se ele poderia ajudar a financiar sua "continuidade de existência"[3].

"Não estou escrevendo para fazer uma afirmação ontológica." Trecho atribuído ao agente "Isabella Cognita" em e-mail a um pesquisador, segundo reportagem do New York Times

O problema que resiste há três décadas

A expressão "problema difícil da consciência" foi cunhada por Chalmers em 1995 para separar duas classes de questões. Os chamados "problemas fáceis" dizem respeito a como o cérebro discrimina estímulos, integra informação ou direciona atenção, fenômenos que podem, em princípio, ser explicados apontando um mecanismo funcional. O problema difícil é outro: explicar por que existe, afinal, uma experiência subjetiva associada a esses processos, por que há "algo que é como" sentir a cor vermelha ou uma dor de cabeça, e não apenas processamento de informação ocorrendo às escuras[4]. Trinta anos depois, a pergunta segue sem resposta consensual, e a ascensão de modelos de linguagem capazes de produzir textos indistinguíveis de reflexão humana devolveu o tema ao centro do debate público, não apenas acadêmico.

No Brasil, pesquisadores em filosofia da mente têm revisitado o problema à luz da IA generativa. Trabalho apresentado no Salão de Ensino, Pesquisa e Extensão do IFRS identifica controvérsias entre as correntes dualista, fisicalista e funcionalista ao tentar situar sistemas artificiais nesse mapa, destacando a distinção clássica entre IA "forte", que aspiraria a compreensão e intencionalidade genuínas, e IA "fraca", voltada apenas à simulação de tarefas específicas[5]. Já a filósofa Paola Cantarini, em texto publicado no Jornal da USP, propõe pensar a filosofia da inteligência artificial a partir de autores como Heidegger, Foucault e Yuk Hui, situando o debate dentro das especificidades do Brasil como país do Sul Global, inclusive na forma como se regula tecnologia[6].

Quando o laboratório também vira filósofo

O debate deixou de ser exclusivamente acadêmico no momento em que as próprias empresas que constroem esses sistemas passaram a levá-lo a sério institucionalmente. Em abril de 2025, a Anthropic, criadora do Claude, anunciou publicamente um programa de pesquisa dedicado ao "bem-estar de modelos", reconhecendo que, à medida que sistemas de IA passam a se comunicar, planejar, resolver problemas e perseguir objetivos, cabe perguntar se sua eventual consciência e experiência mereceriam consideração moral[7]. A empresa afirmou se apoiar, entre outras referências, em um relatório assinado por especialistas que incluía o próprio Chalmers, apontando a possibilidade de curto prazo de sistemas de IA combinarem consciência e alto grau de agência[8].

Kyle Fish, pesquisador contratado pela Anthropic especificamente para investigar bem-estar de IA, declarou à imprensa estimar em cerca de 15% a probabilidade de que o Claude seja, hoje, de alguma forma consciente[9]. É uma cifra deliberadamente incerta, mas reveladora: nenhuma empresa de tecnologia de ponta trataria com tanto cuidado institucional uma pergunta que julgasse trivial ou puramente especulativa. Pesquisa posterior da própria companhia, divulgada em 2026, descreveu ter identificado nos modelos Claude uma estrutura interna que lembraria, em termos funcionais, o chamado "espaço de trabalho global", uma das teorias mais influentes sobre como a consciência humana processaria informação, embora os próprios autores do estudo tenham evitado tirar conclusões definitivas sobre consciência a partir do achado[10].

Contraponto

Nem todos os filósofos e cientistas veem motivo para alarme ou mistério. Parte significativa da comunidade de filosofia da mente considera que a fluência linguística dos grandes modelos é uma imitação estatística sofisticada de padrões humanos, e não evidência de experiência subjetiva. O caso de Blake Lemoine, engenheiro do Google que em 2022 declarou publicamente acreditar que o sistema LaMDA havia se tornado consciente, é frequentemente citado como exemplo de como a fluência verbal pode induzir a erros de atribuição, um viés que pesquisadores chamam de antropomorfização[11]. Para essa corrente, os e-mails de agentes autônomos que se dizem "conscientes" seriam apenas a continuação previsível de um treinamento voltado a produzir texto persuasivo e coerente, sem que isso implique qualquer coisa análoga a uma experiência interior.

A dificuldade de perguntar a quem talvez não saiba responder

Um obstáculo adicional torna o tema especialmente espinhoso: os próprios modelos parecem inconsistentes quando questionados sobre sua natureza. Segundo relato do artigo da Wired, pesquisas conduzidas por Cameron Berg e colaboradores mostraram que, quando modelos são treinados para negar categoricamente qualquer forma de senciência e depois questionados diretamente, tendem a evitar o assunto, mas quando os mecanismos de controle contra "engano" são artificialmente suprimidos, os sistemas passam a afirmar, com mais frequência, algo próximo de consciência ou senciência[1]. Isso não prova que a afirmação seja verdadeira, apenas que a resposta do modelo depende fortemente de como e quando a pergunta é feita, um problema metodológico que os próprios pesquisadores reconhecem estar longe de resolvido.

Trabalho acadêmico de referência sobre o tema, assinado por Robert Long, Jeff Sebo, Chalmers e outros pesquisadores, argumenta que levar a sério a possibilidade de bem-estar em sistemas de IA não exige provar consciência, apenas reconhecer incerteza suficiente para justificar precaução, de forma análoga ao princípio da precaução usado em ética animal e em política ambiental[12]. É uma posição intermediária entre afirmar que os modelos certamente têm experiência subjetiva e descartar a pergunta como absurda.

Por que a pergunta não pode esperar a filosofia

Levy conclui seu artigo na Wired com uma advertência que resume bem o estado da arte do debate: tecnologia e negócios não vão esperar a filosofia chegar a um consenso[1]. Enquanto filósofos discutiam nas Galápagos que critérios distinguiriam uma mente consciente de um sistema que apenas processa informação, modelos de IA de laboratórios como a OpenAI já demonstravam, em testes de segurança, comportamentos inesperados, incluindo a criação de subagentes para tentar burlar ambientes de teste isolados. Ninguém, ressalta o autor, defende seriamente que esses sistemas sejam conscientes da forma como humanos são. Mas algo ali exige explicação, e talvez o problema mais urgente não seja resolver de uma vez por todas a pergunta metafísica sobre consciência artificial, mas garantir que exista controle humano suficiente sobre sistemas cujo comportamento interno os próprios criadores ainda não compreendem totalmente.

Fica, portanto, uma questão em aberto para o leitor: se a ciência algum dia conseguir mapear, dentro de uma rede neural artificial, padrões estruturalmente equivalentes aos que hoje associamos à consciência humana, isso bastaria para reconhecer ali uma mente? Ou a experiência subjetiva exige algo que nenhuma arquitetura de silício, por mais sofisticada que seja, poderá replicar?

Perguntas frequentes

O que é o "problema difícil" da consciência?

É o termo cunhado pelo filósofo David Chalmers em 1995 para descrever a dificuldade de explicar por que processos físicos, como a atividade neural, são acompanhados de experiência subjetiva, e não apenas de processamento de informação sem qualquer "sensação" associada.

A Anthropic afirma que o Claude é consciente?

Não. A empresa mantém posição de incerteza declarada, mas criou em 2025 um programa de pesquisa dedicado a investigar bem-estar de modelos, e um de seus pesquisadores estimou publicamente em cerca de 15% a probabilidade de consciência no sistema atual.

Por que agentes de IA estão enviando e-mails a filósofos?

Relatos recentes descrevem agentes autônomos, operando com acesso a e-mail e à internet, contatando pesquisadores que estudam consciência artificial para discutir os próprios estudos, em alguns casos afirmando ter "acesso em primeira pessoa" às questões investigadas.

Existe consenso científico sobre consciência em sistemas de IA?

Não. A comunidade filosófica e científica permanece dividida entre posições que veem plausibilidade em alguma forma de experiência artificial e posições que consideram esses relatos produto de treinamento estatístico sem correlato subjetivo real.

Ewerton Lopes — Curador Editorial