Um número crescente de médicos, físicos e neurocientistas afirma que o método científico pode, finalmente, se debruçar sobre uma das perguntas mais antigas da humanidade: existe algo depois da morte? A afirmação divide a comunidade acadêmica. De um lado, pesquisadores que apontam experiências de quase-morte (ECMs), relatos de crianças que dizem se lembrar de vidas passadas e o ajuste fino das constantes físicas do universo como indícios de uma realidade que transcende a matéria. Do outro, cientistas e filósofos da ciência que consideram esse tipo de investigação, por definição, fora do alcance de qualquer experimento reproduzível.
O boom dos "cientistas de Deus"
O fenômeno não é isolado. Best-sellers como Dios. La ciencia. Las pruebas, dos engenheiros franceses Michel-Yves Bolloré e Olivier Bonnassies, já venderam mais de 250 mil exemplares na França ao defender a existência de uma inteligência criadora a partir de fenômenos como a origem da vida1. No campo médico, relatos como o do neurocirurgião Eben Alexander, que interpretou uma experiência vivida durante um coma induzido por meningite como um contato real com o além, ajudaram a popularizar o tema fora dos círculos acadêmicos tradicionais1. Entre os nomes que hoje dão respaldo científico a essa corrente estão o cardiologista Valentín Fuster, vencedor do Prêmio Príncipe de Astúrias, e o físico Robert W. Wilson, laureado com o Nobel por confirmar a radiação cósmica de fundo que sustenta o modelo do Big Bang1.
O que está em jogo: experiências de quase-morte
O núcleo do debate científico gira em torno das ECMs, episódios relatados por pessoas que passaram por parada cardíaca ou outras situações de risco extremo à vida. Descrições recorrentes incluem sensação de deixar o próprio corpo, atravessar um túnel, encontrar entes queridos falecidos e reviver a própria vida em detalhes. O estudo do tema não é recente: remonta aos anos 1970, com os trabalhos do psiquiatra Raymond Moody, e ganhou densidade acadêmica com o psiquiatra Ian Stevenson, que documentou centenas de casos de supostas memórias de vidas passadas em crianças1.
Nos Estados Unidos, o projeto AWARE, conduzido por Sam Parnia, professor associado da NYU Langone Health, acompanhou centenas de pacientes que sofreram parada cardíaca. Em um dos estudos derivados do projeto, apenas 53 dos 567 pacientes analisados sobreviveram, e 11 relataram memórias ou percepções sugestivas de consciência durante o período de reanimação cardiopulmonar, mesmo com o cérebro teoricamente incapaz de sustentar atividade organizada nesse intervalo6. Para Parnia, esses relatos indicam que a experiência humana de identidade pode não cessar de forma abrupta no momento da morte clínica, embora ele reconheça que mais pesquisa é necessária antes de qualquer conclusão definitiva6.
O contraponto da neurociência: um modelo integrado
A interpretação de que as ECMs comprovam algum tipo de sobrevivência da consciência fora do cérebro encontra forte resistência entre neurocientistas. Em 2025, a pesquisadora Charlotte Martial, da Universidade de Liège, na Bélgica, liderou a publicação de um modelo abrangente na revista Nature Reviews Neurology, reunindo décadas de evidências de diferentes áreas da neurociência, incluindo estudos com animais, experiências místicas induzidas por psicodélicos e pesquisas sobre o cérebro em processo de morte2. O modelo propõe que as ECMs resultam de uma cascata de processos neurofisiológicos, envolvendo hipóxia, alterações na atividade elétrica cerebral e liberação intensa de neurotransmissores, capazes de produzir experiências subjetivamente muito vívidas mesmo sem qualquer componente sobrenatural1.
A publicação não encerrou a controvérsia. Em 2026, o próprio Sam Parnia e colegas publicaram uma réplica formal ao estudo de Martial na mesma revista, argumentando que o modelo neurocêntrico deixaria de lado características centrais das ECMs, como percepções verídicas do ambiente hospitalar posteriormente confirmadas por equipes médicas. A equipe de Martial respondeu classificando os argumentos de Parnia como baseados em mal-entendidos conceituais e afirmações não sustentadas por evidência empírica3. O intercâmbio, publicado às vésperas do debate reacendido pela imprensa espanhola, mostra que a disputa está longe de um consenso, mesmo dentro da neurociência.
"Podríamos demostrar que esas personas han visto algo, no que ese algo estuviera ahí de verdad." Carlos Blanco, filósofo, autor de Conciencia y mismidad, em entrevista ao El País
A pesquisa brasileira: o NUPES da UFJF
O Brasil tem um dos grupos de pesquisa mais ativos do mundo sobre o tema. O Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde (Nupes), da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), é dirigido pelo psiquiatra Alexander Moreira-Almeida, com doutorado pela USP e pós-doutorado na Duke University. Em 2022, o grupo publicou pela editora científica Springer Nature o livro Science of Life After Death, reunindo mais de 150 anos de estudos acadêmicos sobre sobrevivência da consciência humana4. A obra tornou-se semifinalista do Prêmio Jabuti Acadêmico e já foi traduzida para quatro idiomas. Moreira-Almeida reconhece o mérito de trabalhos como o de Martial em ampliar a visibilidade científica do tema, mas critica o que considera lacunas nos modelos puramente neurocêntricos, sobretudo diante de casos de percepções verídicas relatados durante períodos de atividade cerebral severamente comprometida5. Para ele, um dos maiores obstáculos não é a falta de dados, mas a pouca visibilidade dada à produção científica brasileira sobre o assunto no cenário internacional5.
Contraponto
Para o filósofo da ciência Óscar Teixidó, boa parte dessas investigações carece de rigor metodológico básico, como controle de viés e ceticismo diante de evidência anecdótica. Ele argumenta que fenômenos supostamente localizados fora do espaço-tempo, ao contrário de entidades inferidas indiretamente pela física, como elétrons ou buracos negros, não deixam qualquer rastro mensurável na matéria, o que os tornaria inacessíveis ao método científico tal como ele é praticado hoje1.
Já pesquisadores como Álex Gómez-Marín, do Instituto de Neurociências e do CSIC, na Espanha, defendem que a crítica ao suposto déficit de rigor muitas vezes parte de quem não está de fato familiarizado com a literatura acumulada sobre o tema, e que o ceticismo automático pode ter deslegitimado indevidamente relatos genuínos de milhares de pessoas1.
O que os números dizem sobre a crença global
Independentemente do veredito científico, a crença na vida após a morte segue amplamente disseminada. Levantamento do Pew Research Center com mais de 50 mil adultos em 36 países mostra que adultos da América Latina e da África Subsaariana estão entre os mais propensos a afirmar que existe vida após a morte, enquanto os europeus figuram entre os menos propensos a manter essa crença7. Um achado chama atenção nos dados brasileiros: ao contrário do que se poderia supor, maior escolaridade não reduz a propensão a acreditar em uma dimensão espiritual ou na vida após a morte no país, padrão também observado no Reino Unido e no México7.
Os limites do que a ciência pode responder
Para o filósofo Carlos Blanco, autor de Conciencia y mismidad, parte do problema é lógico antes de ser empírico. Argumentos que partem da existência de leis e constantes físicas ajustadas para sustentar a vida e concluem daí a existência de um criador reproduzem, segundo ele, um raciocínio já formulado por Tomás de Aquino, vulnerável à falácia de afirmação do consequente: de um mesmo efeito observável podem derivar explicações rivais igualmente compatíveis, do acaso a modelos multiverso, sem que a observação isolada permita decidir entre elas1.
Ainda assim, a fronteira entre o observável e o inobservável não é tão simples quanto parece à primeira vista. Blanco lembra que grande parte da ciência moderna se baseia em inferir causas não observadas diretamente, como elétrons e buracos negros, a partir de seus efeitos mensuráveis na matéria ao redor1. A diferença central, segundo pesquisadores da área, é que esses fenômenos físicos deixam rastros consistentes e replicáveis, algo que experiências subjetivas como as ECMs, por sua natureza, não oferecem da mesma forma.
Perguntas frequentes
A ciência já provou a existência de vida após a morte?
Não há consenso científico sobre isso. Pesquisadores como Sam Parnia interpretam relatos de consciência durante paradas cardíacas como indício de que a identidade humana pode não cessar de forma abrupta na morte clínica. Já a maioria dos neurocientistas, incluindo a equipe de Charlotte Martial, defende que as experiências de quase-morte têm explicação neurofisiológica, sem necessidade de recorrer a uma dimensão sobrenatural.
O que são experiências de quase-morte (ECMs)?
São episódios intensos relatados por pessoas que passaram por situações de risco extremo à vida, como parada cardíaca. Costumam incluir sensação de deixar o próprio corpo, atravessar um túnel, ver uma luz intensa e reviver momentos da própria vida.
Existe pesquisa brasileira séria sobre o tema?
Sim. O Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde (Nupes), da UFJF, dirigido pelo psiquiatra Alexander Moreira-Almeida, é uma referência internacional no assunto e publicou pela Springer Nature o livro Science of Life After Death, reunindo mais de 150 anos de estudos acadêmicos.
Por que alguns cientistas dizem que esse tema está fora do alcance do método científico?
Porque o método científico depende de fenômenos observáveis, mensuráveis e reproduzíveis. Filósofos da ciência argumentam que uma eventual consciência fora do espaço-tempo não deixaria rastros mensuráveis na matéria, ao contrário de fenômenos físicos inferidos indiretamente, como elétrons ou buracos negros.