Caderno Política · O Tecido Minaçu (GO) — 26 de agosto de 2026
Minaçu, Goiás Depósito de argila iônica do Pela Ema
Ilustração esquemática da região de Minaçu (GO), onde opera a mina de terras raras Pela Ema. Arte: O Tecido.

Encravada no norte de Goiás, a cidade de Minaçu, com pouco mais de 27 mil habitantes, tornou-se em poucos anos um ponto de convergência para a disputa geopolítica mais relevante da década em torno de minerais críticos. É lá que fica a mina Pela Ema, operada pela Serra Verde, hoje a única produtora comercial de terras raras do Brasil e uma das poucas fora da Ásia capazes de fornecer os quatro elementos de terras raras magnéticas mais valiosos: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio¹.

O interesse americano pela pequena cidade goiana não é acidental. Em reportagem publicada em 25 de agosto, o Financial Times descreveu Minaçu como o novo epicentro da corrida ocidental por alternativas ao domínio chinês sobre terras raras, destacando que o Brasil possui a segunda maior reserva mundial desses minerais, atrás apenas da China, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS)².

O que a reportagem britânica ainda não podia detalhar por completo é o desfecho comercial dessa disputa: a compra da Serra Verde pela americana USA Rare Earth, negócio avaliado em cerca de US$ 2,8 bilhões, cuja conclusão estava prevista para os últimos dias de agosto, após assembleia de acionistas marcada para esta sexta-feira, 28³. O acordo, anunciado em abril, prevê pagamento de US$ 300 milhões em dinheiro somados à emissão de cerca de 126,8 milhões de novas ações da companhia americana aos atuais sócios da Serra Verde, entre eles os fundos Denham Capital, Vision Blue Resources, Orion Resource Partners e Energy & Minerals Group.

"Não vamos deixar que potências usem minerais do Brasil para seus próprios interesses."
— Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República

Dinheiro do Pentágono e garantia de preço mínimo

A operação ganhou um componente estatal pouco comum em negócios de mineração. Em 24 de agosto, a USA Rare Earth informou ter reunido US$ 1,5 bilhão para viabilizar a compra, dos quais US$ 750 milhões vieram diretamente do Departamento de Guerra dos Estados Unidos, valor US$ 250 milhões acima do inicialmente planejado. Paralelamente, o governo americano firmou contrato de compra futura de, no mínimo, US$ 300 milhões em produtos de terras raras da própria Serra Verde ao longo de cinco anos.

Esse desenho financeiro já vinha sendo construído desde que a Serra Verde reduziu contratos de venda que mantinha com compradores chineses, firmados ainda durante a fase de construção da planta, diante da falta de capacidade de processamento fora da Ásia. Em seu lugar, a mineradora goiana passou a contar com um acordo de 15 anos para vender a totalidade de sua produção da Fase 1 a um veículo de propósito específico (SPV) capitalizado por entidades do governo americano e por capital privado, com preços mínimos garantidos caso a China volte a inundar o mercado global, estratégia recorrente de Pequim para deprimir cotações e desestimular concorrentes².

Produção mundial de terras raras (2025, estimativa) em mil toneladas de óxido equivalente — fonte: USGS, fev. 2026 China 270 EUA 45* Austrália 13 Brasil ~6,4 Myanmar *dado referente a 2024. Meta de produção da Serra Verde: 6.400 t de óxidos de terras raras/ano.
Comparativo aproximado de produção mineral de terras raras por país. Elaboração: O Tecido, com base em dados do USGS citados pelo Financial Times e comunicados da Serra Verde.

Entre atrair investimento e evitar "nova colonização"

O avanço do capital americano sobre o único ativo relevante de terras raras em operação no Brasil colide com um discurso que o governo Lula vem reforçando ao longo de 2026: o de que o país não abrirá mão de soberania sobre seus minerais críticos, mesmo diante da urgência ocidental por alternativas à China. Em maio, durante evento no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas, o presidente afirmou que empresas de qualquer nacionalidade poderiam se associar ao país para explorar esses recursos, "desde que tenham consciência de que o Brasil não abre mão de sua soberania".

O tom soberanista já havia aparecido de forma mais dura meses antes, quando o Planalto reagiu com desconforto a uma proposta dos Estados Unidos para favorecer empresas americanas na exploração de terras raras em território brasileiro, além de memorandos assinados isoladamente por governos estaduais, como o de Goiás com o Japão. Na ocasião, Lula chegou a declarar, em referência à pressão internacional sobre os minerais do país: "Estão querendo nos colonizar outra vez. É preciso que a gente levante a cabeça".

Esse pano de fundo político ajuda a explicar por que o negócio da Serra Verde, mesmo sendo uma transação entre empresas privadas, carrega peso diplomático. A compra ocorre num momento em que o Congresso avança na construção do marco regulatório do setor: em julho, a Câmara dos Deputados aprovou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE), que cria um Fundo Garantidor da Atividade Mineral com aporte de R$ 2 bilhões da União e prevê R$ 5 bilhões em créditos fiscais para incentivar o processamento desses minerais dentro do país, além de um conselho com poder de homologar operações societárias consideradas sensíveis no setor. O texto segue agora para análise do Senado.

Contraponto

Para especialistas em política industrial e para parte do setor mineral, a chegada de capital e tecnologia americanos é o caminho mais realista para o Brasil deixar de ser apenas exportador de matéria-prima bruta. Como observou o professor Fernando Landgraf, da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, ao Financial Times, os custos de produção no Brasil tendem a ser mais altos que na China, entre outros fatores, pela maior exigência ambiental². Sem parceiros que já dominem as etapas de separação em óxidos de alta pureza e fabricação de ímãs, hoje concentradas majoritariamente na Ásia, argumentam esses analistas, dificilmente o país conseguiria sozinho avançar rápido o suficiente para competir com o ritmo da demanda global por veículos elétricos, turbinas eólicas e sistemas de defesa.

O que muda para quem vive em Minaçu

Para a economia local, a mineração de terras raras surge como possibilidade de reescrever um capítulo antigo. Minaçu cresceu ao redor da extração de amianto crisotila, atividade que empregou gerações da cidade, mas que perdeu força nos últimos anos diante de restrições regulatórias e ambientais crescentes sobre o mineral, hoje banido em diversos países por seus riscos à saúde. Moradores relataram à imprensa a sensação de que a cidade corria risco de esvaziamento antes da chegada da nova mineradora².

A Serra Verde afirma empregar diretamente cerca de 350 pessoas, das quais aproximadamente dois terços seriam moradores do próprio município, além de centenas de contratados indiretos, segundo levantamento da Agência Pública feito em reportagem publicada em abril deste ano. A mesma apuração, no entanto, chama atenção para um ponto sensível do negócio agora concluído: a etapa brasileira da cadeia produtiva deve permanecer concentrada na fase inicial, de menor valor agregado, com a separação dos elementos em óxidos de alta pureza destinada a uma fábrica em desenvolvimento nos Estados Unidos, e a produção de ligas metálicas planejada para ocorrer no Reino Unido, com expansão futura prevista para a França.

Nem todos os moradores da região comemoram sem ressalvas. Segundo relatos colhidos pelo Financial Times, pequenos produtores rurais nas proximidades da mina afirmam que córregos próximos à operação apresentaram, em algumas ocasiões, coloração alterada por resíduo oleoso após chuvas fortes desde a abertura do empreendimento². A Serra Verde, por sua vez, declarou levar "a sério qualquer potencial impacto ambiental" e afirmou trabalhar junto a órgãos reguladores para identificar e mitigar problemas, tendo recebido multa em 2023 após autodenunciar desmatamento sem licença².

Nota de atribuição: Este texto foi inspirado pela reportagem "The old asbestos town at the heart of the rare earths race", de Michael Pooler, publicada pelo Financial Times em 25 de agosto de 2026. O conteúdo aqui apresentado não traduz nem reproduz o material original; foi construído a partir de apuração e fontes independentes. Reportagem original disponível em: ft.com/content/a40460fa-88fa-437f-99c6-828b2636f300 (acesso pode requerer assinatura).

O tabuleiro maior: China, tarifas e a corrida por alternativas

O apetite ocidental por projetos como o de Minaçu tem uma origem relativamente recente. A China concentra a maior parte da mineração mundial de terras raras e mantém posição próxima de monopólio sobre o processamento desses elementos. Em represália às tarifas impostas pelo governo de Donald Trump, Pequim restringiu exportações do setor no ano passado, movimento que intensificou globalmente a busca por fontes alternativas de suprimento². Ainda assim, mesmo com a aceleração de projetos como o de Goiás, a meta de produção da Serra Verde de 6.400 toneladas de óxidos de terras raras representa uma fração pequena das cerca de 390 mil toneladas extraídas globalmente em 2025, segundo o USGS².

Do lado brasileiro, a corrida por atrair investimento estrangeiro para minerais críticos ocorre em meio a um cálculo delicado: o setor de mineração já responde por parcela relevante do superávit comercial do país, com exportações de cerca de 431 milhões de toneladas em 2025 e arrecadação tributária de R$ 103,1 bilhões associada à atividade, segundo levantamento da KPMG¹⁰. O mesmo estudo estima um pipeline de investimentos de US$ 76,9 bilhões para o setor mineral entre 2026 e 2030, dos quais US$ 21,3 bilhões destinados especificamente a minerais críticos¹⁰.

O desafio político para o governo brasileiro, portanto, não é apenas atrair capital, mas evitar repetir um padrão histórico de exportar riqueza mineral bruta sem reter etapas de maior valor agregado, tecnologia e conhecimento científico associado. Como resumiu recentemente um comentário publicado pelo portal Realtime1 sobre a fala de Lula no CNPEM, "soberania não se mede por discurso", mas depende de investimento sustentado em laboratório, indústria, formação de cientistas e política de longo prazo¹¹. Esse é, no fundo, o teste que o caso Minaçu-Serra Verde-USA Rare Earth coloca diante do país nos próximos anos.

Perguntas frequentes

O que é a mina Pela Ema, em Minaçu?

É o principal depósito de terras raras em operação comercial no Brasil, controlado pela Serra Verde, no norte de Goiás. Trata-se de um dos maiores depósitos de argila iônica fora da Ásia, capaz de fornecer os quatro elementos de terras raras magnéticas de maior valor: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio.

Quem comprou a Serra Verde e por quanto?

A americana USA Rare Earth (Nasdaq: USAR) fechou acordo definitivo, anunciado em abril de 2026, para adquirir 100% da Serra Verde por valor equivalente a aproximadamente US$ 2,8 bilhões, combinando US$ 300 milhões em dinheiro e cerca de 126,8 milhões de novas ações da companhia americana.

O governo dos Estados Unidos financiou a compra?

Sim. Do total de US$ 1,5 bilhão levantado pela USA Rare Earth para viabilizar o negócio, US$ 750 milhões vieram do Departamento de Guerra dos Estados Unidos, além de um contrato de compra futura de ao menos US$ 300 milhões em terras raras ao longo de cinco anos.

Como o governo brasileiro reagiu ao avanço de capital estrangeiro sobre minerais críticos?

O presidente Lula tem defendido publicamente que o Brasil aceita parcerias com empresas de qualquer país, mas não abrirá mão de soberania sobre seus minerais críticos, condicionando avanços à transferência de tecnologia e ao processamento em território nacional, tema também tratado no marco legal de minerais críticos em tramitação no Congresso.

O Brasil é o maior produtor de terras raras do mundo?

Não. A China concentra a maior produção e as maiores reservas mundiais de terras raras. O Brasil possui, segundo o USGS, a segunda maior reserva do planeta, mas sua produção efetiva ainda é modesta em comparação à escala chinesa.

Ewerton Lopes — Curador Editorial · O Tecido, Caderno Política

Números-chave

Valor do negócio Serra Verde/USA Rare EarthUS$ 2,8 bi
Aporte do Pentágono na compraUS$ 750 mi
Meta de produção anual (óxidos)6.400 t
Produção mundial em 2025~390 mil t
Empregos diretos em Minaçu~350
Posição do Brasil em reservas2ª maior

Linha do tempo

2024Serra Verde inicia produção comercial de terras raras em Minaçu.
Mar. 2026Governo de Goiás assina memorando de minerais críticos com o Japão.
Abr. 2026USA Rare Earth anuncia acordo para comprar a Serra Verde por US$ 2,8 bi.
Maio 2026Lula reafirma soberania brasileira sobre minerais críticos em evento no CNPEM.
Jul. 2026Câmara aprova a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.
Ago. 2026USA Rare Earth conclui captação de US$ 1,5 bi para fechar a compra.

Glossário

Terras raras
Grupo de 17 elementos metálicos usados em pequenas quantidades em tecnologias como ímãs de alta performance, eletrônicos e sistemas de defesa.
Argila iônica
Tipo de depósito mineral do qual terras raras podem ser extraídas com processos relativamente mais simples que os de rochas duras.
Minerais críticos
Recursos considerados estratégicos por países e blocos econômicos devido à sua importância industrial e à concentração geográfica da oferta.
SPV (veículo de propósito específico)
Estrutura financeira criada para viabilizar uma operação ou investimento específico, isolando riscos e capitalização.

Referências

  1. Comunicado oficial. Serra Verde inicia produção comercial de terras raras no Brasil. Governo de Goiás (Perm). perm.go.gov.br
  2. Pooler, Michael. The old asbestos town at the heart of the rare earths race. Financial Times, 25 ago. 2026. ft.com
  3. USA Rare Earth, Inc. Form 8-K. SEC EDGAR, ago. 2026. sec.gov
  4. USA Rare Earth, Inc. Form DEFA14A. SEC EDGAR, abr. 2026. sec.gov
  5. Governo dos EUA põe mais R$ 1,2 bi, e compra de mineradora brasileira de terras raras deve sair nesta semana. Jornal de Brasília, ago. 2026. jornaldebrasilia.com.br
  6. Terras raras: "Brasil não abre mão de sua soberania", diz Lula. Agência Brasil (EBC), 18 maio 2026. agenciabrasil.ebc.com.br
  7. Governo Lula se articula sobre minerais críticos diante de acordos estaduais. Poder360, mar. 2026. poder360.com.br
  8. Câmara aprova criação da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. Portal da Câmara dos Deputados, 2026. camara.leg.br
  9. Extração de terras raras em Goiás vira negócio bilionário com aquisição americana. Agência Pública, 21 abr. 2026. apublica.org
  10. Brazil Mining Guide. KPMG, fev. 2026. kpmg.com
  11. Lula defende soberania do Brasil sobre terras raras e minerais críticos. Realtime1, maio 2026. realtime1.com.br