Política · Infraestrutura, clima e Estado

Às vésperas do feriado nacional chinês, o ministro de Recursos Hídricos da China, Li Guoying, apresentou uma tese pouco habitual para um governo que costuma vender previsibilidade: nos próximos cinco anos, o traço dominante das cheias no país será a incerteza. A resposta anunciada mistura concreto e dados. Segundo reportagem do China Daily, Pequim pretende acrescentar 15 bilhões de metros cúbicos de capacidade de armazenamento em reservatórios e elevar para 91% a parcela de diques estratégicos dentro do padrão de proteção até o fim do 15º Plano Quinquenal, em 2030.1

O anúncio interessa ao leitor brasileiro por um motivo que vai além da curiosidade sobre a China. Ele expõe, com números, uma pergunta que o Brasil ainda responde mal desde maio de 2024: quem planeja a infraestrutura contra eventos extremos quando o horizonte de risco é de décadas e o horizonte político é de quatro anos? A pergunta chega em momento oportuno. Neste domingo, 4 de outubro, o eleitor vai às urnas para escolher presidente, governadores, senadores e deputados, e a adaptação climática segue como tema periférico na maioria das campanhas.

O que Pequim anunciou

A fala de Li Guoying ocorreu em entrevista coletiva do Escritório de Informação do Conselho de Estado, na quarta-feira, 30 de setembro. O núcleo do plano é ampliar a capacidade física de absorver cheias, combinando reservatórios, canais fluviais, diques e as chamadas áreas de armazenamento e detenção, terrenos baixos que podem ser deliberadamente inundados para aliviar a pressão sobre rios em níveis críticos. Ao lado disso, o governo promete reforçar as redes de monitoramento e os modelos de previsão.1

O ministro também apresentou um balanço da temporada de cheias deste ano. De acordo com o relato do China Daily, os reservatórios de médio e grande porte foram acionados em mais de 9 mil operações e retiveram cerca de 137,5 bilhões de metros cúbicos de água, o que, segundo o governo, evitou a inundação de 1.165 cidades e a retirada de 5,81 milhões de pessoas.1 São números oficiais, sem auditoria independente disponível, e devem ser lidos como tal.

O pacote vai além das cheias. Inclui a meta de ampliar a área irrigada em 2,67 milhões de hectares, levar a cobertura de água encanada no meio rural a 98%, tratar mais 310 mil quilômetros quadrados de erosão do solo e conter a superexploração de aquíferos.1 A peça que mais chama atenção do ponto de vista de gestão é a construção de um gêmeo digital da rede hídrica nacional, integrando dados de satélite, radar, estações em solo e das próprias obras a modelos capazes de prever, emitir alertas e apoiar planos de emergência.

Metas chinesas de infraestrutura hídrica para 2030 Diques estratégicos dentro do padrão: meta de 91 por cento. Cobertura de água encanada rural: meta de 98 por cento. Capacidade adicional de reservatórios: 15 bilhões de metros cúbicos. Área irrigada adicional: 2,67 milhões de hectares. METAS DO 15º PLANO QUINQUENAL (2026 A 2030) Diques estratégicos dentro do padrão 91% Cobertura de água encanada no meio rural 98% +15 bi m³ em capacidade de reservatórios +2,67 mi ha de terras agrícolas irrigadas
Fonte: Ministério de Recursos Hídricos da China, conforme reportagem do China Daily (1º out. 2026). Elaboração: O Tecido.

A incerteza como premissa de planejamento

O argumento central de Li Guoying é que a mudança do clima tornou mais frequentes as chuvas extremas e mais difícil antecipar onde, quando e com que força as grandes cheias vão ocorrer. Na temporada deste ano, de acordo com o ministro, dezenas de rios chineses registraram as maiores cheias desde o início das medições.1

"Durante o período do 15º Plano Quinquenal, uma característica marcante dos desastres de cheia será a incerteza."

Li Guoying, ministro de Recursos Hídricos da China, em declaração reproduzida pelo China Daily

A formulação importa porque desloca o objetivo da política pública. Em vez de dimensionar obras para a pior cheia conhecida, o planejamento passa a buscar redundância: mais volume de espera, mais rotas para a água, mais tempo de antecedência nos alertas. Em artigo publicado em janeiro na revista Qiushi, órgão teórico do Partido Comunista, o próprio ministro descreveu a rede como um sistema integrado que articula alocação de recursos hídricos, controle de cheias por bacia e proteção de ecossistemas aquáticos, com camadas nacional, provincial, municipal e distrital.2

A ideia não nasceu agora. Uma diretriz do governo central de 2023 já fixava 2035 como o horizonte para que a rede nacional de água estivesse formada, e Li Guoying justificava o projeto pelo descompasso histórico entre a distribuição da água e a da atividade econômica no território chinês.1 O que o 15º Plano faz é acelerar o cronograma e tratar a água explicitamente como questão de segurança nacional, leitura destacada pela organização independente China Water Risk em sua análise do plano.4

O dinheiro e a continuidade

Planos quinquenais chineses costumam ser lidos como peças de propaganda. No caso da água, porém, há uma série de execução orçamentária difícil de ignorar. Em 2025, o país investiu 1,3 trilhão de yuans em obras hídricas, distribuídos em 47.563 projetos que empregaram 3,2 milhões de pessoas, segundo dados apresentados pelo ministro na conferência nacional do setor e noticiados pela Yicai. Foi o quarto ano consecutivo acima da marca de 1 trilhão de yuans.3 Nos nove primeiros meses de 2026, já são 795 bilhões de yuans e 41,4 mil obras.1

O dado politicamente relevante não é o tamanho do cheque, mas sua regularidade. Obras de contenção de cheias levam anos entre estudo, desapropriação, licenciamento e operação. Um fluxo de investimento que não oscila com trocas de governo é o que permite que um dique projetado em um ciclo seja concluído no seguinte. É justamente esse elo que costuma se romper no Brasil.

O espelho gaúcho

Porto Alegre oferece o caso mais didático. O sistema de proteção contra cheias da capital foi concebido após a enchente de 1941 e cobre a orla entre os bairros Sarandi e Cristal, conforme o histórico divulgado pela Prefeitura de Porto Alegre.11 Em maio de 2024, falhas em comportas e casas de bombas contribuíram para que a água do Guaíba invadisse a cidade, em uma tragédia que, segundo a Defesa Civil gaúcha, deixou mais de 180 mortos no estado.

Mais de dois anos depois, o quadro é de recuperação com lacunas. A prefeitura informa ter concluído a modernização das 14 comportas e afirma que as 23 estações de bombeamento estão aptas a operar.11 Em abril deste ano, porém, reportagem do Extra Classe mostrou que as reformas ainda estavam em curso e ouviu o hidrólogo Fernando Fan, do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS, para quem as intervenções ajudam bastante, mas não resolveriam integralmente uma cheia semelhante à de 2024.10 Bairros como o Guarujá, na Zona Sul, seguem sem sistema de proteção e dependem de bombas móveis em períodos de alerta.11

Na região metropolitana, a obra estrutural mais avançada ainda está em fase de anteprojeto. O sistema do Arroio Feijó, que prevê cerca de 21 quilômetros de diques e 19 casas de bombas para proteger áreas de Alvorada e Porto Alegre, teve a empresa projetista homologada pelo governo estadual em julho, segundo o Jornal do Comércio.12 Recursos existem: ainda em 2024, o governo federal anunciou R$ 6,5 bilhões do Novo PAC para prevenção e drenagem no Rio Grande do Sul, conforme a SBT News.13 O gargalo está menos no anúncio do que na conversão de verba em obra entregue.

Barragens, o passivo fora da campanha

Se a meta chinesa de diques mede conformidade com um padrão técnico, o equivalente brasileiro mais próximo é o Relatório de Segurança de Barragens da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico. A edição de 2026, divulgada em julho, registra 29.761 barragens cadastradas no país. Entre as 6.609 submetidas à Política Nacional de Segurança de Barragens, 1.808 combinam dano potencial médio ou alto com categoria de risco alta, de acordo com a Agência iNFRA.7 Duzentas e treze foram classificadas como prioritárias, espalhadas por 19 estados e pelo Distrito Federal, como noticiou a Agência Brasil.8

O dado mais revelador é institucional. Segundo o relatório, 28 dos 33 órgãos fiscalizadores operam abaixo da equipe mínima recomendada, com déficit estimado em pelo menos 221 profissionais exclusivos, e a execução de recursos públicos para segurança de barragens caiu de R$ 147 milhões previstos para R$ 104 milhões aplicados entre 2024 e 2025.7 Há ainda uma diferença de origem: no Brasil, o grosso da água represada está em hidrelétricas, que representam pequena fração do total de barragens, segundo levantamento anterior da ANA citado pelo Poder360.9 Nossos grandes reservatórios foram pensados para gerar energia, não para amortecer cheias.

COMPARATIVO: GESTÃO DE CHEIAS NA CHINA E NO BRASIL
DimensãoChinaBrasil
HorizontePlano quinquenal 2026 a 2030, com meta de longo prazo para 2035Programas atrelados a mandatos e seleções periódicas do Novo PAC
CoordenaçãoRede integrada do nível nacional ao distritalResponsabilidades repartidas entre União, estados e municípios
InvestimentoAcima de 1 trilhão de yuans por ano desde 2022Anúncios relevantes, com execução lenta em obras estruturais
ReservatóriosUso explícito para conter cheiasMajoritariamente voltados à geração de energia
MonitoramentoGêmeo digital nacional em construçãoCemaden e centros locais, como o de Porto Alegre
Ponto frágilCustos impostos a populações sem consulta préviaFiscalização subdimensionada e descontinuidade

Horizonte de plano contra ciclo de mandato

A comparação não autoriza conclusões apressadas sobre regimes políticos. A capacidade chinesa de manter investimento estável decorre de um Estado de partido único que não precisa negociar desapropriações com a mesma intensidade nem prestar contas a um eleitorado. Democracias funcionam de outro modo, e devem. O ponto é que a adaptação climática exige instrumentos que sobrevivam às alternâncias de poder, e esses instrumentos podem ser construídos em ambiente democrático.

Alguns já existem no papel. A Política Nacional de Segurança de Barragens é de 2010. Fundos de reconstrução foram criados após 2024 nas esferas federal e estadual. O que falta é transformar esses mecanismos em compromisso plurianual blindado, com carreira técnica de fiscalização preenchida, cronogramas públicos e indicadores verificáveis por qualquer cidadão. A meta chinesa de 91% de diques conformes é, antes de tudo, um indicador. O Brasil carece de metas equivalentes, com prazo e responsável, para drenagem urbana, diques e barragens de contenção.

Na véspera de uma eleição geral, a pergunta prática para o eleitor é simples: que candidato apresenta metas mensuráveis de prevenção, e não apenas promessas de resposta a desastres? A diferença entre as duas coisas é a mesma que separa o anúncio de Li Guoying de um decreto de calamidade.

O que acompanhar até 2030

Do lado chinês, os indicadores a observar são a evolução da conformidade dos diques, o efetivo funcionamento do gêmeo digital e a forma como o governo tratará populações que vivem em áreas de detenção. Do lado brasileiro, a lista é mais doméstica: a conclusão das obras estruturais na Região Metropolitana de Porto Alegre, a redução do número de barragens prioritárias no próximo relatório da ANA, a recomposição das equipes de fiscalização e, sobretudo, a capacidade dos novos governos eleitos de manter cronogramas herdados. A incerteza climática vale para os dois países. A incerteza política, essa, é uma escolha.

Perguntas frequentes

O que é a rede nacional de água da China?

É um programa de infraestrutura que integra reservatórios, canais, diques, transposições e sistemas de monitoramento em camadas nacional, provincial, municipal e distrital, com o objetivo de controlar cheias, distribuir água e proteger ecossistemas. A meta de longo prazo é tê-la formada até 2035.

Quais são as metas chinesas de controle de cheias até 2030?

Acrescentar 15 bilhões de metros cúbicos de capacidade de armazenamento em reservatórios e elevar para 91% a parcela de diques estratégicos dentro do padrão de proteção, além de ampliar previsão hidrológica e construir um gêmeo digital da rede.

Por que o governo chinês fala em incerteza?

Porque a mudança do clima tornou chuvas extremas mais frequentes e dificultou prever local, momento e intensidade das grandes cheias. O planejamento passa a buscar redundância e alertas antecipados, e não apenas obras dimensionadas pela pior cheia registrada.

O Brasil tem instrumento comparável?

Não há um plano nacional integrado com metas de conformidade para diques e drenagem. Existem a Política Nacional de Segurança de Barragens, de 2010, linhas do Novo PAC para prevenção de desastres, fundos de reconstrução criados após as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul e o monitoramento do Cemaden.

Quais são as críticas ao modelo chinês?

Incluem o uso de áreas habitadas como bacias de contenção sem informação adequada aos moradores, indenizações consideradas baixas, impactos ecológicos de grandes obras e a ausência de verificação independente dos números oficiais.

Nota de atribuição. Este texto é uma análise original de O Tecido inspirada na reportagem "China to accelerate water network development", de Zhao Yimeng, publicada pelo China Daily em 1º de outubro de 2026. Os dados atribuídos ao ministro Li Guoying foram parafraseados a partir dessa reportagem, disponível em chinadaily.com.cn. O contexto brasileiro e as demais informações provêm de fontes independentes listadas abaixo.

Referências

  1. ZHAO, Yimeng. China to accelerate water network development. China Daily, 1º out. 2026. https://www.chinadaily.com.cn/a/202610/01/WS6abd979be4b06d4aa056116c.html
  2. LI, Guoying. Artigo sobre a rede moderna de água no 15º Plano Quinquenal. Qiushi Journal (edição em inglês), 30 jan. 2026.
  3. Yicai Global. China's Spending on Water Conservation Tops CNY1 Trillion for Fourth Straight Year, 7 jan. 2026.
  4. China Water Risk. China's 2 Goals, 4 Directives & 8 Actions to Prep for a New Era of "Water B", 20 mar. 2026.
  5. Reuters. China floodwater diversions to populated areas unleash wave of online anger, 6 ago. 2023.
  6. Hong Kong Free Press. Small city southeast of Beijing typifies plight of flood-hit region, 3 ago. 2023.
  7. Agência iNFRA. Relatório da ANA aponta 213 barragens prioritárias e déficit de fiscais, 3 jul. 2026.
  8. Agência Brasil / Radioagência Nacional. Relatório aponta que 213 barragens do país estão em situação crítica, jul. 2026.
  9. Poder360. Brasil tem 1.591 barragens de alto risco e dano potencial, diz ANA, 27 jun. 2024.
  10. Extra Classe. Obras contra cheias ainda não foram concluídas em Porto Alegre, abr. 2026.
  11. Prefeitura de Porto Alegre / Dmae. Redes de drenagem do bairro Guarujá têm funcionamento alterado em razão da possibilidade de cheia, 23 jul. 2026.
  12. Jornal do Comércio. Governo do RS homologa empresa que fará anteprojeto para construção de dique em Alvorada, 6 jul. 2026.
  13. SBT News. Novo PAC tem R$ 6,5 bilhões para prevenção de desastres no Rio Grande do Sul, 2024.

Ewerton Lopes — Curador Editorial · O Tecido