Tecnologia · Internet via satélite

Entre 14 e 20 de setembro, a China realizou seis lançamentos e colocou mais de 30 satélites em órbita, segundo reportagem de Liu Shiyao publicada pelo People's Daily em 10 de outubro.1 O número, isolado, diz pouco. O que ele sinaliza é uma mudança de regime: o setor chinês de internet via satélite deixou de funcionar por campanhas espaçadas e passou a operar em cadência industrial, com lançamentos semanais e, em alguns dias, mais de um. Para o Brasil, a notícia não é distante. Uma das duas grandes constelações chinesas escolheu o país como seu primeiro mercado externo.

De oficina artesanal a linha de montagem

Durante décadas, satélites foram produzidos como peças únicas, em salas limpas, ao longo de meses ou anos. A reportagem do People's Daily descreve outro modelo. A empresa Hong Qing levou para a fabricação de satélites a lógica da linha de montagem automotiva e, em sua planta na Nova Área de Xiong'an, na província de Hebei, reduziu para cerca de 30 horas o tempo de produção de uma unidade. A MinoSpace, em Wuxi, opera uma linha dedicada a satélites comerciais de 200 a 500 kg com capacidade anual acima de 150 unidades, e a GalaxySpace combina montagem robotizada, testes automatizados e engenharia digital para encurtar ciclos de desenvolvimento.1

A industrialização dos satélites só faz sentido se houver como levá-los ao espaço no mesmo ritmo. É aí que entra o segundo vetor. A China mira cerca de 140 lançamentos orbitais em 2026, contra o recorde de 92 em 2025, e o Plano Quinquenal 2026–2030 elevou internet via satélite e foguetes reutilizáveis à condição de indústrias prioritárias, conforme levantamento do portal CislunarSpace.2 O jornal oficial chinês acrescenta que sistemas reutilizáveis vêm amadurecendo e reduzindo custos em toda a cadeia.1

A leitura econômica é direta: quem domina o custo por satélite e o custo por quilo lançado define o preço final da conectividade. Foi essa combinação, e não apenas a tecnologia de antenas, que permitiu à SpaceX escalar a Starlink. A China está tentando replicar a mesma curva com um atraso de alguns anos.

Duas constelações, dois propósitos

O programa chinês se divide em dois trilhos. O Guowang ("Rede Nacional") é operado pela estatal China SatNet e prevê cerca de 13 mil satélites, com foco em telecomunicações domésticas e aplicações estratégicas. O Qianfan ("Mil Velas"), conhecido no exterior como SpaceSail, é controlado pela Shanghai Spacecom Satellite Technology, apoiada pelo governo municipal de Xangai, e tem orientação comercial e internacional, segundo o rastreador Orbital Radar.3

O Qianfan não teve trajetória linear. A implantação ficou suspensa por vários meses em 2025 depois que parte dos satélites apresentou falhas de propulsão ou de giroscópio, e só foi retomada em abril de 2026 após medidas corretivas.3 Em 30 de julho, a constelação somava 238 satélites em órbita e iniciava uma campanha intensiva para chegar a 324 unidades.2

A escala relativa ajuda a dimensionar o desafio. Em outubro de 2026, a Starlink tinha 11.131 satélites em órbita, dos quais 10.838 em operação, o que corresponde a cerca de 55% de todos os satélites ao redor da Terra, de acordo com o catálogo da KeepTrack.4

SATÉLITES EM ÓRBITA (ÚLTIMO DADO DISPONÍVEL) · PLANEJADO Starlink (EUA) 11.131 Qianfan (China) 238 · meta ~15 mil até 2030 Guowang (China) ~190 · meta ~13 mil
Fontes: KeepTrack (Starlink, out./2026); CislunarSpace (Qianfan, 30/07/2026); Orbital Radar (Guowang, meados de 2026, e metas planejadas). Escala linear. Os dados chineses têm datas diferentes e mudam a cada lançamento.
A disputa pela órbita baixa não se decide pela tecnologia mais sofisticada, mas por quem consegue fabricar e lançar em volume com o menor custo unitário.

O Brasil como primeiro mercado externo

Em novembro de 2024, durante a visita de Estado de Xi Jinping ao país, a SpaceSail assinou com a Telebras um memorando de entendimento para oferecer comunicações via satélite no Brasil, sobretudo em áreas remotas. Em fevereiro de 2026, a Anatel concedeu à empresa direito de exploração para até 324 satélites iniciais, com validade até julho de 2031, embora o pedido original fosse de 648 satélites por 15 anos, segundo o Teletime.5 A previsão informada pela própria empresa é iniciar a operação comercial no país no quarto trimestre de 2026, com a instalação de pelo menos seis gateways terrestres.5

O mercado que a SpaceSail encontra é concentrado. A Starlink alcançou 791 mil acessos em maio de 2026 e se tornou a 13ª maior provedora de banda larga fixa do país, segundo análise da Ookla sobre dados da Anatel divulgada pelo DPL News.6 O mesmo levantamento aponta um dado contraintuitivo: a empresa já tem mais assinaturas em municípios de alta urbanização (cerca de 348 mil) do que em áreas pouco urbanizadas (cerca de 213 mil).6 A internet via satélite, portanto, deixou de ser apenas solução de último recurso para o interior.

Ainda assim, é no campo que a tecnologia pesa mais. A pesquisa TIC Domicílios 2025, do Cetic.br/NIC.br, mostra que o satélite é a principal forma de conexão em 8% dos domicílios rurais conectados, contra 2% na média nacional.7 O país tem internet em 86% dos domicílios, mas ainda soma 28 milhões de pessoas que não usam a rede, das quais cerca de 5 milhões vivem em áreas rurais.7

Satélite direto no celular: onde China e Brasil se cruzam

A frente de maior potencial de massa é a conexão direta entre satélite e smartphone, conhecida como D2D (direct-to-device). O People's Daily informa que o serviço chinês Tiantong já oferece pacotes desse tipo por cerca de 10 yuans mensais (aproximadamente US$ 1,49), que fabricantes como Huawei, Honor, Xiaomi e Oppo já suportam chamadas via satélite sem troca de chip e que instituições internacionais projetam 411 milhões de usuários ativos mensais de D2D no mundo até 2030.1 Vale registrar que o jornal não identifica quais instituições fizeram a projeção.

No Brasil, a Anatel aprovou em março de 2024 um sandbox regulatório que permite testes de D2D a partir de parcerias entre empresas de satélite e operadoras móveis licenciadas.8 Em setembro de 2026, a agência estendeu até 22 de abril de 2029 a autorização temporária da Vivo, que tem a Starlink como parceira indicada e pode explorar o serviço comercialmente durante a fase experimental, segundo o Teletime.5 O D2D já está disponível comercialmente nos Estados Unidos, no Japão, na Austrália, no Chile e no Peru.5

A SpaceSail também entrou nessa corrida. Em junho, a empresa anunciou testes de chamadas de voz via satélite com smartphones comuns, sem alteração de hardware ou software, e afirmou ter obtido qualidade comparável ao 5G terrestre.5 Trata-se de um resultado divulgado pela própria companhia, ainda sem verificação independente.

Computação em órbita: promessa e prudência

A parte mais ambiciosa da reportagem chinesa trata de transformar satélites em processadores, e não apenas em retransmissores. O exemplo citado é o PEGA-SUS1, desenvolvido pela GalaxySpace com o Laboratório Pengcheng, descrito como o primeiro satélite chinês de demonstração a reunir em órbita uma estação-base 5G não terrestre, funções de núcleo de rede, computação com IA e enlaces a laser e micro-ondas.1 Na prática, o "cérebro" da rede 5G, que normalmente fica em um data center, passaria a operar no espaço.

Executivos ouvidos pelo jornal sustentam que a captação de energia solar em órbita é de seis a oito vezes mais eficiente do que na superfície.1 O argumento circula também nos Estados Unidos, onde propostas de data centers orbitais vêm acompanhadas de críticas de astrônomos sobre a ocupação da órbita baixa.4 A ideia tem lógica para reduzir latência e tráfego em aplicações críticas, como resposta a desastres, mas ainda está em fase de demonstração.

O que está em jogo para o Brasil

A posição da Anatel até aqui tem sido apostar na entrada de concorrentes, e não em intervenção regulatória, para reduzir a dominância da Starlink na órbita baixa, conforme reportou o DPL News.10 A chegada da SpaceSail é o primeiro teste concreto dessa estratégia, e o Amazon Leo (antigo Projeto Kuiper) deve somar mais um competidor.

O desafio para o país é transformar a disputa entre Washington e Pequim em ganhos próprios. Isso passa por exigir contrapartidas, como gateways e processamento de dados em território nacional, obrigações de sustentabilidade espacial que a Anatel já sinalizou poder impor e metas de atendimento a escolas e comunidades remotas, área em que a Telebras tem papel definido em lei. Sem essas condições, o Brasil corre o risco de ser apenas um mercado consumidor de duas infraestruturas estrangeiras.

A velocidade chinesa é real e merece ser acompanhada com atenção. Mas a pergunta relevante para o leitor brasileiro não é quantos satélites a China lança por semana. É quem vai controlar a conexão do próximo agricultor do Pará, da próxima escola ribeirinha e do próximo celular sem sinal na estrada.

Perguntas frequentes

O que é internet via satélite de órbita baixa (LEO)?

É a conexão fornecida por constelações de satélites que orbitam entre cerca de 300 e 2.000 km de altitude. Por estarem mais próximos da Terra do que os satélites geoestacionários, eles oferecem menor latência, mas exigem milhares de unidades para cobrir o planeta.

Quais são as constelações chinesas de internet via satélite?

São duas: o Guowang, estatal, operado pela China SatNet, com cerca de 13 mil satélites planejados; e o Qianfan (SpaceSail), comercial, apoiado pelo governo de Xangai, com meta de cerca de 15 mil satélites até 2030 e 238 em órbita em julho de 2026.

A SpaceSail já funciona no Brasil?

Ainda não comercialmente. A Anatel autorizou em fevereiro de 2026 a exploração de até 324 satélites, e a empresa prevê iniciar a operação comercial no país no quarto trimestre de 2026, em parceria com a Telebras.

O que é D2D e já está disponível no Brasil?

D2D (direct-to-device) é a conexão direta entre satélite e celular comum, sem antena externa. No Brasil, funciona em regime de sandbox regulatório da Anatel. A Vivo, com a Starlink como parceira, tem autorização temporária até abril de 2029 e pode oferecer o serviço comercialmente nesse período.

Quantos brasileiros usam internet via satélite?

A Starlink, líder do segmento, tinha 791 mil acessos em maio de 2026, segundo dados da Anatel analisados pela Ookla. Pela TIC Domicílios 2025, o satélite é a principal conexão de 8% dos domicílios rurais conectados e de 2% dos domicílios conectados no país.

Este artigo tem como ponto de partida a reportagem "China's satellite internet sector enters a phase of rapid expansion", de Liu Shiyao, publicada pelo People's Daily em 10 de outubro de 2026. O texto original não foi reproduzido nem traduzido; as informações atribuídas a ele foram resumidas e creditadas. A análise e o contexto brasileiro são de responsabilidade do O Tecido.

Ewerton Lopes — Curador Editorial