O Tecido

Caderno Tecnologia

A Cerca de IA que o Google Está Construindo em Volta da Internet Aberta

Enquanto o Google usa inteligência artificial para reter usuários em seu próprio ecossistema, editores brasileiros relatam quedas de até 80% no tráfego e o Cade abre processo administrativo inédito contra a empresa — um retrato local de uma tensão que já reconfigura a economia da web em todo o mundo.

Em 2004, ao preparar o Google para abrir capital na bolsa, Larry Page escreveu aos futuros acionistas que uma sociedade saudável dependia de "acesso abundante, livre e sem viés a informação de alta qualidade". Por duas décadas, a empresa cumpriu essa promessa como porta de entrada: respondia buscas com listas de links e empurrava o usuário para fora, rumo à chamada "web aberta" — o emaranhado de sites de veículos, universidades e empresas que sustenta boa parte da economia digital. Hoje, à medida que a inteligência artificial generativa se instala no coração da busca, o Google parece estar fazendo o movimento inverso: reter, em vez de encaminhar.

O sintoma mais visível chama-se AI Mode, recurso que substitui a lista tradicional de resultados por respostas conversacionais geradas pelo Gemini. Levantamentos independentes citados pelo The New York Times mostram que usuários permanecem entre um e nove minutos a mais dentro do AI Mode do que em uma busca convencional, e que em cerca de três quartos das sessões o usuário nunca chega a sair da própria interface do Google rumo a um site externo — o fenômeno que o jornalista Nilay Patel, do The Verge, batizou de "Google Zero"[1].

Um fenômeno global, medido em tráfego não humano

O deslocamento não é impressão de editores nervosos — é mensurável. Em junho de 2026, a rede de infraestrutura Cloudflare registrou, pela primeira vez na história da internet, requisições automatizadas superando as humanas: 57,5% do tráfego HTML passou a ser gerado por bots, contra 42,5% de origem humana, segundo dados do painel Cloudflare Radar divulgados pelo próprio presidente-executivo da empresa, Matthew Prince[2]. A companhia reagiu criando, a partir de 15 de setembro de 2026, uma nova política de bloqueio padrão para rastreadores classificados como "treinamento" ou "agente" em páginas que exibem anúncios, mantendo livre apenas o tráfego de "busca" — uma tentativa de reequilibrar o que Prince chamou de ecossistema insustentável[3].

"A web de fato encolheu" entre 2015 e 2025 — e agora, pela primeira vez, máquinas superam humanos na maior parte do tráfego que a percorre. Matthew Prince, CEO da Cloudflare, em entrevista à NBC News

A Wikipédia oferece o exemplo mais paradoxal dessa transição. A Fundação Wikimedia relatou uma queda de 8% nas visitas humanas em 2025 na comparação anual — mas a descoberta só veio depois que a organização percebeu um pico de tráfego suspeito, com bots disfarçados de usuários humanos, e boa parte dessa atividade automatizada tinha origem no Brasil. Ao depurar seus sistemas de detecção e reclassificar os dados de março a agosto, a fundação encontrou o quadro real: menos pessoas, mais máquinas[4]. É um giro curioso da história — o país que hoje cobra explicações do Google por perda de tráfego também contribuiu, através de tráfego automatizado não identificado, para distorcer as métricas que expuseram o problema em escala global.

O Brasil abre um processo inédito contra o Google

Enquanto o debate americano gira em torno de blogs corporativos e estudos de terceiros, no Brasil a discussão já chegou a uma autarquia federal. Em 23 de abril de 2026, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou, por unanimidade, a abertura de um processo administrativo para apurar os impactos dos resumos gerados por IA — os AI Overviews — sobre veículos jornalísticos brasileiros, ampliando um inquérito sobre "raspagem" de conteúdo aberto originalmente em 2018[5][6].

Os números apresentados pelas entidades de imprensa ao órgão são o retrato mais direto do impacto local. A Associação Nacional de Jornais (ANJ) afirmou que o Google, com mais de 90% de participação no mercado brasileiro de buscas, respondeu por mais de 40% de todos os acessos a sites de notícias no país entre 2023 e 2025 — e que a chegada da IA generativa reduziu esse tráfego orgânico em cerca de 26%. A Associação Nacional de Editores de Revistas (ANER) relatou associados que perderam até 80% da audiência após mudanças algorítmicas não explicadas, enquanto a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) descreveu um efeito de "lock-in": distribuição, monetização e métricas concentradas em um único ecossistema fechado[6].

No voto que fundamentou a abertura do processo, o presidente interino do Cade, Diogo Thomson, apontou "fortes indícios" de abuso exploratório de posição dominante. O colegiado também rejeitou o argumento de que veículos podem simplesmente optar por sair dos sistemas de IA usando ferramentas como a tag "nosnippet" ou o protocolo Google-Extended: para o tribunal, diante da dependência estrutural do mercado informacional em relação ao buscador, essa "opção de saída" configura uma "falsa escolha"[6].

Contraponto — a defesa do Google

Em manifestação apresentada ao Cade, o Google pediu o arquivamento da investigação. A empresa argumenta que qualquer obrigação de remuneração aos veículos só poderia ser criada por lei aprovada pelo Congresso, não por decisão de uma autarquia de concorrência, e nega abuso de posição dominante. Citando estudos da Comscore e do Reuters Institute, a companhia sustenta que menos de 30% do tráfego dos publishers brasileiros vem de seus serviços de busca — o restante viria de acesso direto, redes sociais e aplicativos[7].

A empresa também argumenta que a queda de audiência reflete mudança de hábito dos usuários, migrando para redes sociais em vídeo como TikTok e Instagram, e não apropriação indevida de conteúdo pela IA. Aponta ainda que o programa Google News Showcase remunera mais de 170 veículos no Brasil e que ferramentas como robots.txt e "noindex" preservam o controle editorial sobre a indexação[6][7].

Fora do Brasil, o Google tem feito o mesmo contraponto: em nota publicada em agosto de 2025, a vice-presidente de busca Liz Reid classificou como "imprecisos" os relatos de queda de tráfego, afirmando que a empresa envia um volume "relativamente estável" de cliques, na casa dos bilhões, e que se importa "talvez mais do que qualquer outra empresa" com a saúde do ecossistema da web[1].

A resposta regulatória fora do Brasil

O caso brasileiro não é isolado. No Reino Unido, a Competition and Markets Authority determinou que o Google inclua links de atribuição claros em respostas de IA e permita que editores optem por não ter seu conteúdo usado em resumos gerados por inteligência artificial — mudança que a empresa aplicará globalmente[1]. Nos Estados Unidos, a pressão levou o grupo Vox Media, dono do The Verge, a vender parte de seus ativos: o executivo-chefe Jim Bankoff citou a "dizimação do tráfego de busca" como fator na decisão de vender cerca de metade da empresa e buscar outras formas de alcançar leitores, como redes de podcast[1].

Nem todos veem o cenário como um fechamento da internet. Tori Noble, advogada da Electronic Frontier Foundation, pondera que, ainda que via IA, o Google continua tecnicamente facilitando o acesso à web aberta — "não é um universo fechado", diz ela, em contraste com ecossistemas como o do Facebook, que exigem login[1]. É uma distinção relevante para o debate regulatório: a questão não é se existe uma porta de saída, mas se ela continua sendo, na prática, uma escolha real para quem depende do tráfego que passa por ela.

Este artigo integra a cobertura original do Caderno Tecnologia de O Tecido e foi inspirado pela reportagem "Google Is Building an A.I. Fence Around the Internet It Once Championed", de Kate Conger, publicada pelo The New York Times em 20 de julho de 2026 (nytimes.com/2026/07/20/technology/google-ai-open-web.html). A apuração e os dados brasileiros aqui apresentados são resultado de reportagem e sourcing independentes de O Tecido.