Saúde · Farmacologia Clínica

Um remédio prescrito para tratar dor pode, meses depois, elevar a pressão arterial. Em vez de reavaliar o tratamento original, o consultório responde com um segundo remédio. É esse encadeamento, batizado de cascata de prescrição, que um novo estudo tenta mapear com precisão.

Um estudo publicado no BMJ neste mês, conduzido por pesquisadores canadenses ligados ao Sinai Health e ao Women's College Hospital, em Toronto, cruzou dados de prescrição de mais de dois milhões de idosos da província de Ontário para identificar quais combinações de medicamentos mais frequentemente configuram uma cascata de prescrição1. O termo descreve uma situação específica: o efeito colateral de um fármaco é interpretado como um problema de saúde novo, e um segundo medicamento é prescrito para tratá-lo, sem que ninguém questione se o primeiro remédio é o verdadeiro gatilho.

A pesquisadora responsável pelo estudo, Paula Rochon, diretora de pesquisa do Weston and O'Born Centre for Mature Women's Health, explica que o fenômeno raramente é óbvio. Diferente de uma alergia que aparece no dia seguinte ao início de um tratamento, os sinais de uma cascata de prescrição podem levar semanas, meses ou até anos para se manifestar, o que dificulta a conexão entre causa e efeito tanto para o paciente quanto para o médico1.

Da lista de 65 cascatas às 24 mais críticas

O trabalho atual é a continuação de um esforço mais amplo. Em 2025, uma equipe internacional de especialistas em geriatria e farmacologia já havia chegado a um consenso listando 65 cascatas de prescrição potencialmente inadequadas. A novidade do estudo publicado agora é metodológica: ao aplicar esses 65 padrões à base de dados real de Ontário, os pesquisadores mediram qual medicamento inicial era mais comum na população idosa, com que frequência ele era seguido pelo segundo fármaco e qual a força estatística dessa associação. O resultado foi um recorte das 24 combinações mais prevalentes1.

Entre os exemplos citados no estudo estão a prescrição de suplementos de ferro, usados para tratar anemia, que geram constipação e acabam levando a um laxante; estatinas para colesterol, que em alguns pacientes causam dores musculares tratadas com analgésicos; e inibidores da colinesterase, usados em quadros de demência, que perturbam o sono e resultam na prescrição de um indutor de sono1.

O mecanismo por trás do fenômeno

Do ponto de vista farmacológico, o problema tem uma lógica simples de entender e difícil de evitar na prática clínica. Cada novo medicamento altera a farmacocinética do organismo como um todo e pode modular enzimas hepáticas responsáveis por metabolizar outras substâncias. Quando um sintoma novo surge, o raciocínio mais rápido costuma ser tratar o sintoma isoladamente, em vez de revisar toda a lista de medicamentos em uso, o que alimenta o ciclo. Um exemplo recorrente na literatura brasileira sobre o tema é a cadeia que começa com anti-inflamatório, evolui para lesão gástrica, segue para um inibidor de bomba de prótons e termina aumentando o risco de deficiência de vitamina B12 e fraturas.

A dificuldade não está em identificar um efeito colateral óbvio, mas em reconhecer, meses depois, que um sintoma "novo" é na verdade o eco de um remédio já prescrito. SÍNTESE EDITORIAL A PARTIR DOS DADOS DO ESTUDO

O que isso significa para o Brasil

O recorte do estudo é canadense, mas o problema estrutural que ele descreve tem correspondência direta no Brasil, sobretudo diante do ritmo de envelhecimento populacional registrado nos últimos anos. Segundo o Censo Demográfico de 2022 do IBGE, o país tinha 22,2 milhões de pessoas com 65 anos ou mais, um recorde histórico e um salto expressivo frente aos 14,1 milhões registrados em 2010. Levantamentos mais recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua apontam que, em 2025, a parcela de idosos já chegava a 16,6% da população brasileira, ante 11,3% em 2012.

Esse envelhecimento acelerado se traduz em mais pacientes convivendo com múltiplas condições crônicas simultâneas, o terreno onde a cascata de prescrição prospera. Estudos brasileiros indicam que cerca de 81,3% dos idosos do país têm ao menos uma doença crônica, e mais da metade apresenta duas ou mais condições ao mesmo tempo, o que costuma significar acompanhamento por vários especialistas diferentes, nem sempre em diálogo entre si. Pesquisas conduzidas em Belo Horizonte e publicadas na revista Ciência & Saúde Coletiva já apontavam esse mecanismo como um dos fatores que elevam a polifarmácia entre idosos atendidos na atenção primária, quando o efeito adverso de um medicamento é atribuído de forma equivocada a uma condição médica distinta.

No sistema de saúde brasileiro, a fragmentação do cuidado entre cardiologista, endocrinologista, ortopedista e outros especialistas, muitas vezes sem prontuário unificado entre a rede pública e a privada, tende a agravar esse risco. Cada profissional prescreve dentro de sua especialidade, sem necessariamente ter visão completa da lista de medicamentos que o paciente já utiliza, incluindo aqueles comprados sem receita.

Contraponto

Nem toda combinação de dois medicamentos citada no estudo representa um erro médico. Como pondera Alexander Chaitoff, professor da Universidade de Michigan que estuda segurança de medicamentos em idosos e não participou da pesquisa, em certos casos os riscos de acrescentar um novo remédio são compensados pelo benefício de manter o tratamento original. A própria autora principal do estudo, Paula Rochon, reforça que a lista das 24 combinações não deve ser lida como um catálogo definitivo de associações a evitar, mas como um instrumento de atenção: um sinal para que o médico pare e pergunte se aquele sintoma novo pode ter sido causado pelo tratamento em curso, antes de somar mais uma prescrição.

Da constatação à desprescrição

A resposta prática ao problema, segundo especialistas ouvidos pela reportagem original e por publicações brasileiras de geriatria, passa por três frentes. A primeira é manter um registro único e completo de todos os medicamentos em uso, incluindo nome, dose, data de início e motivo, isso vale também para remédios de venda livre e suplementos, frequentemente omitidos dessa lista. A segunda é, diante de qualquer sintoma novo, perguntar diretamente ao médico se ele pode ser efeito de um tratamento já em curso. A terceira é a chamada desprescrição, processo pelo qual um profissional revisa periodicamente cada medicamento e sua real necessidade, considerando o estado funcional do paciente e não apenas metas de exames laboratoriais.

Ferramentas de apoio a essa revisão já circulam entre profissionais brasileiros, como listas de medicamentos potencialmente inadequados para idosos baseadas nos critérios internacionais de Beers e STOPP/START, além de plataformas de prescrição digital que sinalizam interações medicamentosas no momento da receita. Nenhuma delas substitui, porém, a decisão clínica de tratar o paciente como um todo, e não como uma sequência de sintomas isolados.

Nota de atribuição

Este texto usa como referência principal a reportagem "Some drugs can lead to additional prescriptions, putting older adults at risk", publicada pelo The Washington Post em 18 de setembro de 2026, com dados do estudo original divulgado no BMJ. A reportagem não é reproduzida ou traduzida integralmente; trechos e dados foram sintetizados e complementados com fontes brasileiras independentes. Leia a matéria original: washingtonpost.com.

Perguntas frequentes

O que é uma cascata de prescrição?

É a situação em que o efeito colateral de um medicamento é interpretado como uma nova condição de saúde, levando à prescrição de um segundo medicamento para tratar esse efeito, em vez de reavaliar o tratamento original.

Por que os idosos são o grupo mais afetado?

Porque tendem a acumular mais condições crônicas e, consequentemente, mais medicamentos em uso simultâneo, o que aumenta a chance de um efeito adverso ser confundido com um problema clínico novo.

Quais são exemplos comuns dessa cascata?

Suplemento de ferro seguido de laxante para constipação, estatina seguida de analgésico para dor muscular, e medicamento para pressão arterial seguido de diurético para tratar inchaço nos tornozelos são padrões descritos como frequentes.

Como paciente ou família podem identificar o problema?

Mantendo uma lista atualizada de todos os medicamentos em uso, incluindo os de venda livre, e perguntando ao médico se um sintoma novo pode estar relacionado a um tratamento já iniciado.

Esse fenômeno também ocorre no Brasil?

Sim. Estudos brasileiros de geriatria e saúde coletiva descrevem o mesmo mecanismo, agravado pela fragmentação do atendimento entre diferentes especialistas e pelo envelhecimento acelerado da população registrado pelo IBGE.