Filosofia Guerra na Ucrânia · Ordem internacional · 22 de outubro de 2026

Numa varanda de hotel em Madri, enquanto o fotógrafo ajeita o enquadramento, o celular da jornalista Tetyana Ogarkova dispara o alerta antiaéreo. O aplicativo não sabe que ela está a mais de três mil quilômetros de casa: avisa apenas que a Rússia está bombardeando algum ponto da Ucrânia. A cena, registrada pelo repórter Óscar Gutiérrez em entrevista publicada pelo El País nesta quinta-feira1, resume o assunto do livro que ela e o marido, o filósofo Volodymyr Yermolenko, vieram lançar na Espanha: a guerra não fica para trás quando se atravessa uma fronteira. Ela acompanha o corpo, o sono e o pensamento.

Os dois contaram ao jornal espanhol um paradoxo que diz muito sobre a vida sob bombardeio. Nos hotéis confortáveis da Europa Ocidental, dormem pior do que na casa da família em Brovary, cidade nos arredores de Kyiv que é alvo frequente de ataques. Ogarkova descreveu a experiência oposta: fora do país, o corpo registra pela primeira vez em muito tempo que não corre o risco de morrer a qualquer instante, e isso soa estranho1. É desse lugar, entre a normalidade alheia e a exceção permanente, que sai a tese mais forte da entrevista.

Quem são Volodymyr Yermolenko e Tetyana Ogarkova

Volodymyr Yermolenko nasceu em Kyiv em 1980. É doutor em estudos políticos pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), de Paris, professor da Academia Kyiv-Mohyla e diretor de análise da ONG Internews Ukraine, além de editor-chefe do projeto UkraineWorld3. Desde novembro de 2022 preside o PEN Ucrânia, entidade que reúne escritores, jornalistas, tradutores e defensores de direitos humanos, cargo para o qual foi reeleito em janeiro deste ano2. Sua obra inclui um estudo sobre Walter Benjamin (O narrador e o filósofo, 2011), ensaios sobre ideologias e um livro sobre amor e cultura na Europa3.

Tetyana Ogarkova, nascida em 1979 em Kamianets-Podilskyi, é especialista em literatura francesa, professora da mesma Academia Kyiv-Mohyla e jornalista. Juntos, os dois mantêm desde 2020 o Kultpodcast, dedicado a autores e épocas que moldaram a cultura, e assinam A vida na borda (no original ucraniano, publicado pela Dukh i Litera em 2025), que saiu na França pela Gallimard em 2026 e agora chega à Espanha pela Libros del Asteroide4.

Uma guerra que não é sobre território

O argumento central de Yermolenko ataca a moldura com que boa parte do público europeu, e também o brasileiro, acompanha o conflito. Falar em "guerra da Ucrânia" ou "guerra na Ucrânia", diz ele, encolhe a escala do que está acontecendo. Basta olhar o mapa: o maior país do mundo em extensão não precisaria de mais terra. Para o filósofo, o que está em disputa é outra coisa, que ele resumiu ao El País como uma luta pela ordem mundial do século XXI1.

Ogarkova foi além e sugeriu que esta seria a primeira guerra da história desvinculada de território. Não haverá, na leitura dela, uma guerra mundial no formato do século XX, e sim algo novo, travado com drones e dispositivos autônomos, do qual a Ucrânia se tornou laboratório involuntário. As soluções improvisadas pelos ucranianos, prevê, acabarão usadas em outros lugares1.

A afirmação merece ser lida com cuidado, porque há um paradoxo nela. A Rússia segue avançando metro a metro: segundo a Reuters, Moscou tomou entre 12 e 17 km² de território ucraniano por dia ao longo de 20258. O território, portanto, não desapareceu do conflito. O que os autores propõem é que ele deixou de ser o fim e virou meio. Ganha-se chão para ganhar outra coisa: a prova de que fronteiras podem ser redesenhadas pela força, de que alianças podem ser testadas e quebradas, de que o direito internacional se dobra a quem tem mais poder de fogo.

Há aqui um diálogo implícito com o jurista alemão Carl Schmitt, que em O nomos da Terra (1950) sustentou que toda ordem jurídica internacional nasce de uma tomada de terra. Yermolenko inverte o raciocínio. Na sua leitura, não se disputa a terra para fundar uma ordem; disputa-se a própria ordem, e a terra é o pretexto visível.

O forte, o fraco e o grande: o retorno do Diálogo de Melos

Questionado sobre a capacidade de resistência psicológica dos ucranianos, Yermolenko deslocou o problema. O espírito, disse, não é o gargalo; o que falta é material: armamento, defesa aérea, informação de inteligência. E então descreveu a assimetria em termos quase de fábula. Existe uma parte mais forte e uma mais fraca. A fraca demonstra coragem e inteligência. E existe uma terceira, "a grande", numa referência explícita aos Estados Unidos, que em vez de socorrer o mais fraco entrega mais recursos ao mais forte. Para o filósofo, isso equivale simplesmente a castigar quem está em desvantagem1.

Ogarkova reforçou o ponto ao falar de trauma diante da ausência de dimensão moral quando a pressão de Washington recai sobre o lado mais vulnerável, com consequências diretas em vidas perdidas, já que a velocidade da informação é decisiva para interceptar drones e mísseis1.

Quem estudou filosofia política reconhece a estrutura. No livro V da História da Guerra do Peloponeso, Tucídides reconstrói o diálogo entre os embaixadores atenienses e os governantes da pequena ilha de Melos, que queria permanecer neutra. Os atenienses recusam qualquer apelo à justiça: entre desiguais, argumentam, os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que devem12. Melos resistiu e foi destruída.

Em Melos, o forte era o agressor. O que Yermolenko descreve é mais perturbador: um terceiro, que poderia equilibrar a balança, escolhe pesá-la ainda mais.Análise de O Tecido

A diferença entre o episódio antigo e o atual é o que dá densidade à queixa ucraniana. Em Melos, a força nua vinha de quem atacava. No relato de Yermolenko, ela vem também de quem arbitra. É a passagem do realismo como descrição do mundo para o realismo como escolha deliberada de política externa, e é contra essa escolha que a palavra "imoralidade" é usada na entrevista.

O triângulo que decide e a Europa à margem Diagrama mostra Washington, Moscou e Pequim nos vértices de um triângulo, com Europa e Ucrânia posicionadas fora dele, ligadas por linha tracejada. WASHINGTON MOSCOU PEQUIM quem decide EUROPA + UCRÂNIA quem sofre
Ilustração de O Tecido a partir do diagnóstico de Yermolenko ao El País: uma guerra travada em solo europeu cujo desfecho tende a ser negociado entre três capitais de fora da Europa.

A humilhação europeia e a proposta de uma união de defesa

A frase que deu título à entrevista do El País é a constatação de que Putin, Trump e Xi Jinping, nenhum deles europeu, devem decidir o desfecho de uma guerra travada na Europa. Yermolenko chamou a situação de ridícula, indignante e humilhante, e alertou que um continente fragmentado entre Rússia, China e Estados Unidos corre o risco de virar uma espécie de colônia dessas potências, sem capacidade de decisão própria1.

O diagnóstico tem lastro nos fatos recentes. Desde o início de 2025, Washington conduz negociações com Moscou em canais próprios, e em janeiro deste ano Putin recebeu em Moscou os enviados americanos Steve Witkoff e Jared Kushner para discutir um plano de paz, o papel de ativos russos congelados e o "Conselho de Paz" idealizado por Trump. A Reuters registrou, à época, que uma das questões em aberto era justamente o grau em que as potências europeias ficariam à margem do acordo8. Em setembro, a mesma dupla esteve em Kyiv, e Zelensky agradeceu publicamente a retomada do processo negociador, dizendo que qualquer formato de diálogo importa9.

Contra a marginalização, os autores defendem que a Europa não pode trocar a ajuda à Ucrânia pelo próprio rearmamento, como se fossem agendas concorrentes. Yermolenko propõe uma união europeia de defesa aberta a quem quiser participar, incluindo Ucrânia, Reino Unido, Noruega, os países bálticos e a Espanha1. O argumento é pragmático: boa parte da tecnologia militar que hoje funciona contra drones nasceu na Ucrânia, sob fogo real, e não em exercícios anuais. A cooperação com a Noruega, onde Zelensky discutiu em setembro um programa antibalístico batizado de FREYJA com executivos da indústria de defesa, é um exemplo concreto desse desenho9.

Ogarkova formulou o problema como um teste de solidariedade. Se a Rússia atacar a Letônia, perguntou, Espanha, Portugal e França vão defendê-la ou dirão que não é assunto seu? A pergunta, segundo ela, é exatamente a que Moscou quer ver respondida1.

A borda como categoria filosófica

O livro que motivou a viagem é menos um tratado do que uma reportagem filosófica. Enquanto milhões de ucranianos fugiam para o oeste, Ogarkova e Yermolenko fizeram o trajeto inverso e foram em direção à linha de frente, uma faixa de cerca de 1.200 quilômetros, como observou a revista francesa Conflits em resenha da edição da Gallimard5. O que registraram nas zonas mais devastadas e nas áreas recém-desocupadas foi a mudança das categorias mais básicas da existência: a relação com o tempo, com o espaço, com a casa e com a morte4.

A ideia de "borda" já tinha sido trabalhada pelos dois em 2024, quando foram curadores do tema central do festival Book Arsenal, em Kyiv. Ali propuseram três sentidos para a palavra: o geográfico, da Ucrânia como ponto de passagem entre Europa e Ásia; o existencial, da guerra como fronteira entre liberdade e servidão, vida e morte; e o geopolítico, que pergunta se o país está no centro ou na periferia da ordem que se forma7. No trecho do livro publicado em inglês pela revista Asymptote, a tese aparece condensada numa frase curta: the edge is the center, a borda é o centro6.

Não é difícil ouvir aí o eco de Walter Benjamin, objeto do primeiro livro de Yermolenko. Nas teses Sobre o conceito de história, escritas em 1940, Benjamin sugere que a tradição dos oprimidos ensina que o estado de exceção não é desvio, e sim a regra. A "borda" de Ogarkova e Yermolenko opera de modo parecido: o que a Europa trata como periferia excepcional seria, na verdade, o lugar onde o destino do continente está sendo decidido.

A crítica interna: Zelensky, corrupção e eleições impossíveis

Um dos pontos que dão credibilidade à entrevista é que os autores não fazem propaganda. Sobre Zelensky, Yermolenko foi direto: o presidente se concentra demais em si mesmo, precisa delegar e se comunicar melhor1. Ogarkova avaliou que ele é mais útil no exterior do que dentro do país e apontou a corrupção como problema central. Segundo ela, a Ucrânia precisa de 27 bilhões de euros pedidos a Bruxelas para cobrir o déficit militar, mas só os receberá depois de fazer reformas. Ao mesmo tempo, não há como trocar a liderança, porque a guerra e a ocupação russa impedem eleições. A expressão usada foi forte: os ucranianos estariam reféns da situação1.

A franqueza importa porque desmonta uma suspeita comum no debate internacional, a de que intelectuais ucranianos repetem a linha oficial de Kyiv. O que aparece é outra coisa: apoio à causa nacional combinado com cobrança de quem a conduz.

E o Brasil com isso?

Para o leitor brasileiro, a entrevista tem uma camada adicional, e incômoda. O Brasil votou na ONU pela condenação da invasão, e Lula repetiu no G7 de 2024 que o país condenou de maneira firme a agressão russa13. Mas a aposta diplomática de Brasília foi outra: em maio de 2024, Brasil e China apresentaram uma proposta de seis pontos para uma conferência internacional com a presença de Rússia e Ucrânia e, em setembro, lançaram na ONU o Grupo de Amigos da Paz, reunindo países do Sul Global10. Em maio de 2025, depois de visita a Moscou, Lula e Xi divulgaram declaração conjunta acolhendo a proposta de Putin de negociações diretas10. Zelensky já havia criticado iniciativas desse tipo por, segundo ele, ignorarem o sofrimento ucraniano e darem a Putin espaço político para prolongar a guerra11.

Lida pelas lentes de Yermolenko, a posição brasileira levanta duas questões. A primeira é se uma mediação que trata as partes como equivalentes não reproduz, involuntariamente, a lógica do "grande" que não corrige a assimetria. A segunda é mais sutil. O mundo que Yermolenko teme, uma Europa repartida entre três polos de poder, é parente próximo da multipolaridade que a diplomacia brasileira costuma celebrar como oportunidade para o Sul Global. O que, de Brasília, parece abertura de espaço para países médios, de Kyiv parece o retorno de esferas de influência. As duas leituras podem ser honestas ao mesmo tempo, e é justamente por isso que o debate merece ser feito em público, e não apenas nos corredores do Itamaraty.

O que fica

A força da entrevista não está numa revelação factual, mas na mudança de escala que propõe. Se Yermolenko e Ogarkova estiverem certos, discutir quantos quilômetros a Ucrânia deve ceder é discutir o sintoma e esquecer a doença. Se os críticos estiverem certos, a insistência no plano dos princípios pode custar vidas que um acordo imperfeito pouparia. Entre os dois polos, sobra uma pergunta que vale tanto para Madri quanto para Brasília: quando o forte e o fraco se enfrentam, quem fica de fora tem mesmo o direito de se dizer neutro?

Perguntas frequentes

Quem é Volodymyr Yermolenko?

Filósofo, ensaísta e jornalista ucraniano nascido em Kyiv em 1980. É presidente do PEN Ucrânia desde 2022, professor da Academia Kyiv-Mohyla, diretor de análise da Internews Ukraine e editor-chefe do UkraineWorld. Doutorou-se em estudos políticos pela EHESS, em Paris.

O que Yermolenko disse ao El País sobre Putin, Trump e Xi?

Em entrevista publicada em 22 de outubro de 2026, ele afirmou ser humilhante que o desfecho de uma guerra travada na Europa seja decidido por líderes de Rússia, Estados Unidos e China, e alertou que uma Europa dividida entre essas potências perderia capacidade de decisão própria.

Por que o filósofo diz que a guerra não é por território?

Para Yermolenko, a Rússia, maior país do mundo em extensão, não precisa de mais terra. O objetivo real seria redefinir a ordem mundial do século XXI. Ogarkova acrescenta que se trata de uma guerra de novo tipo, travada com drones, da qual a Ucrânia virou laboratório.

Do que trata o livro "A vida na borda"?

É uma reportagem filosófica escrita por Tetyana Ogarkova e Volodymyr Yermolenko a partir de viagens a zonas de front e áreas desocupadas da Ucrânia. Analisa como a guerra transforma a relação com o tempo, o espaço, a casa e a morte. Saiu na Ucrânia em 2025, na França pela Gallimard em 2026 e na Espanha pela Libros del Asteroide.

Qual é a posição do Brasil sobre a guerra na Ucrânia?

O Brasil condenou a invasão russa na ONU, mas defende a mediação. Com a China, apresentou em 2024 uma proposta de seis pontos e lançou o Grupo de Amigos da Paz, que reúne países do Sul Global. Kyiv critica essas iniciativas por considerar que favorecem a Rússia.

Nota de atribuição: este artigo tem como ponto de partida a entrevista de Óscar Gutiérrez com Volodymyr Yermolenko e Tetyana Ogarkova publicada pelo El País em 22 de outubro de 2026. As declarações dos entrevistados foram parafraseadas e traduzidas livremente por O Tecido; a análise, o contexto brasileiro e as demais fontes são de responsabilidade desta publicação.