Sustentabilidade · Oceanos e Clima
Publicado em 1 de setembro de 2026 · Tempo de leitura: 8 min

Os oceanos entraram em 2026 em território nunca antes registrado pelos instrumentos científicos modernos. No dia 22 de agosto, a temperatura média da superfície do mar entre as latitudes 60°N e 60°S atingiu 21,1°C, o valor mais alto já observado desde que a série de dados ERA5, do Copernicus Climate Change Service (C3S), começou em 1979. O recorde anterior, de 21,09°C, havia sido registrado em março de 2024, mas chamou atenção justamente por ter ocorrido fora da época do ano em que os oceanos costumam atingir seu pico, normalmente entre março e abril, após o verão do Hemisfério Sul.

O fenômeno voltou a ser confirmado dias depois pela agência americana NOAA, cujo sistema Climate Reanalyzer, baseado nos dados OISST, apontou um novo recorde em 23 de agosto, de 21,24°C. Para cientistas ouvidos pelo jornal espanhol El País, o quadro combina duas forças que raramente se sobrepõem com esta intensidade: o aquecimento estrutural dos oceanos provocado pela crise climática e um episódio extremo de El Niño, batizado por parte da comunidade científica de "superNiño".

"Cada vez temos mais papeletas para que na Espanha volte a acontecer algo grave como em 2024", afirmou ao El País o meteorologista Juan Jesús González Alemán, da Agência Estatal de Meteorologia (Aemet) e pesquisador que estudou como o aquecimento intensificou a dana, a enchente catastrófica que matou mais de 230 pessoas na região de Valência naquele ano. Para ele, falta investimento em adaptação diante desses eventos extremos, um alerta que ecoa em praticamente todos os países costeiros, o Brasil incluído.

Um grau que equivale a três séculos de energia

A diferença entre um oceano "normal" e um oceano 1°C mais quente pode parecer pequena, mas não é. Segundo o oceanógrafo Carlos Duarte, citado pela reportagem do El País, esse único grau de aquecimento nos primeiros 100 metros de profundidade equivale a cerca de 1,5×10²³ joules de energia armazenada, o correspondente a 250 a 300 vezes o consumo energético anual de toda a humanidade. Em outras palavras, o oceano acumulou o equivalente a três séculos de consumo de energia da civilização atual.

Essa energia extra não fica parada. Ela alimenta ondas de calor marinhas, branqueamento de corais, proliferação de algas nocivas e alterações na distribuição de espécies de peixes, além de fornecer mais "combustível" para tempestades e ciclones. Um estudo da Universidade de Ciência e Tecnologia Rei Abdullah, da Arábia Saudita, publicado na revista One Earth, identificou alterações ecológicas que se estendem muito além da temporada tradicional de ondas de calor marinhas, sugerindo que o monitoramento atual pode estar subestimando riscos que ocorrem fora dos períodos convencionais de observação.

"Para ver o colapso de um ecossistema desta relevância global, talvez precisássemos voltar quase 40 milhões de anos. É uma tendência irreversível que pode deixar para as próximas gerações um planeta em que os recifes de coral sejam uma lembrança, como os dinossauros. Só que, desta vez, o meteoro somos nós." Carlos Duarte, oceanógrafo, ao jornal El País

O superNiño e seus efeitos no Brasil

O componente que mais preocupa os cientistas em 2026 é a força incomum do El Niño em curso. A NOAA estabeleceu formalmente as condições do fenômeno em junho, e projeções recentes indicam probabilidade superior a 90% de um evento muito forte entre o outono e o inverno do Hemisfério Norte de 2026-27, com cerca de 69% de chance de ele ser classificado como histórico. Um Super El Niño, definido quando a anomalia de temperatura da superfície do mar no Pacífico ultrapassa 2°C acima da média histórica, só ocorreu quatro vezes em 150 anos: 1877-78, 1982-83, 1997-98 e 2015-16. Se confirmado em 2026, será o quinto, e com um intervalo mais curto desde o episódio anterior, um padrão que pesquisadores associam à intensificação do aquecimento global.

No Brasil, notas técnicas conjuntas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), da Funceme e do Cemaden indicam que o fenômeno tende a se manifestar de forma desigual pelo território. A tendência histórica é de redução de chuvas e aumento de temperatura no Norte e no Nordeste, com maior risco de estiagem e queimadas, enquanto o Sul do país costuma registrar chuvas mais intensas e concentradas, com maior risco de enchentes e deslizamentos. Já no Sudeste e no Centro-Oeste, o padrão esperado é de ondas de calor mais frequentes.

Pesquisadores brasileiros também têm associado o aquecimento anômalo do Atlântico, com águas próximas ao litoral do país até 3°C acima da média histórica em alguns pontos, à intensificação de chuvas extremas observadas neste ano em estados como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Segundo especialistas do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (Cptec/INPE), o fator mais preocupante não é apenas a temperatura em si, mas a extensão da área do oceano afetada: quanto maior a mancha de calor, maior o volume de umidade lançado na atmosfera e maior o risco de volumes de chuva extremos concentrados em poucas horas.

TEMPERATURA MÉDIA DIÁRIA DA SUPERFÍCIE DO OCEANO (60°S–60°N) 19,6°C 21,2°C 21,10°C (22 ago) 2026 2024 média 1991-2020 jan jun dez
Representação esquemática da trajetória de temperatura da superfície oceânica em 2026 frente aos anos anteriores, com base em dados do Copernicus C3S/ERA5. Elaboração: O Tecido.

A dúvida sobre a corrente que aquece a Europa

Um dos efeitos mais debatidos do aquecimento oceânico é seu impacto sobre a Circulação de Retorno Meridional do Atlântico (AMOC), o sistema de correntes que transporta água quente dos trópicos para o Atlântico Norte e ajuda a manter o clima ameno da Europa Ocidental. Um estudo do Instituto de Pesquisa Marinha e Atmosférica de Utrecht, na Holanda, publicado em agosto na revista Nature Climate Change, mostrou que o risco de colapso da AMOC depende menos do grau total de aquecimento e mais da velocidade com que ele ocorre.

Nas simulações do grupo, um aquecimento lento permite que a corrente permaneça estável mesmo diante de um aumento de até 5°C, porque o oceano tem tempo de se reorganizar em todas as suas camadas. Já em um cenário de aquecimento acelerado, a AMOC pode parar de funcionar com um aumento de apenas 2°C, ritmo ao qual o planeta já está se aproximando segundo os autores.

Ponto de controvérsia científica

Nem todos os oceanógrafos concordam sobre a proximidade de um colapso da AMOC. Parte da comunidade científica destaca que expedições recentes, como a MORIA 2, liderada pela Universidade de Barcelona, apontam que estudos anteriores subestimaram o papel da água salgada exportada pelo Mediterrâneo através do Estreito de Gibraltar, que historicamente pode ter fortalecido a circulação em períodos geológicos passados. Isso significa que boa parte dos modelos atuais sobre o futuro da AMOC ainda carrega incertezas relevantes e está sujeita a revisão à medida que novos dados são incorporados.

O que isso significa para o Brasil e o litoral

Embora a reportagem original do El País tenha como foco o risco de eventos como a dana espanhola de 2024, o mecanismo físico descrito, oceanos mais quentes fornecendo mais energia e umidade para tempestades, é o mesmo que preocupa autoridades brasileiras de defesa civil. Organizações como o Greenpeace Brasil já alertam que o branqueamento de corais também atinge águas nacionais: estações de monitoramento em Maracajaú (RN) e no arquipélago de Todos os Santos (BA) estavam sob alerta de branqueamento em 2026, à medida que cerca de 10% das áreas de recife monitoradas globalmente pela NOAA já apresentavam sinais do fenômeno.

A pesquisadora María José Sanz, diretora científica do Basque Centre for Climate Change (BC3), destaca ao El País que incertezas científicas sempre existirão, mas isso não deve adiar medidas de adaptação diante de riscos já elevados. É uma lógica que se aplica igualmente a países como o Brasil, com mais de 8 mil quilômetros de litoral e cidades costeiras densamente povoadas expostas a ressacas, erosão e chuvas extremas cada vez mais associadas ao aquecimento dos mares.

Nota de apuração: Este artigo tem como ponto de partida a reportagem "La bomba climática de unos mares extremadamente calientes", publicada pelo jornal espanhol El País em 1º de setembro de 2026, assinada por Clemente Álvarez. O conteúdo original não foi traduzido nem reproduzido integralmente; passagens, dados e falas de especialistas foram apurados de forma independente e complementados com fontes brasileiras e internacionais adicionais, listadas na seção de referências. Leia a reportagem completa em: elpais.com.

Perguntas frequentes

Por que os oceanos bateram recorde de temperatura em agosto de 2026?

A combinação de dois fatores: o aquecimento estrutural de longo prazo causado pela crise climática e um episódio de El Niño excepcionalmente forte, que aquece as águas do Pacífico tropical e eleva a temperatura média global do oceano mesmo fora da época em que os recordes costumam ocorrer.

Qual foi a temperatura recorde registrada nos oceanos em 2026?

Segundo o Copernicus Climate Change Service (C3S), a temperatura média diária da superfície oceânica entre 60°N e 60°S atingiu 21,1°C em 22 de agosto de 2026, superando o recorde anterior de 21,09°C, de março de 2024.

Como o aquecimento dos oceanos afeta o Brasil?

Ele altera o regime de chuvas em diferentes regiões, tende a reduzir precipitações e aumentar o calor no Norte e Nordeste, intensificar chuvas no Sul e ampliar ondas de calor no Sudeste e Centro-Oeste, além de favorecer o branqueamento de corais em recifes brasileiros monitorados no Rio Grande do Norte e na Bahia.

O que é a AMOC e por que ela preocupa os cientistas?

A Circulação de Retorno Meridional do Atlântico é o sistema de correntes que transporta água quente dos trópicos ao Atlântico Norte, ajudando a manter o clima ameno na Europa. Estudos recentes indicam que sua estabilidade depende mais da velocidade do aquecimento global do que da magnitude total do aumento de temperatura.

O que foi a dana de 2024 citada como referência de risco?

A dana foi uma enchente catastrófica que atingiu a região de Valência, na Espanha, em outubro de 2024, provocada por chuvas extremas intensificadas pelo calor anômalo do Mediterrâneo, e que resultou na morte de mais de 230 pessoas.

Notas de verificação editorial: confirmar a taxa exata de aceleração do El Niño 2026-27 junto a boletins mais recentes da NOAA antes da publicação; confirmar valor de 33,2°C medido na boia a oeste de Maiorca junto a fonte primária (Puertos del Estado/Copernicus Marine Service); revisar se o percentual de 10% de áreas de recife com branqueamento (Greenpeace Brasil/NOAA) permanece atualizado até a data de publicação.