Sustentabilidade · Oceanos e clima

Existe uma mancha no mapa de temperatura do Atlântico Norte que não acompanha o resto do planeta. Enquanto quase todos os oceanos aquecem, uma porção de água ao sul da Groenlândia segue mais fria do que deveria. Os cientistas a chamam de "bolha fria", e ela virou o símbolo de uma das hipóteses mais inquietantes da ciência climática: a de que a AMOC, o grande sistema de correntes que leva calor dos trópicos para o norte, já está perdendo força.

A novidade não está apenas nos dados, mas em quem passou a prestar atenção neles. Reportagem publicada nesta segunda-feira (5) pelo The Telegraph, assinada por Zia Weise, repórter sênior de clima do Politico, mostra que o tema saiu dos laboratórios e chegou aos ministérios. Reino Unido, Islândia, Países Baixos, Finlândia e o Conselho Nórdico de Ministros já tratam o enfraquecimento da corrente como risco a ser planejado, e não como cenário de ficção.1

Este texto parte da reportagem do The Telegraph citada acima, com créditos e link para o original, e acrescenta pesquisa independente e o contexto brasileiro. Não se trata de tradução nem de reprodução do conteúdo original.

O que é a AMOC e por que ela importa?

A AMOC, sigla em inglês para Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico, funciona como uma esteira de calor. Na superfície, água quente e salgada viaja dos trópicos em direção ao Atlântico Norte. Lá, ela perde calor para a atmosfera, fica mais densa e afunda, retornando para o sul em grandes profundidades. Esse afundamento é o motor do sistema: é ele que "puxa" mais água quente para o norte.

O efeito é perceptível no mapa. Como lembra o Telegraph, Londres fica cerca de seis graus de latitude ao norte de Ottawa e, ainda assim, não enfrenta os invernos da capital canadense; a circulação atlântica é parte da explicação.1 O título da reportagem britânica, aliás, parte justamente dessa imagem: a possibilidade de a Europa ganhar invernos de tipo canadense.

O problema é físico e relativamente simples de descrever. O derretimento do manto de gelo da Groenlândia e o aumento das chuvas despejam água doce no Atlântico Norte. Água menos salgada e mais quente é menos densa, afunda com mais dificuldade e enfraquece a circulação. Uma corrente mais fraca, por sua vez, leva menos sal para o norte, o que reforça o enfraquecimento. É esse ciclo de retroalimentação que preocupa os pesquisadores.

SUPERFÍCIE FUNDO DO OCEANO água quente e salgada segue para o norte afundamento água fria e densa retorna para o sul em profundidade ressurgência "bolha fria" Oceano Austral Atlântico Sul (Brasil) Equador Groenlândia
Esquema simplificado, sem escala, de um corte do Atlântico de sul a norte. A água quente sobe pela superfície, afunda no Atlântico Norte e volta em profundidade. A ressurgência no Oceano Austral, movida pelos ventos, completa o circuito. Ilustração: O Tecido.

A ciência já sabe quando o sistema pode ceder?

Não sabe, e essa é a dificuldade central do tema. O Telegraph registra que as estimativas para o ponto de virada da AMOC, a partir do qual o sistema caminharia de forma inevitável para um estado muito fraco, vão de 1,4 °C a 8 °C de aquecimento acima do período pré-industrial. O piso dessa faixa coincide com o nível de aquecimento que o mundo acaba de atingir.1

aquecimento global atual, cerca de 1,4 °C faixa das estimativas publicadas 1 °C2 °C3 °C4 °C5 °C6 °C7 °C8 °C
Onde estaria o ponto de virada da AMOC? As estimativas reunidas pelo The Telegraph vão de 1,4 °C a 8 °C de aquecimento global. A amplitude da faixa mostra o tamanho da incerteza científica. Gráfico: O Tecido.

Alguns trabalhos estreitaram o horizonte. Em 2023, os pesquisadores Peter e Susanne Ditlevsen, da Universidade de Copenhague, usaram registros de temperatura da superfície do mar desde 1870 para estimar um colapso por volta da metade do século, mantidas as emissões atuais, com intervalo entre 2025 e 2095, em estudo publicado na Nature Communications.2 Em julho de 2026, uma equipe liderada por Philip Holden, da Open University, foi além: segundo o Arctic Today, as simulações do grupo indicam probabilidade de 10% a 23% de que o colapso já esteja "contratado", isto é, inevitável mesmo que o aquecimento parasse hoje.3

Há ainda uma camada intermediária de risco. O sistema não precisa parar inteiro para causar estragos. O giro subpolar, corrente circular ao sul da Groenlândia que ajuda a mover a AMOC, pode perder sua capacidade de misturar águas já na década de 2040, de acordo com estudos citados pelo Telegraph. A pesquisadora Swinda Falkena, da Universidade de Utrecht, disse ao jornal que vê risco substancial de isso ocorrer nos próximos 20 anos, o que significa que "é preciso começar a planejar agora".1

Como os governos europeus estão se preparando

A reação política descrita pela reportagem é variada, mas aponta na mesma direção. O governo britânico destinou 81 milhões de libras a um programa de alerta precoce voltado a dois sistemas ligados à AMOC: o manto de gelo da Groenlândia e o giro subpolar. A Islândia classificou um colapso da corrente como risco à segurança nacional e levou o tema ao Conselho Nórdico de Ministros. Os Países Baixos avaliam o impacto sobre seus diques e defesas costeiras, e a Finlândia abriu uma avaliação própria neste ano.1

Em Bruxelas, a vice-presidente executiva da Comissão Europeia para a transição limpa, Teresa Ribera, sugeriu em 2025 incluir a AMOC entre as siglas de segurança nacional do continente. Neste ano, a Comissão anunciou 92 milhões de euros para observação oceânica, valor que chegou a 220 milhões após uma rodada de compromissos em setembro. Os cientistas ouvidos pelo Telegraph consideram o montante bem-vindo, mas insuficiente: estimam que um sistema permanente de observação de todo o Atlântico exigiria de 500 milhões a 1 bilhão de euros por ano, e lembram que orçamentos dessa ordem já são rotina em física de partículas e astronomia.1

A fragilidade do monitoramento é, talvez, o ponto mais concreto da reportagem. Muitas das redes de boias e instrumentos dependem de bolsas de pesquisa de curto prazo, algumas com vencimento até 2028. Nos Estados Unidos, o governo chegou a cortar verbas de observação oceânica no início do ano, recuando depois da repercussão negativa.1

O dilema europeu é preparar uma sociedade inteira para um evento cuja probabilidade ninguém consegue fixar, mas cujo custo todos conseguem imaginar.

Quais seriam os efeitos de um colapso na Europa?

Os cenários reunidos pelos pesquisadores são severos. O contraste entre um norte mais frio e um sul que continua aquecendo alimentaria tempestades de inverno mais violentas. Gelo marinho poderia avançar em direção à Escócia e aos fiordes nórdicos, e ondas de frio extremo atingiriam os Países Baixos e a Escandinávia. Um dos trabalhos mencionados pelo Telegraph projeta que a área do Reino Unido adequada à agricultura cairia de 32% para 7% após um colapso.1

Vale uma ressalva que a própria reportagem faz: nada disso se parece com o congelamento instantâneo do filme O Dia Depois de Amanhã, de 2004. Não há evidência de que um processo tão rápido seja possível. Mesmo um colapso completo levaria décadas para se desenrolar.

O que o Brasil tem a ver com o frio europeu?

Mais do que parece. O principal canal de transmissão para a América do Sul é a Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), a faixa de nuvens e chuvas próxima à linha do Equador. Quando o Atlântico Norte esfria, essa faixa tende a se deslocar para o sul, redistribuindo as chuvas sobre o Brasil tropical. Em análise para a CNN Brasil, o professor Pedro Côrtes aponta que esse deslocamento pode afetar agricultura, geração hidrelétrica e segurança hídrica no Brasil central e meridional, além de Paraguai, Uruguai e norte da Argentina.12

O efeito, porém, não seria uniforme, e é aqui que o debate exige cuidado. Um estudo liderado por Pedro DiNezio, da Universidade do Colorado, combinou registros de cavernas, lagos e sedimentos marinhos com simulações e concluiu que uma AMOC enfraquecida, somada ao aquecimento global, poderia reduzir as chuvas em até 40% em partes da Amazônia, conforme relatou o Olhar Digital.10 Já a pesquisadora Marília Campos, do Instituto de Geociências da Unicamp, lembrou ao TNH1 que episódios passados de redução abrupta da corrente coincidiram com aumentos fortes de chuva na Amazônia centro-ocidental e no Nordeste.11 As duas leituras não se anulam: indicam que o Brasil enfrentaria uma reorganização regional das chuvas, com áreas que secam e áreas que encharcam.

Para a Amazônia, nem o cenário aparentemente favorável traz alívio. Um estudo de pesquisadores brasileiros e alemães, descrito pela Revista Pesquisa FAPESP, avaliou que um colapso da AMOC poderia retardar temporariamente a savanização da floresta. A oceanógrafa Regina Rodrigues, da Universidade Federal de Santa Catarina e coautora do trabalho, ressalta que esse atraso não traria benefício real, dado o impacto global do enfraquecimento.7 A mesma reportagem aponta que uma das "impressões digitais" de mudanças na AMOC aparece perto da costa nordestina, na bifurcação do ramo sul da Corrente Sul Equatorial.

O país também tem presença no esforço de medição. Pesquisadores do Instituto Oceanográfico da USP, liderados por Edmo Campos, participam da iniciativa internacional SAMOC e de sua etapa SAMBAR, que ancorou instrumentos a quase 4 quilômetros de profundidade no Atlântico Sul para registrar salinidade, temperatura e velocidade das correntes, segundo a Agência FAPESP.8 A Marinha do Brasil apoiou a instalação de equipamentos nos canais Hunter e Vema e na Cadeia Meso-Atlântica.9 O Atlântico Sul tem uma particularidade relevante: é o único oceano que transporta calor em direção ao Equador, alimentando o fluxo que segue para o norte. A pergunta que a experiência europeia coloca para o Brasil é se essa rede será tratada como infraestrutura permanente ou continuará dependente de ciclos de financiamento acadêmico, o mesmo problema que hoje preocupa os cientistas do outro lado do oceano.

Contraponto

O colapso não é o cenário mais provável para este século

Uma parte relevante da comunidade científica vê o risco de colapso com mais cautela. Em 2025, um estudo liderado por Jonathan Baker, do Met Office, publicado na Nature, analisou 34 modelos climáticos sob cenários extremos e não encontrou colapso total antes de 2100. A explicação está no Oceano Austral: os ventos persistentes ao redor da Antártida fazem a água profunda subir, funcionando como uma segunda bomba que mantém a AMOC ativa, ainda que enfraquecida.4 O próprio Met Office observou que o resultado converge com a avaliação do IPCC, que considera, com confiança média, improvável um colapso abrupto neste século.5

Há também uma divergência de definição. Baker trata como colapso uma circulação reduzida a zero; outros pesquisadores adotam um limiar mais baixo, em torno de 5 Sverdrups, e alertam que um enfraquecimento dessa magnitude já traria grandes impactos, segundo relato da Associated Press.13 E a cobertura jornalística nem sempre ajuda: em maio de 2026, o portal científico Climate Tipping Points apontou que parte da imprensa confundiu enfraquecimento com colapso e atribuiu a um estudo uma probabilidade de 50% que, na verdade, vinha de julgamento de especialistas.6 O ponto de consenso é mais estreito do que as manchetes sugerem: a AMOC deve enfraquecer. O quanto, e se cruzará um ponto sem volta, segue em aberto.

Preparar sem certeza: a lógica das medidas "sem arrependimento"

Diante da incerteza, os especialistas ouvidos pelo Telegraph defendem uma saída pragmática. Laurie Laybourn, pesquisador da Chatham House, sugere priorizar ações que valem em qualquer cenário, como adaptar edifícios, restaurar ecossistemas para tornar a agricultura mais resiliente e apoiar países africanos cujas monções podem ser afetadas.1 Muitos dos impactos de uma AMOC enfraquecida, afinal, agravam problemas que a Europa já enfrenta: secas, eventos extremos e elevação do nível do mar.

A medida mais importante, no entanto, é a única que atua sobre a causa. Cientistas e ministros de países expostos, como Noruega e Islândia, convergem em que cortar emissões rapidamente é o que pode reduzir a chance de o sistema cruzar seu limiar.1 O ministro islandês do Clima, Jóhann Páll Jóhannsson, comparou a posição de seu país à dos pequenos Estados insulares do Pacífico diante da elevação do mar: para quem está na linha de frente, o risco deixa de ser abstração científica.

Para o Brasil, que sediou a COP30 e tem na Amazônia e no regime de chuvas peças centrais de sua economia, a lição vai além do Atlântico Norte. Tratar a circulação oceânica como variável de planejamento, e não como curiosidade científica, significa financiar observação contínua, incorporar cenários de mudança na ZCIT ao planejamento hídrico e energético e reconhecer que a estabilidade climática do país também depende do que acontece a milhares de quilômetros, nas águas ao sul da Groenlândia.

Perguntas frequentes

O que é a AMOC?

A AMOC (Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico) é um sistema de correntes que leva água quente e salgada dos trópicos para o Atlântico Norte, onde ela esfria, afunda e retorna para o sul em profundidade. O movimento transporta calor e ajuda a manter o clima relativamente ameno do noroeste da Europa.

O que é a bolha fria ao sul da Groenlândia?

É uma região do Atlântico Norte que permanece mais fria do que a média enquanto o resto do oceano aquece. Parte dos cientistas interpreta a anomalia como sinal de que a AMOC já transporta menos calor para o norte.

A AMOC vai entrar em colapso neste século?

Não há consenso. O IPCC considera um colapso abrupto antes de 2100 muito improvável, com confiança média. Estudos estatísticos apontam risco elevado ainda neste século, enquanto uma análise de 34 modelos liderada pelo Met Office não encontrou colapso total até 2100. Há concordância de que o sistema deve enfraquecer.

Como um enfraquecimento da AMOC afetaria o Brasil?

O principal canal é o deslocamento da Zona de Convergência Intertropical para o sul. Modelos indicam menos chuva em partes da Amazônia, enquanto registros de eventos passados mostram mais chuva em áreas do Nordeste e da Amazônia centro-ocidental. Agricultura, hidrelétricas e segurança hídrica estariam expostas.

O que pode reduzir o risco de colapso?

Cortar rapidamente as emissões de gases de efeito estufa é a única medida que atua sobre a causa. Monitoramento oceânico permanente e adaptação, como proteção costeira e infraestrutura mais resiliente, reduzem os danos.