Caderno Economia · Tecnologia & Investimento · Leitura de 8 minutos

Toda vez que uma nova tecnologia atrai bilhões de dólares em investimento, alguém aparece para comparar o momento com a febre das ferrovias do século 19, a eletrificação dos anos 1920 ou a bolha ponto-com do início dos anos 2000. Com a inteligência artificial não é diferente. Nas últimas semanas, o próprio Banco de Compensações Internacionais, o BIS, instituição conhecida como o banco central dos bancos centrais, comparou o atual ciclo de gastos em infraestrutura de IA a essas ondas históricas de euforia tecnológica2. A pergunta que fica é se a comparação realmente ajuda a prever o que vem a seguir, ou se está escondendo o que há de genuinamente novo nesse boom.

Um artigo de opinião publicado no Washington Post em 7 de setembro argumenta que não. Segundo o colunista financeiro Matthew Lynn, mesmo que os números pareçam familiares (os Estados Unidos investem hoje algo próximo de 2% do PIB em infraestrutura de IA, uma proporção parecida com o pico da febre ferroviária), pelo menos três características tornam esse ciclo diferente de tudo que já se viveu antes1.

Um boom concentrado em um único país

A primeira diferença está na geografia do investimento. As ferrovias nasceram na Grã-Bretanha e se espalharam por praticamente todo país desenvolvido do mundo. A eletrificação seguiu caminho parecido, com nações instalando redes elétricas quase ao mesmo tempo. Já o atual ciclo de IA está concentrado de forma esmagadora nos Estados Unidos, com alguma competição da China1. Isso significa que o risco financeiro está concentrado em um único sistema, e não distribuído entre várias economias como aconteceu nos ciclos anteriores.

O Brasil, nesse cenário, ocupa um lugar peculiar: não é o centro do investimento, mas se tornou um dos principais destinos da infraestrutura física que sustenta essa expansão. O país já concentra cerca de 48% da capacidade instalada de data centers da América Latina e responde por 71% da capacidade em construção na região, segundo o relatório Latin America Data Center Report da consultoria JLL3. Nos últimos dois anos, o país acumulou mais de R$ 150 bilhões em anúncios de investimento no setor4, impulsionado por energia limpa abundante e por incentivos como o regime tributário Redata, ainda em tramitação.

"Se as empresas e investidores de IA estão cometendo erros, e quase certamente estão, ninguém tem tempo para descobri-los, muito menos corrigi-los." Matthew Lynn, colunista financeiro, em artigo publicado no Washington Post

A velocidade que não deixa espaço para erro

A segunda diferença apontada pelo autor é a velocidade. Passaram-se quatro décadas entre a inauguração da primeira ferrovia de passageiros dos Estados Unidos, em 1830, e a conclusão da primeira ferrovia transcontinental, em 1869. Foi tempo suficiente para que empreendedores ajustassem seus modelos de negócio, bancos calibrassem seus balanços e governos pensassem em regulação. A expansão da infraestrutura de IA, por sua vez, aconteceu em menos de cinco anos1.

Esse ritmo acelerado também aparece nos números mais recentes do setor. Segundo projeções da consultoria Gartner, o investimento global em inteligência artificial deve alcançar US$ 2,59 trilhões em 2026, alta de 47% em relação ao ano anterior, com mais de 45% desse montante destinado a infraestrutura física como servidores, chips e data centers5. As cinco maiores empresas de nuvem do mundo devem investir juntas mais de US$ 1 trilhão apenas em capex ligado à IA neste ano, segundo estimativa do próprio BIS2.

Zhang Tao, diretor-gerente adjunto do BIS, chamou atenção para outro ponto sensível: boa parte desse financiamento vem de canais não bancários, sobre os quais reguladores têm menos visibilidade e menos capacidade de agir em caso de reversão6. Em outras palavras, mesmo que a tecnologia se prove tão transformadora quanto prometido, a arquitetura financeira que sustenta seu crescimento pode amplificar qualquer correção de mercado.

Contraponto

Nem todos os analistas compartilham o tom de alerta. Parte do mercado financeiro argumenta que a comparação com bolhas passadas ignora um fator relevante: diferentemente da euforia ponto-com, as empresas hoje à frente do investimento em IA (como Microsoft, Google e Amazon) já geram receita robusta e fluxo de caixa positivo em outras áreas de seus negócios, o que reduziria o risco sistêmico de uma eventual correção.

O próprio BIS evita classificar formalmente o ciclo atual como uma bolha financeira, preferindo o termo "vulnerabilidade crescente"7. Para essa leitura mais otimista, mesmo que haja excesso de capital em alguns projetos, isso não impede que a tecnologia deixe, ao final do processo, uma base produtiva relevante, como aconteceu com a fibra ótica instalada durante a bolha ponto-com e reaproveitada décadas depois.

O dilema do emprego

A terceira diferença é talvez a mais sensível: o efeito sobre o mercado de trabalho. Ciclos anteriores de investimento tecnológico criaram mais empregos do que destruíram. No auge da indústria ferroviária americana, em 1916, o setor empregava 1,6 milhão de pessoas1. Ninguém, à época, falava em "apocalipse do emprego ferroviário". Com a IA, o temor é justamente o oposto: o banco Goldman Sachs estima que a tecnologia pode deslocar quase um décimo da força de trabalho americana1.

No Brasil, o debate segue uma linha um pouco diferente. Um estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) sugere que a baixa produtividade do trabalho e o custo relativamente menor da mão de obra brasileira podem reduzir a correlação direta entre automação por IA e o mercado de trabalho nacional, concentrando o impacto sobretudo em ocupações de maior escolaridade e especialização, e não necessariamente reduzindo o número total de postos8. Ainda assim, outra análise do próprio instituto aponta que cerca de 62% dos empregos na América Latina estão em ocupações com alta probabilidade de automação, percentual bem superior ao observado em países desenvolvidos9, o que reforça a urgência de políticas de requalificação profissional.

O que está em jogo para o investidor brasileiro

Para quem acompanha o mercado brasileiro, a discussão não é apenas acadêmica. A Microsoft já concluiu dois data centers voltados a IA em São Paulo, parte de um investimento de R$ 14,7 bilhões previsto até 202710. A Ascenty, por sua vez, anunciou em Sumaré, interior paulista, o primeiro complexo do país dedicado exclusivamente à inteligência artificial, com investimento total de R$ 30 bilhões11. O governo federal, na mesma direção, estruturou o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, com previsão de R$ 23 bilhões até 20285.

Esses aportes carregam duas leituras possíveis. Por um lado, colocam o Brasil em posição vantajosa dentro da cadeia global de infraestrutura digital, aproveitando energia renovável abundante e um regime regulatório relativamente favorável. Por outro, tornam a economia brasileira mais exposta, ainda que indiretamente, a uma eventual correção nos Estados Unidos, já que boa parte da demanda por esses data centers depende de contratos com as próprias hiperescalares americanas que protagonizam o boom.

O argumento central do artigo do Washington Post não é que a inteligência artificial seja irrelevante ou que o investimento seja necessariamente equivocado. É que a história recente de outras revoluções tecnológicas, por mais reconfortante que pareça, não oferece garantia de que este ciclo terminará da mesma forma. A escala concentrada, a velocidade sem precedentes e o risco real sobre o emprego qualificado formam uma combinação que o mundo, segundo o autor, ainda não enfrentou1.

1830 a 1869

Ciclo da febre ferroviária nos Estados Unidos: quatro décadas entre a primeira linha de passageiros e a conclusão da ferrovia transcontinental.

Década de 1920

Boom da eletrificação, com instalação simultânea de redes elétricas em diversos países desenvolvidos.

1995 a 2001

Bolha das empresas ponto-com, com forte valorização e posterior colapso de ações ligadas à internet.

2021 a 2026

Expansão acelerada da infraestrutura global de inteligência artificial, concentrada majoritariamente nos Estados Unidos, com o Brasil surgindo como polo relevante de data centers na América Latina.

Perguntas frequentes

Por que o boom da inteligência artificial é comparado a bolhas anteriores, como a das ferrovias?

Porque envolve grande volume de capital investido em uma tecnologia genuinamente transformadora, padrão observado também na febre ferroviária do século 19, na eletrificação dos anos 1920 e na bolha ponto-com, segundo análise do Banco de Compensações Internacionais (BIS).

O que torna o atual ciclo de investimento em IA diferente dos anteriores?

Três fatores: a concentração geográfica quase exclusiva nos Estados Unidos, a velocidade de expansão (menos de cinco anos, contra décadas nos ciclos anteriores) e o risco elevado de substituição de empregos qualificados, segundo o colunista Matthew Lynn em artigo publicado no Washington Post.

Qual é a posição do Brasil nesse ciclo global de investimento em IA?

O Brasil concentra cerca de 48% da capacidade instalada de data centers da América Latina e 71% da capacidade em construção na região, atraindo mais de R$ 150 bilhões em investimentos anunciados nos últimos dois anos, segundo dados da consultoria JLL.

A inteligência artificial pode reduzir o número de empregos no Brasil?

Estudos do Ipea indicam que o impacto tende a se concentrar em ocupações de maior qualificação, sem necessariamente reduzir o número total de postos de trabalho no curto prazo, embora cerca de 62% dos empregos na América Latina estejam em ocupações com alta probabilidade de automação.

O Banco de Compensações Internacionais (BIS) classifica o ciclo de IA como uma bolha?

Não formalmente. O BIS evita o termo "bolha" e prefere falar em vulnerabilidade financeira crescente, mas alerta que uma eventual correção poderia ser amplificada pela dependência de financiamento não bancário no setor.

Referências

  1. LYNN, Matthew. The AI boom isn't like other bubbles. The Washington Post, 7 set. 2026. Disponível em: washingtonpost.com.
  2. Banco de Compensações Internacionais (BIS). Relatório Econômico Anual 2026, divulgado em 28 de junho de 2026.
  3. JLL. Latin America Data Center Report 2025.
  4. Reportagem sobre expansão de data centers e IA no Brasil, publicada em julho de 2026.
  5. Consultoria Gartner, projeção de investimento global em inteligência artificial para 2026.
  6. Declarações de Zhang Tao, diretor-gerente adjunto do BIS, sobre financiamento não bancário do setor de IA.
  7. Cobertura sobre a posição do BIS quanto à classificação do ciclo de IA como bolha financeira.
  8. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Estudo sobre impacto da IA em ocupações qualificadas no Brasil.
  9. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Estudo "Digitalização e Tecnologias da Informação e Comunicação: oportunidades e desafios para o Brasil".
  10. Cobertura sobre inauguração de data centers da Microsoft em São Paulo, fevereiro de 2026.
  11. Cobertura sobre investimento da Ascenty em complexo de IA em Sumaré (SP), maio de 2026.
Por Ewerton Lopes — Curador Editorial

Em números

US$ 2,59 tri investimento global projetado em IA para 2026, alta de 47% sobre 2025 (Gartner)
US$ 1 tri+ capex das cinco maiores empresas de nuvem em infraestrutura de IA em 2026 (BIS)
48% participação do Brasil na capacidade de data centers da América Latina (JLL)
R$ 150 bi+ investimentos anunciados em data centers no Brasil nos últimos dois anos
~10% da força de trabalho americana que pode ser deslocada pela IA, segundo o Goldman Sachs

Glossário

Hyperscaler
Empresa de tecnologia com capacidade de expandir infraestrutura de computação em escala massiva, como Amazon, Microsoft, Google e Meta.
Capex
Sigla em inglês para despesas de capital, ou seja, investimentos em ativos físicos como data centers e equipamentos.
Financiamento não bancário
Recursos captados fora do sistema bancário tradicional, como fundos de dívida privada, com menor supervisão regulatória.
Redata
Regime tributário em discussão no Brasil voltado a incentivar investimentos em data centers.