Toda vez que uma nova tecnologia atrai bilhões de dólares em investimento, alguém aparece para comparar o momento com a febre das ferrovias do século 19, a eletrificação dos anos 1920 ou a bolha ponto-com do início dos anos 2000. Com a inteligência artificial não é diferente. Nas últimas semanas, o próprio Banco de Compensações Internacionais, o BIS, instituição conhecida como o banco central dos bancos centrais, comparou o atual ciclo de gastos em infraestrutura de IA a essas ondas históricas de euforia tecnológica2. A pergunta que fica é se a comparação realmente ajuda a prever o que vem a seguir, ou se está escondendo o que há de genuinamente novo nesse boom.
Um artigo de opinião publicado no Washington Post em 7 de setembro argumenta que não. Segundo o colunista financeiro Matthew Lynn, mesmo que os números pareçam familiares (os Estados Unidos investem hoje algo próximo de 2% do PIB em infraestrutura de IA, uma proporção parecida com o pico da febre ferroviária), pelo menos três características tornam esse ciclo diferente de tudo que já se viveu antes1.
Um boom concentrado em um único país
A primeira diferença está na geografia do investimento. As ferrovias nasceram na Grã-Bretanha e se espalharam por praticamente todo país desenvolvido do mundo. A eletrificação seguiu caminho parecido, com nações instalando redes elétricas quase ao mesmo tempo. Já o atual ciclo de IA está concentrado de forma esmagadora nos Estados Unidos, com alguma competição da China1. Isso significa que o risco financeiro está concentrado em um único sistema, e não distribuído entre várias economias como aconteceu nos ciclos anteriores.
O Brasil, nesse cenário, ocupa um lugar peculiar: não é o centro do investimento, mas se tornou um dos principais destinos da infraestrutura física que sustenta essa expansão. O país já concentra cerca de 48% da capacidade instalada de data centers da América Latina e responde por 71% da capacidade em construção na região, segundo o relatório Latin America Data Center Report da consultoria JLL3. Nos últimos dois anos, o país acumulou mais de R$ 150 bilhões em anúncios de investimento no setor4, impulsionado por energia limpa abundante e por incentivos como o regime tributário Redata, ainda em tramitação.
"Se as empresas e investidores de IA estão cometendo erros, e quase certamente estão, ninguém tem tempo para descobri-los, muito menos corrigi-los." Matthew Lynn, colunista financeiro, em artigo publicado no Washington Post
A velocidade que não deixa espaço para erro
A segunda diferença apontada pelo autor é a velocidade. Passaram-se quatro décadas entre a inauguração da primeira ferrovia de passageiros dos Estados Unidos, em 1830, e a conclusão da primeira ferrovia transcontinental, em 1869. Foi tempo suficiente para que empreendedores ajustassem seus modelos de negócio, bancos calibrassem seus balanços e governos pensassem em regulação. A expansão da infraestrutura de IA, por sua vez, aconteceu em menos de cinco anos1.
Esse ritmo acelerado também aparece nos números mais recentes do setor. Segundo projeções da consultoria Gartner, o investimento global em inteligência artificial deve alcançar US$ 2,59 trilhões em 2026, alta de 47% em relação ao ano anterior, com mais de 45% desse montante destinado a infraestrutura física como servidores, chips e data centers5. As cinco maiores empresas de nuvem do mundo devem investir juntas mais de US$ 1 trilhão apenas em capex ligado à IA neste ano, segundo estimativa do próprio BIS2.
Zhang Tao, diretor-gerente adjunto do BIS, chamou atenção para outro ponto sensível: boa parte desse financiamento vem de canais não bancários, sobre os quais reguladores têm menos visibilidade e menos capacidade de agir em caso de reversão6. Em outras palavras, mesmo que a tecnologia se prove tão transformadora quanto prometido, a arquitetura financeira que sustenta seu crescimento pode amplificar qualquer correção de mercado.
Contraponto
Nem todos os analistas compartilham o tom de alerta. Parte do mercado financeiro argumenta que a comparação com bolhas passadas ignora um fator relevante: diferentemente da euforia ponto-com, as empresas hoje à frente do investimento em IA (como Microsoft, Google e Amazon) já geram receita robusta e fluxo de caixa positivo em outras áreas de seus negócios, o que reduziria o risco sistêmico de uma eventual correção.
O próprio BIS evita classificar formalmente o ciclo atual como uma bolha financeira, preferindo o termo "vulnerabilidade crescente"7. Para essa leitura mais otimista, mesmo que haja excesso de capital em alguns projetos, isso não impede que a tecnologia deixe, ao final do processo, uma base produtiva relevante, como aconteceu com a fibra ótica instalada durante a bolha ponto-com e reaproveitada décadas depois.
O dilema do emprego
A terceira diferença é talvez a mais sensível: o efeito sobre o mercado de trabalho. Ciclos anteriores de investimento tecnológico criaram mais empregos do que destruíram. No auge da indústria ferroviária americana, em 1916, o setor empregava 1,6 milhão de pessoas1. Ninguém, à época, falava em "apocalipse do emprego ferroviário". Com a IA, o temor é justamente o oposto: o banco Goldman Sachs estima que a tecnologia pode deslocar quase um décimo da força de trabalho americana1.
No Brasil, o debate segue uma linha um pouco diferente. Um estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) sugere que a baixa produtividade do trabalho e o custo relativamente menor da mão de obra brasileira podem reduzir a correlação direta entre automação por IA e o mercado de trabalho nacional, concentrando o impacto sobretudo em ocupações de maior escolaridade e especialização, e não necessariamente reduzindo o número total de postos8. Ainda assim, outra análise do próprio instituto aponta que cerca de 62% dos empregos na América Latina estão em ocupações com alta probabilidade de automação, percentual bem superior ao observado em países desenvolvidos9, o que reforça a urgência de políticas de requalificação profissional.
O que está em jogo para o investidor brasileiro
Para quem acompanha o mercado brasileiro, a discussão não é apenas acadêmica. A Microsoft já concluiu dois data centers voltados a IA em São Paulo, parte de um investimento de R$ 14,7 bilhões previsto até 202710. A Ascenty, por sua vez, anunciou em Sumaré, interior paulista, o primeiro complexo do país dedicado exclusivamente à inteligência artificial, com investimento total de R$ 30 bilhões11. O governo federal, na mesma direção, estruturou o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, com previsão de R$ 23 bilhões até 20285.
Esses aportes carregam duas leituras possíveis. Por um lado, colocam o Brasil em posição vantajosa dentro da cadeia global de infraestrutura digital, aproveitando energia renovável abundante e um regime regulatório relativamente favorável. Por outro, tornam a economia brasileira mais exposta, ainda que indiretamente, a uma eventual correção nos Estados Unidos, já que boa parte da demanda por esses data centers depende de contratos com as próprias hiperescalares americanas que protagonizam o boom.
O argumento central do artigo do Washington Post não é que a inteligência artificial seja irrelevante ou que o investimento seja necessariamente equivocado. É que a história recente de outras revoluções tecnológicas, por mais reconfortante que pareça, não oferece garantia de que este ciclo terminará da mesma forma. A escala concentrada, a velocidade sem precedentes e o risco real sobre o emprego qualificado formam uma combinação que o mundo, segundo o autor, ainda não enfrentou1.
Ciclo da febre ferroviária nos Estados Unidos: quatro décadas entre a primeira linha de passageiros e a conclusão da ferrovia transcontinental.
Boom da eletrificação, com instalação simultânea de redes elétricas em diversos países desenvolvidos.
Bolha das empresas ponto-com, com forte valorização e posterior colapso de ações ligadas à internet.
Expansão acelerada da infraestrutura global de inteligência artificial, concentrada majoritariamente nos Estados Unidos, com o Brasil surgindo como polo relevante de data centers na América Latina.
Perguntas frequentes
Por que o boom da inteligência artificial é comparado a bolhas anteriores, como a das ferrovias?
Porque envolve grande volume de capital investido em uma tecnologia genuinamente transformadora, padrão observado também na febre ferroviária do século 19, na eletrificação dos anos 1920 e na bolha ponto-com, segundo análise do Banco de Compensações Internacionais (BIS).
O que torna o atual ciclo de investimento em IA diferente dos anteriores?
Três fatores: a concentração geográfica quase exclusiva nos Estados Unidos, a velocidade de expansão (menos de cinco anos, contra décadas nos ciclos anteriores) e o risco elevado de substituição de empregos qualificados, segundo o colunista Matthew Lynn em artigo publicado no Washington Post.
Qual é a posição do Brasil nesse ciclo global de investimento em IA?
O Brasil concentra cerca de 48% da capacidade instalada de data centers da América Latina e 71% da capacidade em construção na região, atraindo mais de R$ 150 bilhões em investimentos anunciados nos últimos dois anos, segundo dados da consultoria JLL.
A inteligência artificial pode reduzir o número de empregos no Brasil?
Estudos do Ipea indicam que o impacto tende a se concentrar em ocupações de maior qualificação, sem necessariamente reduzir o número total de postos de trabalho no curto prazo, embora cerca de 62% dos empregos na América Latina estejam em ocupações com alta probabilidade de automação.
O Banco de Compensações Internacionais (BIS) classifica o ciclo de IA como uma bolha?
Não formalmente. O BIS evita o termo "bolha" e prefere falar em vulnerabilidade financeira crescente, mas alerta que uma eventual correção poderia ser amplificada pela dependência de financiamento não bancário no setor.
Referências
- LYNN, Matthew. The AI boom isn't like other bubbles. The Washington Post, 7 set. 2026. Disponível em: washingtonpost.com.
- Banco de Compensações Internacionais (BIS). Relatório Econômico Anual 2026, divulgado em 28 de junho de 2026.
- JLL. Latin America Data Center Report 2025.
- Reportagem sobre expansão de data centers e IA no Brasil, publicada em julho de 2026.
- Consultoria Gartner, projeção de investimento global em inteligência artificial para 2026.
- Declarações de Zhang Tao, diretor-gerente adjunto do BIS, sobre financiamento não bancário do setor de IA.
- Cobertura sobre a posição do BIS quanto à classificação do ciclo de IA como bolha financeira.
- Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Estudo sobre impacto da IA em ocupações qualificadas no Brasil.
- Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Estudo "Digitalização e Tecnologias da Informação e Comunicação: oportunidades e desafios para o Brasil".
- Cobertura sobre inauguração de data centers da Microsoft em São Paulo, fevereiro de 2026.
- Cobertura sobre investimento da Ascenty em complexo de IA em Sumaré (SP), maio de 2026.
Nesta reportagem
Em números
Glossário
- Hyperscaler
- Empresa de tecnologia com capacidade de expandir infraestrutura de computação em escala massiva, como Amazon, Microsoft, Google e Meta.
- Capex
- Sigla em inglês para despesas de capital, ou seja, investimentos em ativos físicos como data centers e equipamentos.
- Financiamento não bancário
- Recursos captados fora do sistema bancário tradicional, como fundos de dívida privada, com menor supervisão regulatória.
- Redata
- Regime tributário em discussão no Brasil voltado a incentivar investimentos em data centers.