Um número crescente de cientistas está tratando a boca como um sensor precoce de doenças que se manifestam bem longe dela: coração, cérebro, articulações e fígado. A hipótese, cada vez mais sustentada por evidência clínica, é que bactérias que colonizam gengivas inflamadas conseguem entrar na corrente sanguínea e alimentar um processo de inflamação crônica associado a condições como aterosclerose, diabetes e declínio cognitivo.
A ideia não é nova, mas ganhou densidade científica nos últimos anos. Pesquisadores da Universidade da Pensilvânia, de Harvard e do Instituto Forsyth da Associação Dentária Americana têm documentado como o biofilme que se forma abaixo da linha da gengiva, a placa dental, pode se tornar uma porta de entrada recorrente para micro-organismos na circulação sanguínea. Em pessoas com periodontite, gengivas inflamadas perdem parte de sua função de barreira, e atividades cotidianas como mastigar, escovar os dentes ou passar fio dental podem liberar pequenas quantidades de bactérias no sangue repetidas vezes ao longo do dia.
O mecanismo por trás da conexão
Na maior parte do tempo, o sistema imunológico neutraliza essas bactérias rapidamente. O problema surge quando a exposição se torna crônica. Segundo pesquisa conduzida na Universidade da Pensilvânia, esse vazamento repetido pode contribuir para um estado inflamatório de baixo grau que atinge tecidos distantes da boca, um mecanismo que ajuda a explicar por que a periodontite aparece associada, em diferentes estudos, a doenças cardiovasculares, diabetes, doença respiratória, artrite reumatoide, doença hepática crônica e declínio cognitivo.
No Brasil, essa linha de investigação também avança. Um estudo transversal conduzido no centro de check-up do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, avaliou adultos jovens e de meia-idade sem diagnóstico prévio de doença cardiovascular e encontrou associação entre a condição periodontal e fatores de risco cardíaco já nessa faixa etária, antes mesmo do surgimento de sintomas cardiovasculares. Uma revisão publicada nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia, da Sociedade Brasileira de Cardiologia, descreve o mecanismo como biologicamente plausível: a inflamação periodontal eleva marcadores como a proteína C reativa, e bactérias associadas à periodontite já foram identificadas em placas de aterosclerose em artérias coronárias.
A relação com o cérebro é a mais recente frente de pesquisa a ganhar atenção. Em 2019, um estudo publicado na revista Science Advances identificou a bactéria Porphyromonas gingivalis, uma das principais associadas à periodontite crônica, em tecido cerebral de pacientes com Alzheimer. Revisões brasileiras mais recentes, como uma publicada na Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences em 2025, descrevem que a periodontite pode favorecer a disseminação de patógenos e uma inflamação sistêmica de baixo grau capazes de agravar a progressão da doença, embora façam questão de frisar que causalidade direta ainda não está estabelecida.
O retrato brasileiro: acesso desigual, política em expansão
Enquanto a ciência básica avança, o desafio prático no Brasil se parece muito com o descrito nos Estados Unidos: aproximar duas categorias profissionais que historicamente trabalham em paralelo, com prontuários, formação e convênios separados. Levantamento do Conselho Federal de Odontologia em parceria com a Associação Brasileira da Indústria de Dispositivos Médicos, apresentado no Congresso Internacional de Odontologia de São Paulo em 2025, mostrou que 68% dos brasileiros visitaram um dentista no último ano, mas apenas 23% buscaram esse atendimento pelo Sistema Único de Saúde, um indicativo de que boa parte da população depende de recursos próprios para cuidar da saúde bucal.
Do lado das políticas públicas, o país deu um passo formal em 2023: a Lei nº 14.572 elevou a Política Nacional de Saúde Bucal, o Brasil Sorridente, de política de governo para política de Estado, reforçando a obrigatoriedade de levantamentos epidemiológicos periódicos como o SB Brasil. A edição mais recente da pesquisa, coordenada pelo Ministério da Saúde em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais, avaliou mais de 50 mil pessoas em 422 municípios e apontou avanços na redução da cárie infantil, mas também desigualdades regionais persistentes na condição periodontal de adultos, especialmente entre populações de menor renda e pessoas idosas, o grupo mais vulnerável tanto à doença periodontal quanto às condições sistêmicas a ela associadas.
Contraponto
Nem todo pesquisador está convencido de que a relação seja de causa e efeito. Uma revisão publicada na Cadernos de Saúde Pública, que analisou 35 estudos epidemiológicos sobre periodontite e doença cardiovascular, apontou que boa parte da evidência disponível é observacional e compartilha fatores de confusão importantes, como tabagismo, idade e nível socioeconômico, que também elevam o risco cardíaco de forma independente da saúde bucal.
Um estudo finlandês frequentemente citado na literatura sobre o tema, publicado no Journal of Dental Research, concluiu que indicadores de saúde bucal têm baixo poder preditivo isolado para mortes por doença coronariana. Especialistas brasileiros entrevistados sobre a relação entre periodontite e Alzheimer também reforçam esse ponto: a evidência de que a bactéria P. gingivalis esteve presente em cérebros de pacientes com Alzheimer não prova que ela tenha causado a doença, já que ambas as condições avançam com a idade e podem simplesmente coexistir.
O que já está mudando na prática clínica
Apesar das ressalvas sobre causalidade, o tratamento da inflamação gengival já é tratado como parte relevante do cuidado preventivo em cardiologia e geriatria em centros de referência. Nos Estados Unidos, pesquisadores da Universidade da Pensilvânia desenvolvem um medicamento experimental aplicado diretamente no tecido gengival para modular a resposta imune local, hoje em fase de testes ampliados pela empresa Amyndas Pharmaceuticals. Outra companhia americana, a Denteric, recebeu autorização da agência regulatória dos Estados Unidos para testar em fase 2 uma vacina terapêutica voltada a pacientes que já convivem com doença periodontal estabelecida.
No Brasil, o movimento por enquanto é mais estrutural do que farmacológico: passa pela integração de prontuários entre unidades básicas de saúde e serviços odontológicos do SUS, pela ampliação das equipes de saúde bucal na Estratégia Saúde da Família e pela formação de dentistas capazes de identificar sinais de diabetes descompensado ou de encaminhar pacientes com periodontite severa para avaliação cardiológica. Estudos publicados no periódico Cadernos de Saúde Pública sobre a evolução dessas equipes ao longo de duas décadas mostram avanço na cobertura, mas também evidenciam que a integração entre saúde bucal e atenção médica geral ainda é desigual entre municípios brasileiros.
Perguntas frequentes
Perguntas frequentes sobre saúde bucal e doenças sistêmicas
A doença periodontal causa doença cardíaca?
A evidência científica atual mostra associação consistente entre periodontite e maior risco cardiovascular, sustentada por mecanismos biológicos plausíveis como inflamação sistêmica e presença de bactérias periodontais em placas ateroscleróticas. No entanto, a maior parte dos estudos é observacional e não permite afirmar causalidade direta, já que os dois problemas compartilham fatores de risco como tabagismo e idade.
Bactérias da boca podem afetar o cérebro?
Pesquisas identificaram a bactéria Porphyromonas gingivalis, associada à periodontite crônica, em tecido cerebral de pacientes com Alzheimer. Cientistas investigam se ela contribui para a inflamação cerebral ligada à doença, mas revisões recentes, inclusive brasileiras, destacam que a relação de causa ainda não está confirmada.
Quantos brasileiros têm problemas de gengiva?
O levantamento nacional SB Brasil, conduzido pelo Ministério da Saúde, aponta que a condição periodontal segue desigual entre regiões e grupos de renda, com maior prevalência entre adultos mais velhos e populações com menor acesso a cuidados preventivos.
O plano de saúde cobre tratamento periodontal preventivo?
No Brasil, cobertura odontológica costuma depender de plano dental específico, contratado à parte do plano médico. Dados do Conselho Federal de Odontologia mostram que apenas uma minoria da população recorre ao SUS para tratamento odontológico, o que reforça o debate sobre ampliar a cobertura pública, especialmente para idosos.
O que fazer para reduzir o risco?
Especialistas recomendam consultas odontológicas regulares para remoção do biofilme abaixo da gengiva, tratamento precoce de gengivite antes que evolua para periodontite, e comunicação entre dentista e médico quando houver diagnóstico de diabetes, doença cardíaca ou histórico familiar de declínio cognitivo.
Resumo em 4 pontos
- Bactérias de gengivas inflamadas podem entrar na corrente sanguínea e alimentar inflamação crônica associada a doenças cardiovasculares, diabetes, declínio cognitivo e outras condições sistêmicas.
- No Brasil, apenas 23% dos brasileiros que foram ao dentista no último ano usaram o SUS, segundo CFO e ABIMO, o que evidencia desigualdade de acesso ao cuidado preventivo.
- A Lei nº 14.572 de 2023 elevou o Brasil Sorridente a política de Estado, reforçando pesquisas periódicas como o SB Brasil para monitorar a saúde bucal da população.
- Parte da comunidade científica pede cautela: boa parte da evidência é observacional, e fatores como tabagismo e idade também explicam parte do risco atribuído à periodontite.