Caderno Saúde · Obesidade e metabolismo

Esta análise parte da reportagem de Alex Janin publicada pelo The Wall Street Journal em 30 de setembro de 2026, “The Next Frontier for Obesity Drugs Isn’t How Much Weight You Lose, but What Kind”. O texto a seguir não é tradução: reúne apuração própria, dados de outras fontes e o contexto brasileiro. Todos os créditos ao veículo original.

Por quase uma década, um número resumiu o mercado de remédios contra a obesidade: quanto peso o paciente perde. Nesta semana, endocrinologistas de vários países se reuniram em Milão para o congresso anual da Associação Europeia para o Estudo do Diabetes (EASD), e a pergunta passou a ser outra. O que importa agora é a composição do que se perde. Como mostrou o Wall Street Journal[1], a meta passou a ser eliminar gordura, sobretudo a que se acumula em volta dos órgãos, e perder o mínimo possível de músculo.

A mudança é científica e também comercial. As duas líderes do setor, Novo Nordisk e Eli Lilly, já vendem tratamentos que, nas doses mais altas, produzem perdas médias em torno de 20% do peso corporal. Com esse patamar alcançado, a disputa precisa de outro critério. A qualidade do emagrecimento é a candidata mais forte.

Por que a balança não conta a história inteira

O peso corporal soma dois grandes compartimentos. Um é a massa gorda. O outro é a massa magra, que inclui músculo esquelético, mas também água, órgãos, ossos e tecido conjuntivo. Qualquer emagrecimento por restrição calórica tira um pouco dos dois. Os agonistas de GLP-1, como a semaglutida (princípio ativo de Ozempic e Wegovy), não fogem à regra: reduzem o apetite com tanta eficiência que a perda é rápida, e parte dela sai da massa magra.

Quanto? No estudo de fase 2 COURAGE, da Regeneron, cerca de um terço do peso perdido por quem usou apenas semaglutida veio da massa magra, segundo os resultados de 26 semanas divulgados pela empresa em 2025[2]. Para um adulto jovem e ativo, essa perda pode ter pouca consequência prática. Para quem já começa o tratamento com pouca musculatura, como muitos idosos, o efeito pode aparecer como fraqueza, quedas e fraturas. A reportagem do Journal lembra que o risco vale também para adultos mais jovens, que podem acumular perdas musculares e ósseas com efeito décadas depois[1].

O que foi apresentado em Milão

Regeneron: um anticorpo para proteger o músculo

A aposta mais direta vem da Regeneron. O trevogrumabe é um anticorpo monoclonal que bloqueia a miostatina, proteína que funciona como um freio natural do crescimento muscular. A ideia é usá-lo junto com o GLP-1: a semaglutida reduz o apetite e o trevogrumabe tenta impedir que o músculo vá embora com a gordura.

Os dados do COURAGE apresentados no congresso envolvem quase mil participantes entre 18 e 65 anos. Segundo a agência Reuters[3], quem usou só semaglutida perdeu 6,7% da massa magra em 26 semanas. Com a dose de 75 mg de trevogrumabe, a perda caiu para 3,3%, e com 25 mg ficou em 4,7%. Em um subestudo com ressonância magnética, que mede o volume do músculo da coxa de forma mais específica que a densitometria, a perda muscular foi cerca de 70% menor com o anticorpo ao fim de 52 semanas, de acordo com o resumo científico do estudo[4].

PERDA DE MASSA MAGRA EM 26 SEMANAS (%) Semaglutida isolada 6,7% + trevogrumabe 25 mg 4,7% + trevogrumabe 75 mg 3,3% Barras menores indicam maior preservação de massa magra
Fonte: dados do estudo COURAGE (Regeneron), conforme reportado pela Reuters em 30/09/2026. Massa magra medida por densitometria (DXA), que inclui músculo e outros tecidos não gordurosos.

A empresa escolheu a dose semanal de 75 mg para os próximos estudos e planeja um novo ensaio de fase intermediária só com pacientes acima de 65 anos, o público em que o benefício faria mais diferença[3]. Um braço do estudo foi abandonado. A combinação tripla com garetosmabe, outro anticorpo da Regeneron, registrou duas mortes nas primeiras 26 semanas e muitos efeitos adversos, como espasmos musculares[3].

Novo Nordisk: a gordura que fica em volta dos órgãos

A Novo Nordisk mirou outro alvo, a gordura ectópica, que se deposita no fígado, no pâncreas e entre as vísceras abdominais e está ligada à resistência à insulina e ao risco cardiovascular. Em um subestudo do ensaio de fase 3 REIMAGINE 1, com adultos em fase inicial de diabetes tipo 2, o CagriSema (combinação de semaglutida com cagrilintida, análogo do hormônio amilina) reduziu o peso em 14,3% em 40 semanas. Também diminuiu de forma significativa a gordura abdominal, hepática e pancreática em comparação com placebo, segundo o comunicado da empresa[5].

Outro estudo, com ressonância funcional do cérebro, mostrou mudança na resposta a imagens de alimentos muito calóricos e redução da fissura e dos pensamentos recorrentes sobre comida, o chamado “ruído alimentar”[5]. Ao Journal, o diretor científico da Novo, Martin Holst Lange, disse que dor, ruído alimentar e a forma como o paciente se sente ao emagrecer podem virar diferenciais de produto[1]. O pedido de registro do CagriSema para obesidade foi submetido à FDA em dezembro de 2025, e a decisão é esperada para o quarto trimestre de 2026[5].

Eli Lilly: medir o que o paciente consegue fazer

A Lilly levou novos dados da retatrutida, agonista triplo dos receptores de GLP-1, GIP e glucagon. No ensaio de fase 3 TRIUMPH-4, divulgado em dezembro de 2025 com pacientes que tinham obesidade e artrose de joelho, a dose mais alta levou a uma perda média de 28,7% do peso em 68 semanas, com melhora de dor e de função física, segundo o comunicado da companhia[6]. Em Milão, os pacientes tratados relataram mais facilidade de movimento no dia a dia do que os do grupo placebo[1]. Segundo o diretor científico da Lilly, Dan Skovronsky, força muscular e nível de atividade já são medidos rotineiramente nos ensaios da empresa[1].

Por que o discurso da indústria mudou

O movimento tem três motivos. O primeiro é clínico: perder 25% do peso não resolve tudo se parte disso compromete a autonomia de quem tem 70 anos. O segundo é concorrencial. O Journal cita levantamento do escritório Pinsent Masons segundo o qual os pedidos internacionais de patente ligados a GLP-1 cresceram 28% nos doze meses encerrados em março de 2026[1]. Com tantos concorrentes chegando a perdas de peso parecidas, a eficácia sobre a balança deixa de diferenciar.

O terceiro motivo é econômico e talvez o mais decisivo. Médicos que prescrevem e planos de saúde que pagam precisam de razões para preferir um tratamento mais caro. Um remédio que preserva músculo, reduz gordura no fígado ou melhora a mobilidade oferece um argumento para isso. Nos Estados Unidos, onde o acesso pelo Medicare tende a ampliar o uso entre idosos, esse argumento ganha peso adicional[1].

“Chamamos de remédios para perda de peso, mas o objetivo médico é perda de gordura.”

Nidhi Kansal, médica especialista em obesidade da Northwestern Medicine, ao The Wall Street Journal

Há, porém, uma diferença entre medir mais coisas e saber o que elas significam. A própria Kansal disse ao Journal que ainda vai levar tempo para definir quais dados acompanhar e quais desfechos priorizar[1]. A composição corporal virou a nova fronteira de marketing antes de virar consenso clínico.

O ângulo brasileiro: genéricos chegando, população envelhecendo

No Brasil, o tema encontra um cenário peculiar. Segundo o Vigitel 2025, do Ministério da Saúde, a obesidade entre adultos das capitais passou de 11,8% em 2006 para 25,7% em 2024, e o excesso de peso chegou a 62,6%. O diabetes diagnosticado subiu de 5,5% para 12,9% no mesmo período[8].

Ao mesmo tempo, o país envelhece. Pelo Censo de 2022 do IBGE, cerca de 15,6% da população tem 60 anos ou mais[9]. Uma metanálise de estudos brasileiros, feita em tese da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, estimou em 17% a prevalência de sarcopenia entre idosos que vivem na comunidade[10]. É exatamente o grupo em que a perda muscular durante o emagrecimento preocupa mais. A Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia tem alertado que a sarcopenia é a principal preocupação dos geriatras com as canetas e defende exercício resistido e ingestão adequada de proteína durante o tratamento, como registrou o SBT News[11].

O acesso também está mudando. A patente da semaglutida expirou no Brasil em 20 de março de 2026, depois que o Superior Tribunal de Justiça negou à Novo Nordisk a extensão do prazo, como noticiou o Metrópoles[12]. Em julho, a Anvisa autorizou cinco novas canetas de semaglutida sintética, e em 17 de agosto aprovou o primeiro genérico do país, da EMS, segundo a Tribuna do Planalto[13]. Pela legislação, o genérico precisa custar ao menos 35% menos que o medicamento de referência[14]. Desde junho de 2025, a venda dos agonistas de GLP-1 exige retenção de receita[13].

Essa combinação de fatores sugere que o debate brasileiro dos próximos anos vai girar mais em torno de acesso amplo a uma semaglutida mais barata do que em torno de combinações sofisticadas como a da Regeneron, que ainda está em fase 2 e não tem pedido de registro em nenhum país. O próprio Ministério da Saúde estimou em cerca de R$ 8 bilhões por ano o custo de oferecer o tratamento a pacientes com obesidade na rede pública, segundo a BandNews FM[15].

Isso não torna a discussão sobre composição corporal irrelevante por aqui. Ela muda de lugar: sai do frasco e vai para o acompanhamento clínico. Medir força de preensão com um dinamômetro, avaliar a composição corporal quando possível, orientar a ingestão de proteína e prescrever exercício resistido são práticas de baixo custo. Elas tendem a definir a qualidade do emagrecimento de milhões de brasileiros que vão começar a usar semaglutida genérica sem nenhum anticorpo adicional.

O que isso significa para quem usa as canetas hoje

Nenhum dos medicamentos de nova geração citados aqui está aprovado no Brasil, e o trevogrumabe segue em fase experimental. Para quem já usa semaglutida ou tirzepatida, a mensagem prática é antiga, mas agora tem respaldo de mais dados: o número na balança não é o único indicador de sucesso. Vale conversar com o médico sobre como acompanhar a perda muscular, sobre a ingestão de proteína e sobre treino de força, principalmente depois dos 60 anos ou quando a perda de peso é rápida. Este texto é informativo e não substitui orientação médica individual.

Perguntas frequentes

Por que as canetas emagrecedoras podem causar perda de músculo?

Medicamentos como a semaglutida reduzem muito o apetite e provocam perda de peso rápida. Em qualquer emagrecimento por restrição calórica, parte do peso perdido vem da massa magra, que inclui músculo. No estudo COURAGE, cerca de um terço do peso perdido com semaglutida isolada veio da massa magra.

O que é o trevogrumabe e quando ele pode chegar ao mercado?

É um anticorpo experimental da Regeneron que bloqueia a miostatina, proteína que limita o crescimento muscular. Em estudo de fase 2, combinado à semaglutida, reduziu pela metade a perda de massa magra em 26 semanas. Ainda não tem pedido de aprovação em nenhum país, e novos estudos, inclusive em pessoas acima de 65 anos, estão previstos.

Massa magra e músculo são a mesma coisa?

Não. Massa magra é tudo o que não é gordura: músculo, água, órgãos, ossos e tecido conjuntivo. Por isso, pesquisadores alertam que preservar massa magra medida por densitometria não comprova, sozinho, a preservação do músculo nem da força.

O que é gordura ectópica e por que ela importa?

É a gordura acumulada dentro e ao redor de órgãos como fígado e pâncreas e entre as vísceras abdominais. Ela está associada à resistência à insulina, ao diabetes tipo 2 e ao risco cardiovascular. Em estudo apresentado em 2026, o CagriSema, da Novo Nordisk, reduziu essa gordura em adultos com diabetes tipo 2.

Já existe semaglutida genérica aprovada no Brasil?

Sim. A patente da semaglutida expirou em março de 2026, e a Anvisa aprovou o primeiro genérico, da EMS, em 17 de agosto de 2026, além de outras versões sintéticas. A venda exige retenção de receita desde junho de 2025.

Como reduzir a perda muscular durante o tratamento para obesidade?

As recomendações mais citadas por especialistas são exercício resistido (musculação ou equivalentes), ingestão adequada de proteína e acompanhamento médico com avaliação de força e composição corporal, sobretudo em idosos. A conduta deve ser definida individualmente com o médico.

Referências

  1. Janin, Alex. “The Next Frontier for Obesity Drugs Isn’t How Much Weight You Lose, but What Kind”. The Wall Street Journal, 30 set. 2026. wsj.com
  2. Regeneron. Results from Phase 2 COURAGE Trial Demonstrating Potential to Improve Quality of GLP-1 receptor agonist-induced Weight Loss by Preserving Lean Mass. Comunicado, 17 set. 2025.
  3. Reuters. Regeneron drug halves muscle loss in combination with Novo’s semaglutide in trial. 30 set. 2026.
  4. Mosenzon, O.; Rosenstock, J. et al. Trevogrumab (anti-myostatin) and semaglutide-induced weight loss. EASD 2026, conforme Medical Xpress, set. 2026.
  5. Novo Nordisk. Novo’s investigational obesity and diabetes drug CagriSema reduces ‘food noise’ and shows benefits in organ and bone health. Comunicado, 30 set. 2026.
  6. Eli Lilly. Resultados do ensaio de fase 3 TRIUMPH-4 com retatrutida. Comunicado, dez. 2025.
  7. Alexandre, T. S.; Duarte, Y. A. O. et al. Prevalência e fatores associados à sarcopenia, dinapenia e sarcodinapenia em idosos residentes no Município de São Paulo: Estudo SABE. Revista Brasileira de Epidemiologia, 2019.
  8. Ministério da Saúde. Vigitel Brasil 2025: resultados 2006-2024.
  9. IBGE. Censo Demográfico 2022.
  10. Moreira, M. M. Prevalência de sarcopenia e sobrevida de idosos. Tese, Universidade Federal do Triângulo Mineiro.
  11. SBT News. Canetas emagrecedoras ganham espaço, mas médicos alertam para cuidados redobrados em idosos.
  12. Metrópoles. STJ mantém fim da patente do Ozempic para março de 2026.
  13. Tribuna do Planalto. Anvisa aprova 1º genérico de semaglutida no Brasil. 17 ago. 2026.
  14. TVT News. Nova caneta genérica de semaglutida é aprovada pela Anvisa. Ago. 2026.
  15. BandNews FM. Disputa por extensão de patente de Ozempic pode afetar entrada de genéricos. Dez. 2025.

Ewerton Lopes — Curador Editorial · O Tecido