Caderno Saúde · Longevidade & Evidência

Análise editorial · O Tecido · 14 de setembro de 2026 · Tempo de leitura: 8 min

Toda família tem uma. A avó que fumou desde os vinte anos e morreu lúcida aos noventa e cinco. O tio-avô que nunca dispensou a cachaça do fim de tarde e ainda joga bocha aos oitenta e oito. Esses casos aparecem quase sempre no mesmo momento de uma conversa de mesa, quando alguém sugere reduzir o álcool ou parar de fumar. A lógica que sustenta a réplica parece impecável: se aquela pessoa viveu tanto apesar do hábito, o hábito não pode ser assim tão decisivo. O problema é que essa lógica descreve um erro estatístico com nome e história próprios, e que a ciência trata com bastante desconfiança.

O erro se chama viés de sobrevivência (survivorship bias, no original em inglês), e ele consiste em tirar conclusões observando apenas quem chegou ao fim de um processo, sem levar em conta quem ficou pelo caminho.[1] Uma reportagem publicada nesta semana pelo jornal espanhol El País reconstitui esse raciocínio a partir de um exemplo médico concreto: o dos centenários fumantes, cuja existência real é frequentemente usada como prova de que hábitos saudáveis seriam dispensáveis.[2]

O avião que não voltou

A ilustração mais citada do viés de sobrevivência não vem da medicina, e sim da Segunda Guerra Mundial. Estatísticos aliados examinavam os aviões que retornavam de missões de combate, marcando onde estavam os furos de bala, com a intenção de reforçar a blindagem exatamente naqueles pontos. O matemático Abraham Wald discordou: os dados disponíveis vinham apenas dos aviões que sobreviveram e conseguiram voltar. As áreas sem furos nesses aviões eram, na verdade, as regiões fatais, porque qualquer aeronave atingida ali jamais retornava para ser contabilizada.[3] A blindagem deveria ir para onde não havia dano aparente, não para onde ele se concentrava.

A mesma armadilha lógica reaparece toda vez que alguém aponta um centenário fumante como refutação da cautela médica. A pessoa que se destaca na conversa é, por definição, quem sobreviveu ao hábito. Quem morreu antes, por causa dele, não participa da sobremesa nem da estatística informal.

POPULAÇÃO EXPOSTA AO HÁBITO DE RISCO O único ponto verde é quem vira "prova" na conversa Cinza: os 96% de centenários que, segundo estudo italiano, nunca fumaram (ref. 6)

Representação editorial do viés de sobrevivência aplicado à longevidade. Não é dado real de amostra.

Quantos centenários realmente fumaram

A reportagem do El País cita um levantamento conduzido em 2024 por pesquisadores da Universidade Sapienza, em Roma, que analisou mais de 150 pessoas centenárias residentes na cidade. O resultado: 83,8% delas nunca haviam fumado, e apenas 2,7% eram fumantes ativos.[2] A pesquisadora Consuelo Borrás, do Instituto de Investigação Sanitária INCLIVA, descreve o centenário fumante como a exceção que confirma a regra, não a evidência capaz de refutá-la.

O caso mais citado internacionalmente é o da francesa Jeanne Calment, reconhecida como a pessoa mais longeva já documentada, com 122 anos e 164 dias de vida, e que fumou entre os 21 e os 117 anos.[2] Ela costuma ser tratada como contraexemplo definitivo em discussões sobre tabagismo. O que raramente entra na conversa é que Calment representa um caso isolado dentro de um universo de milhões de fumantes que não chegaram perto dessa idade, e que estudos epidemiológicos de longo prazo, como o British Doctors Study, mostram de forma consistente que fumar de forma contínua reduz a expectativa de vida e que abandonar o hábito reverte parte desse risco.[2]

A ciência busca a mediana da população, não os casos isolados que escapam da curva. Paráfrase de Salvador Macip, catedrático de medicina molecular, Universidade de Leicester

O que os dados brasileiros mostram

O fenômeno não é exclusivo da Espanha. O Censo Demográfico de 2022 do IBGE contabilizou 37.814 pessoas com 100 anos ou mais no Brasil, o equivalente a 0,02% da população total, um salto de quase 67% em relação às 22.676 registradas em 2010.[4] A Bahia concentra a maior proporção de centenários do país, seguida por São Paulo e Minas Gerais, e a maioria esmagadora desse grupo é formada por mulheres, reflexo direto da diferença histórica de expectativa de vida entre os sexos.[4]

Em paralelo, a expectativa de vida ao nascer no Brasil atingiu 76,6 anos em 2024, o maior valor da série histórica do IBGE, iniciada em 1940, quando o indicador era de apenas 45,5 anos.[5] Ou seja, o brasileiro médio está vivendo mais, mas ainda está a duas décadas e meia de distância da marca dos cem anos, mesmo nas projeções mais otimistas.

Sobre hábitos, o retrato recente é ambíguo. Depois de quase duas décadas de queda ininterrupta, a prevalência de tabagismo entre adultos brasileiros subiu de 9,2% em 2023 para 11,5% em 2024, segundo o levantamento Vigitel do Ministério da Saúde, o primeiro aumento registrado na série histórica iniciada em 2006.[6] O instituto Nacional de Câncer atribui parte da reversão à defasagem na tributação do cigarro e ao crescimento do uso de dispositivos eletrônicos entre jovens.[7] Isso significa, na prática, que uma fatia maior da população brasileira volta a acumular exatamente o tipo de risco que os centenários, em sua imensa maioria, evitaram ao longo da vida.

Contraponto: a genética também pesa, e bastante

Seria impreciso reduzir a longevidade extrema a uma escolha de estilo de vida. Um estudo publicado no início de 2026 na revista Science, que acompanhou 14 mil gêmeos e mais de 2 mil pares de irmãos, elevou de 30% para 55% a estimativa da influência genética sobre a duração da vida humana.[8] Entre os centenários especificamente, pesquisadoras como Consuelo Borrás apontam que esse peso genético tende a ser ainda maior, com um perfil de expressão gênica mais próximo ao de pessoas jovens do que ao de octogenários comuns. Isso ajuda a explicar por que alguns indivíduos toleram décadas de tabagismo sem o mesmo custo fisiológico observado na maioria da população, um fenômeno associado a menor resposta inflamatória e a processos de reparo celular mais eficientes.

O que está sob controle e o que não está

O New England Centenarian Study, um dos maiores programas de pesquisa sobre longevidade extrema do mundo, estima que hábitos de vida ótimos permitem, para a maior parte das pessoas, alcançar uma expectativa de vida em torno dos 86 anos. Cruzar a fronteira dos 100 exige, além disso, uma combinação genética pouco comum.[2] Na prática, isso divide o problema em duas partes distintas: chegar à faixa dos setenta, oitenta anos com boa saúde depende majoritariamente de escolhas, enquanto ultrapassar o marco dos cem depende de uma loteria genética sobre a qual ninguém tem controle.

Há ainda um terceiro fator, mais difícil de aceitar: o acaso. Pessoas sem histórico de tabagismo e com rotina saudável desenvolvem câncer, assim como nem todo fumante desenvolve a doença. O que muda, segundo o oncologista Salvador Macip, é a quantidade de "bilhetes" que cada pessoa compra para essa espécie de sorteio biológico. Hábito de vida não garante nada de forma individual, mas altera de forma mensurável a distribuição de probabilidades em uma população inteira.

Por que isso importa para além da mesa de jantar

O viés de sobrevivência não fica restrito a conversas informais. Ele orienta decisões de investimento quando investidores estudam apenas empresas que sobreviveram a uma crise, ignorando as que faliram. Orienta escolhas de carreira quando se olha só para quem largou um emprego estável e prosperou, sem contabilizar quem fez o mesmo e não deu certo. E, em saúde pública, orienta políticas equivocadas quando gestores tomam decisões a partir de exceções notáveis em vez de olhar para a distribuição completa dos dados, exatamente o erro que Abraham Wald corrigiu ao analisar os aviões da Segunda Guerra.

Para o caderno de Saúde, a lição prática é direta. Um caso individual de longevidade excepcional, seja ele de uma avó fumante ou de um tio que nunca fez exame algum, não é evidência contra a cautela médica. É, na melhor das hipóteses, um dado isolado dentro de uma distribuição muito maior, e cuja maioria esmagadora não está representada na mesa de jantar.

Este texto foi produzido a partir da reportagem "La trampa del sesgo de superviviente: 'Los centenarios fumadores existen, pero son una rarísima excepción'", de Adrián Cordellat, publicada pelo jornal El País em 14 de setembro de 2026. Leia a matéria original em espanhol: elpais.com.

Perguntas frequentes

O que é o viés de sobrevivência?

É um erro de raciocínio que consiste em tirar conclusões observando apenas os casos que sobreviveram a um processo, ou seja, os exemplos visíveis, e ignorando todos os casos que foram eliminados ao longo do caminho e que não aparecem nos dados disponíveis.

Um centenário que fumou a vida toda prova que fumar não faz mal?

Não. Estudos como o realizado com centenários de Roma mostram que menos de 3% desse grupo é formado por fumantes ativos. A grande maioria dos centenários nunca fumou, e pesquisas epidemiológicas de longo prazo confirmam que o tabagismo reduz, em média, a expectativa de vida da população.

Quantos centenários o Brasil tem atualmente?

Segundo o Censo Demográfico de 2022 do IBGE, o Brasil tinha 37.814 pessoas com 100 anos ou mais, o equivalente a 0,02% da população total do país.

Qual o peso da genética na longevidade extrema?

Um estudo publicado na revista Science em 2026, com mais de 14 mil gêmeos, elevou a estimativa da influência genética sobre a duração da vida para cerca de 55%. Entre pessoas centenárias, pesquisadores apontam que esse peso genético tende a ser ainda maior.

Hábitos saudáveis garantem chegar aos 100 anos?

Não isoladamente. Segundo o New England Centenarian Study, hábitos ótimos permitem, para a maior parte das pessoas, alcançar uma expectativa de vida próxima dos 86 anos. Ultrapassar os 100 anos exige, além disso, uma combinação genética excepcional e um fator de acaso que não pode ser controlado.