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Em Israel, a sigla NAZA pertence ao vocabulário técnico das Forças Armadas. Vem de nezek agavi, expressão hebraica para dano colateral, e designa o número estimado de civis que podem morrer quando um ataque é autorizado.5 Nesta semana, a palavra saiu dos centros de operações e chegou às salas de cinema de 56 países como título do documentário de Yuval Abraham e Rachel Szor. E ganhou o reforço de três militares israelenses que, sob anonimato, aceitaram descrever a jornalistas estrangeiros como esse cálculo funcionou na prática durante a guerra em Gaza.
Os depoimentos foram publicados em 29 de setembro pelo jornal espanhol El País, em reportagem do correspondente Antonio Pita em Jerusalém.1 Dois dos entrevistados serviram na inteligência militar e um em uma unidade de drones. As conversas foram organizadas pela Shovrim Shtiká, ONG de ex-soldados conhecida internacionalmente como Breaking the Silence, com um grupo reduzido de correspondentes para diminuir o risco de identificação. Segundo o jornal, os três decidiram falar em reação à campanha de negação e hostilidade contra o filme dentro de Israel.
O que emerge dos relatos não é uma sequência de episódios isolados, mas a descrição de procedimentos: tetos de mortes civis definidos previamente, critérios estatísticos de evacuação e regras de abertura de fogo que tratavam a proximidade física como indício de ameaça. É esse caráter sistêmico, mais do que qualquer número específico, que ajuda a entender a intensidade da reação política em Israel.
Jabalia, 31 de outubro de 2023: o caso que abre a conta
O episódio mais detalhado é o bombardeio de 31 de outubro de 2023 no campo de refugiados de Jabalia, no norte de Gaza. O alvo era Ibrahim Biari, comandante de batalhão do Hamas que o Exército israelense apresentou como um dos organizadores do ataque de 7 de outubro. De acordo com um dos militares de inteligência ouvidos pelo El País, o comando aprovou a operação mesmo com uma estimativa de NAZA de 300 pessoas, com aval do então chefe do Estado-Maior, Herzi Halevi. Uma segunda fonte, entrevistada separadamente pela Breaking the Silence, confirmou o número.1
Segundo o relato, a inteligência sabia que Biari estava em um túnel, mas não conseguia delimitar sua posição com precisão. A solução adotada foi derrubar vários edifícios de uma só vez. O resultado foi documentado pela organização britânica Airwars, que monitora vítimas civis em conflitos armados: ao menos 126 civis mortos, entre eles 68 crianças.2 A Human Rights Watch, em investigação publicada em abril de 2024, recorreu aos mesmos levantamentos e registrou cerca de 280 feridos.3 Na época, o porta-voz militar Daniel Hagari atribuiu o desabamento de outras estruturas à extensa infraestrutura subterrânea existente no local.2
Um dos militares afirma que ninguém na unidade tratou o saldo de mortos como acidente: era o resultado esperado. Ele relata ainda que as contagens de vítimas fornecidas pelas autoridades palestinas eram levadas a sério internamente, ao contrário do que sugeria o debate público de então, quando até o presidente americano Joe Biden pôs em dúvida os números do Ministério da Saúde de Gaza.1 O que mais o incomodou, diz, foi a desproporção entre o custo humano previsto e a relevância do alvo, sem o peso de lideranças como Yahya Sinwar ou Mohammed Deif. Sua explicação para a aprovação é o clima de vingança nas semanas seguintes ao 7 de outubro.
Do túnel à tenda: o limite que se deslocou
Os depoimentos sugerem que o patamar do aceitável não foi apenas elevado no início da guerra, mas continuou se deslocando. Em setembro de 2024, Israel matou Ayman Mabhuh, outro quadro do Hamas, que estava em uma tenda em Al Mawasi, área costeira que o próprio Exército havia designado como zona humanitária e para onde orientava a população a se deslocar. Segundo um dos militares, a operação foi planejada prevendo dezenas de mortes, embora o alvo fosse de fácil acesso e não exigisse munição pesada. O balanço final ficou em torno de vinte mortos, de acordo com o El País.1
“Matar algumas dezenas de pessoas já não parecia algo tão grave.”
Militar da inteligência israelense, em depoimento ao El País (tradução livre)
O mesmo militar conta que Mabhuh vinha sendo monitorado para coleta de informações e que a decisão de matá-lo surgiu poucos dias depois de localizado. Em sua leitura, havia uma necessidade política de apresentar resultados após um longo período sem a eliminação de um dirigente de destaque do Hamas.
Outro mecanismo descrito envolve a derrubada de prédios altos para impedir que combatentes observassem ou atirassem contra as tropas terrestres. Segundo a fonte, a inteligência dividia Gaza em 160 unidades e só conseguia estimar a evacuação de cada uma em faixas de 25%, 50% ou 75%. Os bombardeios eram liberados onde se atingia 75%. Somados todos os edifícios, a margem de até um quarto de moradores remanescentes resultava, em sua avaliação, em centenas de vítimas potenciais.1
Os relatos dialogam com a investigação publicada em abril de 2024 pela revista +972 e pelo site Local Call, assinada pelo próprio Yuval Abraham. Com base em seis oficiais de inteligência, a reportagem revelou o sistema de inteligência artificial Lavender, que marcou até 37 mil palestinos como supostos militantes, e informou que nas primeiras semanas da guerra o Exército passou a admitir a morte de 15 a 20 civis por combatente de baixa patente e, em alguns casos, de mais de 100 por comandante.4 A investigação ganhou tradução em português publicada pelo Outras Palavras. A preferência por atingir alvos em casa, à noite, descrita agora por uma das fontes do El País, já aparecia naquele trabalho.
O gatilho cotidiano: drones e a Linha Amarela
O terceiro militar, da unidade de drones, descreve uma dinâmica menos visível. Durante a maior parte da guerra, segundo ele, vigorou a política de abertura de fogo mais permissiva, chamada de estendida, na qual qualquer integrante do Hamas ou da Jihad Islâmica era alvo legítimo independentemente do que estivesse fazendo. Para esses ataques, o teto aprovado de dano colateral era de até 20 mortos. O número raramente era alcançado, porque um míssil disparado por drone tem raio limitado, mas a existência do teto, afirma, tornava a decisão de atirar mais fácil.1
Há ainda os ataques operacionais, sem planejamento prévio, em apoio às tropas no terreno. Desde o cessar-fogo, eles se concentram sobre pessoas que se aproximam da chamada Linha Amarela, divisória móvel e sem demarcação física entre a área sob controle do Hamas e a ocupada pelo Exército. O militar admite que o critério é comportamental: alguém caminhando a cerca de 300 metros das tropas e rente a um edifício pode ser interpretado como ameaça, mesmo que esteja apenas buscando sombra. Não é preciso ver uma arma. O grau de cautela, diz, depende muito do comandante de turno.1
Pelos dados do Ministério da Saúde de Gaza citados pelo El País, a ofensiva iniciada em outubro de 2023 deixou mais de 74 mil mortos, dos quais 1.417 durante o período de cessar-fogo.1
O filme que Israel não quer exibir
NAZA reúne depoimentos anônimos de 24 oficiais de inteligência e soldados, gravados à noite em terraços de Tel Aviv entre 2023 e 2025.510 Abraham e Szor já haviam dividido o Oscar de melhor documentário por Sem Chão (No Other Land). O novo filme foi coproduzido pelo jornal britânico The Guardian, tem o cineasta Jonathan Glazer entre os produtores executivos e foi o único documentário na competição de Veneza,8 onde levou o Prêmio Especial do Júri e recebeu uma ovação de 24,5 minutos, a mais longa já registrada no festival.6 A estreia comercial ocorreu em 28 de setembro em 56 territórios, e o Guardian anunciou que disponibilizará o filme gratuitamente em seu site no fim de novembro.7
Em Israel, o filme não entrou em cartaz. O ministro da Cultura, Miki Zohar, acusou os diretores de traição, pediu a cassação de sua cidadania e ameaçou cortar o financiamento de cinemas que exibissem o documentário.10 Em 23 de setembro, Netanyahu endossou a proposta e anunciou dois projetos de lei. Dias depois, em entrevista ao jornal Makor Rishon, comparou o efeito do filme ao lançamento de “dezenas de mísseis balísticos” contra Israel, segundo o Haaretz.9
O Deadline observa que a legislação israelense não dá hoje ao primeiro-ministro esse poder,7 e The Intercept avalia que a cassação dificilmente se concretizará, operando mais como instrumento de mobilização política, a ponto de Netanyahu ter sugerido a mesma punição ao oposicionista Yair Golan, general da reserva.11 A reação interna também não é unânime: a organização israelense de direitos humanos B'Tselem se posicionou ao lado dos cineastas,12 e mais de mil cineastas israelenses assinaram uma petição em apoio aos diretores.10
A versão do Exército e os limites dos relatos
Consultado pelo El País sobre ataques com NAZA superior a 100 e sobre os tetos aplicados a drones, o Exército israelense não respondeu diretamente. Afirmou que ataca objetivos militares conforme o direito internacional, que pondera em cada caso a vantagem militar esperada, o risco à população civil e as medidas de mitigação com base nas informações disponíveis no momento da decisão, e que as estimativas de dano servem para reduzir o risco a civis, não para ignorá-lo. Um comunicado militar de janeiro de 2025 sustenta que nenhum ataque para eliminar um único comandante do Hamas foi autorizado se colocasse em perigo mais de 100 pessoas.1
O próprio militar que relatou o caso Biari reconhece que o ataque encerrou as ações armadas que partiam do centro de Jabalia, e diz não ter certeza de que teria conduzido melhor o dilema. O argumento militar recorrente é que o Hamas operava a partir de túneis sob áreas densamente habitadas, o que desloca parte da responsabilidade pelas mortes civis para o grupo. Na política israelense, mesmo críticos do governo, como Gadi Eisenkot, admitem a legitimidade da crítica, mas classificam o filme como distorcido e unilateral.11
Há ainda uma cautela metodológica: os depoimentos são anônimos e não podem ser verificados de forma independente em seus detalhes operacionais, que o próprio El País omitiu para proteger as fontes. E os números de NAZA são previsões feitas antes do ataque, não contagens de mortos.
O que o direito exige: proporcionalidade, não um número
O núcleo da controvérsia é jurídico. O direito internacional humanitário não proíbe que civis morram em ataques contra alvos militares. Proíbe ataques em que as perdas civis esperadas sejam excessivas em relação à vantagem militar concreta e direta prevista. Esse princípio da proporcionalidade está no Protocolo Adicional I às Convenções de Genebra e é tratado pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha como norma do direito consuetudinário, o que o torna obrigatório também para Estados que não ratificaram o protocolo, caso de Israel.15 A norma não fixa um número; exige avaliação caso a caso.
É por isso que os tetos prévios descritos pelos militares têm relevância que vai além do caso concreto. Um limite padronizado, aplicável a toda uma categoria de alvos, tende a substituir a ponderação individual que o direito exige por uma cota pré-aprovada. O diretor-executivo da Breaking the Silence, Nadav Weiman, sustenta ao El País que as mortes civis deixaram de ser um risco a evitar e passaram a integrar a própria política militar.1 O Exército afirma o oposto. É essa disputa, sobre como as decisões foram tomadas e com que intenção, que as cortes internacionais terão de arbitrar.
O Brasil na Corte de Haia
O debate tem desdobramento direto para a política externa brasileira. Em 17 de setembro de 2025, o Brasil apresentou à Corte Internacional de Justiça uma declaração de intervenção no processo movido pela África do Sul contra Israel com base na Convenção para a Prevenção e a Repressão do Crime de Genocídio. A intervenção se deu pelo Artigo 63 do Estatuto da Corte, que permite a Estados partes de uma convenção oferecer sua interpretação dos dispositivos em discussão, no caso os artigos I, II e III. Conforme comunicado da própria Corte, a interpretação adotada na sentença vinculará também o Brasil.13
A decisão havia sido anunciada pelo Itamaraty em julho de 2025, com o argumento de que a comunidade internacional não poderia permanecer inerte e com referência à conclusão da CIJ, em medidas cautelares de 2024, sobre a plausibilidade do direito dos palestinos à proteção contra atos de genocídio.14 A Confederação Israelita do Brasil (Conib) criticou a medida como ruptura de uma parceria histórica entre os dois países.16 O Brasil integra um grupo que inclui Colômbia, México, Espanha, Chile, Irlanda e Turquia, entre outros intervenientes.
Para a posição brasileira em Haia, relatos como os publicados agora têm peso específico, mas limitado. A caracterização de genocídio exige demonstrar a intenção específica de destruir, no todo ou em parte, um grupo protegido, um padrão probatório notoriamente alto. Depoimentos sobre tetos de vítimas e critérios de alvo não provam por si essa intenção, mas passam a integrar o conjunto de evidências sobre o processo decisório militar, que é exatamente o terreno em disputa. O mérito do caso ainda não foi julgado.
No plano político, o episódio expõe uma segunda questão, que não depende da decisão de Haia: a tentativa de transformar a cidadania em instrumento de punição por divulgação de informações de interesse público. Para democracias, inclusive a brasileira, a forma como Estados reagem a denúncias internas sobre o uso da força costuma dizer tanto sobre suas instituições quanto as próprias denúncias.
Perguntas frequentes
O que significa NAZA?
NAZA é a sigla hebraica de nezek agavi, termo usado pelas Forças Armadas de Israel para dano colateral. Designa o número estimado de civis que podem morrer em um ataque e dá título ao documentário de Yuval Abraham e Rachel Szor lançado em setembro de 2026.
Quem são os militares que falaram ao El País?
São três militares israelenses que serviram em Gaza: dois da inteligência militar e um de uma unidade de drones. Falaram sob anonimato, em entrevistas organizadas pela ONG Breaking the Silence (Shovrim Shtiká), porque podem ser processados por traição em tempo de guerra.
O que aconteceu no bombardeio de Jabalia em 31 de outubro de 2023?
Israel bombardeou o campo de refugiados de Jabalia para matar o comandante do Hamas Ibrahim Biari. Segundo militares ouvidos pelo El País, a estimativa prévia de mortes civis era de 300. A Airwars registrou ao menos 126 civis mortos, 68 deles crianças.
O que diz o direito internacional sobre dano colateral?
O direito internacional humanitário proíbe ataques em que as mortes civis esperadas sejam excessivas em relação à vantagem militar concreta e direta prevista. É o princípio da proporcionalidade, considerado norma consuetudinária e aplicável a Israel. A regra exige avaliação caso a caso, sem fixar um número.
Qual é a participação do Brasil no caso de genocídio contra Israel na CIJ?
O Brasil apresentou em 17 de setembro de 2025 uma declaração de intervenção, com base no Artigo 63 do Estatuto da Corte, no processo movido pela África do Sul. O país oferece sua interpretação dos artigos I, II e III da Convenção sobre Genocídio e ficará vinculado à interpretação adotada na sentença.
Por que o documentário NAZA não foi exibido em Israel?
O ministro da Cultura, Miki Zohar, ameaçou cortar o financiamento de cinemas que exibissem o filme e acusou os diretores de traição. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu apoiou a proposta de cassar a cidadania dos cineastas e anunciou projetos de lei nesse sentido.
Nota de atribuição: este artigo tem como ponto de partida a reportagem de Antonio Pita publicada pelo El País em 29 de setembro de 2026. O texto original não foi reproduzido nem traduzido; as informações atribuídas ao jornal foram resumidas e contextualizadas com fontes independentes indicadas ao longo do texto.