Caderno Educação
Ewerton Lopes — Curador Editorial O Tecido 27 de julho de 2026 Leitura: 9 min

Em pouco mais de um mês, dois textos publicados em lados opostos do planeta descreveram o mesmo fenômeno com sinais trocados. No Reino Unido e nos Estados Unidos, universidades vêm reabilitando a filosofia e as humanidades como resposta estratégica à inteligência artificial. Na China, o Ministério da Educação eliminou 12.200 cursos de graduação considerados "obsoletos" entre 2021 e 2025 — a maior parte deles em artes, humanidades e línguas — enquanto criava 10.200 novos programas voltados a tecnologia. Mais de 30% de toda a oferta universitária chinesa foi mexida nesse processo. Ao mesmo tempo, no Brasil, o colunista Muniz Sodré lembrava, na Folha de S.Paulo, que "a razão que faz funcionar a inteligência artificial não é a mesma do pensamento essencial [...] ao mistério do mundo, que é a cultura" — e que "as máquinas deixam claro que a existência ultrapassa a lógica".

A coincidência de datas não é apenas curiosa. Ela expõe uma divergência de fundo sobre o que a inteligência artificial realmente barateia e o que ela deixa, por definição, mais caro. E, olhando com atenção, mostra que China e Ocidente não estão apenas discordando sobre economia da educação — cada lado parece apostar em algo que o outro prefere não dizer em voz alta.

O que os números da China mostram

A reportagem do South China Morning Post que inspirou esta análise detalha uma reestruturação de escala continental. Universidades chinesas revogaram ou suspenderam 12.200 cursos de graduação e lançaram 10.200 novos entre 2021 e 2025, segundo dados do Ministério da Educação citados pela agência estatal Xinhua. Os cortes se concentraram em artes, humanidades, línguas estrangeiras e administração — áreas hoje descritas por autoridades chinesas como saturadas ou defasadas diante de uma taxa de desemprego jovem superior a 16%. Em contrapartida, universidades abriram programas alinhados às metas industriais de Pequim: nove instituições criaram cursos de "inteligência incorporada" (embodied intelligence), ligados à corrida nacional por integrar IA de nova geração à economia real.

Casos pontuais ilustram a lógica. A Universidade de Ciência e Tecnologia de Xangai suspendeu o vestibular para design de produto, com um egresso relatando à imprensa que tarefas centrais do curso — modelagem, renderização — já são executadas por IA. A prestigiada Communication University of China fundiu seu curso de cinematografia a outro de produção audiovisual. Pesquisadores locais, como Chu Zhaohui, do Instituto Nacional de Ciências da Educação, alertam que trocar um curso "obsoleto" por outro pode ser apenas um remendo de curto prazo, defendendo currículos mais flexíveis em vez de sucessivas podas.

O que os números do Ocidente mostram

Do outro lado do mapa, os dados contam uma história quase espelhada. Um estudo da revista The Economist, que cruzou levantamentos da National Association of Colleges and Employers dos Estados Unidos, encontrou que graduados em filosofia — um dos cursos menos expostos a automação por IA — tiveram crescimento de aproximadamente 4% no emprego entre 2022 e 2024, justamente o período de maior adoção de modelos de linguagem por empregadores. Universidades como Purdue, Georgia Tech e Brandeis vêm redesenhando a graduação em humanidades como formação "essencial para prosperar num mundo saturado de IA", combinando filosofia, design e negócios em currículos híbridos.

O relatório Future of Jobs 2025, do Fórum Econômico Mundial, reforça esse desenho: pensamento analítico e crítico lidera a lista de competências que empregadores esperam crescer em importância nos próximos cinco anos, à frente inclusive de habilidades técnicas em IA, ainda que estas também estejam em expansão acelerada. O documento projeta 78 milhões de empregos líquidos novos até 2030 e destaca que quase 40% das competências exigidas no mercado devem mudar — mas que habilidades "centradas no humano", como pensamento criativo, resiliência e julgamento ético, permanecerão decisivas.

As máquinas deixam claro que a existência ultrapassa a lógica, impotente no incessante transformar-se do mundo, onde se mostram apenas a existência e a realidade. Muniz Sodré, Folha de S.Paulo, 25 de julho de 2026

O que cada lado sabe — e prefere não dizer

É tentador explicar a divergência apenas como uma diferença de diagnóstico econômico: o Ocidente aposta que, à medida que a IA barateia a "lógica" — a programação, o cálculo, a combinatória de dados —, o que resta escasso é justamente aquilo que Muniz Sodré chama de busca de sentido: a capacidade de formular perguntas, avaliar valores em conflito, interpretar contextos ambíguos. A China, por sua vez, argumenta que sua economia real precisa, agora, de engenheiros e técnicos em número muito maior do que de bacharéis em letras — um argumento reforçado pelo desemprego jovem de dois dígitos que pressiona o país.

Mas essa leitura puramente econômica deixa de fora um segundo plano, menos confortável para Pequim. Segundo análises publicadas por veículos como o China Economic Review e o ChinaFile, a poda das humanidades chinesas ocorre no mesmo período em que o Partido Comunista aprofundou o controle ideológico sobre as universidades — inclusive removendo, em 2019, a menção ao "livre pensamento" do estatuto da Universidade Fudan e substituindo-a por referências à liderança do partido e ao marxismo-leninismo. Cursos de humanidades e ciências sociais são historicamente onde florescem perguntas sobre legitimidade do poder, pluralismo e direitos — exatamente o tipo de questionamento que um sistema de partido único tem razões estruturais para conter, independentemente de qualquer cálculo sobre empregabilidade. Em outras palavras: é possível que a China saiba, tanto quanto o Ocidente, que pensamento crítico se torna mais valioso na era da IA — e prefira, ainda assim, geri-lo com cautela.

Do lado ocidental, o saber oculto é de outra natureza. As universidades que reabilitam a filosofia raramente admitem que fazem isso, em parte, para preservar um modelo de negócio: campi inteiros de humanidades enfrentaram décadas de matrículas em queda, e o argumento "a IA vai precisar de filósofos" funciona também como estratégia de sobrevivência institucional, não apenas como constatação. A reportagem da Folha de S.Paulo aponta um risco simétrico ao chinês, mas invertido: o de reduzir "a complexidade da vida à eficácia produtiva e ao consumo", tratando até a filosofia como mero insumo de empregabilidade — o que, para Muniz Sodré, seria uma forma de "emburrecimento do mundo" ainda que travestida de humanismo.

O Brasil no meio do caminho

Entre os dois polos, o Brasil vem desenhando um terceiro caminho — mais próximo do modelo ocidental, mas com instrumentos próprios. Em abril de 2026, o Ministério da Educação lançou o documento "Inteligência Artificial na Educação Básica: Caminhos para o Currículo e a Prática Docente", complementado por um Referencial para o Uso e Desenvolvimento Responsáveis de Inteligência Artificial na Educação, elaborado com o Conselho Nacional de Educação e submetido a consulta pública. O texto distingue explicitamente "aprender com a IA" de "aprender sobre a IA" e afirma que disciplinas como Filosofia são fundamentais para desenvolver a compreensão ética, política e social da tecnologia — o oposto do movimento chinês de eliminar essas cadeiras.

Isso não significa que o Brasil esteja imune às mesmas pressões de mercado. O 16º Mapa do Ensino Superior do Semesp, com base em dados do Censo da Educação Superior do Inep, mostra que saúde, direito e tecnologia da informação continuam concentrando a imensa maioria das matrículas presenciais privadas — cerca de 89% delas em apenas dez cursos, nenhum dos quais é filosofia. Mesmo assim, cursos como o da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP seguem formando quase 12 mil estudantes, e o próprio MEC optou por reforçar, e não reduzir, a presença da área humana no currículo nacional diante da IA — uma escolha de política pública, não apenas de mercado.

Contraponto

Nem toda leitura política da reforma chinesa é consensual. Pesquisadores como Chu Zhaohui defendem que o motor real das mudanças é a urgência do desemprego jovem — hoje acima de 16% na China —, e não um cálculo ideológico. Sob esse argumento, qualquer governo diante de milhões de graduados sem emprego reformaria currículos considerados descolados do mercado, independentemente do regime político. Da mesma forma, é possível argumentar que a "revanche dos filósofos" ocidental ainda é um fenômeno de nicho: mesmo nos Estados Unidos, cursos de filosofia continuam pequenos em volume absoluto de matrículas, e boa parte do entusiasmo recente vem de reportagens e consultorias educacionais com interesse em divulgar a narrativa, não de dados de matrícula em massa.

Pensar como infraestrutura, não como luxo

A coluna de Muniz Sodré termina com uma frase que serve de bússola para o debate: "A soberania tecnológica de uma nação depende hoje de IA, mas não resulta da importação de modelos lógicos avançados, e sim de pensamento próprio, de universidades que respirem como territórios livres." Se essa tese estiver correta, a pergunta que China e Ocidente respondem de formas opostas não é apenas "quantos filósofos o mercado vai precisar", mas que tipo de sociedade cada um está construindo por trás da reforma curricular. Um currículo pode ensinar sobre inteligência artificial. Só uma cultura que tolera perguntas incômodas ensina, de fato, a pensar.

Nota de atribuição editorial: Este artigo foi inspirado pela reportagem "China's universities cut 12,000 'obsolete' degrees amid race to embrace AI era", de Carol Yang, publicada pelo South China Morning Post em 14 de junho de 2026 — disponível em scmp.com — e pela coluna "Mais que nunca, pensar", de Muniz Sodré, publicada na Folha de S.Paulo em 25 de julho de 2026, disponível em folha.uol.com.br. Nenhum dos dois textos foi reproduzido ou traduzido integralmente; a reportagem e a análise aqui apresentadas são originais, com apuração e fontes próprias.

Ewerton Lopes — Curador Editorial, O Tecido