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Compromissos com fornecedores mais que dobraram em um trimestre e já superam o PIB de países inteiros. Por trás do número recorde está uma estratégia que mistura força financeira com um risco que a indústria de tecnologia já viveu antes, na quebra da Cisco em 2001.

O compromisso recorde de US$ 279 bilhões

A Nvidia divulgou nesta semana que seus compromissos formais com fornecedores, os valores contratados para garantir peças e componentes usados na fabricação de seus chips e sistemas de inteligência artificial, chegaram a US$ 279 bilhões no trimestre encerrado em julho. O montante mais que dobrou em relação aos US$ 119 bilhões do período anterior, um salto que a própria companhia atribui majoritariamente à corrida por memória de alta performance, essencial para os aceleradores de IA mais avançados.

O anúncio veio junto com um balanço que voltou a superar as projeções do mercado. No segundo trimestre do ano fiscal de 2027, a Nvidia faturou US$ 96,2 bilhões, praticamente o dobro do mesmo período do ano anterior, com lucro líquido de US$ 59,7 bilhões.1,2 A divisão de data centers, sozinha, gerou US$ 89 bilhões, quase 117% acima do ano passado.2 Para o próximo ano fiscal, a companhia projeta crescimento de receita de 70%, um número que, segundo o presidente-executivo Jensen Huang, ficaria bem maior se não fosse a limitação de fornecimento.

Em teleconferência com analistas, Huang foi direto ao afirmar que a demanda pelos chips da empresa é "muito maior" do que os 70% projetados, mas que a cadeia de suprimentos é, hoje, o único fator que impede um crescimento ainda mais acelerado.3

"Temos uma cadeia de suprimentos gigantesca, parceiros incríveis e já garantimos muito fornecimento. Mas precisamos de muito mais." — Jensen Huang, CEO da Nvidia

A escassez de memória por trás da conta

A explicação para o salto nos compromissos está concentrada em um único gargalo: a memória de alta largura de banda, conhecida pela sigla HBM, indispensável para os chips de IA de ponta. A diretora financeira da Nvidia, Colette Kress, confirmou que o crescimento das reservas contratadas se relaciona principalmente a esse item.

O problema não é exclusivo da Nvidia. Fabricantes como Samsung, SK Hynix e Micron, que juntas controlam mais de 90% da produção mundial de DRAM, têm redirecionado linhas inteiras de fabricação para a HBM, cujas margens de lucro chegam a ser de duas a cinco vezes maiores do que as da memória convencional.4 A consequência é uma escassez que atinge também computadores e smartphones comuns, já que os mesmos processos de fabricação sustentam ambos os mercados.

Segundo a consultoria TrendForce, os preços dos chips DRAM chegaram a subir entre 93% e 98% apenas no segundo trimestre de 2026, somando-se a um reajuste de cerca de 60% no trimestre anterior.5 A IDC projeta que os preços de computadores pessoais devem subir entre 4% e 8% ao longo do ano por conta do mesmo efeito.6 Para garantir uma fatia maior desse suprimento escasso, a Nvidia optou por pagar mais e assinar contratos maiores, mesmo sabendo que isso vai pressionar suas próprias margens: a companhia projeta queda da margem bruta de 74% no trimestre atual para cerca de 71,5% no seguinte, justamente por causa do custo da memória.

As outras apostas: OpenAI, fundo de US$ 500 bi e créditos cruzados

Os compromissos com fornecedores são apenas uma parte de um conjunto bem mais amplo de exposições financeiras que a Nvidia vem assumindo. A empresa está garantindo até US$ 105 bilhões em um contrato de locação de data center da OpenAI em Ohio, um valor que cobre parte dos pagamentos de aluguel e energia caso a OpenAI não consiga honrá-los.7,8 A garantia foi reduzida em relação a uma proposta inicial de até US$ 250 bilhões, depois que investidores manifestaram preocupação com a exposição da Nvidia.9

Além disso, a companhia participa de um fundo de mais de US$ 500 bilhões ao lado de gestoras como BlackRock, Blackstone e Apollo, destinado a financiar a compra de chips por operadores de data center, com a Nvidia oferecendo até US$ 125 bilhões em apoio de valor residual.10 A isso somam-se US$ 36 bilhões em garantias de vendas para empresas de computação em nuvem, em troca de acordos de compartilhamento de receita, e um pacote de crédito não quantificado para um "laboratório de fronteira" de IA que não é a OpenAI, segundo Kress.

Contraponto

Executivos da Nvidia argumentam que essas garantias não representam investimento direto de capital, mas sim compromissos condicionais: a empresa só desembolsa recursos se o cliente garantido de fato não conseguir pagar suas obrigações. Segundo Huang, o desenho evita o que ele chama de "investimento circular", quando uma empresa financia um cliente que depois usa esse dinheiro para comprar produtos da própria financiadora, prática que tem levantado suspeitas de inflar artificialmente as vendas do setor de IA.

O fantasma da Cisco em 2001

A comparação mais citada por analistas ao discutir os riscos da estratégia da Nvidia é a da Cisco Systems durante a bolha da internet. No auge do ciclo pontocom, entre 1996 e 2000, a receita da Cisco saltou de US$ 4 bilhões para mais de US$ 18 bilhões, e a empresa chegou a ser a mais valiosa do mundo.11 Quando a bolha estourou, a demanda por equipamentos de rede despencou, mas a Cisco continuou obrigada a honrar compromissos já assumidos com seus próprios fornecedores. O resultado foi um prejuízo de estoque de US$ 2,2 bilhões registrado em um único trimestre, vendas que caíram mais de 21% em 2001 e ações que perderam até 86% do valor.12,13

Compromissos de fornecimento funcionam como um seguro em dois sentidos. Em um ciclo de expansão, eles garantem que a empresa não fique sem peças. Em uma desaceleração inesperada, viram um passivo, porque os contratos continuam valendo mesmo que a demanda dos clientes finais desapareça. É essa segunda hipótese que preocupa parte do mercado, especialmente porque diversas empresas que compram os chips da Nvidia, os chamados "laboratórios de fronteira" de IA, ainda não geram caixa suficiente para sustentar sozinhas seus planos de expansão. Como resumiu Kress, esses laboratórios "estão crescendo mais rápido do que seus balanços e perfis de crédito conseguem sustentar".

Por ora, os sinais de demanda seguem fortes, e a reação do mercado ao balanço foi positiva, com as ações da Nvidia subindo no after-market. Mas o múltiplo de preço sobre lucro projetado da empresa tem oscilado perto da mínima da última década, um indício de que parte dos investidores já embute um desconto de risco nesse tipo de estrutura financeira.

O que isso significa para o Brasil

O efeito da escassez de memória já chega ao consumidor brasileiro na forma de preços mais altos de computadores, notebooks e celulares, um reflexo direto da prioridade que fabricantes como Samsung e SK Hynix vêm dando aos contratos bilionários com data centers de IA. Do outro lado, o país também está tentando embarcar na onda de investimentos que sustenta essa demanda. Segundo a Brasscom, o Brasil pode receber até R$ 2 trilhões em investimentos em tecnologias digitais entre 2026 e 2029, com nuvem e inteligência artificial concentrando a maior fatia desse total.14 O país já lidera a América Latina em capacidade instalada de data centers, mas enfrenta entraves regulatórios e tributários, como a carga do ICMS sobre equipamentos, que tornam o custo de implantação de um data center cerca de 34% mais caro do que nos Estados Unidos, segundo dados da própria Brasscom.15

Perguntas frequentes

O que são os "compromissos com fornecedores" de US$ 279 bilhões da Nvidia?

São valores contratados pela Nvidia para garantir o fornecimento futuro de componentes, principalmente memória de alta performance (HBM), usados na fabricação de seus chips e sistemas de inteligência artificial. O montante mais que dobrou em um trimestre, saindo de US$ 119 bilhões para US$ 279 bilhões.

Por que a memória está tão escassa e cara em 2026?

Fabricantes como Samsung, SK Hynix e Micron redirecionaram parte da produção de memória convencional (DRAM) para a memória HBM, usada em chips de IA, porque essa linha tem margens de lucro muito superiores. Isso reduziu a oferta de memória para PCs e smartphones, elevando os preços em quase 100% em alguns trimestres, segundo a TrendForce.

Qual é o risco da estratégia financeira da Nvidia?

O risco está em que os compromissos assumidos hoje, tanto com fornecedores quanto com clientes como a OpenAI, continuam valendo mesmo se a demanda por IA desacelerar de forma inesperada. Analistas comparam o cenário ao da Cisco Systems em 2001, que teve prejuízo bilionário de estoque quando a bolha da internet estourou e a demanda por seus equipamentos despencou.

Quanto a Nvidia está garantindo para a OpenAI?

Até US$ 105 bilhões, referentes a parte dos pagamentos de aluguel e energia de um data center de 20 anos de contrato em Ohio, nos Estados Unidos. A Nvidia só desembolsa esse valor se a OpenAI não conseguir honrar suas obrigações.

Como isso afeta o Brasil?

Diretamente, a escassez de memória tem elevado o preço de computadores e celulares vendidos no país. Indiretamente, o Brasil disputa uma fatia dos investimentos globais em data centers de IA, com projeção da Brasscom de até R$ 2 trilhões em investimentos em tecnologias digitais até 2029, ainda que enfrente entraves tributários e regulatórios.

Referências

  1. Fitch, Asa. "Nvidia's $279 Billion Supply-Chain Gamble." The Wall Street Journal, 27 ago. 2026. Disponível em: wsj.com.
  2. Nicácio, Rafael. "Nvidia dobra receita e fatura US$ 96,2 bilhões." Portal N10, 26 ago. 2026. Disponível em: portaln10.com.br.
  3. "NVIDIA supera estimativas do 2º tri de 2026 com demanda por IA em alta." Investing.com, ago. 2026. Disponível em: br.investing.com.
  4. "Escassez de RAM ameaça disparar preços de computadores e smartphones em 2026." PCGuia, jan. 2026. Disponível em: pcguia.pt.
  5. "Projeção indica aumento no preço de memórias DRAM." SitePD, maio 2026. Disponível em: sitepd.org.br.
  6. "Crise da memória RAM pode encarecer PCs em até 8% em 2026, alerta IDC." Hardware.com.br, dez. 2025. Disponível em: hardware.com.br.
  7. "NVIDIA Backs OpenAI's Giant $100B Data Center Project with $100 Billion in Guarantees." 36Kr, ago. 2026. Disponível em: 36kr.com.
  8. "Nvidia Lines Up $105 Billion For OpenAI. Here's What it Means For Investors." The Globe and Mail, ago. 2026. Disponível em: theglobeandmail.com.
  9. "Nvidia scales back $250 billion OpenAI data center guarantee, WSJ reports." Yahoo Finance, ago. 2026. Disponível em: finance.yahoo.com.
  10. "Nvidia to back OpenAI data center with upwards of $105 billion." Yahoo Finance, ago. 2026. Disponível em: finance.yahoo.com.
  11. "Nvidia é a nova Cisco Systems?" Convex Research, fev. 2024. Disponível em: convexresearch.com.br.
  12. "A história de Nvidia rima com a de Cisco, nos anos 2000?" Money Times, fev. 2024. Disponível em: moneytimes.com.br.
  13. "Nvidia não quer ser a nova Cisco." The Next Big Idea, jun. 2024. Disponível em: thenextbigidea.pt.
  14. "Estudo da Brasscom projeta até R$ 2 trilhões em investimentos em tecnologias até 2029." Brasscom, maio 2026. Disponível em: brasscom.org.br.
  15. "Brasil disputa investimentos em data centers em meio a desafios estruturais." Brazil Economy, abr. 2026. Disponível em: brazileconomy.com.br.
Nota editorial: Esta reportagem foi inspirada na cobertura original de Asa Fitch para o The Wall Street Journal ("Nvidia's $279 Billion Supply-Chain Gamble", 27 de agosto de 2026, disponível em wsj.com), mas não a reproduz nem a traduz integralmente. Dados, contexto e fontes adicionais foram apurados de forma independente pela equipe do O Tecido, conforme referências acima.