Tecnologia · Semicondutores e Geopolítica

Huawei anunciou nesta quinta-feira, durante a conferência Huawei Connect 2026 em Xangai, dois novos chips de inteligência artificial que devem chegar ao mercado no ano que vem: o Ascend 960DT, previsto para o primeiro trimestre de 2027, e o Ascend 960PR, programado para o terceiro trimestre do mesmo ano.[1] A empresa afirmou ainda ter enviado mais de 1.000 sistemas de computação de IA, conjuntos que reúnem centenas de chips em um único bloco de processamento, para mais de 370 clientes.[1]

Para a divisão de computação e comunicações da companhia, a ambição é direta. "O objetivo da Huawei é se tornar a Nvidia", disse Guo Ping, presidente do conselho de supervisão da Huawei, a novos funcionários, segundo transcrição oficial citada pelo The Wall Street Journal.[1] A frase resume um projeto que a empresa vem construindo desde que passou a ser alvo de sanções americanas, e que ganhou urgência à medida que Washington reduziu ainda mais o acesso da China a chips e equipamentos de ponta.

O contexto por trás do avanço chinês

A Huawei está na lista negra do governo dos Estados Unidos desde 2019. Depois disso, sucessivas rodadas de restrição impediram a venda à China dos chips de IA mais avançados da Nvidia e bloquearam o acesso de fabricantes chinesas, incluindo a própria Huawei, aos equipamentos de litografia de última geração usados na fabricação de semicondutores.[1] A resposta de Pequim foi transformar a limitação em política industrial: segundo estimativa do Morgan Stanley citada pelo WSJ, o mercado chinês de chips de IA deve crescer para US$ 67 bilhões até 2030, com empresas domésticas respondendo por 86% desse total, ante menos da metade em 2025.[1]

O efeito já aparece nos números atuais. O próprio presidente-executivo da Nvidia, Jensen Huang, reconheceu que a companhia "praticamente cedeu" o mercado chinês de chips avançados à concorrente, depois de deter cerca de 95% de participação antes do início das restrições.[5] Levantamentos do setor apontam a Huawei hoje com algo próximo de 62% do mercado doméstico de aceleradores de IA na China.[4]

Três frentes técnicas contra o bloqueio

Design alternativo de chip

Sem acesso às máquinas de litografia ultraprecisas que permitem espremer mais transistores em uma única pastilha, a Huawei investe em técnicas de empilhamento de circuitos dentro do mesmo chip para compensar a diferença de escala. A empresa testa esse caminho em parceria com desenvolvedoras chinesas de IA, incluindo a DeepSeek, que já encomendou 160 mil unidades do chip Ascend 950DT para um novo data center, em um pedido estimado em US$ 2,56 bilhões.[6]

Encadeamento de chips em supernós

Em vez de competir chip a chip, a estratégia da Huawei é somar poder de processamento juntando dezenas de milhares de unidades mais simples em clusters que operam como um único computador. A tecnologia de interconexão UnifiedBus tenta resolver o gargalo clássico da computação distribuída, no qual processadores e memórias de fabricantes diferentes precisam "traduzir" dados entre si antes de processá-los.[1] A empresa apresentou um supernó de 4.096 processadores construído sobre essa base, parte de uma arquitetura mais ampla batizada de Peerium, projetada para eventualmente coordenar até 1 milhão de processadores como um sistema só.[2]

Transmissão de dados mais eficiente

Ligar tantos chips consome grande quantidade de energia. Para reduzir essa perda, a Huawei desenvolveu uma tecnologia de óptica embarcada perto do chip, batizada de near-packaged optics, que substitui dezenas de milhares de módulos ópticos tradicionais por componentes compactos junto ao processador.[1] No supernó apresentado em Xangai, essa troca reduziu o consumo em mais de 550 quilowatts.[3] Nvidia e Broadcom seguem caminho semelhante com uma abordagem chamada óptica coempacotada.[1]

"O objetivo da Huawei é se tornar a Nvidia." Guo Ping, presidente do conselho de supervisão da Huawei, em transcrição citada pelo The Wall Street Journal

Os números que sustentam a ambição

A virada de participação de mercado é o dado mais citado por analistas para justificar a pressa da Huawei em acelerar seu cronograma. Originalmente previsto para o quarto trimestre de 2027, o Ascend 960DT foi antecipado em três trimestres, e o 960PR, em um trimestre, um movimento que a própria empresa atribui à demanda doméstica, hoje maior do que sua capacidade de produção.[2][3]

Participação no fornecimento de chips de IA na China 2022 Nvidia ~95% 2026 Nvidia próx. de 0% 2030 (proj.) Domésticas ~86% Fontes: Morgan Stanley/The Wall Street Journal; declarações de Jensen Huang (CEO da Nvidia)
Estimativa de participação de mercado no fornecimento de chips de IA à China, segundo dados citados pelo WSJ e pela Nvidia

Contraponto

O avanço chinês tem limites reconhecidos pela própria indústria. Analistas do setor estimam que um único chip Nvidia GB300 ainda equivale a cerca de quatro unidades Huawei em poder de processamento.[6] A DeepSeek, maior vitrine doméstica da Huawei, encomendou os chips Ascend 950DT apenas para inferência, não para treinamento, etapa em que tentativas anteriores esbarraram em obstáculos técnicos e acabaram recorrendo a chips da Nvidia.[6] A falta de acesso a máquinas de litografia EUV, produzidas exclusivamente pela holandesa ASML, também mantém o rendimento de fabricação chinês abaixo do padrão taiwanês e sul-coreano.[5]

O que isso significa para o Brasil

A disputa entre Estados Unidos e China por infraestrutura de IA não é só um assunto distante. O Brasil vive expansão histórica de data centers, com a Brasscom projetando cerca de 200 novas instalações em quatro anos e investimentos entre R$ 60 bilhões e R$ 100 bilhões, boa parte puxada por gigantes como Microsoft e AWS.[7] O país já concentra 206 data centers em operação, 42,1% do total instalado na América Latina.[7]

Esse protagonismo, porém, convive com um paradoxo apontado por especialistas: ter servidores em território nacional não equivale a deter tecnologia própria de chip, modelo ou software.[7] A infraestrutura brasileira segue majoritariamente ancorada em hardware da Nvidia, que trata o país como um dos principais polos latino-americanos para expansão de capacidade, ao lado de iniciativas como o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial e o programa de incentivos fiscais Redata.[8] Enquanto a China consolida um ecossistema paralelo em torno da Huawei, o Brasil segue, por ora, integrado ao bloco tecnológico ocidental, o que reduz o risco de ruptura abrupta de fornecimento, mas também deixa o país exposto às mesmas restrições de exportação que hoje limitam o acesso chinês aos chips mais avançados.

Se a fragmentação entre dois ecossistemas de IA, um liderado por tecnologias ocidentais e outro por soluções chinesas, se aprofundar nos próximos anos, países de infraestrutura intermediária como o Brasil poderão ter de escolher, ou negociar, de qual lado dessa fronteira tecnológica pretendem operar sua próxima geração de data centers.

Perguntas frequentes

O que a Huawei anunciou sobre os novos chips Ascend?

A empresa confirmou o lançamento do Ascend 960DT no primeiro trimestre de 2027 e do Ascend 960PR no terceiro trimestre do mesmo ano, ambos antecipados em relação ao cronograma original, além de já ter enviado mais de 1.000 sistemas de computação de IA a mais de 370 clientes.

Por que os Estados Unidos restringem a venda de chips de IA à China?

Desde 2019 a Huawei está na lista negra americana, e desde 2022 e 2023 Washington bloqueia a venda à China dos chips de IA mais avançados e dos equipamentos de fabricação de ponta, como parte de uma política de contenção tecnológica.

A Huawei já superou a Nvidia em desempenho técnico?

Não. Analistas do setor estimam que um único chip Nvidia ainda supera em até quatro vezes o poder de processamento de um chip Huawei equivalente. A estratégia chinesa é compensar essa diferença somando milhares de chips em clusters interligados.

Como isso se relaciona com o Brasil?

O Brasil é um dos principais polos de data centers da América Latina, mas depende majoritariamente de hardware da Nvidia e de outras fornecedoras ocidentais, o que o mantém alinhado a um dos dois blocos tecnológicos que emergem dessa disputa entre EUA e China.

Este artigo utiliza como referência principal a reportagem "Huawei's Plan to Become China's Nvidia", publicada pelo The Wall Street Journal em 17 de setembro de 2026, complementada por apuração independente em fontes adicionais listadas nas referências. Nenhum trecho do texto original foi reproduzido ou traduzido integralmente. Leia a reportagem original: wsj.com.

Números-chave

Sistemas de IA já enviados pela Huawei1.000+
Clientes atendidos370+
Mercado chinês de chips de IA até 2030US$ 67 bi
Participação doméstica projetada (2030)86%
Data centers em operação no Brasil206

Linha do tempo

  • 2019Huawei entra na lista negra dos EUA
  • 2022–2023Washington restringe venda de GPUs de ponta à China
  • 1º tri. 2027Lançamento previsto do Ascend 960DT
  • 3º tri. 2027Lançamento previsto do Ascend 960PR
  • 2028–2029Chegada prevista dos Ascend 970 e 980

Glossário

Supernó
Cluster que interliga milhares de chips para que operem como um único computador.
UnifiedBus
Protocolo de interconexão da Huawei que permite comunicação direta entre chips de fabricantes e racks distintos.
Near-packaged optics
Componentes ópticos posicionados junto ao chip para reduzir perda de energia na transmissão de dados.
Soberania digital
Capacidade de um país controlar a infraestrutura, os dados e a tecnologia que sustentam sua economia digital.

Referências

  1. Hannah Miao e Raffaele Huang, "Huawei's Plan to Become China's Nvidia", The Wall Street Journal, 17 set. 2026. Acessar reportagem
  2. South China Morning Post, "Huawei quickens AI chip pace, promises next entrant 3 quarters early"
  3. TrendForce, "Huawei Speeds Up AI Chip Roadmap, Reportedly Pulls Ascend 960DT Forward Three Quarters to 1Q27"
  4. Olhar Digital, "China abandona a corrida pela sua própria Nvidia e aposta em chips de IA sob medida"
  5. SpaceMoney, "Nvidia admite que 'praticamente cedeu' mercado chinês de chips de IA à Huawei" / "Huawei ameaça domínio ocidental nos chips de IA"
  6. Hardware.com.br, "DeepSeek aposta em 160 mil chips Huawei para reduzir dependência da Nvidia"
  7. Blog do Esmael, "Brasil lidera data centers, mas tropeça na soberania da IA"
  8. Bloomberg Línea, "Nvidia vê protagonismo de Brasil e México como hub de data centers para IA"