Ciência · Antropologia

Durante boa parte da história do pensamento ocidental, a pergunta sobre o que torna o ser humano especial foi tratada como premissa, e não como hipótese a ser testada. A divulgadora catalã Candela Antón, de 32 anos, prefere inverter o ponto de partida. Em entrevista ao jornalista Sergio C. Fanjul, publicada pelo jornal espanhol El País nesta quarta-feira (21), ela descreve a busca permanente por aquilo que nos distingue dos outros animais como uma forma de autocomplacência e sustenta que essa crença teve consequências materiais concretas sobre o planeta.1

A frase que dá título à entrevista resume o argumento sem rodeios. Segundo ela, a ideia de que somos separados do restante da natureza é o que nos permitiu fazer com o planeta "lo que nos ha dado la puta gana" (algo como "o que bem entendemos", em tradução livre).1 Por trás da provocação existe um debate científico consistente, que atravessa primatologia, arqueologia, saúde pública e regulação tecnológica, e que tem desdobramentos diretos para o Brasil.

Da televisão à antropologia

Antón ficou conhecida na Espanha como atriz de Merlí, série catalã sobre um professor de filosofia do ensino médio que ganhou público internacional no streaming. Segundo o relato ao El País, a carreira artística começou quase por acaso, depois de uma infância em que sonhava ser egiptóloga e de uma passagem pelo curso de Humanidades. A virada veio durante uma série de entrevistas para a National Geographic, quando conheceu o paleoantropólogo Joaquín Panera.1 Panera é hoje professor do Departamento de Pré-História, História Antiga e Arqueologia da Universidade Complutense de Madri e foi pesquisador do Centro Nacional de Investigação sobre a Evolução Humana (CENIEH), em Burgos, com estudos sobre tecnologia lítica de grupos humanos do Pleistoceno.2

O encontro levou Antón a cursar Antropologia e a migrar para a divulgação científica. Somando Instagram, YouTube e TikTok, ela reúne hoje mais de 1,5 milhão de seguidores e se apresenta, em tom de paródia, como a "antropóloga de confiança" do público.1

O que a ciência diz sobre o excepcionalismo humano

O núcleo do discurso de Antón é a crítica ao chamado excepcionalismo humano, a noção de que nossa espécie forma uma categoria radicalmente distinta dos demais seres vivos. Por décadas, a cultura foi apresentada como a fronteira definitiva. A antropóloga argumenta que essa linha ficou borrada à medida que pesquisas documentaram, em outros animais, traços antes considerados exclusivamente humanos, como a acumulação de conhecimento ao longo de gerações.1

A literatura científica dá respaldo parcial a essa leitura, e o adjetivo importa. Uma revisão publicada em 2014 na revista Biological Reviews, assinada por Lewis Dean, Kevin Laland, Rachel Kendal e colegas, reconhece que muitas espécies apresentam aprendizado social e tradições comportamentais. Os autores, porém, sustentam que a cultura humana segue incomparável em complexidade e diversidade por ser inequivocamente cumulativa, e lembram que as alegações de cultura cumulativa em chimpanzés, orangotangos e corvos-da-nova-caledônia permanecem contestadas.3

Desde então, experimentos foram estreitando a distância. Em 2016, um estudo publicado na Scientific Reports por pesquisadores da Universidade de St Andrews mostrou que chimpanzés em cativeiro, depois de observarem um membro do grupo usar uma solução mais eficiente para obter alimento, abandonavam o método antigo e adotavam o novo. Nos grupos de controle, que não tiveram esse modelo, apenas um animal descobriu a alternativa sozinho.4 Em março de 2024, dois trabalhos publicados no mesmo dia, um na Nature com mamangavas e outro na Nature Human Behaviour com chimpanzés de um santuário na Zâmbia, relataram que esses animais aprendem por observação tarefas de várias etapas que não resolveriam individualmente. Os autores do estudo com os insetos, da Universidade Queen Mary de Londres, descreveram o resultado como a primeira demonstração de cultura cumulativa em um invertebrado.5

1. Inovação um indivíduo descobre 2. Transmissão o grupo copia com fidelidade 3. Melhoria alguém aperfeiçoa 4. Nova base o ganho não se perde
O "efeito catraca": na cultura cumulativa, cada geração parte do que a anterior conquistou. A controvérsia científica é se outros animais sustentam esse ciclo por muitas etapas, como os humanos. Ilustração: O Tecido.

Cultura não é monopólio humano: o caso dos macacos-prego

O Brasil ocupa posição de destaque nesse campo. Pesquisadores brasileiros vêm defendendo que tradições culturais de primatas, cetáceos e outros animais sejam incorporadas às estratégias de conservação, como mostrou reportagem da Revista Pesquisa FAPESP em novembro de 2025.6 Para a bióloga Patrícia Izar, do Instituto de Psicologia da USP, ouvida na reportagem, boa parte da diversidade comportamental observada em macacos-prego, incluindo o uso de ferramentas, resulta de transmissão social. O mesmo texto trata das canções de baleias-jubarte que frequentam a costa brasileira, que também mudam por aprendizado entre indivíduos.

O caso mais emblemático vem do Piauí. Escavações no Parque Nacional da Serra da Capivara, publicadas em 2019 na Nature Ecology & Evolution por uma equipe liderada pelo primatólogo Tiago Falótico, então na USP, identificaram ferramentas de pedra usadas por macacos-prego ao longo de pelo menos 3 mil anos, com variações de tamanho e de uso ao longo do tempo.7 É uma evidência arqueológica de que tradições materiais também se transformam entre gerações em outras espécies.

Essa linha de pesquisa encontra eco em uma tradição intelectual brasileira que a antecede. O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro formulou, nos anos 1990, o conceito de perspectivismo ameríndio, segundo o qual muitos povos indígenas das Américas não operam com uma separação rígida entre natureza e cultura. Ailton Krenak, em Ideias para adiar o fim do mundo (2019), critica diretamente a noção de uma humanidade apartada da Terra.11 As premissas de Antón dialogam, portanto, com debates que o pensamento brasileiro conhece bem.

A pergunta deixou de ser se outros animais têm cultura. Passou a ser em que escala, e com que fidelidade, ela se acumula.

O indivíduo como ficção útil e a epidemia de solidão

Na entrevista, Antón estende a crítica ao individualismo consolidado pelo Iluminismo. Sua tese é que perceber o mundo a partir de um corpo próprio não autoriza a conclusão de que somos autossuficientes: dependemos uns dos outros e dos ecossistemas que nos alimentam. Ela associa a ilusão de autonomia total à solidão, à depressão e à frustração, e observa que essa ilusão tende a ser mais forte entre os mais ricos, amparada pelo dinheiro.1

Os dados de saúde pública confirmam a dimensão do problema, ainda que não comprovem a relação causal específica sugerida pela divulgadora. O relatório da Comissão sobre Conexão Social da Organização Mundial da Saúde, divulgado em junho de 2025, estimou que cerca de uma em cada seis pessoas no mundo se sente solitária e associou a solidão a mais de 871 mil mortes por ano, o equivalente a cerca de 100 por hora.8 O documento liga a falta de conexão social a maior risco de AVC, doenças cardíacas, diabetes, declínio cognitivo e morte prematura, e recomenda fortalecer a infraestrutura social, como parques, bibliotecas e cafés.

A recomendação converge com a proposta de Antón de recuperar espaços coletivos. Ao divulgar o relatório no Brasil, a Organização Pan-Americana da Saúde fez uma ressalva útil: aqui, a expressão "isolamento social" ganhou outro sentido entre 2020 e 2022, quando designava uma medida sanitária contra a covid-19. No relatório global, o termo indica a falta objetiva de vínculos suficientes.8

Inevitabilidade tecnológica e quem decide sobre a IA

O trecho mais politicamente carregado da conversa trata da inteligência artificial. Antón rejeita a ideia de que a tecnologia segue um curso autônomo ao qual resta apenas se adaptar, posição conhecida como determinismo tecnológico. Para ela, anunciar a inevitabilidade de uma tecnologia já é uma maneira de configurar o futuro. Seu argumento central não é sobre o que a IA pode fazer, mas sobre quem a controla: a antropóloga critica o fato de uma tecnologia capaz de afetar toda a humanidade estar sendo desenvolvida por cinco ou seis agentes privados em busca de interesses próprios, e defende alguma forma de controle coletivo.1

Ela lembra ainda que a tecnologia acompanha a espécie desde o biface, a ferramenta de pedra lascada em formato de amêndoa que aparece no registro arqueológico há cerca de 1,76 milhão de anos. A questão, para ela, sempre foi a finalidade. Na mesma linha, Antón afirma que a ameaça de um chip cerebral não estaria em alterar a natureza humana, mas em quem detém o controle sobre ele.1

No Brasil, essa discussão tem endereço institucional. O Projeto de Lei 2.338/2023, que propõe um marco legal para a inteligência artificial com classificação de sistemas por níveis de risco, foi aprovado pelo Senado em dezembro de 2024 e está em análise por uma comissão especial na Câmara dos Deputados, sem votação concluída até a data desta publicação. Ao longo de 2026, novos projetos foram apresentados, como o PL 704/2026, que exige avaliação de impacto social, e o PL 762/2026, voltado a sistemas de alto impacto.9 A pergunta de Antón sobre quem decide é, em termos práticos, a que está em disputa no Congresso.

Moradia e precariedade: o que os números brasileiros mostram

A entrevista também passa pela crise habitacional. Antón defende que bens de primeira necessidade não deveriam ser objeto de especulação e descreve uma geração sem moradia estável, com trabalho cada vez mais passageiro e dificuldade para formar família. Ao mesmo tempo, diz não entender por que mercado e Estado são tratados como opostos, já que podem se complementar.1

O contexto espanhol tem paralelos com o brasileiro, embora em outra escala. Segundo levantamento da Fundação João Pinheiro para o Ministério das Cidades, divulgado em setembro de 2025, o déficit habitacional brasileiro era de 5,97 milhões de domicílios em 2023, queda de 3,8% em relação ao ano anterior. Em termos relativos, o indicador recuou de 10,2% em 2009 para 7,6%, o menor patamar da série.10 O componente mais pesado é o ônus excessivo com aluguel, quando famílias de baixa renda comprometem mais de 30% do orçamento com moradia: são 3,66 milhões de domicílios, ou 61,3% do total. Como na Espanha, o problema brasileiro migrou da falta física de casas para o custo de acesso a elas.

Divulgação em redes: porta aberta ou vitrine?

Antón conta que seu vídeo de maior alcance trata de por que pessoas pobres votam em candidatos ricos, tema em que recorre ao conceito de hegemonia cultural do filósofo italiano Antonio Gramsci. Assuntos ligados à vida cotidiana, como vieses cognitivos, também têm forte adesão. Diante da crítica de que o conhecimento em formato curto é superficial, ela responde que a divulgação deve ocupar todos os formatos e que seu objetivo é despertar interesse, não encerrar debates. O aprofundamento fica para um podcast oferecido a assinantes.1

Ela admite, com franqueza pouco comum, que as redes sociais estimulam cada pessoa a se vender como produto, e se inclui nessa lógica.1 A contradição faz parte do argumento: a crítica ao individualismo circula justamente por um meio que organiza a atenção em torno de perfis individuais. Antón não resolve o impasse, mas o nomeia, e propõe que a experiência mediada por telas não substitua a experiência corporal e coletiva.

O mérito da entrevista está menos nas respostas do que no deslocamento das perguntas. Em vez de buscar o que nos torna únicos, Antón propõe investigar do que dependemos. Em vez de discutir se a tecnologia pode ser controlada, quer saber por quem. São perguntas que a ciência e as instituições brasileiras, da Serra da Capivara ao debate sobre o PL 2.338, já estão ajudando a responder.

Perguntas frequentes

Quem é Candela Antón?

Divulgadora de antropologia nascida em Barcelona, de 32 anos, conhecida como atriz da série catalã Merlí. Depois de conhecer o paleoantropólogo Joaquín Panera, passou a cursar Antropologia e hoje reúne mais de 1,5 milhão de seguidores em Instagram, YouTube e TikTok.

O que é excepcionalismo humano?

É a ideia de que a espécie humana forma uma categoria radicalmente separada do restante da natureza. Críticos argumentam que essa crença legitimou a exploração do planeta e que pesquisas sobre cultura animal enfraquecem a noção de singularidade absoluta.

Outros animais têm cultura cumulativa?

Há evidências crescentes, mas ainda contestadas. Estudos com chimpanzés (2016 e 2024) e mamangavas (2024) indicam capacidade de aprender por observação comportamentos que não seriam inventados individualmente. A maioria dos pesquisadores considera que a cultura humana segue sem paralelo em escala.

Qual é o impacto da solidão na saúde, segundo a OMS?

O relatório de junho de 2025 estima que uma em cada seis pessoas se sente solitária e associa a solidão a mais de 871 mil mortes por ano, com maior risco de AVC, doenças cardíacas, diabetes e declínio cognitivo.

Como está a regulação da IA no Brasil?

O PL 2.338/2023 foi aprovado pelo Senado em dezembro de 2024 e está em análise por uma comissão especial na Câmara, sem votação concluída até outubro de 2026.

Qual é o déficit habitacional do Brasil?

Segundo a Fundação João Pinheiro, 5,97 milhões de domicílios em 2023, ou 7,6% do total. O ônus excessivo com aluguel responde por 61,3% desse déficit.

Nota de atribuição. Este texto foi produzido pela redação do O Tecido a partir da entrevista de Sergio C. Fanjul com Candela Antón, publicada pelo El País em 21 de outubro de 2026, complementada por pesquisa independente. Não se trata de tradução nem de reprodução do original. As ideias atribuídas à entrevistada foram parafraseadas e creditadas. Leia a entrevista completa em El País.