Caderno Saúde · Saúde mental e trabalho

Nota de origem. Esta análise parte do artigo de opinião Anthropology can be an alleviator of anxiety, de Alan Macfarlane, publicado pelo China Daily em 30 de setembro de 2026. O texto original não é reproduzido nem traduzido aqui; as ideias do autor são resumidas e confrontadas com outras fontes e com o contexto brasileiro.

O Brasil reúne duas condições que tornam a pergunta deste texto menos acadêmica do que parece. É o país com a maior prevalência de transtornos de ansiedade registrada pela Organização Mundial da Saúde, e é também uma sociedade em que o medo de perder o emprego para a inteligência artificial cresce justamente entre os mais jovens. Nesse cenário, a proposta do antropólogo britânico Alan Macfarlane, de usar a antropologia como uma espécie de calmante intelectual diante das incertezas tecnológicas, soa ao mesmo tempo sedutora e insuficiente. Vale examinar as duas coisas.

A tese de Macfarlane: olhar de cima da montanha

Professor emérito de ciência antropológica da Universidade de Cambridge e membro vitalício do King's College, Macfarlane passou a falar para um público jovem em plataformas chinesas como RedNote, Douyin e Bilibili. No artigo publicado pelo China Daily, ele resume a disciplina como "o estudo do outro": comparar civilizações inteiras, de modo integrado, para enxergar a própria sociedade com distância.1

O argumento central tem três passos. Primeiro, a antropologia mostraria que o ser humano não é, por natureza, um trabalhador compulsivo: durante a maior parte da história da espécie, antes da agricultura, grupos de caçadores-coletores teriam dedicado algo entre 15 e 20 horas semanais à obtenção de alimento. Segundo, se a IA tornar o trabalho significativo um recurso escasso, seria possível distribuí-lo de forma justa, com cerca de dois dias de atividade por semana e o restante dedicado a convivência, arte e lazer. Terceiro, essa visão de longo prazo funcionaria como alívio psicológico: diante de uma crise, perceber que situações análogas já ocorreram muitas vezes reduz a sensação de catástrofe inédita.1

O terceiro ponto é o mais interessante para o caderno Saúde, e o primeiro é o que mais exige verificação.

De onde vêm as "15 a 20 horas"

O número citado por Macfarlane tem genealogia conhecida. Ele remonta ao ensaio "A sociedade afluente original", do antropólogo norte-americano Marshall Sahlins, apresentado em 1966 e publicado em 1972 no livro Stone Age Economics. Sahlins reuniu estudos de campo, sobretudo entre os !Kung do deserto do Kalahari, para sustentar que caçadores-coletores não viviam à beira da fome, mas satisfaziam suas necessidades com pouco esforço porque desejavam pouco.2 O título dialogava ironicamente com A Sociedade Afluente, de John Kenneth Galbraith, e a tese virou referência obrigatória em debates sobre consumo e trabalho.

Pouco antes, em 1930, o economista John Maynard Keynes havia feito uma previsão de outra natureza no ensaio "Possibilidades econômicas para nossos netos": o avanço técnico permitiria, em cerca de um século, jornadas de 15 horas semanais.3 A proposta de Macfarlane une as duas linhagens: o passado remoto como prova de que é possível trabalhar pouco, e a tecnologia como meio de voltar a fazê-lo.

O que os dados mais recentes mostram

A pesquisa empírica mais citada sobre o tema nos últimos anos foi conduzida entre os Agta, população de caçadores-coletores do norte das Filipinas que vem adotando a agricultura. Uma equipe que incluía o antropólogo Mark Dyble, também de Cambridge, conviveu com essas comunidades por dois anos e mediu como 359 pessoas, em dez acampamentos, distribuíam seu tempo. O estudo, publicado na Nature Human Behaviour em 2019, estimou que os Agta dedicados principalmente à agricultura trabalhavam cerca de 30 horas semanais, contra aproximadamente 20 horas dos que viviam da coleta e da caça.4

Horas semanais de trabalho entre os Agta, Filipinas Gráfico de barras: Agta caçadores-coletores trabalham cerca de 20 horas semanais; Agta agricultores, cerca de 30 horas; média geral de trabalho fora do acampamento de 24 horas, mais 20 horas de tarefas domésticas. HORAS POR SEMANA · AGTA (FILIPINAS) Coletores (trabalho) ~20 h Agricultores (trabalho) ~30 h Média: fora do acampamento ~24 h Média: tarefas domésticas ~20 h
Fonte: Dyble et al., Nature Human Behaviour (2019), e comunicado da Universidade de Cambridge. Valores aproximados. As duas últimas barras mostram a média de todos os adultos estudados e indicam que, somadas as tarefas domésticas, a carga total supera 40 horas.

O resultado confirma a direção do argumento de Sahlins e de Macfarlane: a transição para a agricultura cobrou tempo livre, sobretudo das mulheres, que nas comunidades mais agrícolas tinham metade do lazer das que viviam apenas da coleta, segundo o comunicado da Universidade de Cambridge.4 Mas o mesmo levantamento traz um dado que complica a leitura otimista. Em média, os adultos Agta somavam cerca de 24 horas semanais de trabalho fora do acampamento e outras 20 horas de tarefas domésticas, com cerca de 30 horas de lazer durante o dia. Ou seja, as "15 a 20 horas" descrevem a busca por comida, não o conjunto do esforço necessário para viver.

A coautora Abigail Page, da London School of Hygiene and Tropical Medicine, fez ela própria a ressalva metodológica: é preciso cautela ao extrapolar o comportamento de caçadores-coletores contemporâneos para sociedades da pré-história.4 A advertência vale em dobro quando a extrapolação salta da pré-história para o mercado de trabalho do século 21.

A antropologia não prova que podemos trabalhar dois dias por semana. Prova que a jornada atual é uma escolha social, e não uma lei da natureza.

O contexto brasileiro: ansiedade como questão de saúde pública

Se a tese de Macfarlane é discutível como economia, ela toca num ponto sensível quando lida como saúde mental. A OMS estimou que 9,3% da população brasileira convive com algum transtorno de ansiedade, a maior taxa entre os países analisados e bem acima da média global de 3,6%, segundo dados divulgados em 2017 e noticiados pela IstoÉ.5 O número é antigo e precisa ser lido como retrato de época, mas os indicadores mais recentes não sugerem melhora.

Um levantamento feito pelo portal VIVA a partir da base de dados abertos do INSS mostra que as concessões de auxílio-doença ligadas a transtornos mentais, especialmente ansiedade e depressão, cresceram 159% entre 2019 e 2025. Em 2025, esses diagnósticos chegaram a 9,4% do total de afastamentos e superaram, como fatia, as dores de coluna, historicamente líderes da lista.6

A inteligência artificial entra nesse quadro como fonte adicional de incerteza. Pesquisa do Pew Research Center divulgada em setembro, repercutida pelo Times Brasil, indica que 42% dos brasileiros esperam que a IA reduza o número de empregos nas próximas duas décadas. Entre pessoas de 18 a 34 anos, a parcela mais preocupada do que entusiasmada com a tecnologia subiu de 32% em 2025 para 44% em 2026.7 Há, porém, um sinal em sentido contrário: segundo o Datafolha, entre os brasileiros que conhecem a IA, o medo de perder o emprego para máquinas caiu de 56% para 48% em um ano, à medida que cresceu o uso da ferramenta no trabalho, conforme relato do levantamento.8

A divergência entre as duas pesquisas sugere algo coerente com a tese de Macfarlane: o medo diminui com familiaridade e informação. Não é exatamente a antropologia que acalma, mas a troca de uma ameaça difusa por um conhecimento concreto.

Perspectiva como recurso psicológico, com limites

A ideia de "subir a montanha" para observar o próprio problema encontra paralelo na psicologia contemporânea. Pesquisas sobre distanciamento psicológico, como as do psicólogo Ethan Kross, da Universidade de Michigan, sugerem que observar uma situação estressante a partir de uma perspectiva mais ampla, inclusive temporal, tende a reduzir a intensidade da reação emocional.9 A perspectiva histórica proposta por Macfarlane é uma versão coletiva desse mecanismo: lembrar que transformações técnicas profundas, da agricultura à industrialização, foram atravessadas por sociedades que se reorganizaram.

O limite está na distinção entre preocupação e transtorno. Ansiedade diante de um cenário incerto é uma resposta esperada; transtorno de ansiedade é uma condição clínica, com critérios diagnósticos e tratamento. Reflexão filosófica e leitura podem ajudar no primeiro caso, mas não substituem acompanhamento profissional no segundo.

Atenção à saúde. Preocupação persistente, insônia, taquicardia, falta de ar ou dificuldade de concentração que se prolongam por semanas e afetam a rotina merecem avaliação. No SUS, o acesso começa pela Unidade Básica de Saúde, que pode encaminhar para os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).

Do mirante à política pública: o debate da escala 6x1

A parte mais concreta da proposta de Macfarlane, a redistribuição do tempo de trabalho, já está na pauta brasileira, ainda que por motivos que pouco têm a ver com IA. A Câmara dos Deputados aprovou em maio a proposta de emenda à Constituição que acaba com a escala 6x1 e reduz a jornada de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial. Na tramitação, foram citados um estudo da Unicamp segundo o qual quase 21 milhões de brasileiros trabalham acima das 44 horas legais e uma estimativa do Ministério do Trabalho de que a escala 6x1 rege 14,8 milhões de vínculos formais, conforme o SBT News.10

No Senado, a PEC 221/2019 foi aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça em 2 de setembro, mas não chegou ao plenário, onde precisa de 49 votos em dois turnos, como registrou a Agência Senado.11 Sem garantia de votos e com obstrução da oposição, a base governista adiou a apreciação para depois do primeiro turno das eleições, marcado para este domingo (4), segundo a Agência Brasil.12 Durante as audiências públicas, os efeitos da jornada sobre a saúde mental foram um dos argumentos apresentados ao lado das preocupações com produtividade e custos.

Há uma diferença de escala entre os debates. Macfarlane imagina uma sociedade em que a máquina produz o suficiente e o problema passa a ser distribuir trabalho com sentido. O Brasil discute sair de seis dias para cinco. A comparação mostra a distância entre a utopia antropológica e a negociação política real, mas também indica que o tempo de trabalho voltou a ser tratado como variável de saúde pública.

Contraponto

Os números do passado são frágeis. As estimativas de 15 a 20 horas contam apenas a obtenção de alimento. Quando se somam processamento, preparo, fabricação de ferramentas e cuidados domésticos, como fez o estudo com os Agta, a carga total ultrapassa 40 horas semanais. Críticos da tese de Sahlins apontam ainda que os grupos estudados no século 20 viviam sob pressão de sociedades vizinhas e não são retratos fiéis da pré-história.

Lazer não é renda. A proposta de trabalhar dois dias por semana não explica como seriam financiados moradia, saúde e previdência numa economia monetizada. Sem um mecanismo de distribuição de renda, menos trabalho pode significar mais precariedade, e não mais tempo livre.

Conforto não é tratamento. A perspectiva histórica pode aliviar preocupações difusas, mas o crescimento dos afastamentos por transtornos mentais no INSS indica um problema que exige rede de atendimento, e não apenas mudança de olhar.

O otimismo pode desmobilizar. Afirmar que "isso já aconteceu antes" omite que transições tecnológicas anteriores produziram ganhadores e perdedores, e que o custo recaiu de forma desigual sobre trabalhadores com menos escolaridade e renda.

O que fica

O mérito do artigo de Macfarlane é deslocar a pergunta. Em vez de perguntar apenas quantos empregos a IA vai eliminar, ele pergunta que tipo de vida as pessoas querem ter e por que a resposta padrão é trabalhar cada vez mais. A antropologia não oferece um modelo pronto para copiar, e os dados sobre caçadores-coletores são menos idílicos do que a versão popularizada sugere. O que ela oferece é a demonstração de que a organização do tempo é uma construção social e, portanto, negociável. Num país que lidera o ranking de ansiedade e discute no Congresso quantos dias por semana as pessoas devem trabalhar, essa constatação tem utilidade prática.

Perguntas frequentes

Quem é Alan Macfarlane?

Antropólogo britânico, professor emérito de ciência antropológica da Universidade de Cambridge e membro vitalício do King's College. Atualmente produz conteúdo para jovens em plataformas chinesas como RedNote, Douyin e Bilibili.

É verdade que caçadores-coletores trabalhavam só 15 a 20 horas por semana?

Em parte. O número vem da tese da "sociedade afluente original", de Marshall Sahlins, e se refere à busca de alimento. Estudos mais recentes, como o realizado com os Agta das Filipinas, confirmam que coletores trabalham menos que agricultores (cerca de 20 contra 30 horas), mas mostram que, somadas as tarefas domésticas, a carga total passa de 40 horas semanais.

A antropologia pode ajudar a reduzir a ansiedade?

Pode ajudar a relativizar preocupações difusas, ao mostrar que mudanças profundas já foram atravessadas por outras sociedades. A psicologia descreve mecanismo semelhante como distanciamento psicológico. Isso não substitui tratamento para transtornos de ansiedade, que são condições clínicas.

Qual a prevalência de ansiedade no Brasil?

Segundo estimativa da OMS divulgada em 2017, 9,3% da população brasileira tem algum transtorno de ansiedade, a maior taxa entre os países avaliados. Dados do INSS mostram que os afastamentos por transtornos mentais cresceram 159% entre 2019 e 2025.

Os brasileiros têm medo de perder o emprego para a IA?

Uma parcela relevante, sim. Pesquisa do Pew Research Center de 2026 indica que 42% esperam redução de empregos por causa da IA. Já o Datafolha registrou queda do medo entre quem conhece a tecnologia, de 56% para 48% em um ano.

Qual a situação da PEC do fim da escala 6x1?

Aprovada pela Câmara em maio de 2026 e pela CCJ do Senado em 2 de setembro, a PEC aguarda votação no plenário do Senado, onde precisa de 49 votos em dois turnos. A votação foi adiada para depois do primeiro turno das eleições de outubro.

Ewerton Lopes — Curador Editorial · O Tecido