Caderno Saúde · Saúde mental e trabalho
O Brasil reúne duas condições que tornam a pergunta deste texto menos acadêmica do que parece. É o país com a maior prevalência de transtornos de ansiedade registrada pela Organização Mundial da Saúde, e é também uma sociedade em que o medo de perder o emprego para a inteligência artificial cresce justamente entre os mais jovens. Nesse cenário, a proposta do antropólogo britânico Alan Macfarlane, de usar a antropologia como uma espécie de calmante intelectual diante das incertezas tecnológicas, soa ao mesmo tempo sedutora e insuficiente. Vale examinar as duas coisas.
A tese de Macfarlane: olhar de cima da montanha
Professor emérito de ciência antropológica da Universidade de Cambridge e membro vitalício do King's College, Macfarlane passou a falar para um público jovem em plataformas chinesas como RedNote, Douyin e Bilibili. No artigo publicado pelo China Daily, ele resume a disciplina como "o estudo do outro": comparar civilizações inteiras, de modo integrado, para enxergar a própria sociedade com distância.1
O argumento central tem três passos. Primeiro, a antropologia mostraria que o ser humano não é, por natureza, um trabalhador compulsivo: durante a maior parte da história da espécie, antes da agricultura, grupos de caçadores-coletores teriam dedicado algo entre 15 e 20 horas semanais à obtenção de alimento. Segundo, se a IA tornar o trabalho significativo um recurso escasso, seria possível distribuí-lo de forma justa, com cerca de dois dias de atividade por semana e o restante dedicado a convivência, arte e lazer. Terceiro, essa visão de longo prazo funcionaria como alívio psicológico: diante de uma crise, perceber que situações análogas já ocorreram muitas vezes reduz a sensação de catástrofe inédita.1
O terceiro ponto é o mais interessante para o caderno Saúde, e o primeiro é o que mais exige verificação.
De onde vêm as "15 a 20 horas"
O número citado por Macfarlane tem genealogia conhecida. Ele remonta ao ensaio "A sociedade afluente original", do antropólogo norte-americano Marshall Sahlins, apresentado em 1966 e publicado em 1972 no livro Stone Age Economics. Sahlins reuniu estudos de campo, sobretudo entre os !Kung do deserto do Kalahari, para sustentar que caçadores-coletores não viviam à beira da fome, mas satisfaziam suas necessidades com pouco esforço porque desejavam pouco.2 O título dialogava ironicamente com A Sociedade Afluente, de John Kenneth Galbraith, e a tese virou referência obrigatória em debates sobre consumo e trabalho.
Pouco antes, em 1930, o economista John Maynard Keynes havia feito uma previsão de outra natureza no ensaio "Possibilidades econômicas para nossos netos": o avanço técnico permitiria, em cerca de um século, jornadas de 15 horas semanais.3 A proposta de Macfarlane une as duas linhagens: o passado remoto como prova de que é possível trabalhar pouco, e a tecnologia como meio de voltar a fazê-lo.
O que os dados mais recentes mostram
A pesquisa empírica mais citada sobre o tema nos últimos anos foi conduzida entre os Agta, população de caçadores-coletores do norte das Filipinas que vem adotando a agricultura. Uma equipe que incluía o antropólogo Mark Dyble, também de Cambridge, conviveu com essas comunidades por dois anos e mediu como 359 pessoas, em dez acampamentos, distribuíam seu tempo. O estudo, publicado na Nature Human Behaviour em 2019, estimou que os Agta dedicados principalmente à agricultura trabalhavam cerca de 30 horas semanais, contra aproximadamente 20 horas dos que viviam da coleta e da caça.4
O resultado confirma a direção do argumento de Sahlins e de Macfarlane: a transição para a agricultura cobrou tempo livre, sobretudo das mulheres, que nas comunidades mais agrícolas tinham metade do lazer das que viviam apenas da coleta, segundo o comunicado da Universidade de Cambridge.4 Mas o mesmo levantamento traz um dado que complica a leitura otimista. Em média, os adultos Agta somavam cerca de 24 horas semanais de trabalho fora do acampamento e outras 20 horas de tarefas domésticas, com cerca de 30 horas de lazer durante o dia. Ou seja, as "15 a 20 horas" descrevem a busca por comida, não o conjunto do esforço necessário para viver.
A coautora Abigail Page, da London School of Hygiene and Tropical Medicine, fez ela própria a ressalva metodológica: é preciso cautela ao extrapolar o comportamento de caçadores-coletores contemporâneos para sociedades da pré-história.4 A advertência vale em dobro quando a extrapolação salta da pré-história para o mercado de trabalho do século 21.
A antropologia não prova que podemos trabalhar dois dias por semana. Prova que a jornada atual é uma escolha social, e não uma lei da natureza.
O contexto brasileiro: ansiedade como questão de saúde pública
Se a tese de Macfarlane é discutível como economia, ela toca num ponto sensível quando lida como saúde mental. A OMS estimou que 9,3% da população brasileira convive com algum transtorno de ansiedade, a maior taxa entre os países analisados e bem acima da média global de 3,6%, segundo dados divulgados em 2017 e noticiados pela IstoÉ.5 O número é antigo e precisa ser lido como retrato de época, mas os indicadores mais recentes não sugerem melhora.
Um levantamento feito pelo portal VIVA a partir da base de dados abertos do INSS mostra que as concessões de auxílio-doença ligadas a transtornos mentais, especialmente ansiedade e depressão, cresceram 159% entre 2019 e 2025. Em 2025, esses diagnósticos chegaram a 9,4% do total de afastamentos e superaram, como fatia, as dores de coluna, historicamente líderes da lista.6
A inteligência artificial entra nesse quadro como fonte adicional de incerteza. Pesquisa do Pew Research Center divulgada em setembro, repercutida pelo Times Brasil, indica que 42% dos brasileiros esperam que a IA reduza o número de empregos nas próximas duas décadas. Entre pessoas de 18 a 34 anos, a parcela mais preocupada do que entusiasmada com a tecnologia subiu de 32% em 2025 para 44% em 2026.7 Há, porém, um sinal em sentido contrário: segundo o Datafolha, entre os brasileiros que conhecem a IA, o medo de perder o emprego para máquinas caiu de 56% para 48% em um ano, à medida que cresceu o uso da ferramenta no trabalho, conforme relato do levantamento.8
A divergência entre as duas pesquisas sugere algo coerente com a tese de Macfarlane: o medo diminui com familiaridade e informação. Não é exatamente a antropologia que acalma, mas a troca de uma ameaça difusa por um conhecimento concreto.
Perspectiva como recurso psicológico, com limites
A ideia de "subir a montanha" para observar o próprio problema encontra paralelo na psicologia contemporânea. Pesquisas sobre distanciamento psicológico, como as do psicólogo Ethan Kross, da Universidade de Michigan, sugerem que observar uma situação estressante a partir de uma perspectiva mais ampla, inclusive temporal, tende a reduzir a intensidade da reação emocional.9 A perspectiva histórica proposta por Macfarlane é uma versão coletiva desse mecanismo: lembrar que transformações técnicas profundas, da agricultura à industrialização, foram atravessadas por sociedades que se reorganizaram.
O limite está na distinção entre preocupação e transtorno. Ansiedade diante de um cenário incerto é uma resposta esperada; transtorno de ansiedade é uma condição clínica, com critérios diagnósticos e tratamento. Reflexão filosófica e leitura podem ajudar no primeiro caso, mas não substituem acompanhamento profissional no segundo.
Do mirante à política pública: o debate da escala 6x1
A parte mais concreta da proposta de Macfarlane, a redistribuição do tempo de trabalho, já está na pauta brasileira, ainda que por motivos que pouco têm a ver com IA. A Câmara dos Deputados aprovou em maio a proposta de emenda à Constituição que acaba com a escala 6x1 e reduz a jornada de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial. Na tramitação, foram citados um estudo da Unicamp segundo o qual quase 21 milhões de brasileiros trabalham acima das 44 horas legais e uma estimativa do Ministério do Trabalho de que a escala 6x1 rege 14,8 milhões de vínculos formais, conforme o SBT News.10
No Senado, a PEC 221/2019 foi aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça em 2 de setembro, mas não chegou ao plenário, onde precisa de 49 votos em dois turnos, como registrou a Agência Senado.11 Sem garantia de votos e com obstrução da oposição, a base governista adiou a apreciação para depois do primeiro turno das eleições, marcado para este domingo (4), segundo a Agência Brasil.12 Durante as audiências públicas, os efeitos da jornada sobre a saúde mental foram um dos argumentos apresentados ao lado das preocupações com produtividade e custos.
Há uma diferença de escala entre os debates. Macfarlane imagina uma sociedade em que a máquina produz o suficiente e o problema passa a ser distribuir trabalho com sentido. O Brasil discute sair de seis dias para cinco. A comparação mostra a distância entre a utopia antropológica e a negociação política real, mas também indica que o tempo de trabalho voltou a ser tratado como variável de saúde pública.
Contraponto
Os números do passado são frágeis. As estimativas de 15 a 20 horas contam apenas a obtenção de alimento. Quando se somam processamento, preparo, fabricação de ferramentas e cuidados domésticos, como fez o estudo com os Agta, a carga total ultrapassa 40 horas semanais. Críticos da tese de Sahlins apontam ainda que os grupos estudados no século 20 viviam sob pressão de sociedades vizinhas e não são retratos fiéis da pré-história.
Lazer não é renda. A proposta de trabalhar dois dias por semana não explica como seriam financiados moradia, saúde e previdência numa economia monetizada. Sem um mecanismo de distribuição de renda, menos trabalho pode significar mais precariedade, e não mais tempo livre.
Conforto não é tratamento. A perspectiva histórica pode aliviar preocupações difusas, mas o crescimento dos afastamentos por transtornos mentais no INSS indica um problema que exige rede de atendimento, e não apenas mudança de olhar.
O otimismo pode desmobilizar. Afirmar que "isso já aconteceu antes" omite que transições tecnológicas anteriores produziram ganhadores e perdedores, e que o custo recaiu de forma desigual sobre trabalhadores com menos escolaridade e renda.
O que fica
O mérito do artigo de Macfarlane é deslocar a pergunta. Em vez de perguntar apenas quantos empregos a IA vai eliminar, ele pergunta que tipo de vida as pessoas querem ter e por que a resposta padrão é trabalhar cada vez mais. A antropologia não oferece um modelo pronto para copiar, e os dados sobre caçadores-coletores são menos idílicos do que a versão popularizada sugere. O que ela oferece é a demonstração de que a organização do tempo é uma construção social e, portanto, negociável. Num país que lidera o ranking de ansiedade e discute no Congresso quantos dias por semana as pessoas devem trabalhar, essa constatação tem utilidade prática.
Perguntas frequentes
Quem é Alan Macfarlane?
Antropólogo britânico, professor emérito de ciência antropológica da Universidade de Cambridge e membro vitalício do King's College. Atualmente produz conteúdo para jovens em plataformas chinesas como RedNote, Douyin e Bilibili.
É verdade que caçadores-coletores trabalhavam só 15 a 20 horas por semana?
Em parte. O número vem da tese da "sociedade afluente original", de Marshall Sahlins, e se refere à busca de alimento. Estudos mais recentes, como o realizado com os Agta das Filipinas, confirmam que coletores trabalham menos que agricultores (cerca de 20 contra 30 horas), mas mostram que, somadas as tarefas domésticas, a carga total passa de 40 horas semanais.
A antropologia pode ajudar a reduzir a ansiedade?
Pode ajudar a relativizar preocupações difusas, ao mostrar que mudanças profundas já foram atravessadas por outras sociedades. A psicologia descreve mecanismo semelhante como distanciamento psicológico. Isso não substitui tratamento para transtornos de ansiedade, que são condições clínicas.
Qual a prevalência de ansiedade no Brasil?
Segundo estimativa da OMS divulgada em 2017, 9,3% da população brasileira tem algum transtorno de ansiedade, a maior taxa entre os países avaliados. Dados do INSS mostram que os afastamentos por transtornos mentais cresceram 159% entre 2019 e 2025.
Os brasileiros têm medo de perder o emprego para a IA?
Uma parcela relevante, sim. Pesquisa do Pew Research Center de 2026 indica que 42% esperam redução de empregos por causa da IA. Já o Datafolha registrou queda do medo entre quem conhece a tecnologia, de 56% para 48% em um ano.
Qual a situação da PEC do fim da escala 6x1?
Aprovada pela Câmara em maio de 2026 e pela CCJ do Senado em 2 de setembro, a PEC aguarda votação no plenário do Senado, onde precisa de 49 votos em dois turnos. A votação foi adiada para depois do primeiro turno das eleições de outubro.
Ewerton Lopes — Curador Editorial · O Tecido