Caderno Economia · Urbanização e desenvolvimento
Poucos brasileiros saberiam localizar Onitsha no mapa. A cidade fica no sudeste da Nigéria, às margens do rio Níger, e funciona há gerações como entreposto comercial com ramificações que chegam à China, à Europa e aos Estados Unidos. Segundo números da ONU reunidos em reportagem do Financial Times, a área urbana de Onitsha abriga hoje cerca de 5,6 milhões de pessoas. No censo de 1963 eram 163 mil.[1] A trajetória resume um fenômeno que avançou quase sem plateia: a África deixou de ser um continente essencialmente rural.
A reportagem assinada por David Pilling e Jacob Judah parte desse ponto para uma pergunta que interessa diretamente à economia do desenvolvimento, e por extensão ao Brasil. Se as cidades africanas não estão crescendo puxadas por fábricas, como ocorreu na Europa industrial e na China das últimas décadas, que tipo de economia urbana está se formando ali, e com que consequências para renda, produtividade e comércio global?
Um continente que mudou de endereço
Os números consolidados pelo FT a partir de dados da ONU dão a dimensão da mudança. Em 1950, perto de nove em cada dez africanos viviam no campo e só duas cidades do continente, Cairo e Alexandria, passavam de um milhão de habitantes. Hoje são 88 cidades nessa faixa, 17 delas na Nigéria. A população africana saltou de 228 milhões para cerca de 1,6 bilhão, e o contingente que vive em cidades passou de 33 milhões para aproximadamente 670 milhões.[1] O ritmo atual, ainda segundo o jornal britânico, equivale a acrescentar cerca de 19 milhões de moradores urbanos por ano.
Parte dessa fotografia é nova também do ponto de vista estatístico. O relatório World Urbanization Prospects 2025, da Divisão de População da ONU, passou a adotar pela primeira vez a metodologia do chamado Grau de Urbanização, que classifica os assentamentos em cidades, vilas e áreas rurais com critérios iguais para todos os países.[2] Pelo novo método, 45% da população mundial vive em cidades e 36% em vilas, e muitos assentamentos tratados como rurais pelas estatísticas nacionais passam a ser contados como urbanos, sobretudo na África Subsaariana e no sul da Ásia.[2] A mesma revisão aponta que as cidades pequenas e médias estão entre as que mais crescem no mundo, com destaque para a África.[3]
O levantamento Africapolis, coordenado pelo Clube do Sahel e da África Ocidental da OCDE, já havia antecipado esse diagnóstico. A base mapeou 7.600 aglomerações urbanas em 50 países e projetou que as cidades africanas devem receber cerca de 950 milhões de novos moradores até 2050, boa parte em centros de pequeno e médio porte.[4]
Urbanização sem fábrica
O ponto central da reportagem do FT é que essa expansão não reproduz o caminho conhecido. Ouvido pelo jornal, o cientista político Jeffrey Paller, da Universidade de Uppsala, observa que na Europa e na China a industrialização e a oferta de empregos atraíram as pessoas do campo, e que isso “não é o que move a urbanização nas cidades africanas”.[1] O motor, segundo a reportagem, combina crescimento demográfico e migração interna.
A literatura econômica tem nome para o padrão. Em estudo publicado no Journal of Economic Growth, os economistas Douglas Gollin, Remi Jedwab e Dietrich Vollrath analisaram 116 países em desenvolvimento entre 1960 e 2010 e encontraram forte relação entre exportação de recursos naturais e urbanização.[5] Nos países dependentes de commodities, as cidades tendem a se organizar como “cidades de consumo”, dominadas por serviços não comercializáveis, em contraste com as “cidades de produção” ligadas à manufatura. Os autores registram que as primeiras apresentam desempenho pior em vários indicadores de bem-estar.[5]
O Banco Mundial chegou a conclusão parecida por outro ângulo. No relatório Africa’s Cities: Opening Doors to the World, a instituição argumenta que as cidades africanas estão “fechadas para o mundo”: produzem poucos bens e serviços vendidos em mercados regionais e internacionais e, por isso, crescem em tamanho mais do que em renda.[6] O diagnóstico aponta mercados de terra disfuncionais, regulação frágil e investimento em infraestrutura tardio e descoordenado como as travas que mantêm essas economias presas à produção de bens consumidos localmente.[6]
Cidades que acumulam gente, mas não capital, ficam lotadas sem ficar produtivas. É essa a distância que separa o tamanho das metrópoles africanas da renda de quem vive nelas.
A vida no meio do caminho
A reportagem do FT mostra como isso se traduz no cotidiano em Ajegunle-Ikorodu, comunidade na periferia de Lagos. Ali convivem traços rurais e urbanos: moradores criam galinhas e enterram parentes à porta de casa, mas operam terminais de pagamento como agentes bancários informais e carregam smartphones chineses.[1] Água encanada é rara e a eletricidade chega, em dias bons, por até oito horas. O transporte é tão deficiente que muitos trabalhadores dormem no centro durante a semana e só voltam para casa na sexta-feira.[1]
A informalidade aparece como o elo fiscal dessa equação. Jakkie Cilliers, do Institute for Security Studies, resume ao jornal o problema de quem usa estradas e água sem contribuir com impostos, o que limita a capacidade do Estado de financiar a infraestrutura que a própria cidade demanda.[1] É um ciclo conhecido de economistas urbanos: sem base tributária, não há serviço público; sem serviço público, a formalização perde atrativo.
Há, porém, um efeito de longo prazo que o FT destaca e que costuma ficar fora do noticiário econômico. Na cidade, filhos deixam de ser mão de obra para a lavoura e passam a ser custo, o que pressiona a fecundidade para baixo. Jovens entrevistadas pela reportagem pretendem adiar o casamento e limitar a família a dois filhos, algo difícil no ambiente rural. A ONU projeta que a taxa de fecundidade média africana pode cair para cerca de 2,6 filhos por mulher até 2050.[1] Dados do Afrobarometer reproduzidos pelo jornal indicam ainda que mulheres urbanas têm escolaridade e taxas de emprego em tempo integral superiores às das mulheres no campo.
Onde a indústria aparece
O quadro não é homogêneo. Nos arredores de Onitsha, a cidade de Nnewi se consolidou como polo de autopeças e oficinas mecânicas. O FT relata o caso de Igwe Chris Chidume, filho de agricultores, cuja holding Krisoral começou como destilaria e, por integração vertical, chegou a oito fábricas e mais de 1.300 empregados, produzindo tampas plásticas, rótulos, alumínio reciclado e bebidas vendidas na Nigéria e em parte da África Ocidental.[1]
Para Cilliers, mesmo empregos industriais de baixa complexidade são decisivos para que o continente capture os benefícios da urbanização e suba o primeiro degrau da escada industrial.[1] O argumento converge com a recomendação do Banco Mundial de que as cidades africanas se especializem em bens e serviços comercializáveis para atrair investimento e ganhar escala.[6]
O espelho brasileiro
O Brasil viveu sua própria explosão urbana em ritmo comparável. Segundo séries históricas do IBGE, a população urbana representava 36,2% do total em 1950, chegou a 56,1% em 1970 e a 67,6% em 1980.[7] A diferença é que, aqui, a migração para as cidades coincidiu com um ciclo de industrialização deliberada, do Plano de Metas à expansão do parque fabril no Sudeste. Ainda assim, a transição deixou um passivo que lembra o africano: periferias autoconstruídas, transporte insuficiente, informalidade elevada e infraestrutura que chegou depois das pessoas.
O Censo 2022 mostra o estágio seguinte desse processo. As 185 concentrações urbanas do país, arranjos com mais de 100 mil habitantes, abrigavam 124,1 milhões de pessoas, cerca de 61% da população.[8] Pela primeira vez nos censos recentes, vários municípios-núcleo de metrópoles perderam moradores para as cidades vizinhas, enquanto o entorno seguiu crescendo, segundo o IBGE.[8] A experiência brasileira sugere que a forma da cidade, mais do que o número de habitantes, define custos de deslocamento, produtividade e acesso a serviços por décadas.
Há também paralelos institucionais. Os agentes de pagamento que se multiplicam nas periferias de Lagos cumprem função semelhante à dos correspondentes bancários que levaram serviços financeiros às periferias e ao interior brasileiro antes da expansão do Pix. É um campo em que a experiência regulatória e tecnológica do país tem relevância direta para mercados africanos.
A janela comercial que o Brasil explora pouco
Cidades de consumo importam comida, combustível e bens de capital. Isso faz da urbanização africana um tema de política comercial para o Brasil. A corrente de comércio com a Nigéria, que chegou a US$ 10 bilhões em 2014, está hoje no patamar de US$ 2,1 bilhões, segundo estudo da ApexBrasil, que identifica 183 oportunidades de exportação em combustíveis, máquinas e alimentos.[9]
A pauta atual ainda é estreita. Dados da base Comtrade da ONU compilados pela Trading Economics indicam que o Brasil exportou cerca de US$ 1,02 bilhão à Nigéria em 2025, dos quais aproximadamente US$ 669 milhões em açúcar. Máquinas e equipamentos somaram pouco mais de US$ 10 milhões.[10] Em missão a Abuja em 2025, o vice-presidente Geraldo Alckmin citou oportunidades em laticínios, aeronaves, máquinas agrícolas, biocombustíveis e arroz, além da possibilidade de uma rota aérea direta, segundo relato do Valor reproduzido pela Datamar News.[11] Representantes da ApexBrasil também reconhecem que Egito, Nigéria, África do Sul, Argélia e Marrocos concentram mais de 60% das vendas brasileiras ao continente, conforme a CartaCapital.[12]
A leitura econômica é direta: se a demanda urbana africana cresce mais rápido do que sua base industrial, haverá espaço para fornecedores externos de alimentos processados, insumos e soluções urbanas. A questão para o Brasil é se continuará vendendo sobretudo commodities ou se disputará segmentos de maior valor, como equipamentos, serviços de engenharia, tecnologia financeira e gestão de transporte.
Contraponto
Nem toda “cidade de consumo” é um fracasso, e nem toda urbanização é real
Há duas ressalvas relevantes ao diagnóstico pessimista. A primeira vem dos próprios Gollin, Jedwab e Vollrath, que ponderam, em texto para o International Growth Centre, que cidades de consumo podem melhorar o bem-estar no longo prazo e que metrópoles como Houston e Denver começaram assim antes de se tornarem polos produtivos.[13] Economias de serviços, como mostra a experiência indiana, também podem gerar crescimento sem um ciclo fabril clássico.
A segunda ressalva é estatística. Parte do salto urbano africano resulta da mudança de metodologia da ONU, que reclassifica como vilas assentamentos antes considerados rurais.[2] Isso não altera a densidade real dessas áreas, mas recomenda cautela ao comparar séries antigas e novas. Viver num aglomerado denso não equivale, automaticamente, a ter acesso aos serviços, empregos e mercados que associamos à vida urbana.
O que observar nos próximos anos
- Emprego comercializável: a participação da manufatura e dos serviços exportáveis no emprego urbano é o principal indicador de que as cidades africanas estão deixando o modelo de consumo.
- Terra e infraestrutura: reformas fundiárias e investimento coordenado em transporte, apontados pelo Banco Mundial como condição para ganhos de escala.
- Fecundidade e escolaridade: a velocidade da queda na fecundidade urbana definirá o tamanho do bônus demográfico.
- Pauta Brasil-África: diversificação das exportações brasileiras para além de açúcar, carnes e grãos.
Perguntas frequentes
Quantos africanos vivem em cidades hoje?
Segundo dados da ONU compilados pelo Financial Times, cerca de 670 milhões de africanos vivem em cidades, de uma população total de aproximadamente 1,6 bilhão. Somando cidades e áreas semiurbanas, quase três quartos da população africana já vivem em ambiente urbano pelos critérios harmonizados da ONU.
Por que se diz que a urbanização africana ocorre sem industrialização?
Porque, ao contrário da Europa e da China, a migração para as cidades africanas não foi puxada pela criação de empregos industriais, mas por crescimento demográfico, migração interna e, em países exportadores de commodities, pela renda de recursos naturais gasta em serviços urbanos. Economistas chamam esse padrão de “cidades de consumo”.
O que são cidades de consumo e cidades de produção?
O conceito, proposto por Gollin, Jedwab e Vollrath, distingue cidades cuja economia é dominada por serviços não comercializáveis (consumo) daquelas centradas em manufatura e serviços exportáveis (produção). As primeiras tendem a apresentar indicadores de bem-estar piores no curto prazo.
O que mudou na forma como a ONU mede a urbanização?
O World Urbanization Prospects 2025 adotou o método do Grau de Urbanização, que aplica critérios iguais de população e densidade a todos os países e classifica os assentamentos em cidades, vilas e áreas rurais. O método revela um mundo mais urbano do que as estatísticas nacionais indicavam, especialmente na África Subsaariana.
Qual a relação da urbanização africana com a economia brasileira?
Cidades africanas em expansão demandam alimentos, combustíveis, máquinas e soluções urbanas. O Brasil já exporta açúcar e alimentos para a Nigéria, mas a corrente de comércio bilateral caiu de cerca de US$ 10 bilhões em 2014 para US$ 2,1 bilhões, e a ApexBrasil aponta oportunidades em máquinas, alimentos processados e combustíveis.
Este artigo é uma análise editorial original de O Tecido, inspirada na reportagem “Africa’s explosive growth in cities”, de David Pilling e Jacob Judah, publicada pelo Financial Times em 18 de outubro de 2026. Dados e relatos atribuídos ao FT foram parafraseados e creditados; o texto não reproduz nem traduz o original. As demais informações provêm de fontes independentes citadas ao longo do artigo.