Quando bombas caem sobre Teerã em 2025 e 2026, matando civis em escolas, hospitais e praças, e quando ao mesmo tempo o governo iraniano massacra seus próprios cidadãos nas ruas, é preciso perguntar: como chegamos aqui? A resposta não começa em 1979, nem em 2001. Começa muito antes, numa manhã de agosto de 1953, quando a democracia iraniana foi assassinada com malas de dinheiro, agentes estrangeiros e decretos falsificados — e o mundo simplesmente olhou para o outro lado.
Esta é uma história sobre petróleo, poder e a vida de um povo que nunca teve a chance de escolher seu próprio destino.
O Irã que poderia ter sido
No começo dos anos 1950, o Irã era uma democracia parlamentar jovem e vibrante. Mohammad Mossadegh, advogado, professor, político respeitado, havia sido eleito primeiro-ministro em 1951 com amplo apoio popular. Era um homem de centro, nacionalista, secular — muito longe do comunismo que seus inimigos gostariam de atribuir a ele. A revista Time o elegeu "Personalidade do Ano" em 1952, e o embaixador americano no Irã escreveu a Washington que Mossadegh tinha "o apoio de 95 a 98% da população".
Seu governo trouxe reformas concretas: introduziu a previdência social, proibiu o trabalho forçado de camponeses nas propriedades dos latifundiários, criou indenizações para trabalhadores doentes e feridos, propôs reforma tributária que pesasse mais sobre os ricos. Era, em suma, um projeto de modernização democrática — imperfeita, como toda democracia, mas real.
Mas havia um problema. Um problema de proporções gigantescas que ficava abaixo do solo iraniano.
O petróleo que pertencia a outros
Desde 1901, o petróleo iraniano era controlado pela Anglo-Iranian Oil Company (AIOC) — a empresa que mais tarde se tornaria a British Petroleum, a BP que hoje você vê nos postos de gasolina. O acordo era escandalosamente desigual: a Grã-Bretanha ficava com a imensa fatia dos lucros, enquanto o Irã recebia migalhas. Em 1950, a AIOC lucrou 200 milhões de libras — e pagou apenas 16 milhões ao Irã em royalties.
"O petróleo iraniano, afinal, pertencia aos iranianos." A medida foi recebida com júbilo popular. Nas ruas de Teerã, as pessoas comemoravam como se tivesse acabado uma guerra.
Abril de 1951 — Aprovação da lei de nacionalização no ParlamentoEm abril de 1951, Mossadegh fez o impensável: aprovou no Parlamento a nacionalização da indústria petrolífera. A reação britânica foi imediata e brutal. Londres impôs um boicote internacional ao petróleo iraniano, bloqueou as exportações e convenceu outros países a não comprar do Irã. A economia iraniana começou a sangrar. Mossadegh buscou ajuda no Tribunal Internacional de Haia — e ganhou. Buscou apoio na ONU — e o Conselho de Segurança rejeitou a reclamação britânica. Mas o bloqueio econômico continuava.
A operação que destruiu uma democracia
A Grã-Bretanha sabia que não podia agir sozinha. Então foi a Washington com um argumento que, na lógica da Guerra Fria, era irresistível: "Mossadegh pode abrir caminho para os comunistas soviéticos tomarem o Irã." Era mentira — os próprios analistas da CIA no Irã relatavam que o Partido Comunista iraniano não representava ameaça real de golpe. Mas o argumento funcionou.
O presidente Eisenhower aprovou a operação. A CIA a chamou de "Operation Ajax". O MI6 britânico a chamou de "Operation Boot". Em conjunto, as duas agências de inteligência bolaram um plano que combinou suborno, desinformação, agitação de rua e coerção militar para derrubar um governo democraticamente eleito.
Os detalhes, hoje desclassificados e confirmados pelo próprio governo americano em 2013, são surpreendentes: agentes americanos e britânicos distribuíram dinheiro para jornalistas publicarem matérias falsas contra Mossadegh; alugaram grupos para fazer manifestações e tumultos nas ruas; pagaram religiosos para se oporem ao governo; enviaram agentes disfarçados de comunistas para ameaçar líderes religiosos — criando artificialmente a sensação de caos que justificaria uma intervenção.
O que os documentos desclassificados revelam
- ▸O agente principal da CIA, Kermit Roosevelt Jr., chegou a Teerã com malas literalmente cheias de dinheiro para financiar a derrubada do governo
- ▸Jornalistas foram subornados para publicar desinformação contra Mossadegh
- ▸Agentes se disfarçaram de comunistas e ameaçaram líderes religiosos em nome do Partido Tudeh — para provocar reação da direita religiosa
- ▸A CIA aprovou US$ 1 milhão só para "qualquer ação que derrubasse Mossadegh" — em abril de 1953
- ▸Em 2013 a CIA formalmente reconheceu seu papel. O Reino Unido ainda não reconheceu plenamente o papel do MI6
Em 19 de agosto de 1953, o golpe se consumou. Mossadegh foi preso, julgado por "traição" num tribunal militar e condomnado a três anos de prisão. Depois, viveu em prisão domiciliar até morrer, em 1967. Centenas de pessoas morreram nas ruas de Teerã durante os combates do golpe. O Irã nunca mais conheceu a democracia.
O Xá e os anos do silêncio armado
Com Mossadegh fora do caminho, o Xá Mohammad Reza Pahlavi voltou ao poder — desta vez não como monarca constitucional, mas como soberano absoluto, sustentado diretamente pelos Estados Unidos. O acordo que se seguiu confirmou o que o golpe protegia: 40% dos campos petrolíferos iranianos foram entregues a empresas americanas.
O reinado do Xá durou 26 anos após o golpe. Nesse período, o governo americano forneceu bilhões de dólares em armas e treinou a SAVAK — a polícia secreta do Xá, tristemente famosa por torturas, desaparecimentos e assassinatos de opositores. Era uma ditadura modernizadora: o Xá construía estradas e universidades, promovia a secularização forçada, aproximava o Irã do Ocidente — mas prendia, torturava e matava quem discordasse.
A contradição gerou uma pressão crescente. E quando explodiu, em 1979, a alternativa disponível não era Mossadegh — ele estava morto. Era o aiatolá Ruhollah Khomeini, que havia passado anos no exílio pregando contra o Xá e contra a influência americana no Irã.
A Revolução que virou teocracia
A Revolução Iraniana de 1979 foi genuinamente popular. Mulheres, estudantes, operários, intelectuais, comerciantes — todos foram às ruas contra o Xá. Era uma revolta plural contra uma ditadura. Mas o que emergiu dessa revolta não foi uma república plural: foi a República Islâmica, com o conceito de velayat-e faqih — o governo do jurista religioso. Khomeini concentrou o poder supremo em suas mãos e nas mãos dos aiatolás.
Gradualmente, as outras forças que participaram da revolução foram marginalizadas, presas ou executadas. As mulheres, que haviam lutado lado a lado com os homens contra o Xá, viram suas liberdades restringidas: o véu tornou-se obrigatório, o acesso a certas carreiras foi limitado, os direitos legais foram reduzidos. A liberdade de imprensa foi esmagada. Os partidos políticos de oposição foram banidos.
O paradoxo histórico é cruel: o Ocidente que destruiu a democracia iraniana em 1953 passou a criticar a teocracia que cresceu exatamente no vácuo que ele criou.
Espremida dos dois lados
Hoje, em 2025 e 2026, a população iraniana vive uma situação que não tem paralelo fácil na história recente: está sendo esmagada simultaneamente por seu próprio governo e por potências estrangeiras.
Por dentro, o regime reprime com violência crescente qualquer sinal de resistência. Quando protestos explodiram entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026 — desencadeados pelo colapso econômico, pela inflação e pela queda da moeda —, a resposta do governo foi um massacre. Relatórios de direitos humanos indicam que milhares de pessoas foram mortas nas ruas. O Time Magazine chegou a registrar estimativas de até 30 mil mortos. Dezenas de milhares foram presas. Alguns foram executados sumariamente, acusados de espionagem.
Por fora, sanções americanas acumuladas por décadas destruíram a economia. Mesmo medicamentos tecnicamente isentos das sanções se tornaram inacessíveis porque o medo de punições secundárias afastou os fornecedores internacionais — afetando cerca de 6 milhões de pacientes com doenças crônicas ou que necessitam de cirurgias.
Em junho de 2025, Israel lançou a chamada "Guerra dos Doze Dias", atacando instalações militares e nucleares iranianas. Segundo organizações de direitos humanos, 1.190 pessoas foram mortas nos ataques israelenses, das quais 436 eram civis confirmados — incluindo mulheres e crianças. Em março de 2026, novos ataques de EUA e Israel elevaram o número de mortos civis iranianos para mais de 3.400. Um míssil atingiu uma escola na cidade de Minab, matando mais de 150 estudantes e professores — a maioria, meninas entre sete e doze anos.
A ONU declarou que "a população iraniana está presa entre uma campanha militar de grande escala e um governo com longo histórico de graves violações de direitos humanos".
Quais são os interesses?
Para entender por que isso acontece, é preciso nomear os interesses em jogo — sem ingenuidade e sem simplificação.
O petróleo e a energia continuam sendo um motor fundamental. O Irã possui as terceiras maiores reservas de petróleo e as segundas maiores reservas de gás natural do mundo. O controle sobre quem acessa essa energia, quem define seu preço e por quais rotas ela flui é uma questão de poder geopolítico de primeira ordem.
O programa nuclear iraniano é o argumento oficial dos ataques. Israel e os EUA argumentam que um Irã com armas nucleares seria uma ameaça existencial. É um argumento que tem peso real — mas também é um argumento que serve para justificar ações militares cujos objetivos vão além do desarmamento.
A hegemonia regional está em disputa. O Irã financia e apoia grupos como o Hezbollah no Líbano, o Hamas na Palestina e os Houthis no Iêmen — o que Israel e os EUA veem como uma rede de ameaças. Israel busca a supremacia militar na região. Os EUA buscam manter aliados no Golfo Pérsico onde têm bases militares permanentes.
O regime iraniano tem seus próprios interesses: a sobrevivência. As guerras externas historicamente unificam populações em torno de governos impopulares. O conflito com Israel e os EUA permite ao regime iraniano apresentar-se como defensor da nação — desviando a atenção das causas dos protestos internos.
No meio de todos esses cálculos, a população iraniana paga a conta com seus corpos.
Para refletir
A história do Irã é também uma história sobre o que acontece quando as grandes potências decidem que a democracia de outros países vale menos que seus próprios interesses econômicos e estratégicos. Em 1953, os EUA e a Grã-Bretanha destruíram uma democracia para garantir o acesso ao petróleo. O vácuo que criaram foi preenchido primeiro por uma ditadura sustentada por eles mesmos e, depois, por uma teocracia que eles passaram a combater.
A população iraniana nunca foi consultada em nenhum desses momentos. Ela resistiu, protestou, morreu — e continua resistindo, entre uma repressão que vem de dentro e bombas que vêm de fora.
Entender essa história não significa absolver o regime iraniano de seus crimes. Significa recusar a simplificação que coloca povos inteiros como obstáculos ou inimigos, quando eles são, na maior parte, vítimas de decisões que nunca tomaram.
Fontes
Documentos desclassificados da CIA (2013 e 2017); Relatório do Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos (março de 2026); Anistia Internacional (junho de 2025); Center for American Progress; Al Jazeera; Encyclopædia Britannica; Wikipedia — 1953 Iranian coup d'état; House of Commons Library.