Há um padrão que os economistas conhecem bem, mas que raramente aparece nas projeções do PIB, nas metas de inflação ou nos relatórios de risco fiscal: o clima. E esse descuido pode custar muito caro ao Brasil nos próximos dezoito meses.
Os modelos climáticos globais estão emitindo alertas há meses. O El Niño que se desenvolve agora no Pacífico tem tudo para superar o chamado "Super El Niño" de 2015–2016 e possivelmente equiparar-se ao evento catastrófico de 1877 — aquele que, segundo o historiador ambiental Mike Davis, foi responsável por dezenas de milhões de mortes na Ásia, na África e na América Latina. Climacientistas já o batizaram informalmente de "Godzilla El Niño", e os dados de temperatura oceânica justificam o alarmismo.
Para o Brasil, El Niño não é um fenômeno distante — é uma variável macroeconômica que ainda insistimos em ignorar nos nossos modelos.
Para o Brasil, esse não é um problema abstrato. O El Niño altera profundamente o regime de chuvas no país: enquanto o Sul pode enfrentar inundações severas, o Nordeste tende a sofrer secas prolongadas, e a região Sudeste pode ter seu padrão hídrico desequilibrado, afetando diretamente reservatórios que abastecem nossas maiores usinas hidrelétricas — e, portanto, a matriz energética nacional.
Num El Niño fraco ocorrido há poucos anos, apenas um estado brasileiro — no Sul — teve meio milhão de pessoas deslocadas por enchentes. O que um evento de escala "Godzilla" pode provocar é uma equação que nenhum modelo fiscal governamental parece estar calculando com seriedade. Perdas em lavouras de soja, milho e café no Centro-Oeste e no Sudeste podem repercutir em toda a cadeia do agronegócio, setor que responde por parcela significativa das nossas exportações e do superávit comercial. Ao mesmo tempo, uma eventual crise hídrica no Sudeste encarece a energia elétrica, pressiona a inflação e corrói o poder de compra das famílias — justamente quando o Banco Central tenta estabilizar a economia após anos de ciclos de aperto monetário.
Há ainda o componente social. Secas no Semiárido nordestino afetam comunidades que dependem de programas de transferência de renda e de cisternas para sobreviver. Uma piora abrupta das condições climáticas, num contexto de ajuste fiscal federal, pode empurrar para o limite sistemas de saúde pública e de assistência social já sobrecarregados.
O custo do imprevisível sempre recai sobre os mais vulneráveis — e o Brasil tem uma dívida histórica com essa realidade.
Do ponto de vista dos mercados, é possível que os efeitos sejam contraditórios no curto prazo: uma safra agrícola menor pode, paradoxalmente, elevar os preços das commodities exportadas e beneficiar o câmbio temporariamente. Mas os custos internos — em energia, em alimentos, em saúde e em infraestrutura — tendem a superar qualquer ganho pontual na balança comercial. O risco fiscal é real: desastres climáticos exigem gastos emergenciais que não cabem facilmente em regimes de teto de despesas ou de arcabouço fiscal rígido.
A boa notícia, se é que existe alguma, é que o Brasil de hoje tem instrumentos que não existiam em outros períodos de vulnerabilidade climática. Temos reservas internacionais, um Banco Central com maturidade institucional, um sistema de monitoramento climático como a Cemaden e políticas de proteção social razoavelmente estruturadas. A questão não é se temos ferramentas — é se teremos a disposição política e a coordenação técnica para acioná-las a tempo.
O que a história nos ensina — e o economista que ignorar isso o faz por conta e risco — é que choques climáticos não são apenas tragédias humanitárias. São eventos macroeconômicos que reconfiguram o crescimento, a dívida pública, a inflação e a desigualdade por anos. E quem paga a conta, invariavelmente, são os mais pobres.
O El Niño de 1877 — que o evento atual pode igualar em intensidade — provocou secas e fomes simultâneas na China, na Índia e no Sudeste Asiático. Na China, estima-se que entre 8 e 20 milhões de pessoas morreram de fome em poucos anos. Na Índia, mais de 5 milhões de mortes oficiais foram registradas em apenas três anos de carestia. Populações enfraquecidas pela fome tornaram-se ainda mais vulneráveis às doenças — malária, cólera e varíola se espalharam em ondas letais — enquanto potências coloniais europeias aproveitavam o colapso para consolidar seu domínio sobre regiões inteiras. A brutalidade daquele período não foi apenas climática: foi o resultado de economias frágeis e sistemas políticos que criminalizaram a vulnerabilidade em vez de protegê-la.
Fernando Dias é bancário e escreve sobre economia, finanças e sociedade.