Enquanto estudantes de universidades federais voltam às ruas — e aos piquetes — em mais uma greve por melhores condições, o debate público segue preso entre duas únicas saídas: aumentar o orçamento governamental ou, na visão dos mais radicais, cobrar mensalidade dos brasileiros. Nenhuma das duas é suficiente. E existe uma terceira via que o mundo já descobriu e que o Brasil, por teimosia ou desconhecimento, insiste em ignorar.
A crise é real. Segundo a Lei Orçamentária Anual de 2026, as 69 universidades federais sofreram um corte de R$ 488 milhões em relação ao ano anterior. Os orçamentos do CNPq e da Capes — as principais agências de fomento à pesquisa do país — também encolheram, respectivamente em R$ 72 milhões e R$ 262 milhões. Tudo isso enquanto mais de 90% de toda a pesquisa científica produzida no Brasil sai das universidades públicas. A contradição é gritante.
A Lição Canadense
O Canadá oferece um espelho revelador. Lá, as universidades públicas cobram anuidades — mas valores modestos para os próprios cidadãos. O estudante doméstico paga, em média, cerca de 7.360 dólares canadenses por ano (aproximadamente R$ 30 mil), custo regulado pelos governos provinciais. Quem vem de fora, porém, é outra história: o estudante internacional de graduação paga em torno de 40 mil dólares canadenses anuais — mais de cinco vezes o valor cobrado dos canadenses.
Esse diferencial não é exploração. É um modelo consciente de subsídio cruzado: o estrangeiro paga um valor ainda assim competitivo frente aos EUA e ao Reino Unido, e em troca financia parte dos custos que o governo cobre para seus próprios cidadãos. Todo mundo ganha. A universidade tem receita própria, o estudante doméstico mantém seu acesso facilitado e o país atrai talentos de todo o mundo.
A abertura às mensalidades diferenciadas para estrangeiros no Canadá não foi um obstáculo à democratização. Foi parte da solução.
— Redação O Tecido, com base em dados da Statistics CanadaE o Brasil com isso?
O Brasil tem ativos que poucos países no mundo possuem juntos. Tem universidades reconhecidas globalmente — a USP é a melhor da América Latina, segundo o QS 2024, e figura na 108ª posição no ranking mundial. No ranking de Xangai de 2024, aparece na 146ª colocação entre as mil melhores do planeta. A Unicamp, a UFRJ, a UFRGS e dezenas de outras instituições possuem pesquisadores de nível internacional em áreas como medicina tropical, agronomia, oceanografia, biodiversidade e engenharia.
Tem diversidade. O Brasil é um laboratório vivo de biomas, línguas, culturas e epidemiologias que interessam ao mundo inteiro. Estudar aqui não é apenas frequentar aulas — é ter acesso a uma realidade que não pode ser replicada em nenhum campus europeu ou norte-americano.
A Proposta Concreta
Não se trata de privatizar nem de cobrar dos estudantes brasileiros. A proposta é específica e cirúrgica: criar um regime de mensalidades para estudantes estrangeiros nas universidades públicas brasileiras, com valores atrativos em comparação com outros destinos internacionais, mas suficientes para gerar receita própria institucional.
Entre R$ 20 mil e R$ 40 mil por ano, dependendo do curso e da instituição — valores muito abaixo dos praticados nos EUA, Canadá ou Europa, mas significativos o suficiente para gerar renda real às universidades.
Foco em programas de excelência em áreas com vantagem comparativa brasileira — medicina tropical, agroecologia, biomas, sociologia urbana, direito comparado, engenharia de petróleo. Aqui o valor pode ser maior e o impacto ainda mais estratégico.
Acordos bilaterais com países da África lusófona, da América Latina e do Sudeste Asiático podem garantir fluxo contínuo de estudantes, com bolsas parciais custeadas pelos governos de origem como instrumento de cooperação Sul-Sul.
Os recursos gerados seriam vinculados diretamente às universidades de origem, com autonomia para investimento em infraestrutura, bolsas para estudantes brasileiros em vulnerabilidade social e pesquisa.
O que precisa mudar
Um dos principais gargalos nos rankings internacionais é a baixa proporção de disciplinas em inglês ou espanhol. Ampliar a oferta bilíngue não apenas atrai estrangeiros — melhora a pontuação das universidades e prepara melhor os próprios brasileiros para o mercado global.
O processo de validação de diplomas, emissão de vistos de estudante e reconhecimento de créditos internacionais no Brasil ainda é lento e confuso. Uma janela única e digital para estudantes estrangeiros seria um avanço essencial.
As universidades públicas federais, pela Constituição, são gratuitas para os brasileiros — e assim devem permanecer. Mas nada impede a criação de um marco legal específico que regule a cobrança de estrangeiros, tal como já acontece em alguns programas de pós-graduação e cursos de extensão.
Quem está esperando o Brasil acordar
Países como Austrália, Canadá, Reino Unido e Alemanha construíram indústrias bilionárias de educação internacional. A Austrália, por exemplo, teve no setor de educação sua terceira maior fonte de receita de exportação antes da pandemia. A Alemanha oferece graduação gratuita até para estrangeiros em suas universidades públicas — e usa isso como instrumento de soft power e atração de talentos.
O Brasil tem ouro nas mãos. O que falta não é recurso — é criatividade para monetizar o que já temos, sem abrir mão do que nos orgulha.
— Redação O TecidoGreve como sintoma, não como solução
As greves nas universidades são o termômetro de uma doença estrutural. Professores e estudantes que param as atividades não estão errados em seus diagnósticos: o financiamento público é insuficiente, oscilante e refém de disputas orçamentárias que nada têm a ver com ciência ou educação.
Mas nenhuma greve resolve o problema estrutural. A saída não é apenas pressionar por mais verbas num orçamento federal já espremido — é diversificar as fontes de receita das universidades de forma a reduzir essa dependência crônica. Atrair estudantes estrangeiros que paguem mensalidades é uma dessas saídas. Não a única, mas uma das mais viáveis, mais rápidas e com menos custo político.
O Brasil tem ouro nas mãos. Universidades de classe mundial, pesquisadores excepcionais, um país de dimensões continentais e uma posição geográfica e cultural invejável no hemisfério Sul. O que falta não é recurso — é criatividade para monetizar o que já temos, sem abrir mão do que nos orgulha: a universidade pública, gratuita e de qualidade para os brasileiros.