São Paulo — maio de 2026
A escola que o país
ainda não decidiu
ter
Em países onde a educação pública é prioridade de Estado — e não recurso de segunda classe —, ela se tornou o motor mais poderoso de mobilidade social do século XX. O que nos separa deles não é falta de dinheiro. É falta de escolha política.
Existe uma frase que ouço com frequência em corredores de escola pública: "a gente faz o que pode com o que tem." É dita com resignação, mas carrega uma dignidade enorme — a de professoras e professores que chegam mais cedo, ficam mais tarde e compram com o próprio salário o que a gestão não provê. O problema não é essa frase. O problema é que ela se tornou política de Estado.
Quando pesquisadores e jornalistas visitam a Finlândia para entender seu "milagre educacional", voltam com uma resposta que decepciona quem esperava uma fórmula secreta: eles simplesmente decidiram que a escola pública seria boa para todo mundo. Professores com formação de mestrado obrigatória. Financiamento idêntico entre escolas ricas e pobres. Nenhuma seleção por mérito até os dezesseis anos. O resultado é que uma criança filha de operário tem, dentro da escola finlandesa, as mesmas chances reais que a filha de um médico. Não as mesmas chances no papel. As mesmas chances de fato.
Isso não é utopia escandinava exportada para países com outras histórias. O Canadá fez algo semelhante num contexto de altíssima diversidade étnica, cultural e linguística. A escola pública canadense é, antes de qualquer coisa, o principal mecanismo pelo qual famílias que chegam sem idioma, sem rede de contatos e sem capital acumulado conseguem, em uma geração, inserir seus filhos em carreiras que pareceriam impossíveis. O financiamento relativamente uniforme entre as províncias garante que qualidade não seja privilégio de quem tem sorte de nascer no distrito certo.
Quando uma escola precisa ser boa o suficiente para o filho do operário e para o filho do professor universitário ao mesmo tempo, ela inevitavelmente se torna melhor para todos.
O experimento que criou uma classe média
Para quem busca evidências em escala, o G.I. Bill americano de 1944 é provavelmente o maior experimento de mobilidade via educação pública que o mundo já realizou. Dezesseis milhões de veteranos da Segunda Guerra receberam acesso gratuito à universidade. Em vinte anos, a composição social dos Estados Unidos havia se transformado. Cidades inteiras cresceram sobre o capital humano formado nessas salas de aula. A ironia é que os EUA de hoje enfrentam uma crise de desigualdade educacional gerada exatamente pelo afastamento desse princípio: quando o financiamento escolar passou a depender do imposto sobre propriedade local, bairros ricos ganharam escolas ricas — e o ciclo vicioso começou.
O ciclo que nos prende
No Brasil, a escola pública opera num paradoxo cruel. Ela carrega os estudantes mais vulneráveis do país — aqueles que chegam com as maiores desvantagens acumuladas, que precisariam do melhor que a educação pode oferecer. E ao mesmo tempo é financiada, gerida e politicamente prioritária apenas de forma intermitente. As famílias que teriam voz para exigir mais dela são exatamente as que migraram para o ensino privado. Com essa migração, levaram também seu peso eleitoral.
O resultado é que a escola pública virou pauta de quem depende dela, não pauta de quem decide sobre ela. Isso não é uma crítica às famílias que buscam o privado — é uma crítica a um sistema que as forçou a fazer essa escolha. Quando a escola pública se deteriora a ponto de parecer indefensável, a saída individual é racional. O problema é que saídas individuais racionais podem produzir desastres coletivos.
O que precisaria mudar
A resposta dos países bem-sucedidos não foi misteriosa, mas exigiu coragem política. Primeiro: valorização real de professores — salários competitivos, formação continuada séria, carreira com perspectiva. Segundo: financiamento que não reproduza as desigualdades territoriais. Se o estado mais rico do país tem escola radicalmente melhor que o mais pobre, o sistema não é nacional; é um conjunto de sistemas paralelos fingindo ser um. Terceiro — e talvez o mais difícil — é cultural: tratar a escola pública como bem coletivo de primeira classe, não como serviço residual para quem não pode pagar.
Isso exige que as famílias que têm escolha comecem a escolher a escola pública. E isso só acontece quando a escola pública é boa o suficiente para que essa escolha faça sentido. É uma equação circular que só se resolve com investimento antecipado e vontade política sustentada — não com uma ou duas gestões, mas com décadas de comprometimento.
Termino como começo: pensando nas professoras que fazem o que podem com o que têm. Elas são extraordinárias. Mas um país que depende do extraordinário para funcionar no ordinário está, na verdade, falhando. A escola pública de qualidade não é sonho de pedagogo idealista. É a infraestrutura mais testada e comprovada de construção de sociedades mais justas que a história moderna registra. Outros países decidiram tê-la. Nós ainda estamos decidindo se queremos decidir.
Professora de educação básica na rede pública há quinze anos e pesquisadora de políticas educacionais comparadas. Escreve periodicamente para o Caderno Educação de O Tecido.
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